Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 17: A Soberba e o Rei

— De novo!

— Mas pai! Já é a quinta vez, eu preciso… preciso descansar. — Maria estava ofegante; seu pai, Allastor, nem mesmo suava.

— Sem desculpas! Saque sua espada e entre em posição. Você me pediu isso, sei que consegue. — Allastor bradava para a filha, sacando, ele mesmo, sua própria espada.

Estavam no subsolo do castelo, na área de treinamento real. Maria usava roupas leves de treinamento, as mesmas que a academia fornecia. O Rei estava irreconhecível; onde antes havia peças de ouro à mostra, restavam somente cicatrizes e calças surradas. Ainda assim, o homem continuava imponente; a espada facilmente passava dos dois metros, e ele a manuseava com assustadora facilidade. E como amava aquela espada! Era a Zweihänder mais valiosa de todo o continente. Não era especial por ser cara, mas sim porque era única; o artesão que a criara somente no inferno poderia trabalhar, tal qual seu antigo dono. Allastor ganhara a espada em um duelo por sua coroa, há alguns anos.

Na época, recém-coroado, Allastor buscava apoiadores para seu reinado. Foi realmente difícil conquistar o apoio das casas mais fortes; a maioria não respeitava a autoridade do novo rei, e os que respeitavam não tinham poder. Contava somente com o apoio dos Vykes. Bjorn era, em muitas palavras, muito influente no reino, e seu apoio foi um fator importante para a homogeneidade. Tinha também Jin. O homem era uma incógnita. Naquela época, era mais fácil esperar que um lobo falasse do que esperar algo de Jin; a traição havia tomado o melhor da cabeça do homem.

Certo dia, um mensageiro chegara ao reino trazendo uma mensagem de um pequeno reino vizinho. Na mensagem, o Rei oferecia sua ilustre presença e solicitava uns dias do tempo de Allastor. Não podendo negar, Allastor autorizou a estadia da comitiva real.

O Rei, um sujeito chamado Cassaph, trouxera consigo seu filho mais velho. O garoto era, em poucas palavras, mimado e metido, e olhava constantemente de maneira pejorativa para os empregados e o forte de Allastor. Algo que, honestamente, não o incomodava, mas que deixava Cynthia, sua esposa e rainha, muito aborrecida — ora, ser insultada em sua casa por alguém que nem mesmo tinha um futuro garantido em um reinado patético.

A todo momento, o homem perguntava e perguntava sobre tudo. Allastor nunca fora um homem de falar, mas sim de fazer, o que não significava que fosse de alguma forma burro. Era ótimo em ler pessoas, e aquele rei não era um mestre em esconder suas intenções.

— Sabe, Allastor, como é mesmo que foste coroado? Minha memória me fugiu agora… — O homem estava agora com duas jarras de vinho pálido na mente, deixando suas palavras cada vez mais lentas.

— Foi por casamento; a família de Cynthia me fez o acordo, e eu aceitei. — Allastor estava tão desinteressado quanto uma vespa em flores.

— Sério? Imagino que sua casa seja bem influente para um acordo cair assim nas… — o homem soluçou — …nas suas mãos.

— Sou o único de minha família; sou tudo que a influencia. Minha força fez minha casa, Cassaph. — Allastor já sabia onde aquela conversa iria levar.

— Ah, sim, claro, com certeza. Escutei diversas histórias sobre o senhor, mas tu não podes negar que é uma história incrível. — O homem fez uma pequena pausa para poder beber mais de seu tão amado vinho. — Cassidy aqui estava tão impressionado, se não mais que eu, sobre seus feitos.

— Se me permite, senhor, meu pai disse o que estava em minha cabeça; é realmente 'impressionante' que um camponês tenha feito o que o senhor fez. Será que poderia me contar sua história? — O garoto interrompeu o pai, que pareceu não se ofender.

— Camponês?! Olhe como fala em meu reino! — Cynthia exclamou, levantando-se da mesa.

