Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 16: A pulga atrás da orelha

— O que vocês estão fazendo aqui?

Reid havia despertado de maneira espontânea enquanto os outros o vigiavam. Tinha somente um olho aberto; parecia ter machucado o outro.

— Olhem! O Reid acordou! — Exclamou Trevor, que estava sentado ao lado do amigo, agora não mais dormindo.

— Star! Você está bem? Fiquei tão preocupada quando você caiu, tive que te arrastar até aqui. Achei, achei... que você estivesse... — A voz de Rebecca foi sumindo enquanto abraçava o rapaz, que agora estava sentado em sua cama improvisada.

— Rebecca, meu amor, o garoto precisa descansar... — A mãe da garota fazia carinho em sua cabeça, tentando convencê-la a deixar Reid.

— Valeu. Por ter me salvado. — Respondeu um Reid com as bochechas mais vermelhas que o normal.

Demorou um tempo para convencer Rebecca a parar de abraçar Reid. Meia hora havia se passado quando Reid falou pela décima vez que estava bem e não morreria.

— Como chegaram até aqui? Pensei ter conseguido uma boa distância.

— Bom, você dormiu por uns três dias, então meio que não importou muito. — Valkyrie mantinha distância, até mais do que Jin e Trevor, que estavam encostados em uma parede perto da cama.

Elise estava do lado de fora; pensava que a família precisava conversar sem ela.

Reid encarou os três por muitos minutos; ninguém falou nada nesse meio-tempo. Jin tomou a iniciativa e aproximou-se de Reid.

— Eu quero conversar com você, a sós.

Todos que estavam na cabana retiraram-se quase instantaneamente.

Reid não conseguia olhar nos olhos de Jin; era desconfortável, portanto olhou para o chão, que agora parecia muito interessante.

— Então... você está bem?

— Eu acho que sim, as costelas doem um pouco, mas estou melhor. — Mentiu. Suas costelas doíam como o inferno.

Silêncio.

Podia-se ouvir o sussurrar dos ventos batendo na cabana de madeira; Reid podia ouvir também o som de seus batimentos cardíacos. Por que aquilo era tão difícil? Sempre foi muito fácil conversar com Jin.

— Olha, eu não estou bravo com você, Reid.

Pela primeira vez desde que se reencontraram, o garoto conseguiu, mesmo que de forma breve, olhar para Jin.

— Não?

— Não. Mas não posso negar que fiquei no começo. Imagine: um mensageiro me encontra e diz que meu aprendiz pretendia fugir do lugar que julguei ser o melhor para ele. Consegue imaginar o que se passou em minha cabeça? E, quando chegamos à caverna, encontro todos aqueles hobgoblins e um xamã? Consegue adivinhar o que se passou na minha cabeça? Quantos garotos de quatorze anos você acha que já mataram um xamã? Pensei que tinha morrido.

A culpa já era uma velha conhecida de Reid. Ambos dividiam lembranças. Jin não estava com raiva, disso Reid tinha certeza; ele estava calmo, mas tinha algo em seu rosto, algo que Reid só pôde julgar como decepção.

Alguns minutos se passaram sem que nenhum dos dois falasse algo.

— Me desculpe. — Reid estava sentado, olhando de cima; parecia muito machucado com todas aquelas ataduras.

— Olha, Reid, nós dois sabemos que não sou eu quem merece um pedido de desculpas. — Jin apontou com a cabeça para a entrada da casa. — São seus amigos; os dois estavam preocupados com você.

— Escuta, quando eu era mais novo, eu odiava meu pai tanto quanto podia. Sempre pensei que ele tinha me tirado dos braços de meus pais biológicos. Eu odiava o modo como ele valorizava os feitos. Eu odiava o jeito como ele sorria. Eu odiava o modo como tratava as pessoas, e quase cheguei a odiar meu irmão por agir igual a ele. — Jin tinha uma tristeza inesperada nos olhos. — Quando fiz dezoito, fugi de casa; não suportava mais viver ali. Fui atrás dos meus pais de verdade. Viajei por meses, até que um dia encontrei a vila em que nasci. Perguntando por lá, achei o endereço deles. Quando bati na porta, encontrei uma família em péssimas condições, mas isso não era problema; eu já era adulto, poderia nos dar uma vida digna. Mas sabe o que eles fizeram? Cuspiram em mim. — Jin olhou para o teto e contraiu a garganta; alguns minutos se passaram em completo silêncio. Suspirando, Jin continuou. — 'O que você está fazendo aqui, sua aberração?' e 'Nós nos livramos de você; por que você voltou?' foram algumas das frases que ouvi. No fim, naquela vila, magia não era bem-vista; então, quando eu nasci e demonstrei aptidão mágica, meus pais me abandonaram. Anos depois, meu pai morreu, aquele que me criou. Eu não consegui... pedir perdão, nem agradecer. Ele morreu, e eu vivo com isso até hoje: o arrependimento. Meu irmão diz que meu pai chorava escondido quando eu parti e sempre acreditou que eu voltaria, até o dia de sua morte.

