Volume I
Capítulo 23: Sensação de
O clima estava piorando na cidade de Qudu. O que significava o fim de mais um ano. Em resumo, fazia, agora, dois anos que Reid chegara ao reino. No primeiro ano, o aniversário do garoto não fora comemorado, por escolha dele, mas agora era diferente. Valkyrie estava encarregada da surpresa.
— O Reid já falou que tipo de bolo ele prefere? Estava pensando em creme ou amendoins. — A garota estava sentada em sua cama, na propriedade dos Vykes. Trevor estava deitado ao seu lado.
— Eu não tenho certeza. No aniversário de Jin, ele disse ter gostado do bolo, mesmo sendo simples. Imagino que ele não tenha muitas referências. Lembra de quando fomos àquela padaria pela primeira vez? Tudo era gostoso para ele.
— Você tem razão. Até os pães d'água com açúcar o surpreendiam. Tá, mas mesmo sem base, ele deve ter um sabor preferido. Vamos ter que levá-lo para comer alguns bolos e observar a reação.
— Ótima ideia! Conheço um confeiteiro no bairro residencial que é magnífico. Até mesmo os bolos de limão dele são bons.
— Bom, temos que arrumar uma desculpa para atrair o Reid.
— Acho que nem precisa. É só falar que precisamos descansar do treinamento e merecemos uma recompensa. Ele vai concordar, e aí? Bolo!
Trevor era viciado em doces. Tudo começou com seus pais o mimando, mas era uma verdadeira formiga.
— E sobre os presentes? Não quero dar nada igual, então pode ir falando suas ideias. — Valkyrie levava aniversários bem a sério.
— Eu queria dar um anel daqueles dimensionais. Sabe? Pra guardar coisas em uma aventura.
— Legal! Mas eles não são bem caros? Se não me engano, meu irmão teve que pagar vinte moedas de ouro por um.
— Eles são, sim, mas ganhei um de meus pais não muito tempo atrás. Nunca usei, para falar a verdade. Então imagino que o Reid vá ter um uso melhor para ele.
— Certo. Eu estava pensando em dar uma espada.
— Não, nada de espadas.
— Ué?! Ele disse precisar de uma.
— Sim, mas Jin já vai dar uma para ele. Escutei ele conversando com Elise outro dia.
— Droga! E o que eu dou? Quer dizer, fiquei um tempão procurando uma espada para ele.
— Tive uma ideia. Por que você não dá uma peça de armadura? Lembra que o peitoral de couro dele ficou todo ferrado na caverna?
— Hum, verdade. Cê acha que devo dar um par de luvas de placa ou uma couraça milanesa?
— Que específico. Como você conhece essas coisas?
— Eu tive que aprender. Talvez um bacinete fosse legal também. — Valkyrie estava absorta em seus pensamentos, olhando para o teto com um olhar quase confuso estampado no rosto.
— Acho que um bacinete ficaria deslocado como peça única. Acho que Reid não gostaria de usar nada muito pesado.
— Certo, vou dar um jaquetão e algumas luvas de couro de basilisco então. Vai sair meio caro, mas ele merece.
A pequena reunião foi encerrada com uma data marcada para a degustação de bolos. Trevor voltou para o seu quarto e Valkyrie adormeceu.
Já no forte, uma pessoa não poderia estar mais alheia a que algo assim estivesse acontecendo. Reid acariciava bobamente um Poeira dorminhoco. Estava deitado no chão, com o gato em seu peito.
— Bom, Poeira. Você com certeza tá ficando mais gordo.
O gato deu um miado bem fino. Ele já sabia que Poeira era seu nome.
— E aí? O que você acha que devo fazer? Devo abandonar a magia? Não estou evoluindo nada mesmo. Acho que vou ficar só na esgrima.
Outro miado fino.
— É, talvez você tenha razão. Não estou me esforçando de verdade. Preciso dar tudo de mim.
Poeira começou a ronronar e amassar o peito de Reid.
— Jin disse que com um certo nível de magia voar é muito fácil. Deve ser incrível poder voar sem rumo, sem se preocupar com nada.
O gato ainda amassava o peito de Reid. Parecia até como se estivesse trabalhando. Nesse meio tempo, Reid acabou caindo no sono, sem nem mesmo voltar para a sua cama.
Já o dia seguinte começou um tanto agitado, principalmente pela comitiva de um reino não tão vizinho que chegara a Qudu. Obviamente, Reid não saberia dizer qual reino ou a importância da reunião; isso era com os adultos. Mesmo que ele quase tivesse quinze anos, em alguns dias.