Allastor levantou um dedo e solicitou que a esposa se sentasse. Por sua vez, Cynthia acatou o pedido, sentando-se e deixando a palavra para o marido.

— Bom, com certeza eu já fui, sim, um camponês, e, como camponês, fiz o que sei fazer de melhor: lutei e venci. Mas fique esperto, garoto. Se eu não fosse quem sou, a cabeça de seu pai e a sua estariam caídas no chão que você olha com tanto desprezo. — Allastor sabia como lidar com nobres; eram sempre os mesmos.

— Como ousa ameaçar a mim e a meu primogênito? Que escândalo, Allastor! Exijo um pedido de desculpas imediato!

— E o que você vai fazer se eu não me desculpar? Somente constatei um fato. Agora, imagine minha situação: sentar aqui em meu amado forte, com a mulher de minha vida, esperando apreciar um bom jantar, e então duas moscas-varejeiras entram em meu forte, insultam minha esposa, meu reino e comem na mesma mesa que eu. Vocês não estarem mortos agora é um agrado que lhes dou. — Allastor acertou, com toda a força que pôde reunir, a sua mesa, que nem sequer se mexeu. A escolha dos pinheiros de ferro tinha se provado boa. — Digam logo o que vieram fazer aqui!

O outro rei afugentou-se de medo em sua cadeira, fazendo com que o garoto tomasse as rédeas.

— Um duelo, coroa por coroa. — O garoto se levantou, largando na mesa sua espada.

— Não pode apostar o que não é seu, garoto. Seu pai é o rei, e imagino que ele não vá querer apostar a coroa estando bêbado.

— Veja bem, meu pai contraiu uma doença que não tem cura, então agora sou o rei.

Allastor encarou o garoto e depois demorou seu olhar no homem; estava bem abalado, parecia um homem que sabia que iria falecer.

— Pois bem, mas vamos fazer assim: se eu ganhar, seu reino e essa sua espada ficam comigo, e vocês dois vão embora para sempre.

— Feito, mas, se perder, além do seu reino, será meu mercenário pessoal, meu cachorrinho, se assim quiser.

— Sinto muito por sua perda. — Allastor disse ao Rei, que agora estava sem reação.

— O que ele quis dizer com isso?

— Deveria se despedir de seu filho; aquele garoto é um morto em pé. — Uma das empregadas avisou ao rei enquanto limpava a mesa.

— Sim, se ele for seu primogênito, aconselho que faça uma despedida; Allastor pareceu muito sério quanto ao duelo, e aquele homem nunca perdeu um duelo sequer.

O homem, desesperando-se cada vez mais, saiu apressado em busca de seu filho; ora, esperava conseguir um casamento arranjado com essa visita, não perder tudo que sua família havia construído em tantos anos.

— Cassidy! Cassidy! Venha aqui, agora!

— Oi, pai. O que você quer? Preciso me preparar para o duelo.

— Desista! Desista agora! Peça perdão e dê a espada para ele! Sua vida vale mais do que isso.

— Quê? Como assim? Acha que eu não consigo vencer? Você já me viu lutando, sabe que sou o melhor do reino.

— Olhe, eu já vi, mas isso é um duelo até a morte, filho; não lute, por tudo que é mais sagrado!

— Você… você é igual à mamãe; não vou te deixar me pôr para baixo, não mais!

O garoto usava uma armadura prateada, com uma aparência mais cara do que era: um peitoral maciço com detalhes de flores estampadas e ombreiras de ouro maciças. E a espada, a Zweihänder, era maior que o próprio dono — aço de adamantino, detalhes em esmeralda e cabo de couro de dragão. Compraria duas casas grandes em Qudu, no bairro nobre.

Allastor usava as mesmas roupas de sempre: calças feitas sob medida, botas de treino e uma camiseta de mangas longas na cor roxa. Em sua mão, a espada de um soldado raso; nunca se importara com armas — o guerreiro fazia a arma, e não o contrário.