Silêncio.

Depois de algum tempo, Jin aproximou-se e ergueu a mão. Reid não teve reação alguma.

— Você acha que pode andar? Quero que alguma curandeira dê uma olhada em você. — Jin acariciou a cabeça de Reid.

— Acho que sim, se formos devagar.

— Certo, vou avisar os outros. E peça desculpas para aqueles dois.

Jin saiu pela porta, deixando Reid sentado. Seu coração batia mais rápido a cada segundo.

Trevor entrou primeiro, seguido por Valkyrie, que ficou parada na porta enquanto o amigo se sentava na frente da cama de Reid.

— Dói muito? Nunca quebrei um osso antes... — Perguntou o amigo.

— Queria que doesse menos, mas estou melhor agora; acho que algumas costelas estão quebradas.

— Eles te estouraram, né? — Trevor não gostava de ouvir desculpas; sempre fora assim.

— Eu diria que levei a melhor dessa vez. — Reid deu uma pequena risada que foi correspondida pelo amigo. Simples assim, a amizade já tinha se restaurado.

— Reid, não faça mais isso, por favor.

— Não farei.

Os dois trocaram olhares e sorriram.

— Eu temo que você vá precisar de mais do que uma conversa para ter a amizade dela de novo. — Disse o amigo em um sussurro, apontando com a cabeça para a amiga.

Valkyrie estava de cara amarrada, mas de ouvidos atentos. De vez em quando desviava o olhar dos dois.

— Sabe... eu acho que vocês precisam conversar. — Trevor levantou-se e caminhou em direção à porta. Parou brevemente para falar com a amiga. — Pega leve com ele; ele quase morreu. — Disse em um sussurro e retirou-se.

Valkyrie continuou ali, parada e com a cara ainda mais amarrada.

— Você fica fofa quando está com raiva. — Reid soltou uma risada, mas logo se arrependeu quando sentiu uma dor aguda no peito.

Valkyrie corou e ficou com mais raiva ainda. — ...ota!

— Eu não entendi.

— Idiota!

— Ah, sim, faz sentido agora. Prazer, idiota; me chamo Reid.

Valkyrie partiu para cima de Reid, que se encolheu na cama. Quando já estava por cima dele com uma intenção assassina, parou de repente.

— Escuta! Calma! Eu sei que você tá com raiva; me desculpa!

— Reid Star, eu juro por tudo que é mais sagrado que, se você fizer isso de novo, eu vou pessoalmente quebrar seu braço. — A garota tinha uma fúria indescritível nos olhos.

Os dois ficaram naquela situação estranha por algum tempo, Reid com medo pelo braço.

— Escuta, Reid, o Jin falou que nós vamos partir em... — Trevor parou na metade da frase quando viu a cena. — Certo, depois eu volto.

— Esquece, já estamos bem, não é, Reid Star?!

— Ah, sim, estamos sim. — Reid ainda temia pelo braço, então soltou uma risadinha sem graça.

— Quer ajuda para se levantar? — Perguntou a garota.

Reid decidiu manter uma distância segura da amiga. — Eu consigo sozinho. — Com um tremendo esforço, o garoto levantou-se da cama. Era estranho; seu corpo estava quase que engessado, mover o ombro era infernalmente dolorido. Julgou que precisava se alongar.

Mas, quando fez o primeiro movimento, arrependeu-se amargamente; respirar causava dor. Realmente precisaria de uma curandeira.

— Certo, vamos.

 

 

Do lado de fora da casa, as donas — Rebecca e sua mãe — conversavam animadas com Jin. Elise estava investigando as redondezas para se certificar de que outros goblins não espreitavam.

