Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 15: Um Professor.

O dia estava ensolarado, apesar da neve incessante. Animais começavam a dar sinais de vida, e o sol dava a cara sobre as lindas florestas de Qudu. Quatro pessoas se encaravam na saída da cidade militar, Qudu, uma mais confusa que a outra.

De um lado, um confiante Trevor se perguntava o que Valkyrie poderia estar fazendo ali, mas mantinha a postura. Jin Haruto estava ao seu lado, seu herói. Não poderia parecer, de alguma forma, fraco. Valkyrie, no entanto, já sabia que Trevor iria na viagem, mas aquela mulher? Quem era ela?

Elise, por sua vez, não esperava que, ao seguir Jin, encontraria duas crianças o esperando. Crianças que agora a olhavam com desconfiança.

— Bom dia, pessoal. — Disse um Jin bocejante e desconexo. Era estranho ver Jin assim; geralmente ele estava sempre alerta e atento ao seu redor. Elise, no entanto, estava mais alegre que o normal.

— Bom dia, senhor Jin! — Trevor estava agora se curvando.

Isso havia pegado Valkyrie de surpresa; nunca vira Trevor se curvar antes.

— Oho! Olha só, Jin, você arranjou um novo fã-clube. Que fofinhos eles são. — Soltou Elise, batendo de leve nas costas de Jin e dando uma pequena risada.

— Não precisa se curvar, garoto. Eu não sou nenhum rei. — Jin estava se alongando; geralmente seus dias começavam com uma rotina de exercícios e um bom café da manhã, mas hoje o tempo não estava a seu favor. — Temos uma nova companhia em nossa jornada. Gostaria que conhecessem minha amiga, Elise.

Um "olá" foi dito em uníssono, meio sem entusiasmo entre os três.

— Vocês vão estar sob meus cuidados nessas próximas semanas. — Jin olhou para Elise. — Tentem aprender o máximo que conseguirem; modéstia à parte, tenho orgulho de minhas habilidades. — O homem criou uma lança de ar na ponta dos dedos em um piscar de olhos. A lança foi tomando forma e se condensando, até ter mais de dois metros e pairar sobre a cabeça do grupo, zunindo ameaçadoramente, a ponto de balançar os cabelos de todos. — Não se comparem entre vocês e nunca se comparem a mim. — A lança sumiu assim como havia surgido, em um piscar de olhos.

O sol estava agora agradável, deixando o clima melhor.

— Reid é uma pessoa emotiva; ele se compara bastante com os outros, e talvez eu tenha culpa no que ele fez. — Parou um pouco, pensativo. — Vocês são amigos dele e devem saber como ele se sente. Todos nos sentimos fracos em algum momento de nossas vidas.

Jin começou a se alongar, posicionando-se com os pés afastados na largura dos ombros. Inspirou profundamente e soltou o ar lentamente. Com cuidado, dobrou o corpo para a frente, tentando alcançar os dedos dos pés com as pontas dos dedos. Sentiu um leve puxão nas costas e nas pernas, mas manteve a posição, permitindo que os músculos se alongassem suavemente.

Valkyrie ficou pensativa com toda a cena. Reid era, de fato, emotivo. Mas ela não sabia que ele se comparava tanto assim; agora, fazia sentido. Ficar tão próximo de pessoas como Allastor e Jin poderia fazer até o mais forte dos homens se sentir incapaz.

— Vamos lá, quero comer algo. Alguém sabe de algum lugar por aqui? — Terminando seu alongamento, Jin voltou ao seu estado de alerta.

 

 

Já sentados numa taverna, o grupo estava em um silêncio desconfortável enquanto comiam. A taverna era relativamente simples, mas aconchegante. Para uma taverna, o café da manhã era decente: muitos ovos e pedaços de carne de porco assada.

Jin era quem mais comia na mesa; para alguém com seu porte, ele realmente comia bastante.

— Vocês não comeram quase nada; têm certeza de que são guerreiros? — Disse o homem, palitando os dentes.

— Eu não… não estou com tanta fome. — Respondeu uma Valkyrie desconfortável com a encarada de Elise.

— Não costumo comer coisas tão pesadas logo de manhã, senhor. — Respondeu o garoto elfo, que agora comia algumas frutas.

— Não estou com fome, não agora, meu senhor. — Disse Elise, dando uma risada de Trevor.

Quando saíram da taverna, Jin os levou à saída pela qual Allastor disse ter confrontado Reid.

— Primeiro: quem aqui pode me dizer por que Reid escolheu esta saída?

— Porque ficava mais próxima do objetivo dele. — Respondeu Elise, bocejando.

— Exato. Agora, se você entender um pouco da geografia da região, vai ver que, para o norte, existem alguns vilarejos e uma cidade chamada Yutof. Yutof possui uma guilda de aventureiros. Com tudo isso, o que vocês julgam que devemos fazer agora?

