Volume I
Capítulo 24: Outra parte
— Senhores, creio que já deixamos bem claras as intenções de nossos… líderes. — O homem cuspiu no chão ao dizer a palavra. — Gostaríamos de levar as notícias, sejam elas ruins… ou lógicas.
— Terão sua resposta pela manhã, assim como combinado.
— Magnífico. Até mais ver. — O homem se curvou, apontou com o dedo indicador para o seu peito e saiu da sala, sendo seguido por seus acompanhantes.
— Onde está o garoto? — Allastor se jogou em uma poltrona.
— Fora do reino. Meus informantes disseram que acompanhavam um grupo de aventureiros. A garota Lotus os seguia como um lince.
— Está tudo indo conforme você disse, Jin.
Um homem estava parado diante de uma janela. Outrora seus longos e sedosos cabelos estavam em um estado péssimo. O homem fumava um grande charuto.
— Isso aqui é horrível. — O homem jogou o charuto fora, pisando em cima dele. — Não sei como você consegue gostar dessas coisas.
— Esse charuto era bem caro, assim como aquele estoque de bebida que você jogou fora. As crianças pensaram que você tinha bebido.
— Não os culpo. Enfim, tudo está correndo conforme o esperado. Sinceramente, eu não esperava estar vivo até este ponto.
— Ainda bem que você errou nos seus cálculos. Imagine quantas pessoas eu teria matado se você não estivesse aqui. — O homem bebeu um gigantesco gole de cerveja.
— A garota do Império vai continuar até chegar ao ponto-chave. Reid já deve ter percebido.
— Você não tem pena dessas crianças?
O homem se sentou, soltando um longo suspiro.
— Você não faz ideia do quanto. Minha saúde demonstra isso. — Jin condensou uma esfera de mana pura nas pontas de seus dedos. — Não consigo mais fazer coisas como essa sem me esgotar ou sentir uma dor agonizante. Meu propósito de vida é o bem maior.
— Algum dia, quando chegar a hora, você vai ter que contar. Pelo menos para o garoto.
— Eu não sei se vou conseguir olhar nos olhos dele nesse dia. Me prometa, Allastor. Me prometa que vai cuidar dele quando eu me for.
— Eu vou morrer com você, Jin.
— Não diga besteiras. Você não vai cair tão fácil. Sou basicamente um cadáver.
— Você vai manter esse discurso até quando? Tenho dó do tolo que ousar ter a glória de te matar. Quantas cidades?
— No mínimo sete. — Allastor deu uma risada ao ouvir aquilo. — Você sabe quem deve ser esse tolo.
— Eu o conheci. Acredito que ele tentará.
— Tem certeza de que o garoto consegue? Quer dizer, teve o episódio da mão.
— Ele deve conseguir. Outra coisa: não mate a garota do Império. Ela é só mais um peão nesse jogo.
— Deveríamos só matar todos os que estão aqui e destruir o Império. A nação daqueles tolos ficaria feliz em ajudar.
— Você sabe que é isso que querem. Como ficou aquela confusão na entrada do reino, com os demônios?
— Acredito que a mensagem já tenha se espalhado. O Império vai pensar que estamos mudando graças a eles. A nação maga vai ouvir de alguns informantes plantados que é tudo um teatro.
— E os feridos?
— Nenhum demônio se machucou de verdade. Um de meus guardas está se recuperando. A curandeira resolveu bem rápido.
— Menos mal. — Jin encarou a imensidão da noite. — São tempos sombrios os que se aproximam, Allastor.
Uma batida na porta.
— Posso entrar ou vocês continuam brincando de general?
— Entre, Elise.
A mulher estava em toda sua glória, mesmo que usasse trajes pesados de inverno. Estivera fora o dia inteiro. Tinha um pouco de neve nos cabelos.
— Então? Como andam os preparativos?
— Ah, tudo bem. A ruiva confirmou com o elfo. Só falta o tristonho.
Allastor cuspiu sua cerveja.
— Não dê apelidos aos garotos. Vamos partir amanhã. Como anda o treinamento de Reid?
— Ele evoluiu bastante, para falar a verdade. Surpreendeu-me. Acredito que ele queira muito voar.
Jin vacilou, quase caindo no chão. Elise se moveu com uma velocidade extrema para apoiar o homem.
— Você tem certeza de que não existe uma cura para isso? Essa Varíola do Dragão ou algo assim?
— A Varíola do Dragão de Musgo. Não, acredito que não tenha. Ela vai se alimentar de minha mana até o dia em que meu núcleo alcançar um novo patamar.