Quando Reid saiu da cabana seguido pelos amigos, os olhos de Rebecca se iluminaram.

— Reid, você está andando!

— Pois é, né?

— Não dói? Mamãe disse que você estava bem machucado.

— Dói. Mas não é nada que eu não consiga lidar.

— Tem certeza, Reid? — Jin perguntou enquanto o examinava de longe. Reid podia ter quase certeza de que Jin via coisas que os outros não podiam a olho nu, porque, quando o olhar de Jin chegou ao seu flanco direito, Jin cerrou as sobrancelhas.

— Tenho, podemos ir?

Rebecca mudou de expressão muito rapidamente.

— Vocês já vão? Mas você acabou de acordar!

— Beca, meu amor, nós já conversamos sobre isso... — Disse a mãe da garota.

— Eu preciso de ajuda com meus machucados; você entende, né? Preciso de uma curandeira. — Reid fez um esforço para dar um abraço na garota.

— Eu entendo... — Respondeu a garota com um tom bem mais triste.

— Obrigado. — Reid virou-se para a mãe da garota. — Obrigado por cuidar de mim, de verdade.

— Imagine, meu bem, isso não foi nem perto do que você fez por nós.

— Nos veremos novamente. Até mais.

Então o grupo partiu em uma velocidade completamente mais lenta do que a que chegaram. Reid caminhava o mais rápido que podia, mas não era muito.

— Aquela garota, ela pareceu bem apegada a você. — Trevor disse enquanto andava ao lado do amigo, com medo de que ele desabasse a qualquer momento.

— Ela só está com um sentimento de gratidão e dívida; logo ela vai me esquecer. Tudo que ela sente agora, esse apego... Ela vai esquecer com o tempo. Algum dia eu vou ser só o cara que salvou a vida dela.

— Pois é...

Elise ficou na retaguarda com Jin, enquanto Valkyrie assumia a vanguarda.

— Jin, preciso pegar uma prova da conclusão da missão.

— Ah, sim, vamos passar na caverna, então; ela fica no caminho mesmo. Você quer que eu faça?

— Por favor, não tenho como fazer muita coisa assim.

— Do que vocês estão falando? — Perguntou Trevor.

— Quando se completa uma missão para um Hall de uma guilda, eles pedem alguma forma de prova de conclusão. Nesse caso, a cabeça do xamã deve servir. — Explicou Elise.

— Entendi. Parece meio arcaico.

— Arcaico? Acho que, até termos uma forma de prova que seja melhor, as cabeças ainda são mais práticas, a não ser que a criatura seja muito grande...

— Elise, qual foi a maior criatura que você já matou? — Perguntou Trevor, que parecia se importar muito com esse assunto, o que pegou Elise de surpresa.

— Humm, deixa eu pensar... provavelmente foi um Leviatã do Mar. Lembra, Jin? Matamos ele juntos.

— Ah, sim, lembro. Aquela coisa era gigante; lembra quando ele afundou aquela frota de navios? Você fez um lindo corte no final.

— E como vocês provaram a conclusão?

— Era uma missão continental, então não tinha muito sentido provar; quer dizer, toda a costa viu.

— Pois é, meio que todos os quatro reinos do continente ficaram sabendo.

— Chegamos à caverna. — Anunciou Valkyrie.

— Podem esperar aqui fora, creio que uma lâmina de fogo deve servir. — Disse Jin, entrando na caverna sem olhar para trás.

O corpo ainda estava lá, com a mesma expressão de temor e desespero. Conjurando uma lâmina de fogo púrpura, Jin não pôde deixar de admirar os machucados que o xamã tinha sofrido. Sob a sombra das chamas roxas-enegrecidas, era como se a lâmina exalasse ódio, sedenta por sangue, pingando excitação. O corte foi bem limpo: o chiar do fogo queimando a carne verde, o cheiro de carne queimada. Pouco sangue ainda restava quando Jin terminou. Pegando um saco de pano, ele jogou a cabeça dentro; se as presas do xamã fossem um pouquinho maiores, teria que arrancá-las.

— Feito, vamos em direção à cidade. — Jin saiu da caverna com a cabeça armazenada na cintura. — Reid, não pude deixar de reparar os machucados no corpo; como arrancou um braço dele?

