Volume I
Capítulo 14: A Caverna
A respiração de Reid estava pesada. A neve, somada ao esforço, dificultava tudo. Esse jogo de gato e rato durava uma semana, e os goblins não paravam de surgir como pragas. Com esta última emboscada, totalizavam-se cinco. A carne que Reid trouxera da vila logo acabaria, e ele estava começando a perder a paciência. Os goblins estavam evoluindo. Nas primeiras vezes, eles vinham como cães loucos atrás da carne, mas agora eram comparáveis a ratos: desconfiados de qualquer barulho que escutassem. Desde que Reid começou o 'cerco', os goblins diminuíram os saques e sequestros — talvez por medo, talvez por preocupação, ou por estarem muito ocupados.
O cheiro de carne queimada após os ataques de Reid era intoxicante. Ele já havia visto ruas de Zammor mais cheirosas. Ocasionalmente, um goblin ficava desesperado e tentava fugir escondendo-se, apenas para morrer. Provavelmente, aprenderam isso dos humanos — um pensamento que dava um frio na espinha de Reid. A magia de fogo estava se provando muito útil contra os goblins. Geralmente, um feitiço de bola de fogo bem condensado e entoado por alguns minutos já era suficiente para um grupo de doze goblins, contando que estivessem todos brigando pela carne. No entanto, o que preocupava Reid era que ele só havia matado goblins rasos; nenhum goblin mais forte havia aparecido.
Suspeitava que os mais fortes estavam controlando a comida no inverno, forçando os mais fracos a sair em busca de alimento. Isso era, em sua essência, bom para Reid. O inverno havia retardado as ações da "colônia", dando-lhe tempo para planejar uma invasão com defensores mais fracos e menos populosos na caverna. A prioridade eram as mulheres que ainda estivessem vivas, seguidas pelo xamã e, depois, pelos hobgoblins. A caverna era uma incógnita; no mapa da missão, não havia nada sobre sua estrutura. Ele teria que conquistar territórios, e era essencial que nenhum goblin sobrevivesse. Eles eram pragas.
Hoje, Reid decidiu cessar as emboscadas e planejar a invasão. Arrumou suas coisas no acampamento e preparou-se para dormir em uma árvore meio forçada, elevada do chão. Por volta das três da manhã, Reid escutou o que já esperava: passos. Desde o segundo ataque, os goblins sempre enviavam uma patrulha depois que o primeiro grupo não voltava.
No entanto, um passo estava mais alto que os outros. Era um hobgoblin, muito maior e mais forte que os demais, carregando uma clava de madeira do tamanho de um goblin raso. Usava trapos como roupas — um hábito aparentemente adquirido dos humanos. A maioria dos goblins rasos andava sem roupas, mas os mais fortes gostavam de imitar suas vítimas. Eles estavam buscando algo; com certeza era comida. Reid nunca deixava nenhum goblin voltar após as emboscadas.
Agora, ele tinha que fazer uma escolha: atacar esse grupo e diminuir os números, ou deixá-los passar e invadir a caverna imediatamente, no meio da madrugada. Decidiu atacar. A prática com a magia lhe dera algumas vantagens.
Usaria a sua querida bola de fogo, munida de um encantamento que aprendera; o encantamento deixaria as chamas mais escuras, menos voláteis. Reid decorara cada palavra do livro de Allastor. Era sua magia preferida, por um motivo. O fogo, ao contrário de quase tudo em sua vida, nunca o falhara. O garoto lembrava-se bem de quem mais o ajudara a descongelar suas mãos enquanto cavava os dois túmulos.
Esperou o grupo passar por debaixo e andar cerca de três metros à frente; então começou a condensar a magia e entoar seu cântico:
Pater oramus pro animabus eorum qui in te peccaverunt
Oramus pro libertate quae hic et nunc praesto est
Hanc petitionem a fidelissimo servo tuo
Permitte spiritum meum ut inveniam te
Domine da mihi fortitudinem tuam in hac hora
Igne purgatorii eos redde
Fortissimum flamma est pater tuus
Esse era o melhor encantamento para a bola de fogo. Era curto comparado aos outros, mas muito difícil de memorizar, pois a língua era muito antiga. Reid só sabia que tinha a ver com força emprestada. Com a mão apontada para o maior do grupo, as chamas assumiram um tom de vermelho pálido. Soltou o feitiço, atingindo o grupo em cheio. Os gritos que se seguiram foram bizarros: o maior gritou como um bisão, enquanto os menores agonizavam. Cerca de vinte segundos depois, todos os goblins estavam mortos, carbonizados no chão — todos, exceto o hobgoblin. Ele estava em pé, furioso, procurando o causador de tudo aquilo. Sua clava? Em chamas e incontrolável.