— Diga, garoto. Por que busca a morte certa? Acredito que saiba quem sou. — Allastor estava sentado no meio do campo de treinamento.

— Morte certa? Não. Meu caminho está certo nas estrelas, eu sou predestinado.

— O que te faz ter tanta certeza?

— Em minha última batalha, eu tive uma visão. Uma visão que me trouxe um norte. Preciso seguir esse rumo. — O garoto tinha um olhar distante. Inegavelmente, parecia muito sério. Sua armadura prateada com as ombreiras de ouro casava bem com sua gigantesca espada.

— Uma visão… eu já tive uma visão também. É uma pena que tenha chegado tão longe de seu destino. — Allastor se levantou, sacou a espada e a apontou para o peito do garoto. — Sabe… gostei da sua espada; se tem um pouco de amor à sua vida, largue-a e nunca mais volte aqui.

— Não posso… mesmo que eu tivesse algum pingo de arrependimento, estou ligado à espada.

— Você é realmente uma peça. Comece!

Allastor ficou ali, parado. Aquilo pegara o garoto de surpresa; não sabia por que o homem não se mexia. Aquele olhar era quase… de pena. O garoto ficou vermelho de ódio. Partindo para cima do homem, preparou uma técnica que já tinha utilizado em batalhas mais vezes do que se poderia lembrar: o golpe característico da Academia Oistron. Condensando mana no pé esquerdo, deu um passo à frente com velocidade surpreendente, induziu mana ao pé direito e aos braços. Em milésimos, fez um corte em redemoinho.

Allastor foi pego de surpresa. Reagindo o mais rápido que pôde, conseguiu desviar do corte, mas não evitou todos os danos, sendo jogado para trás.

— Impressionante! Deve ser uma técnica que você pratica muito. Não consegui prever o giro. Imagino que precise dela para manusear a espada tão rapidamente.

— Você fala muito! — O garoto aplicou outra técnica, que agora consistia em um corte horizontal e um corte vertical duplo ao mesmo tempo. Esta consumia muita mana, mas era boa para pegar alvos desavisados.

Allastor, novamente, conseguiu parar os cortes, mas não a força da magia da técnica.

— Oho! Interessante; imagino que não use tanto essa, a julgar pelo modo como sua feição mudou. Você deve evitá-la porque não tem tanta mana sobrando… Certo, continue!

O garoto continuou a desferir golpes e técnicas de maneira incansável, mas o homem parecia estar se divertindo com aquilo tudo.

— Por que ele não ataca? Está brincando com meu filho?

— O Rei Allastor brinca com a comida, se assim preferir. Ele extrai até a última gota das técnicas de alguém antes de atacar. — Disse o guarda real mais próximo.

— Pois é. O garoto tem potencial; aquele golpe duplo realmente me pegou de surpresa, e o Rei parece ver isso também. Está até dando dicas. — Disse o companheiro mais atrás do guarda.

O garoto estava começando a ficar cansado e ainda mais irritado; tudo o que fazia parecia não surtir efeito. Estava lutando contra uma parede de tijolos.

— Vamos! Mais alguma técnica que queira me mostrar?

O garoto estava ofegante; sua testa pingava, e suas mãos doíam tanto que até girar a espada era torturante. Tinha mais uma, somente uma. Tivera que sujar sua alma por ela, mas teria que fazê-lo se quisesse ganhar o duelo. Parando no meio da arena, o garoto deu um último olhar ao pai, que estava assustado e com medo. Quando seus olhos se encontraram, conseguiu ver um olhar de súplica; era tarde demais.

Segurando a espada com as duas mãos, o garoto respirou fundo e ali, na frente de todos, desferiu um golpe na própria barriga, perfurando-a. Uma onda de sangue reagiu com a perfuração; o gosto metálico invadiu a boca de Cassidy. Sua visão ficou turva, e a respiração, dificultada.