— Bom, não arranquei. Quando cheguei à caverna, o xamã havia brigado com os outros hobgoblins. Ele venceu, mas isso lhe custou a vida mais tarde.

— Faz sentido agora. Foi uma ótima missão, mas seria bom tomar mais cuidado. Falando nisso, como foi que quebrou as costelas? — Elise perguntou, agora dando apoio com o ombro para Reid, que havia diminuído o ritmo por causa da dor.

— O primeiro hobgoblin, quando embosquei o grupo dele. Ele não caiu com a bola de fogo com encantamento, e eu estava ficando sem mana, então tive que descer da árvore; não contava com a raiva dele e tomei a pior.

— O primeiro hobgoblin é inesquecível. — Elise pensou por um tempo. — O meu já tinha matado muitos aventureiros e governava uma colônia. Quando viu que estava encurralado, ele virou um demônio; quase me tirou um braço.

— O meu estava em uma colônia com um xamã bem forte. Calculo que tinha comido cerca de cinquenta pessoas antes de me enfrentar. Deu-me um pouco de trabalho, não posso negar. — Jin coçou a recente barba que se formara nestes últimos dias de viagem.

A floresta estava muito quieta. Não se podia ouvir nem mesmo o vento. As árvores voltavam a recuperar sua cor original depois da nevasca.

— Quantos dias você acha que vão levar até chegarmos à guilda? — Trevor perguntou a ninguém em específico.

— Dois dias, se andarmos nesse ritmo. — Respondeu Jin.

Reid tentou apressar o passo. — Não vai adiantar nada andarmos mais rápido agora se você quebrar ao meio. — Elise soltou para o garoto, que agora voltara ao ritmo original.

— Diga-me, Reid. Sobre sua magia... Qual a sua aptidão? — Elise perguntou, fingindo desinteresse. Sabia que aquele garoto tinha um enorme potencial.

— Relâmpago, mas não tenho nenhuma prática; na verdade, eu nunca fiz nenhum feitiço de eletricidade.

— Ótimo...

 

 

— Reid.

— Valkyrie.

— Quanto paga essa missão? — A garota estava ao lado de Reid. Elise avançou para a vanguarda.

— Um Gull.

— Só isso? Você quase morreu por uma moeda de ouro?!

— Na verdade, essa missão paga bastante. Geralmente missões de goblins pagam abaixo da média. — Elise comentou lá da frente.

— Verdade. A minha missão pagou vinte Sølvs. O xamã era consideravelmente forte. — Jin comentou sem muito interesse.

— Vinte moedas de prata...

— Te faz pensar, não? — Trevor falou ao ouvido da amiga.
Realmente, aquilo tinha feito Valkyrie pensar. Seu menor presente de aniversário tinha sido quatro Gulls. Seu pai realmente era tão rico quanto as pessoas da cidade diziam?

— Tio Jin, o que meu pai fazia antigamente? — Valkyrie perguntou sem muito ânimo.

— Bjorn já fez de tudo um pouco; acho que queria encontrar seu propósito. Encontrou-se em duas coisas: general de guerra e aventureiro.

— Meu pai já foi um general de guerra?

— Foi um dos melhores. — Elise soltou. — Nunca chegou a perder uma batalha.

— Um dia, seu pai se cansou daquilo e partiu para se tornar um aventureiro. Não me lembro da classificação da guilda de que ele participava, mas era um nível alto.

— Seu pai ainda está registrado em uma guilda? O Urso Prateado, eu acho que é assim que o chamam. — Jin acrescentou.

— Não sei, ele não gosta muito de falar sobre isso. Lá em casa, todos os garotos estão na guilda ou no exército.

 

 

Andaram o resto da viagem até o vilarejo sem muitas palavras, o que foi ótimo, pensou Reid. Falar e andar doía demais. Já era noite quando chegaram à vila. Surpreendentemente, o ancião os aguardava. Trevor suspeitou que estivesse dormindo, mas, assim que se aproximaram, o velho os cumprimentou.

— Olhe se não é Star; você completou a missão? — Perguntou o pequeno senhor de cabelos brancos.

— Completei; perdoe-me, sua adaga ficou em péssimo estado, vou lhe comprar outra. — Reid quase se curvou, mas recuperou a consciência; doeria demais.