Reid não podia lançar outro feitiço. Aquela simples bola de fogo, entoada com cânticos, consumiu uma grande fatia de sua mana. Teria que resolver na mão. Descendo cuidadosamente da árvore, gritou para atrair o grandão. Aqui de baixo, ele era ainda mais assustador. Era maior que Reid, e sua pele queimada só tornava tudo mais sinistro. Assim que bateu os olhos em Reid, a criatura ficou louca, partindo para cima dele. A postura que Reid assumiu era a mesma que havia usado com Allastor. Ele era mais fraco que o hobgoblin, mas esperava ser melhor na esgrima. Só tinha a adaga que tomara emprestada do ancião da vila.
Olhando de fora, uma clava grande de madeira em chamas parecia mais forte que uma adaga de trinta centímetros, mas Allastor sempre dizia que o guerreiro importava mais que a arma. Reid esperava do goblin uma velocidade igual à de Allastor, mas deve ter superestimado a criatura. Comparada a Allastor, era consideravelmente mais lenta. Dando um passo para a esquerda, Reid desviou do primeiro golpe que veio de cima. O vento foi cortado no lugar do golpe; pelo visto, a força da criatura era seu trunfo.
Bom para Reid: ser rápido era sua chance. Enquanto se esquivava do segundo golpe, que veio imediatamente pelo seu flanco esquerdo, Reid tentou perfurar a perna da criatura... THUM. Um golpe em cheio, mas sem perfuração. A pele era muito grossa para sua adaga. Teria que achar um modo de penetrar a pele. O vigor da criatura parecia não diminuir. Estava em uma tempestade de golpes incessantes. Reid ainda conseguia acompanhar, mas sabia que, se fosse acertado por um daqueles golpes, estaria em maus lençóis.
Tentando criar uma abertura, Reid percebeu que o goblin assumia uma postura mais defensiva sempre que ele se aproximava de seus olhos. Foi então que mudou todo o seu foco e decidiu mirar ali. Assumindo a ofensiva, começou a procurar brechas na defesa da criatura. Dando um passo em falso, Reid usou a mesma estratégia que havia usado contra Allastor: uma finta falsa, seguida de um golpe nas pernas e, então, o verdadeiro golpe.
No entanto, agora havia sido muito mais fácil. Talvez esse goblin não tivesse tido tantos combates, ou talvez a bola de fogo tivesse sido mais efetiva do que parecia. Em instantes que pareciam desacelerados no tempo, Reid chutou o joelho da criatura e, então, golpeou seu olho direito. O urro que se seguiu foi assustador. Se sua pele não havia sido perfurada, seu olho estava em frangalhos. A adaga de Reid ficou presa na cara da criatura, que agora estava ainda mais furiosa. Em um momento de adrenalina, a criatura usou uma finta falsa, igual à de Reid, e acertou seu peito em cheio com a clava.
A sensação foi igual a afogar-se: todo o ar saiu de seu peito, e o movimento natural de respirar já não estava disponível. Caindo para trás com o golpe, Reid ficou atordoado. Era ali que morreria, de um modo patético, por um descuido. Ao menos pensou que encontraria sua mãe; muitos anos haviam se passado desde sua morte, e ele sentia saudades dela todos os dias. Era questão de segundos até que a criatura viesse terminar o que havia começado.
Um pulso de desespero percorreu Reid. Suas mãos procuravam algo, qualquer coisa que pudesse salvá-lo, e então encontrou uma colher caída da árvore onde estavam suas coisas. Uma colher de metal teria que servir. Ainda atordoado, Reid esquentou a colher com o pouco de magia que ainda conseguia usar, queimando a mão no processo. Ele levantou-se e encarou o goblin, sabendo que só teria uma chance. A criatura avançou, ainda com a adaga encravada em seu olho direito. Reunindo toda a sua força, o goblin golpeou verticalmente o ombro direito de Reid. No último segundo, Reid jogou-se para trás, desviando do ataque, e avançou.
Com a clava batendo no chão, era o fim para o goblin. Reid enfiou a colher no olho esquerdo dele, queimando-o profundamente. Os gritos que se seguiram poderiam ser ouvidos por muitos quilômetros; os espasmos de dor reverberavam pela floresta. Pegando a adaga de volta, Reid a enfiou repetidamente no pescoço da criatura, acabando com o sofrimento de ambos. Exausto, Reid caiu de costas, recuperando o fôlego por vários minutos enquanto a neve caía ao seu redor.