— Devemos ir direto para Yutof, senhor; de lá poderemos localizar Reid.

— Normalmente esta seria a alternativa correta, mas, dessa vez, passaremos de vilarejo em vilarejo até chegarmos à cidade. Pode ser que Reid tenha parado em algum deles.

Os três concordaram com o plano e viraram-se para a estrada, partindo atrás de Jin.

 

 

— Você, garota Vyke, quer conversar? Parece incomodada com algo. — Perguntou Jin, que agora havia deixado Elise assumir a vanguarda.

— Como o senhor conheceu Reid? — Perguntou Valkyrie, que agora deixara de ser encarada por Elise.

— Humm, boa pergunta. Digamos que conheço Reid há menos tempo do que deveria. Sua mãe era uma grande amiga minha. — Jin tinha uma espada na cintura e usava uma roupa casual, vermelha e preta com detalhes dourados em forma de nuvens.

— Entendi… Por que decidiu treinar Reid? Ele me contou que não era ninguém em Zammor, disse que chegou a passar fome várias vezes. — Perguntou Valk, com um semblante mais triste.

— Reid tem muito talento; está no sangue dele. E ele é esforçado, tem um grande futuro pela frente. — Jin pensou por mais um tempo antes de falar. — No fundo, eu sinto orgulho por Reid ter fugido de Qudu. Ele já tem mais coragem do que eu já tive algum dia.

O grupo todo estava em silêncio; todos escutaram a conversa. Somente o som dos passos e um ocasional pássaro podiam ser escutados.

— Quero que saiba de uma coisa… — Jin parou de repente. Não poderia contar sobre Ana; era algo pessoal de Reid. — Na verdade, no momento certo, Reid vai te contar.

 

 

— OK! Primeira aula: quem sabe qual o maior perigo de viajar por estradas?

Elise imediatamente entrou em posição de batalha.

— Eu não sei, senhor.

— Eu não sei, tio Jin.

— Emboscadas. Elas são bem comuns em estradas na parte norte e, atualmente, estamos entrando em uma.

Tanto Valkyrie quanto Trevor ficaram assustados e entraram em poses defensivas.

— Relaxem e me escutem. Trevor, em qual estágio está seu núcleo?

— Amarelo escuro, senhor. — Respondeu Trevor, ainda mais confuso.

— Certo. E com o seu núcleo neste estágio, você escolheria ser um ladrão de estradas?

— Nunca, senhor!

— Então, que nível de força vocês acham que os ladrões vão ter? O mais forte pode ter um núcleo marrom; não esperem que eles usem magia, vão lutar com facas ou algo do tipo. — Jin parou de andar. — Elise, fique fora dessa.

Elise instantaneamente embainhou sua espada e retornou para perto de Jin.

— Escutem: neste mundo, pessoas tentarão tirar suas vidas, e quanto mais fortes vocês forem, mais o número cresce. Algum de vocês já matou antes?

Os dois ficaram mudos; nenhum deles jamais havia pensado nessa possibilidade.

— Foi o que pensei. Não precisam matar os ladrões, mas lembrem-se de que eles os matariam se conseguissem. Ficarei de fora; vocês dois vão trabalhar juntos nessa.

Trevor olhou para Valkyrie, que agora ficara muito séria. Ambos assentiram um para o outro.

— Você quer que eu faça a frente?

— Preciso de um tempinho para conjurar meus feitiços; seria bom. — Confirmou Valk.

Andando lado a lado, eles chegaram a uma parte lateral da estrada, onde o bando de ladrões estava escondido.

— Vocês aí! Não sabem que estas estradas são do bando do Rato? Você aí, gracinha, não acha que está muito longe da cidade para andar como uma nobre? — Disse o homem que parecia ser o líder. Atrás dele havia mais três homens, todos usando trapos e com facas à mostra na cintura.

— Olha só, Donny, um elfo! Sabe quanto um desses vale? Tiramos a sorte grande.

— Realmente! Nossa sorte mudou, rapazes.

— Não machuquem eles, seus idiotas; eu quero a garota, e venderemos o elfo. Vão! — Mandou Donny, que agora soltava uma risada forçada.

Instantaneamente, os homens foram para cima de Trevor, que portava uma espada de aparência cara. Trevor já tinha treinado combate com Reid muitas vezes; mesmo que tivesse ganhado poucas delas, considerava-se um bom espadachim. Sacando a espada que ganhou de aniversário, deu alguns passos para trás a fim de evitar ficar cercado.

— Olhem só, ele quer lutar! HAHAHA! — Disse o menor dos homens, que agora puxava sua faca da cintura. — Vamos brincar, garoto elfo!