— E eu vou fazer o que com ela? Esqueça; foi uma honra que ela tenha sido usada até o final. Suponho que vão querer passar a noite? — O velho bateu os olhos em Valkyrie, que agora ajudava Reid a manter a postura. Nem parecia que estiveram brigados; talvez ver Reid tão mal tivesse feito seu coração amolecer um pouco.

— Somos gratos. — Jin respondeu, liderando o grupo até a casa.

A casa estava limpa e arrumada, como sempre.

— Aqueles que conseguirem, tomem um banho. Reid... — Jin começou.

— Relaxa, eu consigo tomar banho.

Depois do banho, todos foram se deitar; estavam cansados demais para poderem se dar ao luxo de conversar até tarde. Todos, menos Reid.

Sentia uma dor agonizante quando ficava deitado, então decidiu sentar-se. Enquanto sentado, sentiu uma leve coceira no núcleo de mana. Meditou por alguns instantes — instantes que foram horas, na verdade. Jin foi o primeiro a acordar no outro dia.

— O que está fazendo?

Reid não respondeu; estava absorto em um transe. Jin teve que sacudi-lo um pouco para que parasse.

— Você está louco?!

— Oi? Como assim?

— Você não pode fortalecer seu núcleo assim; se continuasse mais um pouco, teria uma overdose.

— Uma o quê?

— Escuta, quando seu corpo está muito machucado, seu núcleo tenta curá-lo com mana, mas você não tem prática, e seu núcleo não tem capacidade para isso. Você estava basicamente absorvendo mais do que podia armazenar.

— E você consegue se curar?

— Quando se chega aos estágios mais avançados, você pode aprender a se curar usando rotação constante de mana; seu núcleo já consegue suportar o suficiente para quase qualquer ferida, mas ainda demanda tempo.

— Então, quer dizer que os curandeiros têm os núcleos mais avançados?

— Não. Funciona assim: você pode utilizar feitiços de cura, igual a qualquer outro feitiço, mas a cura passiva, que é feita por seu núcleo, é muito avançada. Aprender feitiços de cura e de regeneração demanda muito tempo; por isso a maioria dos curandeiros não aprende muitos outros feitiços.

— Entendi, então meio que se resume à vocação e à afinidade que temos?

— Mais ou menos isso. Famílias de curandeiros tendem a ter filhos com as mesmas vocações. — Jin olhou daquele mesmo jeito para Reid quando chegou ao seu flanco direito. — Talvez você esteja no caminho certo, mas vamos ver alguém pra te curar logo.

— Você não consegue me curar?

— Digamos que passei minha vida inteira focado em causar machucados, e não em curá-los.

— Saquei.

 

 

O café da manhã foi bem silencioso. Ninguém queria falar muito, e a comida parecia mais interessante. Uma salada de frutas, leite e pães foram dispostos. Quando terminaram, o grupo rumou para a cidade de Yutof; Reid estava andando em um ritmo consideravelmente melhor, mas ainda estavam lentos.

— Elise, você consegue fazer rotação de mana? — Reid perguntou à moça que o ajudava.

— Ah, sim, consigo.

— E é muito difícil?

— Não tanto quanto parece. Depois que você pega o ritmo, fica fácil. Mas suponho que seja assim com qualquer coisa. Cuidado com essa pedra! — Elise puxou Reid pela cintura antes que ele pisasse na pedra pontuda.

— Algo me veio à mente, Reid. Como foi que você conseguiu pegar essa missão? — Valkyrie perguntou enquanto caminhava à frente do grupo.

— Ela já estava parada há alguns meses, então acho que eles só queriam se livrar dela.

— Mas isso é errado! Imagine quantos aventureiros jovens morrem assim. — Exclamou Trevor.

— Bom... digamos que goblins são os maiores assassinos de novatos. — Elise respondeu. — Veja bem, goblins não são considerados problemas iguais a orcs ou trolls, então os novatos podem aceitar as missões.

— Verdade. Lembro que, no começo, antes de fazer meu teste de aptidão na guilda, vários grupos de novatos estavam indo atrás de goblins. Poucos dos que voltavam queriam continuar na carreira. — Jin desviou de uma poça de água.

— Então por que eles aceitam as missões, se são tão perigosas? — Valkyrie indagou.