Depois de algum tempo, Reid recuperou a consciência. Uma dor agonizante vinha da mão esquerda. Quando olhou para ela, viu a queimadura que a colher havia deixado. Instintivamente, pegou neve e apertou-a contra a queimadura. Arrancando um pedaço de pano, amarrou a mão, deixando-a fechada com neve.
Era hora de avaliar os danos. Seu peito parecia bem, mas doía quando ele se mexia muito. Provavelmente tinha quebrado algo. Sua mão era inútil nessa situação. Fora isso, poucos danos relevantes. Precisava mexer-se; havia o risco de outro grupo sair para patrulhar. Teria que esconder-se. Como última alternativa, subiu em uma árvore próxima. A experiência foi torturante, e a dor que sentia aumentou, mas agora, pelo menos, estava longe do chão.
Então, Reid apagou.
Cerca de dez horas haviam se passado quando Reid finalmente acordou de sua hibernação. Estava de dia agora, por volta das duas da tarde. O sol estava agradável, e a neve tinha parado de cair. A barriga de Reid doía, menos que o peito e a mão. Não era surpresa que sua mão estivesse melhor; tantas horas com neve pressionada na queimadura fizeram com que diversas bolhas se formassem. Agora, a neve só atrapalhava a cicatrização.
Livrando-se do pano que amarrava a neve, desceu a árvore o mais devagar que pôde. A dor no peito ainda era agoniante; havia quebrado algo, com certeza. No chão, a pilha de corpos carbonizados estava do mesmo jeito. Perto dela, alguns itens de acampamento e, mais longe, o corpo do hobgoblin, queimado e congelado.
Era uma imagem bizarra, como se o fogo tivesse congelado e queimado o corpo ao mesmo tempo. A clava, agora, não passava de carvão. A colher estava ao lado do corpo, sem mais serventia. Precisava decidir o que fazer dali em diante. Não queria voltar para a vila e deixar que os goblins se estabilizassem. Teria que entrar na caverna, mas agora só queria comer algo.
Procurando em suas coisas no acampamento, encontrou um saco com algumas sementes e um pedaço de peixe defumado. Teria que servir. Juntou um pouco de madeira e a aqueceu com magia de fogo. Depois, com uma fogueira acesa, derreteu a neve. Pegando uma panela, simplesmente jogou as sementes e o peixe na água, formando uma espécie de 'sopa' sem gosto algum. — Melhor que nada. — Ele pensou.
Com o estômago agora enganado, Reid precisava acabar de uma vez com a missão. Andando cautelosamente na camada de neve que cobria o chão, ele se dirigiu à entrada da caverna. Um cheiro estranho, provavelmente de enxofre, permeava o ar. Nenhum som podia ser ouvido além de sua própria respiração. Fazendo o possível para ser furtivo, Reid avançava cautelosamente.
O interior da caverna era estranho em muitos aspectos. Reid já tinha entrado em divisões sem saída e tido que refazer seu caminho; lembrava muito a um labirinto. Reid duvidava que os goblins pudessem usar magia de terra para moldar a caverna, mas a complexidade do lugar era inegável. Cerca de quatro minutos depois, andando cautelosamente, Reid viu uma cena que preferiria não ter visto. Quatro corpos masculinos estavam amarrados em estacas, com mais da metade do corpo faltando.
— Daí que os mais fortes têm se alimentado. — Disse o garoto para si mesmo.
As expressões nos rostos dos homens eram todas iguais: agonia? medo? dor?
Mais à frente, o primeiro grupo de goblins estava postado; alguns visivelmente passavam fome, e outros dormiam. Se eram guardas, eram péssimos nisso. Sua antiga técnica de furtividade foi acionada; era até estranho que tivesse parado de usá-la. Jin odiava que Reid tivesse sido um ladrão; todo o seu passado deixava Jin desconfortável. Que escolha tivera? Reid era sozinho em um mundo que não se importava com ele; ninguém o ajudara. Reid agradecia por ter sido um ladrão e por ter sua técnica.
Os goblins nem notaram que sua morte se aproximava; Reid mancava e se contorcia de dor a cada passo. O primeiro morto foi o que estava mais postado; era provavelmente o único que tinha tido coragem de roubar a 'comida' dos mais fortes. Nenhum som foi emitido além da adaga deslizando por seu pescoço. Segurando o corpo para que não caísse e alertasse os outros, Reid o moveu devagar para um canto da caverna.