— Por favor, não me obriguem a matá-los; baixem suas armas. — O garoto começou a chorar, mas não eram lágrimas de tristeza; eram… de pena.

O grupo inteiro riu desta vez. O primeiro homem partiu para cima de Trevor, dando um golpe vertical com sua faca. Trevor deu um passo para o lado e cortou a mão do homem. Foi fácil demais; Reid nunca faria um movimento daquele. Geralmente ele testaria Trevor antes de atacar, minaria seus reflexos e então usaria uma finta. O homem, no entanto, caiu de joelhos no chão, soltando um grito agudo de dor. O sangue não parava de jorrar de sua mão. O resto do bando entrou em estado de choque; por alguns segundos, todos reconsideraram se valia a pena ir atrás do garoto. Aquela cena fez Trevor perder o ritmo. Era sangue, muito sangue, e o causador da dor que aquele homem sentia era ele.

O líder, então, foi quem tomou a iniciativa.

— Arranquem os braços dele! Ele só precisa poder trepar pra valer algo! Agora! — E avançou para cima de Valkyrie sem uma arma visível nas mãos.

Valkyrie já estava preparada; estivera entoando um feitiço esse tempo todo. A bola de fogo acertou o torso do homem em cheio. Os gritos de agonia e urros de dor se seguiram por pouco tempo, enquanto o homem rolava no chão.

Isso pegara todos os presentes de surpresa; até Trevor ficou sem reação por um instante. Mas, antes que mais alguém pudesse reagir, recobrou a consciência e se jogou contra dois dos homens. Ambos não ofereceram muita resistência. Trevor cortou a garganta de um deles. Sobraram apenas dois: o único que não levantara sua faca e o que perdera a mão. Eles estavam agora ajoelhados e tremendo.

— Por favor, eu não queria matar vocês! Donny prometeu comida; não comemos há dias lá em casa. Tenham piedade, por favor! Juro nunca mais roubar ninguém! — Implorou o homem, que agora estava prostrado com a testa no chão.

Jin e Elise vieram ao encontro dos dois. Elise tinha as sobrancelhas levemente levantadas, olhando para Trevor.

— Escolham: este homem merece uma segunda chance? — Disse Jin, com as duas mãos nas costas.

Tanto Trevor quanto Valkyrie estavam mudos. Nenhum dos dois falou nada; apenas olhavam para tudo que haviam feito com aqueles homens. Trevor tremia; matara, tirara vidas. Seu estômago pesava, e queria vomitar. Valkyrie, no entanto, adiantou-se e ajoelhou-se, começando um vômito instantâneo.

— Você pode ir. Procure uma forma honesta de comer. — Jin ordenou ao homem, enquanto lhe dava uma moeda de prata. Por essas bandas, uma moeda de prata poderia alimentar uma família de quatro por até seis dias.

O homem saiu correndo sem nem olhar para trás, rumo ao vilarejo mais próximo, que era minúsculo.

Jin juntou os dois garotos e agachou-se para conversar, olhando-os nos olhos.

— Tudo bem, já acabou. Calma, relaxem. — Disse Jin, enquanto passava a mão na cabeça dos dois. — Não vou fingir que isso não é nada; eu mesmo fiquei mal quando matei pela primeira vez. Vai melhorar. Conversem comigo: o que vocês sentem?

Algum tempo se passou sem que ninguém falasse.

Trevor foi o primeiro a falar.

— Eu… sinto enjoo… tirei a vida daquele homem… — Trevor tinha uma expressão sombria no rosto.

— Você tirou, mas você sabe que ele faria o mesmo com você, não? Aqueles homens, eles não queriam conversar; você mesmo tentou fazê-los desistir. Pense pelo lado bom: você conseguiu salvar dois deles.

O garoto ficou mudo.

Valkyrie estava um pouco melhor agora, sentada.

— E você, filha do grande Bjorn? Está um pouco melhor? — Perguntou Jin, oferecendo um abraço a Valkyrie.

Valk aceitou o abraço.

— Como você… lida com isso? Você já deve ter matado muitas pessoas.

— Humm, eu diria que não lido. Quando saco minha espada, digamos que sou outra pessoa. — Respondeu Jin, enquanto mantinha o abraço.

— Interessante… acho que estou um pouco melhor. Obrigada, tio Jin. — Os dois se soltaram.

Jin estendeu os braços para Trevor, que por sua vez recusou de início, mas que não negou quando Jin andou em sua direção.

O abraço dos dois durou um pouco menos, mas teve o mesmo efeito.

— Vamos sair deste lugar; o cheiro é horrível. — Sugeriu Elise, com a mão tampando o nariz.

— Nós não podemos… sabe, enterrar eles? Sei que são bandidos, mas ninguém merece algo tão raso… — Perguntou Trevor, olhando para os homens mortos.