— Necessidade, fome, desespero. — Reid respondeu, desviando de mais uma pedra mal-intencionada. — Quando se é novato, você tem que agarrar qualquer oportunidade. O dinheiro mais seguro vem de missões de limpeza de pastos ou de ajudar um fazendeiro com trabalho pesado. Depois disso, vêm os goblins. Aqueles que não querem correr perigo viram trabalhadores braçais.

— Exato. São necessárias dez missões de nível 5 para se evoluir de categoria, depois quinze, depois vinte e assim por diante. — Elise complementou a fala do garoto. — Quer dizer, isso na guilda onde eu participava; hoje em dia tem tantas...

— Na minha, os níveis eram divididos por minerais — bronze, prata etc. Eram vinte missões fixas para se avançar para o próximo 'mineral'. — Jin verificou o flanco esquerdo de Reid mais uma vez.

— A que estou agora funciona por letras; sou oficialmente um aventureiro de classe 'E'. Acho que não tem um número necessário de missões para se subir de divisão; eles avaliam individualmente o desempenho. — Reid comentou, ficando mais lento conforme Elise se interessava pela conversa e parava de ajudá-lo.

— Assim me parece mais justo. — Disse Trevor para o amigo.

— Falando nisso, Reid, como foi que você ficou no menor nível? — Jin indagou.

— Você é obrigado a começar do menor.

— Esses ranks não querem dizer nada. Onde eu comecei, o nosso 'melhor' aventureiro não passava de um verme se comparado ao Leste. Esses ranks são só pelo ego. — Concluiu Jin.

— Pois é, só é bom pra impedir as crianças de cometerem suicídio. — Elise complementou, agora percebendo que Reid precisava de ajuda.

A cidade de Yutof lembrava muito o bairro pobre de Qudu; não chegava a ser suja, mas não se viam muitas crianças gordas ou aventureiros de armaduras brilhantes. Surpreendentemente, não tinha mendigos.

Ao contrário de Qudu, muitos mais jovens eram vistos por aqui. A guilda local era bem atrativa. Reid deu as direções ao grupo; depois de quase dez minutos andando pela vila, chegaram ao prédio da guilda. Era o mais bonito de todo o vilarejo, nada comparado à casa da vila anterior, mas passava uma cara de seriedade. Era feito de tijolos e tinha telhado de madeira de pinheiro. No geral, parecia-se muito com o que os móveis de Allastor pareciam. Tinha uma fachada escrita 'Guilda do Lobo Vermelho' com um desenho de uma raposa maior que o normal.

Quando o grupo passou pela porta de entrada, foram recebidos por um atendente com cara de poucos amigos.

— Pela última vez, não! Eu não vou dar uma missão de nível D pra vocês; olhem o quadro e encontrem logo uma de nível E... — O homem ficou branco quando percebeu que era um grupo diferente. — Mil perdões, pessoal! É que um grupo de novatos ficou enchendo o meu saco o dia inteiro. São impacientes, eles.

Reid adiantou-se.

— Olá.

— Star? Eu pensei que você tinha morrido! Caramba, você tá acabado, o que foi que aconteceu?

— Ah, você sabe, o normal. Eu concluí a missão.

— Maneiro! Mas eu vou precisar de uma prova, maninho.

— Ah! Jin... — Jin avançou para a frente e desamarrou o saco em que a cabeça estava, entregando-a a Reid. — Aqui está.

— Certo, deixa eu dar uma olhadinha... caramba! Um xamã? Loucura, cara! Assim, isso não vai te pagar mais nem nada, mas aumenta sua avaliação pessoal em uns vinte pontos.

— Você sabe se tem alguma curandeira por aqui?

— Curandeira? Humm, tem uma que fica na igreja; ela é meio esquisita, mas é boa pessoa. Aqui, seu pagamento. Você ainda não subiu de rank, mas não falta muito.

Reid pegou a moeda, despediu-se do rapaz e voltou ao grupo.

— Tem uma curandeira na igreja local.

— Vamos, então; sei que você está fingindo que não dói tanto.

Reid abriu a boca, mas não conseguiu pensar em um argumento. Do lado de fora da guilda, um grupo de novatos discutia seus planos.

— Eu não quero limpar pastos! Saí de casa para ser um aventureiro!

— Nem eu!

— Mas é só isso que dá pra fazer, isso ou goblins.