Em meio a pensamentos, o garoto rondava pelo forte, observando os criados preparando jantares, arrumando quartos e servindo os convidados. Eram realmente bem coordenados; parte disso se devia ao tempo em que passavam juntos — o mais velho tinha vinte anos de serviço. Algo peculiar, por assim dizer, era que os convidados não tinham guardas.
— Reid, poderia me dar uma mão? — Um dos servos lutava para carregar uma cesta de compras um tanto pesada.
— Claro. Quanta agitação! Quem são os convidados?
— Você não sabe?! São diplomatas da nação maga. São bem interessantes; até o modo como preparamos a comida foi mudado.
— Oh! Uma nação de magos, hein? Então eles são o contrário do Império?
— Bom, eu diria que sim. Os dois estão em guerra há muito tempo. Se odeiam com todas as suas forças.
— Então o que será que estão fazendo aqui…
— Obrigado, Reid!
O servo se despediu, entrando na cozinha, onde se ouviu um viva.
Reid não era a mais brilhante das flores, mas algo como essa reunião, de uma nação inimiga ao Império, logo após sua tentativa de aproximação, era bem estranha. Quer dizer, de duas uma: ou estavam sondando para saber se Qudu era aliado ou inimigo, ou estavam tentando forçá-los a desistir de uma amizade com o Império. Allastor não parecia nem um pouco tenso com a visita; continuava rindo e contando piadas.
Por volta do meio-dia, o almoço fora servido. Reid não queria, mas fora forçado a sentar-se na mesa principal, que agora estava bem cheia. Presentes estavam Allastor, Cynthia, Maria e Jin. Dos convidados, estavam um homem de cabelos loiros bem longos, uma mulher de aparência experiente — a típica maga — e um garoto de cabelos bem curtos, com uma cor que Reid só pôde descrever como verde. Pareciam mais deslocados ali do que qualquer outra pessoa que Reid já vira. Usavam uma roupa azul com detalhes de trevos negros, e cada um tinha detalhes diferentes em sua roupa; talvez fosse devido às suas afinidades mágicas.
No mais, Reid não precisou abrir a boca mais de três vezes naquele almoço. Cumprimentaram-se e almoçaram. Com certeza queriam conversar com Allastor. Reid viu, algumas vezes, o garoto de cabelos verdes se curvar para Jin. Bom, Jin mencionou uma vez que fazia parte de um conselho de magos; talvez fosse isso. Sem mais o que fazer, Reid decidiu sair do forte para aproveitar o dia ventoso que o agraciava. Em dias como esse, o garoto gostava de deitar-se em algum lugar tranquilo e apreciar o vento que o açoitava.
Decidiu trocar-se primeiro. Subindo as escadas, entrou no seu quarto e catou o primeiro casaco que viu. Não era uma pessoa frienta, mas não gostava de gastar mana aquecendo-se com magia de fogo. Recentemente, Reid tomara gosto por um bosque a alguns quilômetros da cidade. Era bem quieto e Reid podia trabalhar em seu núcleo. Honestamente, até mesmo alguém tão sociável como Reid precisava de um pouco de paz ocasionalmente. Era fácil de ser acessado; no verão, podia-se até mesmo tomar banho no lago que ficava no meio do bosque.
Caminhar no centro da cidade durante o inverno era bem divertido. Todos os aventureiros trajavam peles muitíssimo grossas. No geral, só aventureiros que tinham feito um bom dinheiro tinham grana para boas peles. Obviamente, qualquer pessoa poderia matar um urso-roxo-cavernoso e trajar sua pele, mas poucos artesãos sabiam fazer roupas com maestria. Coureiros não eram abundantes por essas bandas, devido à licença necessária para se operar no reino.
Atualmente, Reid estava na fila de uma barraquinha de caldo. Não era a mais movimentada, mas era a de melhor qualidade — em especial, o caldo de batata-sonífera. Era uma batata bem perigosa se não fosse tratada. O gosto era muito específico: tinha um sabor bem fresco, com semelhança ao coentro, mas com muitos pedaços de carne de gado desmanchando na boca.
— Onde será que compensa comer?
Reid escutou um grupo não muito impressionante discutir ao seu lado.
— Não faço ideia. A gente podia comer naquela ali! — Uma garota com aparência de irmã mais velha apontou para a barraca de assados, a mais movimentada da praça.