Jin concordou, e então todos ajudaram no enterro. As covas de dois homens foram abertas.

Aquele que perdera sua mão fingiu-se de morto, mas Jin o ajudou, cauterizando o sangramento com magia de fogo. Aquilo fez o homem desmaiar, mas viveria. — Já você, viver com apenas uma mão será seu fardo. Suma daqui. — Jin disse ao menor homem.

A viagem continuou silenciosa até chegarem ao seguinte vilarejo.

 

 

— Por que não paramos no vilarejo lá atrás? — Elise perguntou a Jin por cima de seu ombro.

— Reid teria matado aqueles ladrões se eles estivessem ali quando ele passou.

Silêncio pairou sobre o grupo. Algum tempo tinha se passado desde a conversa.

— Algum motivo especial para pararmos neste vilarejo? — Elise perguntou, enquanto olhava para a vila.

— Allastor gosta muito dessa vila; até mandou construir uma casa aqui. Acho que poderemos usá-la para passar a noite. — Jin respondeu, fazendo sinal para que o seguissem.

Enquanto caminhavam pela rua principal, diversas pessoas olhavam e apontavam para o grupo. Não demorou para um senhor baixinho aparecer.

— Olhe só, os nobres estão aparecendo como mariposas. A que devo a visita?

— Boa tarde para o senhor. Sou Jin Haruto, e estes são, respectivamente, Valkyrie, Trevor e Elise, mais conhecida como "A Trovoada".

— Ora, ora, se não é a lenda Jin Haruto e a brutal Elise, A Trovoada. Servi na guerra com vocês; era do batalhão do Rei Glutão.

— Olhe só, que surpresa. Que patente atingiu? — Perguntou Elise com curiosidade.

— Nunca deixei de ser um mero soldado raso, infelizmente. Enfim, é com imenso prazer que ofereço a casa do vilarejo. Ela continua arrumada; o último não ficou muito tempo. Rapaz misterioso, ele.

— Outro nobre? Por acaso era Allastor? — Perguntou Jin, enquanto avaliava o local em que estavam.

— Não, senhor, era um aventureiro. Ficou por alguns dias e partiu em uma missão.

Todos do grupo ficaram surpresos e interessados com a fala do homem.

— Como se chamava este aventureiro? — Perguntou Trevor.

— Ele nos disse algum nome, algo como Stra. Não, era algo parecido… Deixe-me pensar… Isso! Era Star.

— Ah, sim, obrigado. Gostaríamos de nos acomodar, se não for incômodo.

Após entrarem na casa, todos se sentaram na sala, sem dizer uma palavra.

— Tá, se ninguém vai falar, eu falo. É com certeza o Reid, né? — Disse Valkyrie.

Todos, menos Elise, assentiram. Jin percebeu que ela estava confusa e explicou:

— Reid Star, esse é o nome dele. Não foi muito criativo.

Uma expressão de realização percorreu o rosto de Elise.

— O que vamos fazer? Vamos atrás dele agora? — Perguntou Trevor, que estava sentado numa poltrona.

— Você limpará sua espada e tomará um banho. Na verdade, todos vão tomar um banho. Não se esqueça de limpar sua espada. Nunca. — Acrescentou Jin, enquanto pegava a espada da bainha de Trevor. — Olha só, seus pais devem ser bem ricos. Aço de paládio é um tanto raro. Bem leve também; boa escolha. Eu ofereceria um florete, mas essa caiu bem. — Disse Jin, devolvendo a espada para Trevor e puxando a sua própria.

Era simples, mas muito afiada. Quando Jin golpeava o ar, ouvia-se o som fino cortando o vento.

— Planejava dar ela para Reid; ganhei como pedido de desculpas de um conhecido.

— Parece confiável. Não vai dar nenhuma das suas espadas especiais para ele? — Elise perguntou, enquanto pegava a espada da mão de Jin. Diversas faíscas saltaram da lâmina quando ela golpeou o vento.

— Quero dar uma delas, mas Reid ainda precisa se provar. Essa será suficiente.

— Allastor declararia uma guerra por aquela espada negra.

— Algum dia pretendo entregá-la a ele, mas não em tempos de paz. — Jin guardou a espada na bainha e olhou para as crianças. — Vamos, andem. Amanhã vamos atrás dele; escolham um quarto.

Valkyrie e Trevor escolheram um quarto cada e entraram.

— Então… se eu não estou enganada, só sobrou um quarto, né? — Disse Elise, enquanto chegava devagar por trás de Jin.

— Você pode ficar com ele; eu durmo aqui na sala mesmo. — Jin respondeu, enquanto tirava seu equipamento e deixava a espada de Reid em cima da mesa.

— Nem comece. Vamos logo. — Elise puxou a mão de Jin e o arrastou até o maior quarto.

— Onde fui me meter… — Disse Jin, soltando um suspiro.