Agora, somente dois estavam acordados; um virado para o outro, conversavam em sua linguagem, e o tom era agressivo. Pegando uma pequena pedra, jogou-a em um canto diferente daquele onde estava o corpo do primeiro goblin; esperava atrair somente um deles, mas a burrice da raça era seu maior trunfo. Os dois se viraram e foram investigar o barulho; um deles ficou irritado e deu um tapa no outro. Talvez a fome tenha sido a maior causadora da confusão, mas eles estavam no começo de uma briga quando Reid interveio.
Caminhando em direção ao goblin mais agressivo, Reid golpeou seu calcanhar por trás, fazendo-o cair de joelhos com enorme confusão e espanto de ambas as criaturas; então, Reid enfiou a adaga na jugular do goblin. Uma quantidade considerável de sangue começou a jorrar; um único grito mudo foi emitido pela criatura. O outro estava em choque; foi tão repentino que era como se ele tivesse morrido do nada. A criatura simplesmente caiu de joelhos e começou a chorar; aquilo pegou Reid de surpresa.
Não sabia que goblins podiam chorar; nunca tinha visto nenhum deles exibir emoções iguais a essa. Reid vacilou, deu um passo para trás. Por quê? Justo neste momento ele estava recuando? A criatura estava ali, vulnerável, só esperando a morte. Sua técnica, em questão de magias, era bem simples de se manter, mas tinha duas exigências: mana — que era a base de todas as magias — e emoções. Foi o suficiente para que a magia de Reid parasse de funcionar, deixando-o, assim, exposto na 'toca do lobo'.
Então, o inferno começou. Instantaneamente, o goblin que chorava emitiu um grito de alerta, como uma sirene, acordando, assim, o resto da colônia. Os que estavam ali dormindo acordaram com um susto, mas demoraram o suficiente para que Reid se recuperasse; o que havia chorado agora estava morto. Era surpreendente que a adaga ainda desempenhasse tão bem seu papel. O mais rápido que pôde, avançou para cima dos que acabaram de acordar; não podia desperdiçar movimentos, não com o corpo do jeito que estava.
Já tinha matado dois quando sentiu um arrepio na espinha; não só ele, todos na caverna sentiram aquilo. Olhando para trás, Reid viu quem era o causador: era um xamã, e atrás dele quatro hobgoblins jaziam mortos. O xamã estava bem ferido, provavelmente tinha lutado contra os outros quatro hobgoblins pela liderança do bando. Respirava profundamente e tinha perdido um braço; era quase cômico o modo como segurava seu cajado. Ainda assim, ele não parecia ter desistido da vida; olhava para Reid com ódio e vontade.
Mesmo sem o braço, lançou um feitiço de terra. Eram basicamente três espinhos afiados de terra. Tinham uma velocidade impressionante; se não estivesse atento, talvez Reid tivesse sido atingido sem nem reagir. Depois que viu o garoto desviar do primeiro feitiço, o xamã instantaneamente conjurou uma gaiola de terra ao redor de Reid, que conseguiu desviar por muito pouco.
Reid atirou um feitiço de combustão na direção da criatura, que se protegeu com magia de água. Até agora, Reid tinha algumas informações úteis sobre o goblin. Estava evitando um combate corpo a corpo e focando só em manter a distância; podia usar magias dos elementos de água e terra. E estava muito machucado; teria que chegar perto da criatura o quanto antes. Nesse meio-tempo, Reid percebeu algo estranho: o xamã estava protegendo algo ou alguém, ficava sempre entre Reid e uma espécie de 'portal' de pedra.
Conjurando uma bola de fogo fraca, Reid pensou em usá-la mais como uma distração do que para causar danos. Atirou na direção do goblin, que, por sua vez, fez sua defesa com uma parede de água. Enquanto o goblin estava ocupado com sua magia, Reid avançou com a adaga empunhada. Reagindo, a criatura tentou parar seu próprio feitiço. Tarde demais: o primeiro golpe atingiu-o na bochecha direita. Entrando em pânico, o goblin conjurou seu feitiço de espinhos de pedra de novo; agora, no entanto, eles estavam muito mais rápidos. Um deles passou raspando por Reid, rasgando um pedaço de sua calça.
Investindo de novo contra a criatura, Reid usou um feitiço de brasas, jogando em direção ao chão perto dos pés da criatura; era um feitiço que cumpria seu objetivo: distrair. Enquanto o goblin tentava apagar as brasas perto do pé descalço, Reid fez o movimento decisivo. Avançou com tudo que pôde, mas ali seu corpo, pela primeira vez, falhou com ele.
Seus ossos quebrados cobraram um grande preço; foi agoniante a dor que se seguiu. Reid caiu no meio de seu avanço, deixando o goblin perplexo. A cena foi muito rápida: o goblin avançou e chutou Reid nas costas. Enquanto via Reid agonizar, preparou o último feitiço da luta. No entanto, o encontro anterior tinha ensinado uma coisa a Reid.