Allastor ficou perplexo com toda a situação; não conseguia entender por que o garoto estaria se matando assim do nada. Até que então sentiu, pela primeira vez em sua vida, aquela sensação — uma sensação que fez seus cabelos ficarem em pé.

— Cynthia! Para dentro, agora! Vocês todos! Saiam daqui agora!

— O quê?! Por quê? O que está acontecendo?

— Me obedeçam, agora!

— Ah, finalmente livre!

Disse a voz pelas costas de Allastor; era uma voz arrastada e grave, de uma tonalidade que Allastor nunca escutara em toda sua vida.

— O que é você? Que tipo de criatura… — Perguntou Allastor.

Era Cassidy, mas estava diferente: tinha uma aparência doentia, a pele estava em tom ametista, tinha um chifre no meio da testa, e sua voz havia mudado.

— Criatura, você diz… vocês humanos desse lado me chamam de… deixe-me lembrar… Snoqx.

A criatura deu uma risada longa e arrastada.

— Perdão, mas é que faz muito tempo que não assumo uma forma corpórea. Como você já deve ter adivinhado, o pobre rapaz Cassidy tinha um contrato comigo. 'Minha vida por sua força' ou alguma bobeira deste tipo; o garoto achou que, uma vez que eu te matasse, voltaria à vida ou algo assim. — A criatura deu uma risada ainda mais arrepiante. — Veja bem, fui amaldiçoado a ficar preso em uma maldita espada por cem anos, mas este generoso rapaz me deu uma ajuda.

— Demônios não são obrigados a cumprir sua parte do contrato? — Allastor ainda estava com o coração acelerado.

— Creio que você esteja pensando muito dentro da caixa; não sou este tipo de demônio.

— Então você o enganou?

— Meu caro senhor, eu somente omiti uma informação; se não se importar, eu gostaria de recuperar o tempo perdido. Mas, sabe, já que estou aqui mesmo…

— Nunca matei um demônio antes; diga-me, o quão forte é você?

A pergunta pegou a criatura de surpresa. — Humanos são sempre cheios de si, né não? Acredito que os desse lado não nos conheçam. — A criatura viu-se pega em seus próprios pensamentos. — Bom, dada sua reação, creio que os desse lado ainda não saibam como nos matar. — Disse mais para si do que para Allastor.

— Você é uma criatura interessante.

— Oh! Que grata surpresa, um humano que vê o óbvio. Não quero parecer mal-educado, mas sua espécie tende a ver os chifres e puxar a espada imediatamente. Bom, sou majestoso, se me permite dizer.

Em um piscar de olhos, Allastor desembainhou sua espada, lançando uma onda de vento em direção à criatura com uma velocidade inacreditável.

— Exatamente assim. — Brincou a criatura.

Allastor então condensou mana por toda a extensão da espada; na metade do movimento de saque, deu um passo para trás e fez um giro com o corpo, soltando assim um corte assustadoramente poderoso que caía dos céus na horizontal sobre a criatura. O campo de treinamento ficou marcado por tal técnica.

— Bom, esta técnica eu nunca havia visto; se eu não tivesse colocado meu braço para defender, teria perdido metade do corpo. — A criatura falava calmamente com um de seus braços decepados.

— Você não parece preocupado com isso, regeneração acelerada?

— Bingo! — O braço instantaneamente se regenerara. — Para um humano, você até que não é horrível. Mas, sabe, eu não gosto de me machucar. — O demônio apareceu atrás de Allastor em um piscar de olhos. A criatura desferiu um soco no flanco esquerdo de Allastor, jogando o homem para o lado por alguns metros.

O homem continuava em pé, mas o soco fora sentido — e muito.

— Sabe, a maioria dos humanos corre quando dou meu primeiro golpe, mas, julgando que você olha para aquela porta ali atrás, acho que sei por que ainda não fugiu.

Allastor cuspiu sangue no chão.

— Você fala demais.

Uma onda de cortes foi feita pelo corpo do demônio, decepando suas pernas e seus braços, todos ao mesmo tempo.