 

 

O dia começou bem cedo, com Jin sendo o último a acordar. Todos estavam sentados à mesa com uma garota na cozinha.

— Bom dia, pessoal.

— Bom dia, senhor Jin! — Respondeu um animado Trevor.

Valkyrie e Elise estavam de boca cheia e só acenaram com a cabeça.

— E você, quem é? — Jin perguntou à garota que estava em pé na cozinha.

— Sou apenas a encarregada de limpar e cozinhar, senhor.

— Nome grande o seu, então. Diga-me: você serviu o último rapaz que se hospedou aqui?

A garota ficou vermelha como um tomate.

— Aquele garoto indecente? Sim, servi. — A garota estava de braços cruzados e olhava para o chão.

Valkyrie, que estava com a boca cheia, engasgou-se e começou a tossir. — Indecente? Reid?

— Ele não usa toalhas quando sai do banho. Eu o vi duas vezes… pelado!

Valk estava em choque. Foi um soco no estômago.

— Haha! Você demorou demais, Valk. — Disse Trevor, dando uma risada e, antecipando o soco que viria, esquivou-se.

— Demorei para quê, exatamente? Seu idiota. Ele não é nada meu.

Jin olhou para Elise, que agora levantava as sobrancelhas.

— Mas não se preocupem, ele é um garoto legal; foi sem querer. — Disse a garota, agora percebendo o que estava acontecendo.

— Certo, todos vamos comer. Temos que achar um rapaz. — Disse Jin, agora sentando-se à mesa e puxando uma cadeira para a garota.

 

 

Jin já havia conversado com o ancião sobre o rumo que Reid seguira. Agora todos seguiam em direção ao rio. Elise assumia a vanguarda e guiava o grupo; Jin mantinha-se a quinze passos atrás dela, e logo atrás, Trevor e Valkyrie andavam em completo silêncio.

— Valk, o que aquele homem quis dizer quando disse que eu só precisava reproduzir para ser valioso? — Perguntou Trevor, enquanto olhava fixamente para os seus pés.

— Oh! Eu… — Aquela pergunta pegara Valkyrie de surpresa, mas a fez lembrar de uma conversa que tivera com seu pai há muitos verões. — Trevor, quantos elfos você já viu fora do seu vilarejo?

— Acho que uns dois, sem contar meus pais. Por quê?

— Elfos têm bastante dificuldade em engravidar e têm afinidade para a magia. Isso faz com que humanos, humanos ruins, os vejam como meios para um fim cruel. Muitos meio-elfos nasceram depois da guerra entre as duas raças.

Trevor ficou calado. Era verdade que não havia visto muitos elfos após sair de seu vilarejo, mas isso era coincidência — ao menos era isso que achava. Sempre pensou que Qudu não fosse uma cidade agradável para sua raça.

— Somos como mercadorias para vocês…

— Não! Trevor, quase todos os humanos os veem como irmãos. Só alguns vermes tentam produzir magos usando-os para isso. — Valkyrie parou e agarrou os ombros de Trevor, fazendo-o encará-la. — Você acha que sou assim? Você acha que Jin é assim? Você acha que Reid é assim?

Trevor balançou a cabeça. — Não, claro que não! Me desculpe, me perdi em meus pensamentos. — Valkyrie soltou os ombros dele e continuou andando. — Obrigado, Valk…

 

 

— Aula dois: quem aqui já rastreou um animal antes? — Perguntou Jin, chamando a atenção de todos com uma fagulha roxa flutuando em seu dedo.

— Eu já. Meu pai me levava para caçar. — Respondeu Valkyrie, dando um sorriso de leve.

— Imaginei que sim. Bjorn era viciado em caçadas, ele e Allastor. — Disse Jin, dando uma risada.

— Allastor costumava caçar javalis gigantescos e ficava a noite inteira limpando-os. — Complementou Elise, que agora parara de andar.

Estavam à margem do rio meio congelado. Diversas pegadas estavam espalhadas pelas duas margens. A neve havia parado de cair, e agora os animais se adiantavam para se saciarem.

— E qual o primeiro passo para se localizar um animal? — Jin estava agora analisando o rio.

— Identificar qual a espécie e as pegadas.

— Me pergunto qual tipo de pegadas a espécie do Reid deixa. — Trevor brincou, enquanto bebia um gole de água que havia invocado com magia.

Ambos passaram cinco minutos procurando por pistas até que, do outro lado do rio, jaziam pegadas de botas. Jin construiu uma ponte com magia de terra. Era majestosa. Tinha cerca de três metros de comprimento. Ver Jin usar magia com tanta facilidade era lindo. A ponte demoraria cerca de dois meses para ser construída por pessoas não magas, e ali estava, em dois minutos.