— Nem ferrando, Rosa! Lá é muito caro, acho que o que temos aqui não daria nem um pedaço de costela lá. — Um garoto mais baixo que Rosa constatou um fato bem conhecido. Carne não era para todos.
O grupo continha três pessoas. Pareciam ser aventureiros. Não eram bem-sucedidos, como se podia observar pela qualidade de suas roupas, mas também não estavam morrendo de fome. O mais baixo dos três trajava roupas bem finas, mas um casaco bem volumoso. A mais alta trajava roupas bem grossas, mas sem casaco. O outro garoto, que ficara em silêncio até agora, trajava um traje completo de peles de bisão-rasteiro e chamava bastante atenção próximo deles.
— Por que não perguntamos para aquele garoto? — O que estava calado até agora sugeriu. Sua mão estava apontando para Reid.
— Ei! Boa tarde… você sabe onde compensa comer? Quer dizer, não podemos errar, sabe? — A garota alta exibiu um pequeno punhado de moedas em sua mão, enquanto coçava a cabeça com vergonha.
Reid estava sentado na mesa da sua barraca favorita, bebendo seu caldo enquanto observava a cena.
— Depende. Se os três gostarem de caldo, peçam nessa barraca aqui do lado. Qualquer caldo é gostoso, mas recomendo o de batata-sonífera; é mais barato e vem bastante carne.
— Carne?! Tá brincando. Vamos! — O garoto mais baixo puxou o grupo. — Valeu!
Reid observou enquanto o grupo comprava o caldo. Pareciam bem próximos; talvez, se Reid, Valkyrie e Trevor fossem aventureiros, fossem assim também. Enquanto dava uma boa golada em sua tigela de caldo, Reid ouviu vozes se aproximando.
— Ei, se importa de nos sentarmos com você? Tá bem lotado aqui. — A garota carregava duas tigelas de sopa e uma tigela vazia; iriam dividir entre si.
— Não. Fiquem à vontade.
— Valeu! — O garoto mais baixo se sentou, olhando para as tigelas na mão da amiga.
Era uma mesa de quatro lugares; o garoto calado sentou-se ao lado de Reid, enquanto os outros dois se sentaram na frente.
— Bom, acho que agora tá bem dividido. Ainda bem que a moça da barraca nos deu uma tigela extra. Vamos comer!
Ao mesmo tempo, os três deram uma golada bem grande no caldo.
— Cara, você tinha razão, isso aqui é bom! — O mais baixo exclamou para Reid.
— Verdade…
— Bem gostoso. É bem fresco.
— Aliás, desculpem meus maus modos. Me chamo Reid.
— Rosa.
— Tom.
— Sebastian.
— Prazer em conhecê-los.
— Que isso, o prazer é nosso. — Tom, o garoto mais baixo, soltou em meio aos goles de caldo.
— Verdade… as pessoas não são bem… amigáveis com aventureiros mais fracos. Quer dizer, se você for das classes mais altas, até sorvete eles te dão. — Sebastian, o garoto calado, resmungou.
— Pois é. Nosso último trabalho pagou bem, mas não deu pra muita coisa depois de comprarmos as roupas. Sebastian é bem mais friento que a gente, então tivemos que gastar um pouco a mais. — Rosa checava as economias do grupo com uma mão, enquanto tomava colheres de caldo com a outra. — Acho que temos o suficiente para mais dois dias de pousada. Precisamos de mais trabalho.
— Ei, Reid, você é aventureiro?
— Sou, sim, mas estou parado há alguns meses.
— Oh! Você não está a fim de entrar para o grupo? Precisamos de mais alguém na linha de frente. Tom aqui é nosso escaramuçador, se assim pode ser dito. Sebastian é nosso segundo mago e eu sou a primeira maga. Quer dizer, eu só sei curar ferimentos mais simples e lançar magia de água básica, mas o Seb aqui sabe magia intermediária de terra. — Rosa parecia uma irmã mais velha falando de seus irmãos.
— Eu recuso. — O garoto se levantou. — Vejo vocês por aí.
Os outros ficaram com olhares vidrados, observando o garoto se afastar em uma passada lenta.
Reid seguiu rumo ao bosque. Grupos de aventura, hein? Aí estava algo que Reid evitaria. Os primeiros grupos de que participou nunca deram certo. Depois de alguns bons minutos, Reid se viu passando pelos guardas no portão sul da cidade e notou que haviam dobrado a guarda.