— E você só vai conseguir esse novo patamar…
— Na morte, isso.
Sempre que o tema da conversa mudava para a condição da doença de Jin, Elise ficava muito para baixo.
— Não chore. Você é muito bonita para derramar lágrimas por algo como eu.
— Você é um idiota… — As lágrimas vieram de qualquer modo.
— Vou dar um tempo para vocês. Vejo você depois, Jin. — Allastor saiu da sala, tomando cuidado para não bater a porta.
Jin se sentou no chão, guiando suavemente Elise para seu colo.
— Já tivemos essa conversa, lembra? Você disse que seria forte por mim.
— Sei… mas é que é tão injusto. — O choro se intensificou. — Você some por tantos anos e, quando volta… volta para mim, você já tem uma merda de um prazo de validade?! Isso é injusto!
— Tá bem, tá bem. Estou aqui. Olhe para mim. — Jin encarou os lindos e chorosos olhos da mulher. — Sinto muito por isso. Vamos fazer tudo o que você quiser.
Elise puxou o choro.
— Jura? — Mais uma puxada.
— Juro. De dedinho.
— Tá bem. De dedinho. Vamos nos casar. — Elise jogou sua carta mestra. Sempre fora seu sonho.
Jin encarou a mulher por alguns longos segundos. Estava em um impasse, mas Elise merecia isso.
— Certo.
A mulher já esperava uma desculpa de que a guerra estava chegando e coisas assim. Tomou um verdadeiro susto.
— Você tá falando sério?! — A mulher apertou o abraço.
— Muito sério. — Elise era muito forte; a força do abraço só crescia. — Elise, você poderia ter mais delicadeza? Meus ossos não são como os seus.
A mulher soltou o abraço imediatamente.
— Desculpa. Você mudou muito, Jin. Eu só queria que isso tivesse acontecido em condições diferentes, especialmente em uma em que você não fosse morrer.
— Você não quer se casar comigo? — Jin fingiu um choro enquanto ria.
— Óbvio que quero, seu idiota. Não vai se livrar de mim.
— Então está decidido. Quer escolher a cerimônia comigo ou já tem algo em mente?
Elise tinha um sorriso tão belo que descrevê-lo era um desafio tão difícil quanto curar Jin.
— Eu sempre quis ter um casamento de igreja… — A mulher mais forte que Jin conhecia estava com vergonha.
— Então é perfeito. Também sempre quis me casar em uma igreja.
Elise se jogou no peito de Jin com tamanha felicidade que podia se agarrar naquele homem pelo resto de sua vida.
— Elise, meu bem. — Jin estava sendo beijado em seu pescoço. — Vamos cuidar da parte menos importante primeiro.
— Certo… — Respondeu Elise, sem fôlego. Lutando para se desvencilhar de Jin.
— Então, você tem alguém na sua família que queira trazer para a cerimônia?
— Eu… quer dizer, você sabe que eles não me querem por perto. — Elise murchou.
— Tudo bem. Eu sou da sua família agora e te quero por perto. — O homem acariciou o cabelo de Elise. — Qualquer um neste mundo que não te vê como você é não merece te ter por perto.
— Você é ótimo nessa coisa de me fazer te amar cada vez mais. E você? Seus pais não querem te ter por perto também.
— Eles não são dignos de serem meus pais. Demorei tempo demais para ver isso. Minha família está aqui. Você, Allastor, Bjorn, as crianças e Cynthia. Quero a capela central. Uma cerimônia digna. Você merece isso.
— Qual sobrenome vamos assumir? Quer dizer, o meu é bem comum. Gosto mais do seu.
— Você quem sabe. Não me incomodo com o seu.
—
Fora da sala, ali perto, outra conversa acontecia.
— Acha que ele está se despedindo?
— Ele já está assim há algumas semanas. Imagino que não esteja muito longe.
— Você não pode estar falando sério…
— Eu gostaria que sim. — Allastor abraçou Cynthia. Estavam deitados lado a lado.
— Você realmente o vê como um irmão, né?
— Ele é meu irmão. Laços de sangue não são nada. — O homem geralmente era a conchinha menor, mas hoje acabou sendo a maior.
— Jin descobriu que a doença tem uma cura bem simples. Seu núcleo precisa ser destruído.
— Então... ele não pode, né? Essa coisa de bem maior, ele precisa do seu núcleo para isso, não?
— Sim. Eu poderia destruir o núcleo dele e fazer a coisa toda eu mesmo.
— Você não vai… eu te proíbo.