— Certo, sigam as pegadas e procurem qualquer sinal de magia de fogo ou elétrica. — Jin olhou para Elise, e em milésimos ela entendeu por que Jin a chamara.

— Jin nunca usou magia elétrica. — Responderam Trevor e Valkyrie ao mesmo tempo.

— Pode ser que ele não se sentisse confiante o suficiente para mostrar, mas Reid tem potencial para superar alguém aqui entre nós. — Disse Jin sobre seu ombro, ignorando o olhar de todos.

— Mas ele já é melhor que nós dois…

— Andem! Já passou do meio-dia; precisamos achar algum lugar para passar a noite. — Disse Elise da vanguarda.

— Qual é a dela? — Perguntou Valkyrie para Trevor, que deu de ombros.

 

 

Duas horas depois, chegaram à primeira pista do paradeiro de Reid.

— Isso são goblins? — Perguntou Valkyrie, com um certo nojo na voz.

— Goblins torrados. — Trevor chutou um deles.

— Reid escolheu acabar com eles por fora. Garoto esperto. — Admitiu Elise, cruzando os braços.

— Realmente. Ele parece ter usado algo como isca e queimado eles de cima de alguma árvore. Esperto. — Os olhos de Jin estavam se movendo em velocidade máxima. — Doze goblins com um único feitiço, provavelmente uma bola de fogo. Deve ter usado algum encantamento. Mesmo assim, nada mal. — Jin estava agora analisando toda a cena e brincava com uma bola de fogo na palma de sua mão.

— Quantos goblins o ancião disse que podiam existir? — Valkyrie cuspiu no chão.

— Mais ou menos uns sessenta. Mas goblins são muito voláteis; números são só uma base. — A bola de fogo, que agora assumia uma cor roxa fantasmagórica, aumentava e diminuía de tamanho na mão de Jin.

— Planeja atravessar a montanha com esse feitiço? Desfaça ele, logo! — Bufou Elise para Jin, que imediatamente dissipou a bola púrpura.

— Vamos continuar.

Enquanto andavam, mais grupos de goblins mortos foram investigados. Cada novo grupo encontrado tinha menos criaturas mortas.

— Ou eles ficaram desconfiados, ou os soldados descartáveis ficaram em falta. — Concluiu Valkyrie, com um lenço cobrindo o nariz.

— Boa observação. Percebam que Reid diminuiu a potência dos feitiços; desse modo, ele não gasta mana sem necessidade. É isso ou já estava ficando esgotado. — Jin estava completamente concentrado; o vento ao seu redor estava denso, e folhas dançavam uma valsa na espiral.

— Você está bem animado, não? Me lembrou dos velhos tempos. — Elise disse, enquanto assumia a vanguarda e forçava o grupo a continuar.

— Estou? Não percebi. — Jin andava cada vez mais rápido, até que viu o grupo de goblins com um hobgoblin entre eles. — Olhe só, Elise, um hobgoblin!

— Estou vendo. Seu garoto está em perigo…

— Pois é…

— Do que vocês dois estão falando? Ele não matou a criatura? — Valkyrie estava agachada ao lado do corpo.

— É, ele não matou? — Trevor também perguntou.

— Bom… colônias de goblins que têm hobgoblins saindo em patrulha geralmente têm um xamã e vários hobgoblins mais fortes. — Jin respondeu, com sua mente em outro lugar. Seria Reid forte o suficiente para matar um xamã?

— Xamãs são traiçoeiros; ao contrário de hobgoblins, eles são mais inteligentes e articulam bem seus planos. Reid pode estar morto a essa hora. — Elise respondeu, enquanto analisava para onde Reid poderia ter ido.

— Não fale isso! Reid não morreria para um grupo de goblins fedidos. — Trevor bufou.

— É, ele não morreria tão facilmente. — Concordou Valkyrie.

— Silêncio.

— Hã? O que aconteceu?

— Silêncio, os dois. Jin está utilizando magia de localização.

Alguns segundos se passaram em completo silêncio, com os três se olhando, a magia de Jin consistia em sentir rastros de mana e criar uma espécie de mapa mental deles. Quanto mais habilidoso o alvo, mais difícil era localizá-lo.

— Achei a caverna. Vamos.

 

 

A entrada era meio macabra e passava uma sensação desconfortável. Jin entrou de uma vez, sem passar instruções para o grupo. Goblins estavam jogados no chão, diversos deles. Em um canto da caverna, alguns estavam amontoados.

— Só vejo os soldados rasos mortos… — Elise mantinha o ritmo de Jin, mas analisava o ambiente.

Jin não respondeu e continuou avançando; sua mente trabalhava o máximo que podia.

— Jin! Para!

— Quê?

— Ali no canto, olhe!

Três hobgoblins jaziam mortos, desfigurados e sem sangue à vista.