— Com licença! Você não pode fazer isso conosco! Somos iguais a todos!
— Novo decreto real! Todos os demônios estão banidos de entrar no reino.
A cena era muito estranha em Qudu. Demônios nunca foram impedidos de circular pelo reino. Uma comoção se formou frente à brigada de guardas. Um grupo de cerca de vinte demônios entrou em desespero; quer dizer, nunca tinham sido impedidos de entrar, tinham negócios, tinham vidas dentro de Qudu.
— Não!
Aconteceu tão rápido… o pandemônio caiu sobre a terra. Um feitiço fora disparado em direção aos guardas. Cerca de vinte feitiços foram disparados de volta, instantaneamente. Reid só teve tempo de gritar para pararem antes de ser atingido por um feitiço perdido. Não sofrera muitos danos, provavelmente por ser um bem fraco. Quando se levantou, o grupo de demônios estava imobilizado, e um guarda estava sendo levado para a curandeira real. Parecia estar mal, de verdade.
— Reid! Você está bem? Espero que não tenha sido grave. — Um dos guardas presentes reconhecera o garoto. Era o que sempre estava na entrada do forte.
— Eu tô bem. Só uma dor passageira. O que caralhos foi isso tudo?
— Ordens reais. Aparentemente, um grupo de demônios muito perigosos tentaria entrar no reino.
— Isso não faz…
Uma nova comoção foi ouvida; um grupo de três pessoas vinha correndo em direção aos dois.
— Ei! É o Reid.
— Você tá machucado! Deixa eu te ajudar.
— A Rosa consegue curar isso, ela é bem boa! — Tom embainhava sua clava. Era bem limpa, mas, fora isso, nada de mais.
Reid não negou a ajuda; ainda doía. Um feitiço de pedra, mesmo que fraco, ainda podia machucar alguém despreparado.
— Agora estamos quites. — Rosa sorriu fracamente para o garoto.
— É, estamos.
— O que vai acontecer com eles? — Sebastian apontou para o grupo de demônios.
— Não faço ideia, garoto. Somos apenas guardas.
O homem voltou para sua guarda, tomando cuidado para não chegar perto dos prisioneiros.
— Aí, cê tava indo pra onde? Saindo pelo portão? — Tom já havia guardado sua clava.
— Eu tinha que ir em um lugar, mas isso aqui matou a vontade.
— Saca só! — Rosa tirou um contrato de missão da guilda de seu bolso. — Conseguimos um trabalho. Precisamos eliminar um tipo de monstro, só que não sabemos qual é.
Reid pegou o contrato para ler.
— É um elemental de gelo. São fracos, mas vocês não vão conseguir matar.
— Cê tá de sacanagem? Podemos parecer fracos, mas não somos qualquer coisa também.
— Calma, Tom! Por que não vamos conseguir? — Sebastian segurava o pequeno Tom.
— Porque vocês não têm magia de fogo, e nem um espadachim. Sua clava até conseguiria ruir a camada protetora do núcleo, mas não no seu nível. Um espadachim mediano poderia perfurar o núcleo. Um mago de fogo, bem, vocês podem imaginar o que ele faria com um elemental de gelo.
— Bom, ele não tá errado. E agora? — Rosa pegou o contrato com certo desânimo. — Não podemos devolver. Precisamos do dinheiro.
— Dane-se! Ele pode até estar certo, mas já passamos por coisas piores. Vamos, confio em nós. — Tom puxou ambos para um abraço.
— Bom… o Tom tem razão. Vamos nessa!
Rosa gaguejou levemente, mas recobrou sua confiança.
— É! Vamos.
Reid viu o grupo se distanciar. Uma sensação machucava seu peito. Era aquilo de novo. Aquela sensação. Essas crianças estavam caminhando para a morte. Igual ao primeiro grupo. A sensação sufocava seu peito.
— Esperem!
Os garotos pararam de andar.
— Vou com vocês.
— O que você vai mudar? Não temos magia de fogo, e você não parece o melhor espadachim que já vimos.
— Sou um mago de fogo.
Os três não conseguiram disfarçar a surpresa.
— Prova… — Rosa pediu, sendo atendida por uma bola de fogo na palma esquerda do garoto, que se dissipou rapidamente.
— Você ia deixar a gente ir, mesmo sendo um mago de fogo? — Sebastian ficou encarando os olhos de Reid.
— Estou aqui, não estou?
— É, está, sim. Vamos nessa.
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