 

 

A igreja era bem modesta, mas era arrumada. Não faltavam telhas de barro no teto, e as paredes de tijolos estavam perfeitas. Diversas flores enfeitavam os jardins frontais. Algumas crianças brincavam de pega-pega na frente.

Uma mulher observava as crianças de uma janela. Parecia cansada, muito cansada. Pela aparência, era uma freira.

— Não empurrem os outros. — Ela falou mais para si mesma do que para as crianças.

— Perdão, foi-nos informado que aqui residia uma curandeira. — Jin adiantou-se para falar com a mulher.

— Ah, meu querido, aqui reside uma curandeira, sim, mas ela não presta seus serviços a qualquer um.

— Temos ouro, se esse for o problema.

— Ouro? Ouro, não. Não é esse o problema. Digamos que você precisa se provar se quiser ser curado.

— Se provar? É algum tipo de teste?

— Você, não. O garoto ali! Você não sabe fingir muito bem, meu filho. Vejo que está em profunda dor.

— Eu preciso fazer algum teste? — Reid ficou com um pé atrás.

— Me siga. — A mulher gesticulou para Reid e depois para Jin. — Faria o favor de cuidar das crianças? — Jin apenas concordou com a cabeça.

O interior da igreja era aconchegante; diversos bancos estavam dispostos em filas. No centro da igreja, uma pintura linda enfeitava o teto: diversos anjos celebravam o nascimento de uma criança.

— O senhor cura aqueles que são puros, e os puros seguem ao senhor. Os puros são tão raros quanto se espera. Os pecadores são aos montes. Raramente um puro se encontra em uma igreja. Os pecadores vêm sempre. A Salvação Divina só é almejada por aqueles que não a têm por garantida. Seu coração será testado, e, se ele for minimamente puro, o senhor o curará. Se ele não possuir nada de pureza, temo que nada poderei fazer por ti.

Uma criança, um pouco maior que as que estavam brincando lá fora, saiu de uma porta do lado esquerdo. Usava uma espécie de vestido cerimonial e tinha vários braceletes de ouro. Tinha uma pele morena, cabelos longos e negros como carvão, olhos claros que eram hipnotizantes e passava uma sensação que Reid só pôde descrever como entediada.

A mulher curvou-se para a criança e ajoelhou-se.

A criança apenas encarou Reid por muito tempo. Reid ficou desconfortável; tudo aquilo parecia estranho.

— Algum dia, aqueles que você mais ama te obrigarão a escolher entre lutar e fugir. Fuja. Não olhe para trás. Eles não saberão da verdade, e você não pode culpá-los. — E calou-se.

— Quê? Como assim?

A mulher olhou para Reid com um olhar irritado. — Silêncio!

Depois de um tempo, a criança apenas sorriu. A mulher imediatamente adiantou-se e encarou Reid.

— Era isso? O teste que você falou? E o que ela queria dizer com aquilo?

— Mas ela não disse nada, meu filho. — A mulher parecia muito confusa com a situação.

— Até que você não é de todo mal.

— Eu só a vi gargalhar uma única vez. Fique contente com um sorriso; a maioria recebe um olhar de nojo. Poderia tirar sua camisa? As costelas devem ficar expostas.

O garoto atendeu o pedido.

— Agora fique de joelhos.

— De joelhos? Sério?

Reid ajoelhou-se e esperou que a criança começasse a curá-lo, mas quem entoou o encantamento foi a mulher.

 

Domine, hoc auxilium pauperem esse qui humiliter venit ad vos; hoc unum honorabitur fidelissimi tui accepit approbatione ut consideratum cum gratia tua; gratiam, quam Dominus numquam negavit, tua semita sequitur. In principio rogasti nos de iudiciis; tentationes ad Dominum transivimus; tum sacrificia immolabanturque ei. Hic peccator et assecla mutuari a te, gratia tua; hic qui est ad genua conversus ad vos, haec minor, adiuva illum nobilis dominus meus.

 

 

A sensação de ser curado, daquele modo, era como se Reid estivesse sendo banhado por sua mãe na antiga banheira da família.

— Mamãe, por que eu sempre tomo o banho por último? — O pequeno Reid estava todo ensaboado, tendo as costas esfregadas pela mãe.