— Ele os matou? — Valkyrie perguntou, enquanto mantinha distância da pilha de corpos.

Jin continuou avançando pela caverna, agora um tanto mais calmo. Em frente ao portal de pedra estava o corpo, sem um braço e com diversas marcas de batalha, medo em seus olhos sem vida. Aquilo pegou todos de surpresa, tanto que Jin usou magia de terra para fazer uma cadeira e sentar-se por um momento.

— É, agora entendo o motivo de você estar tão animado. — Elise estava sentada no braço da cadeira conjurada por Jin.

— Alguém pode explicar o que foi tudo isso? — Valkyrie perguntou, enquanto se escorava em uma parede longe dos corpos.

— Também estou confuso. — Trevor estava conferindo o corpo do xamã.

— Olha, poucas pessoas limpariam um ninho de goblins desses sozinhas. Matar um xamã é algo que alguns aventureiros de nível prata ainda não fizeram, mesmo com grupos formados. — Elise respondeu, enquanto esperava alguma resposta de Jin.

— Reid quase morreu. — Jin disse do nada.

— Como assim? Ele não limpou o ninho? — Trevor havia pegado um colar que estava no pescoço do xamã. Era leve e carregava um pingente de pedra negra.

— Ele não morreu, mas está em um estado bem ruim. Devemos encontrá-lo logo.

— Agora que você disse isso, como vamos encontrá-lo? Não vi nenhuma pegada na entrada da caverna. — Valkyrie vasculhava um baú em um canto da caverna e só encontrou um pedaço de carvão.

— Tem um pequeno vilarejo aqui perto; precisamos ir. — Jin estava melhor, mas aquele sentimento ruim não saía de seu peito. Reid quase morreu por algumas moedas? Era isso que um bom mestre deveria ser?

Saindo da caverna, Trevor viu marcações nas paredes que remetiam a escritas élficas. Eram bem informais e diziam sobre um ser amaldiçoado. No final da escritura, rabiscos em forma de fogo caíam do céu. Trevor ficou com aquilo na cabeça. Seria só um desenho?

Enquanto chegavam à entrada do vilarejo, foram surpreendidos por um garoto de não mais de doze anos. Ele empunhava um florete um tanto grande para seu corpo. O garoto avançou contra Jin, tentando perfurar seu flanco direito. Jin desviou instantaneamente e sacou sua espada. Derrubando o garoto com um chute em suas pernas, pressionou a espada no seu pescoço até que Elise interveio.

— É só uma criança, Jin!

— Crianças não sacam espadas e atacam como ratos.

— Diga seu nome, garoto! — Elise estava tentando puxar a espada do pulso, mas Jin não estava vacilando com sua força.

— Eu não tenho um nome! — Cuspiu o garoto, agora sem forças para lutar contra o pé que Jin tinha sobre seu peito.

— Ei! O que vocês estão fazendo? Parem com isso! — Gritou uma mulher que vinha correndo, saindo de uma das casas.

— Não se meta; este rato tentou me atacar. — Jin continuou a resistir às tentativas de Elise de afrouxar seu pulso.

— Por favor, senhor, ele foi o único homem que sobrou! Ele estava guardando o portão contra os goblins. Tenha piedade! — A mulher estava de joelhos agora.

O pulso de Jin afrouxou na hora. Ele tirou a espada do pescoço do garoto e levantou seu pé. Instantaneamente embainhou a espada de Reid e pegou o florete do chão.

— Levante-se, garoto.

Lentamente, o garoto ficou de pé e cuspiu no chão, com a cabeça abaixada.

— De quem era esse florete? Você o roubou?

— Óbvio que não; era do meu pai.

Era um florete bem-feito; não tinha nada de mais, mas era confiável. Seria provavelmente a arma de um aventureiro de pouco sucesso. Jin estendeu a arma para o garoto.

— Me desculpe, senhor. Eu só estava tentando defender o resto da vila. Depois que aqueles vermes vieram, eles… mataram todos os homens e levaram muitas mulheres. Meu pai me deixou a espada antes de morrer. — Os olhos do garoto eram verdes como musgo; tinha uma aparência desgastada, a aparência de alguém que teve que envelhecer muito rápido.

Jin se sentiu mal pelo garoto, mas algo na sua mente o impossibilitava de pedir desculpas no momento.

— Falando nisso, vocês viram algum garoto de cabelo castanho, meio surrado? — Perguntou Valkyrie, falando pela primeira vez desde a caverna.

— Ora, eu estava cuidando dele agora mesmo. Minha filha voltou da caverna. Graças aos deuses, ele a salvou, mas desmaiou no processo, então ela o arrastou até aqui. — Disse a mulher, apontando para a casa de onde saíra.

— O que ele tem? Sabe nos dizer? — Jin estava andando em direção à casa.