— O quê?! Que merda foi essa? O que você fez comigo, seu verme?!

— Não deveria ter deixado o Espasmo do Dragão te acertar.

Allastor avançou em direção à criatura com a espada em mãos.

— Merda! Não consigo… não consigo me regenerar.

— Você só vai conseguir se mexer se eu liberar a técnica. Espero que aquele bispo não tenha se enganado…

— Espera! Calma! Vamos fazer um acordo: você me deixa ir, e eu te ajudo com qualquer coisa. Que tal? Bom acordo, não? — A criatura, caída no chão, estava com olhar de espanto e medo nos frios e negros olhos.

— Estou vendo o último que aceitou um contrato com você; parece-me morto. Criatura digna de pena.

— Por favor, não! Eu faço tudo, não me mate!

— Entre na espada da qual você saiu. — Allastor lançou a espada de Cassidy no tronco da criatura, que fez um barulho bruto ao ser atingida.

Um olhar de nojo e raiva pairou na face desgastada da criatura. — Nunca! Passei mais de cem anos dentro dessa coisa. Nunca mais vou voltar.

— Então é bom que você se arrependa de seus pecados antes de descobrir se o inferno existe. — Allastor canalizou uma quantidade exorbitante de mana na ponta de sua espada, fazendo o ar do campo de treinamento ficar rarefeito. Ergueu a espada bastarda para cima, golpeando para baixo. — A Punição Divina!

Antes que fosse acertada, a criatura fez um movimento de desespero, lançando um pedaço de si em direção à porta que Allastor guardava.

Um feixe enorme de luz atingiu tanto a criatura quanto a espada de Cassidy, desintegrando instantaneamente o demônio. Onde antes havia a criatura, restava agora somente um núcleo vermelho, que vibrava loucamente. Ao entrar em contato com a espada, fundiu-se instantaneamente junto à lâmina, deixando marcas verdes em formas de feixes na lâmina.

A cor clara que reluzia da lâmina parecia vívida, quase respirando.

— Cassidy! Meu filho…

O rei estava sem forças; a visão que tinha era o que mais temia: seu primogênito ali caído em uma poça de sangue, com os olhos sem vida. O homem correu, esperando que tudo aquilo fosse uma brincadeira, esperando que seus olhos o estivessem enganando, que seu Cassidy fosse levantar e dizer 'Eu ganhei, meu pai'. — Acorde! Façam alguma coisa! Foi você quem fez isso! — O homem apontava para Allastor, com odiosas lágrimas caindo de seus tristes e furiosos olhos.

Allastor estava ali, parado, sem reação. Será que seus pais chorariam assim com a sua morte? Era assim que todos os pais reagiam quando Allastor matava seus filhos? Seria pai em breve; esta dor… seria ela algo que teria que suportar? Em um momento de impulso, Allastor pegou a espada do chão e golpeou inesperadamente o corpo de Cassidy.

Por alguns segundos, pareceu que a ação não tinha surtido qualquer efeito, deixando o pai do garoto em estado de choque; então, com um brilho esmeralda, as feridas de Cassidy começaram a se curar e se tornaram cicatrizes. A cor de seu rosto começou a retornar, e seus olhos começaram a se mover.

O rei não podia acreditar no que seus olhos lhe mostravam; era ele! Era seu filho, ali, respirando, mas algo parecia fora do lugar. Onde antes existia um garoto que falava pelos cotovelos, agora não existia som algum. O garoto não falava, nem respondia ao seu pai; parecia… mudo.

— Por que diabos você não fala? O que aconteceu, filho? O que…

O garoto não parecia sequer entender o que o pai lhe dizia, somente olhava para o nada, sem brilho nos olhos.

— Ele parecia… quase sem… alma. Quando saímos da sala de treinamento e vimos o pátio, o garoto estava lá parado. — Comentou um soldado ao colega que havia acabado de assumir seu posto de serviço.

— E o que o Rei Allastor fez?