— Ele também disse isso. Sei que não posso. Tenho você e Maria. Em qualquer outra época…
— Fico feliz de ter você. Não tire isso de mim. Quero morrer antes que você; não aguentaria a dor de te perder.
— Me entristece que pensemos igual nesse assunto. A dor de te perder seria insuportável.
Rei e Rainha ficaram ali, acariciando-se por muito tempo.
—
O dia começou tão tranquilo como qualquer outro: servos com seus afazeres, guardas trocando seus turnos e Allastor tendo seu treino matinal. O homem se segurava muito para não acordar todo o castelo, então, na maior parte de seu treino, não lutava com tanta vontade. Hoje uma convidada interessante se juntara ao homem.
A mulher irradiava alegria; até mesmo seus golpes acertavam com mais gentileza. Um sorriso estava grudado em sua face, mesmo enquanto o assustador Allastor a golpeava.
— Você com certeza está bem feliz!
— Estou? Nem percebi. — Elise bloqueava golpes e mais golpes, sem desfazer seu sorriso.
— Algo aconteceu? Com vocês dois, quero dizer. — Allastor pingava suor. Não tinha um treino tão bom havia muito tempo.
— Olha, eu acho que você vai acabar sabendo de qualquer jeito, então olha! — A mulher mostrou o anel em seu dedo. — Ganhei hoje de manhã. Acredita? Vamos nos casar!
Allastor tropeçou em seu próprio pé; sua espada caiu no chão. O guerreiro se sentou.
— Casar?
— É! Ele me pediu em casamento ontem à noite e hoje de manhã me surpreendeu com isso. Não é lindo? — O anel era feito de ouro de paládio e carregava uma esmeralda muitíssimo bonita.
— Jin lhe pediu em casamento? Jin?
— Ué, Allastor. Qual Jin poderia ser? Por que essa surpresa toda?
O homem nada mais falou. Ficou sentado no chão, pensando. Jin nunca tinha sequer falado na ideia de se casar. Allastor sentiu um frio na espinha. Todo esse tempo, esperava que Jin estivesse blefando; agora, no entanto, constatava que fora um tolo.
— Não. Não me entenda mal, Elise. É que me pegou de surpresa. Realmente não esperava ver Jin se casando algum dia. — O homem estendeu a mão para Elise, que a apertou com vontade. — Então, como está se sentindo? Lembro-me até hoje do dia em que me casei com Cynthia. Um dos meus melhores dias.
— É maravilhoso! Sinto que poderia sorrir para sempre. Para falar a verdade, é um sonho que estive suprimindo por muitos anos. — Elise começou a acariciar o anel. — Sabe… quando ele foi para o outro continente, achei que o tinha perdido para sempre. Toda a apreensão, a aceitação da perda. Honestamente, considerei ir atrás dele, mas eu teria basicamente me matado; fico feliz de não ter ido.
— Você pensa em ter filhos?
Elise ficou bem séria.
— Bom… penso que sim, mas eu não seria uma boa mãe, Allastor. Você me conhece. — A mulher soltou uma pequena risada autodepreciativa.
— É por te conhecer que sei que vai ser uma boa mãe. Acha que algum ser neste mundo pensava em mim como um futuro pai? Honestamente, Maria foi um desafio bem grande; até a maior das batalhas não se compara. O importante é que não é um serviço solo; você precisa cooperar com seu parceiro. — Allastor falou a última parte com um pouco de pesar na voz.
— Você… tem razão. Essa frase é nova para mim. Sem querer ofender.
— Você não me conhece como Allastor, o Rei. Sem ofensas recebidas. — Os dois sorriram. — Vamos comer. Quero espalhar a notícia.
—
Muito longe dali, numa floresta coberta por neve, um grupo bem mais jovem tinha uma conversa acalorada.
— Finalmente esse filho da puta morreu… — Tom estava caído no chão, recuperando o máximo de fôlego que conseguia. — Cara, isso demorou mais do que eu esperava.
— Essas coisas são bem fortes; para falar a verdade, eu pensei que ele seria só um cubo de gelo grande. — Sebastian estava recebendo ajuda de Rosa. Seu braço tinha sido perfurado por um projétil muito pontudo, feito de gelo.
— Bom, acabou. Obrigada, Reid. Nós não teríamos conseguido sem você.
Reid havia perdido um dedo na luta contra o elemental de gelo. O dedo anelar fazia uma grande falta na sua mão esquerda. A caçada à criatura demorou mais do que a luta em si; rastreá-la levou quase um dia inteiro. Elementais de gelo eram, em sua essência, muito diferentes de elementais de fogo. Ao contrário de seus parentes flamejantes, que gostavam de chamar toda a atenção que conseguissem, os elementais de gelo eram os mais furtivos possíveis. Na verdade, sua própria existência não era maléfica para os humanos — não diretamente. Os elementais de gelo eram muito territoriais. Pessoas menos versadas nas criaturas eram brutalmente assassinadas ao adentrar o território de um deles; daí vinham os trabalhos das guildas.