Ele era mais fraco do que imaginava. Teria que lutar como alguém fraco; não poderia lutar como Allastor ou Jin. Apostando tudo em um truque, pegou a maior quantidade de brasas que conseguiu com uma mão e jogou onde antes tinha sido o braço do goblin, causando um urro de dor agonizante. Ambos caíram ali no chão, sofrendo com a dor.
A dor que o goblin sentiu foi suficiente para que desmaiasse, deixando o trabalho mais fácil para um Reid debilitado. Enfiando sua adaga na dura pele do pescoço do goblin, acabava ali o serviço que pagava uma moeda de ouro. Depois de se certificar de que estava seguro, Reid jogou-se no chão, aproveitando o momento para descansar.
Muito tempo já se passara quando Reid começou a escutar sons de choro e gemidos de dor. Levantando-se o mais rápido que conseguiu, ainda era uma eternidade. Dirigindo-se ao portal que era guardado pelo xamã, o vento gelado corria por dentro da caverna; era ruim, mas era melhor do que ficar lá fora.
O cheiro ficava cada vez pior; lembrava muito o cheiro de carne podre. Nem viver em Zammor, com aquelas ruas podres, poderia ter preparado Reid para a visão que teve. Corpos de mulheres estavam espalhados por todo o chão em uma espécie de 'depósito'; várias tinham partes do corpo faltando. O cheiro era agora insuportável. Havia diversas larvas nos corpos.
Mais para dentro da caverna, havia uma sala separada, de onde vinha o choro. A sala parecia uma imitação de uma casa humana — uma de algum vilarejo humilde. Não chegava a ter móveis, mas tinha imitações deles. Provavelmente já tinha sido o lar de algum humano, antes dos goblins.
Lá dentro, uma garota estava amarrada: a fonte do choro. Estava em um estado péssimo, coberta de sujeira. Tinha alguns hematomas e parecia deslocada do ambiente em que estava. Quando Reid entrou na sala, a garota começou a tremer e ficou calada. Quanto mais Reid se aproximava, mais a garota tremia. Quando chegou ao lado dela, Reid percebeu que ela usava alguns trapos na parte debaixo do corpo, mas estava nua no busto.
— Você ainda está viva? — Perguntou Reid, agachado ao lado da garota.
Ela não respondeu, mas parou de tremer.
— Deixe-me perguntar de novo: você ainda quer viver?
A garota estava forçando os olhos, mas, ainda assim, não respondeu.
— Eu posso te ajudar, caso não queira mais viver.
Ela começou a chorar e finalmente abriu os olhos; eram negros como carvão. A garota era loira e tinha um corpo de quem parecia ter passado fome; sua pele lembrava gelo, e ela tossia ocasionalmente.
— Eu... ainda quero viver.
— Eles já estão mortos, pelo menos os que estavam na caverna; tem mais alguma sobrevivente? — Disse Reid, levantando-se e olhando ao redor.
— Não, eles... os mais fortes brigaram ontem à noite e mataram as outras.
— Você consegue se levantar? — Reid perguntou, enquanto tirava seu casaco.
— Acho que sim.
— Vista isso; vai se sentir melhor. — Disse Reid, enquanto ajudava a garota a se levantar e lhe entregava o casaco de pele, que agora estava em seus piores dias. Fora uma boa compra antes de sair de Qudu; crescer pobre tivera alguns pontos bons, e saber negociar era um deles.
— Você está bem? Está sangrando. — Perguntou a garota, olhando para o peito de Reid.
— Vou melhorar; por enquanto, nós devemos sair daqui antes que alguma criatura apareça.
— Quem é você? Meus pais te mandaram para me salvar?
— Chamam-me de Star, e seu vilarejo juntou-se para pôr uma recompensa pelas moças que haviam sido raptadas. — Disse Reid, agora caminhando com a mulher ao seu lado.
— Entendo...
— Você é bem forte; ainda consegue falar normalmente.
— Eu fui a última a ser raptada; o maior deles, acho que era o chefe, guardou-me naquela sala, e acho que fui a causa da briga entre eles. Ele não chegou a se forçar sobre mim.
— Então você tem muita sorte; espero que consiga superar tudo isso.
— Obrigada...
Depois de algum tempo andando, as pernas de Reid falharam, fazendo-o cair.
— Você não é tão bom com mentiras, Star.
— Eu só preciso, preciso descansar... — E Reid ali, mais uma vez, desmaiou.
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