— Ele ficou lá parado, com a espada do garoto na mão, sem dizer nada. Quando o outro rei parou de chorar, ele pegou o garoto, levantou-se e saiu, sem nem olhar para trás. — O soldado deu uma pausa. — Quando Allastor tentou falar com ele, o rei só disse: 'Espero que os deuses não tenham misericórdia de sua família, assim como você não teve da minha', e foi embora.

— Caralho… — O soldado mais novo sentiu um arrepio na espinha.

— Algumas empregadas estão dizendo que Allastor não saiu de seus aposentos desde então.

— E a espada? O que aconteceu com ela?

— Allastor tentou devolver, mas o outro rei não quis; desde então, Allastor está tentando destruir a espada, sem muito sucesso.

— O que vocês dois estão fazendo?

Os dois homens ficaram em choque; instantaneamente se curvaram para Cynthia e saíram o mais rápido que podiam.

— Bom, não tenho como negar que meu marido seja um tanto barulhento… — Disse a mulher para si.

Cynthia bateu na porta do quarto em que dormia com Allastor. O homem nada disse.

— Posso entrar?

— Pode.

A porta era pesada e fazia um barulho de ranger lento.

— Você quer comer? Pedi para fazerem um guisado de cabra.

Allastor estava de pé, olhando sem rumo específico para a janela de seu quarto. Não vestia nada além de uma calça de lã negra. Sua pele nua exibia incontáveis cicatrizes, em especial uma enorme no flanco, recebida de sua última luta.
— Já lhe disse que não tenho fome. — O homem respondeu, sem se virar.

Cynthia chegou mais perto de Allastor. O homem era muito maior que ela; era fácil para a mulher perder-se em seus pensamentos enquanto o observava. Abraçando-o por trás, os dois ficaram ali, sem se falar; somente o som de uma chuva havia de se ouvir.

— Você acha que eu deveria ter agido de maneira diferente? — Perguntou o homem depois de um tempo.

— Confio em você e, se você acha que agiu certo, então não. Não acho que deveria ter agido de qualquer outra maneira. — A mulher acariciava uma cicatriz não muito especial do homem.

— Eu não perguntei isso.

— E eu não te dei uma resposta. Olhe, Allastor, quantas vezes você já ficou assim, abalado depois de uma luta? Sei o que se passa na sua cabeça. Você está pensando no que faria se fosse com seu filho.

— Como você…

— Estou grávida. Penso nisso o tempo todo! Tenho medo de que você, algum dia, não volte. Tenho medo de perder a criança de novo. O medo de não ser uma boa mãe, de não ser boa o suficiente para você… tudo isso.

— Mas você é mais do que eu já mereço; como pode pensar tão pouco de si mesma? — Allastor se virou, abraçando a mulher e fazendo carinho em seus longos cabelos.

— Você não entenderia. Você sabe que não consegue me beijar se não se curvar. — Disse a mulher, estendendo o pescoço para cima.

Os dois se beijaram por algum tempo; aquilo serviu para, de alguma forma, amenizar os sentimentos que ambos sentiam.

— Sabe, quando meus pais me disseram que eu seria esposa de um homem como você, eu esperava algo totalmente diferente.

— Você achava que eu te espancaria por me dizer um não ou algo do tipo? — Perguntou Allastor, dando uma risada.

— É... quase isso.

— Calma, sério? Até quando você continuou achando isso?

— Até o dia em que você se deitou no meu peito e só… dormiu. Sem pesadelos, sem espasmos, sem acordar gritando e, principalmente, sem dormir com uma adaga debaixo do travesseiro.

Os olhos dos dois se encontraram; alguns segundos de silêncio haviam se passado.

— A cada dia que se passa, eu me apaixono mais e mais por você.

— E você continua dizendo essas coisas assim com essa cara séria! — A mulher estava vermelha de vergonha.

Os dois se deitaram na enorme cama do casal e ficaram ali, de conchinha, sem muito na cabeça, desejando que a vida continuasse daquele mesmo jeito.

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