— Quebrou algumas costelas e tem queimaduras pelo corpo, alguns cortes também. — A mulher partiu em direção à casa junto ao grupo.

— Você é uma curandeira?

— Não, senhor, só sei algumas coisas que minha avó me ensinou, o básico.

— Sabe usar magia de cura?

— Olhe para mim e depois para a nossa vila. Não, eu não sei usar magias ou algo do tipo.

Reid estava deitado no meio da casa. Tinha várias bandagens enroladas no corpo; ao seu lado, uma garota dormia segurando sua mão. Reid estava em um estado de sono bem profundo, mas tinha algumas expressões ocasionais no rosto.

— Nossa, ele tá estourado. — Trevor soltou.

— Eu nunca o vi tão machucado assim. — Valkyrie soltou, ao se curvar para ver melhor.

— Ele não parece tão ruim, considerando o que ele fez. — Elise estava escorada na porta.

— O dano foi interno; precisamos de uma curandeira. — Jin finalmente relaxou. Reid estava "bem", e era isso que importava.

— Ele está dormindo há muito tempo?

— Três dias. Minha filha não saiu do lado dele esse tempo todo.

— Sua filha teve muita sorte em sair viva de um covil de goblins. — Jin curvou-se. — Obrigado por cuidar de Reid, de verdade.

Todos do grupo seguiram o exemplo, menos Elise.

— Ora, deixe disso. Se não fosse por ele, minha filha estaria morta agora, ou pior… — Uma expressão sombria veio ao rosto da mulher, que logo se dissipou. — Isso é o mínimo que eu poderia fazer.

— Cuidarei disso. O Rei Allastor ficará sabendo da situação deste vilarejo e enviará homens para reconstruir e cuidar da segurança. Você tem minha palavra. — Jin continuou curvado.

— Sou muito grata por isso, mas qual o seu nome, meu senhor?

— Jin Haruto, sou um espadachim.

— Eu já ouvi falar sobre você, mas nas histórias você era um mago. — Disse a mulher, coçando a cabeça.

— Enfim, Allastor agirá pelo vilarejo.

A garota que estivera dormindo ao lado de Reid acordou de repente. Meio surpresa e um tanto assustada, ela levantou-se do chão e espremeu-se ao lado de sua mãe.

— Essa é a Rebecca, a garota a quem Reid salvou. Diga "oi", meu bem. — A mulher disse em um tom de voz imperativo.

— Olá…

— Obrigado, Rebecca, por trazer Reid depois que ele desmaiou.

— Na verdade, foi ele quem me salvou. Depois que os goblins começaram a brigar entre si, achei que era questão de tempo até ser morta. Star chegou bem na hora. — A garota virou-se e olhou para o garoto deitado.

— Vocês aceitam algo para comer? Só temos alguns vegetais que sobraram, mas ficam bons em uma sopa. — Perguntou a mulher.

— Ah, não queremos incomodar. Além disso, precisamos encontrar uma curandeira para Reid. — Respondeu Jin, que agora tinha o olhar fixo em Reid.

— Por favor, deem-me esse prazer. É falta de educação recusar.

— Bom, se você tem certeza, aceitamos.

A casa era bem pequena; tinha dois cômodos: um quarto e a cozinha. Enquanto preparava a sopa, a mulher ofereceu que o grupo se sentasse a uma mesa no meio da cozinha. Meia hora se passara até que a mulher começou a servir nos pratos. Duas conchas foram colocadas para cada um. A sopa consistia basicamente em repolho e batatas, com um pouco de gordura de coelho — o último resto que ela havia guardado.

Valkyrie encarou seu prato por algum tempo; não conseguia sentir apetite naquilo. Quando olhou para o lado, viu que todos na mesa, exceto Trevor e ela, comiam com prazer. Rebecca lambia os lábios a cada colherada. Até Jin comia com prazer. Seria que ela tinha algo de errado?

Depois que todos terminaram, Jin chamou os dois garotos para uma conversa no lado de fora da casa.

— Escutem: quando lhe oferecerem comida, vocês aceitam e comem com prazer. Se alguém com dificuldades lhe oferece comida, você come com mais prazer ainda. Vocês sabem quando essas pessoas vão conseguir comer de novo? — Jin estava com os braços cruzados.

— Eu… eu só não consegui. Me desculpe. — Trevor curvou-se.

— Eu me senti mal por não conseguir comer a comida. Como você conseguiu gostar tanto? — Valkyrie perguntou, com a cabeça baixa.

— Vocês viram como a mulher ficou feliz em nos ver comendo? Para ela, isso é uma honra. Pode não ser muito para vocês dois agora, mas vocês têm tempo. Aprendam isso. — Jin esfregou a cabeça dos dois. — Vamos, vamos pegar o Reid e voltar para Qudu.

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