— Você não gosta? — A mulher perguntou, parando de esfregar.

— Eu gosto! Mas eu sempre sou o último; por quê? — O garoto virou-se para encarar a mãe.

— Ah, meu bem. Você sabe como sua irmã fica de birra se tomar banho depois de você. Você liga tanto assim?

— Não ligo tanto, mamãe.

— Esse é meu menino; obrigada por ser tão adulto. — A mulher acariciou os cabelos ensaboados do garoto. A espuma não tinha um cheiro ruim, mas era estranha.

— Eu também sei que você toma banho depois de todo mundo, mamãe. Você é a melhor mamãe do mundo.

— Você acha, é?

— Uhum. Quando a mamãe fala que tá sem fome, eu sei que é mentira. A mamãe faz isso pra gente comer mais. Quando a mamãe diz que não tá com frio, eu sei que a mamãe tá tremendo. Algum dia, mamãe, eu quero ter um montão de dinheiro pra mamãe poder comer o quanto ela quiser. — O garoto virou-se para a frente, deixando a mulher encarando suas costas.

Os olhos da mulher encheram-se de água.

— Por favor, Reid. Seja sempre esse menino de ouro; não deixe esse mundo te mudar...

— O que você disse, mamãe?

— Nada. Vai se enxaguar; já lavei suas costas.

— O que aconteceu, mamãe? Caiu sabão no seu olho?

— Foi, meu bem.

— Você tem que tomar mais cuidado, mamãe; você sabe como as mulheres fizeram esse sabão? Elas usaram óleo velho!

A mulher deixou escapar uma gargalhada.

— Eu vou tomar mais cuidado, pode deixar.

 

 

Reid levantou-se, saindo da posição de joelhos.

— Eu me sinto incrivelmente bem, é inacreditável.

— O senhor está convosco.

— Eu te devo algo?

— Não, não aceitamos pagamento por espalhar as bênçãos do senhor.

— Certo, obrigado.

Reid não parava de pensar nas palavras da criança: o que será que queriam dizer? E quem Reid mais amava? Allastor, com certeza. Jin também. Valkyrie e Trevor, sem dúvida. Eles não fariam mal a Reid; disso ele tinha certeza.

O grupo estava esperando por Reid. Valkyrie brincava com as crianças enquanto o resto estava sentado em um banco.

— Você se dá muito bem com crianças, Valkyrie.

— Tive diversos irmãos; com o tempo você se acostuma. — Respondeu a garota enquanto jogava as crianças para o ar e as pegava de volta.

— Reid! Você parece novo!

— Pois é, né? Parece mentira.

Jin parou o olhar no flanco direito de Reid e ficou mais tranquilo.

— Você está curado. Que bom.

— Não sente mais nada? Nenhuma dor? — Elise perguntou depois de se levantar e examinar o corpo do rapaz.

— Não, nunca me senti assim.

— Deve ter sido uma ótima curandeira.

— Cara, você tá muito magro; há quanto tempo você está sem comer? — Trevor perguntou, pegando no braço esquerdo de Reid.

— Três dias, mais ou menos. A comida acabou antes de eu entrar na caverna.

— Você parece muito bem para alguém que não come há três dias. — Jin comentou, levantando-se e dando a deixa para o resto do grupo.

— Ah, três dias não são nada; quando eu morava em Zammor, já passei duas semanas sem comer nada. — Reid deu uma risada gostosa, mas, vendo a reação do grupo, arrependeu-se.

— Duas semanas... — Valkyrie balbuciou.

— Cara... Eu não sei como você aguenta.

— Não é tão ruim assim. Para de doer no terceiro dia, e só fica melhor, porque qualquer coisa que você comer vai ficar muito gostosa.

— Você vê o copo meio cheio, então. — Elise respondeu.

— Eu acho que sim; é melhor do que viver sofrendo. Se lamentar nunca resolveu nada para mim. Pelo menos sendo assim, eu tenho vontade de levantar e continuar lutando.

— E você está certo. — Jin concordou com o garoto, encerrando a conversa.

O grupo andou pela pequena vila em um ritmo muito mais rápido, agora que Reid podia andar sem sentir dor, mas isso não queria dizer que o clima estava ameno. Todos estavam com as cabeças em outro lugar, mas, de todos eles, Reid era quem mais pensava. E isso não era algo bom.

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