— Bom, eu quis ajudar. Não precisam agradecer.
— O seu dedo… sinto muito por não conseguir juntá-lo de volta.
— Fica tranquila. Temos uma boa curandeira no reino. Falando nisso, eu acho que estamos perdidos. — O garoto soltou um pequeno sorriso exasperado. — Chegar não foi fácil, sair vai ser pior. Essa droga de floresta parece um labirinto. — O garoto espirrou. — Essa neve tá piorando.
— Acho que devemos sair daqui. Não gosto da sensação que essa floresta passa. Sinto que estamos sendo observados. — O garoto Tom se levantou em um pulo.
Todos do grupo seguiram o exemplo; não estavam com muito ânimo, mas a sensação de dever cumprido ajudava. O caminho que tomaram não tinha muito sentido, visto que se encontraram no corpo do elemental outra vez. Reid tomara cuidado com isso no começo, gravando marcas nas árvores pelas quais passava. Após algumas horas caminhando, encontraram a clareira na qual haviam acampado no primeiro dia.
— Bom, é um progresso, não?
— Acho qu… — A voz foi interrompida.
Reid tinha sido levantado a uma altura ridícula em instantes. Havia caído em uma armadilha, uma bem montada. Estava a cerca de vinte metros do chão, pendurado em uma rede amarrada em uma árvore próxima.
— Reid! Você tá bem?!
O garoto se examinou por um instante.
— Eu tô bem! Eu só fui pego de surpresa.
— Você consegue queimar a rede?
— Bom, e depois? Eu só cairia e quebraria muitos ossos. — O garoto olhou para o chão com leve desespero na face.
— Fica calmo! A gente vai achar um jeito de te ajudar. — Tom olhava fixamente para o garoto pendurado no céu.
Um barulho arrepiante correu pela espinha de todos; uma trovoada se aproximava mais e mais.
— Que porra de barulho é esse? — Rosa se virava, sem saber de onde vinha o causador de tal som.
— Corram! Corram agora! Saiam daqui!
Todos os três olharam para cima, sem entender o que se aproximava.
— Como assim?!
— Saiam daqui agora! É um Arrepiante! Corram!
Os garotos não sabiam bem por que Reid estava tão desesperado, mas seguiram o conselho.
— A gente volta pra te pegar!
Reid nada mais pôde fazer além de assistir suas chances de sobrevivência irem embora. O barulho ficava cada vez mais alto. Ao longe, o garoto pôde ver uma silhueta através da neve que se deitava sobre o solo. Era pequena se vista de cima, mas não era humana.
Arrepiantes eram incógnitas dentre as criaturas. Jamais, em toda a história, uma pessoa se encontrou com um e saiu viva para contar o ocorrido. As descrições que a guilda tinha levavam a uma criatura humanoide que tinha um humor sádico. O resto da descrição dizia: "Se se deparar com trovões sem chuva em alguma floresta aleatória, correr é sua única opção."
A silhueta vinha a passos bem lentos através da clareira. Não tinha pressa alguma, afinal, seu prêmio estava bem assegurado. Quanto mais perto chegava, mais o coração de Reid palpitava em resposta. Podia jurar que seu coração sairia pela boca.
A criatura não… tinha uma face. Quanto mais a encarava, Reid ficava mais hipnotizado com a imensidão ali presente. Era como encarar o fundo de um lago. Aquilo ficou ali, embaixo de Reid, encarando-o em silêncio.
— HuMaNo.
Reid podia sentir-se tremer.
— FaLAr?
O som que sua fala produzia arrepiava cada pelo do corpo de Reid.
— S… im! Sim, falar!
— BoM. OqUe fAZeR mEu tERriTóriO?
Reid começou a gaguejar.
— E… eu não invadir. Eu ajudar c… rianças. Não mo… rrer!
— CrIaNÇas? Eu vErrr voÇê sOzInHo. NãO mEnTir, hUmaNo.
— Eles correram com medo de você!
A criatura pareceu considerar as palavras de Reid.
— PeSSoASs coRreR qUanDo cHeGaR. HummaNno TeR Deus?
— Eu… sim!
De algum modo, a criatura sem face conseguiu produzir um sorriso amedrontador.
— EnTãoo hUmmAnO Rezar!
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