Volume I
Capítulo 25: O presente daquele que restou
Em meio à neve, uma pessoa caminhava sem dificuldade. Afinal, esse inverno não era nada que já não tivesse visto.
— Onde será que eles foram?
Seguia um grupo de pessoas, não por muito tempo. Perdera o rastro do grupo em meio à neve. Por que seguia o grupo? Ora, seu brinquedo estava entre eles, não gostava de perder seus brinquedos tão facilmente. Precisava certificar-se de que seu plano não iria ruir.
Sinceramente, não conseguia entender por qual motivo o garoto se juntaria a um grupo tão fraco. Suas habilidades superavam em muito a maioria dos aventureiros desse reino… arcaico. Parecia um desperdício que tal talento se perdesse em um buraco como esse. Logan disse que o trabalho seria fácil. Convencer o garoto a juntar-se ao Império.
A neve caía mais intensamente, agora no fim da tarde. Lotus andava sem parar, à procura do grupo. Nada de novidades, só algumas marcas aleatórias em árvores. Caminhara por muitas horas, até que se viu encarando o corpo destroçado de um elemental de gelo. Não era o maior de todos, mas o núcleo havia sumido, significando que quem quer que fosse seu assassino tinha um contrato de guilda, visto que a prova de conclusão era o núcleo da criatura.
Lotus achara a cena toda muito grotesca. A carcaça estava bem detonada, somente a perfuração no núcleo havia sido limpa. Não fora a mais fácil das lutas. Alguém no nível de Reid devia conseguir lidar com um simples elemental em instantes.
Enquanto analisava a cena, diversas pegadas ainda se encontravam frescas. O número batia com o que já vira, enquanto observava de longe.
Honestamente, a cena toda parecia muito estranha. O lugar cheirava a armadilha. Nunca enfrentara um elemental de gelo em um espaço tão aberto. Eram criaturas traiçoeiras, sempre esperando por inimigos; cavernas eram sua preferência. A garota decidiu seguir as pegadas, agora com uma mão posta em sua espada.
Uma das pegadas se arrastava, acompanhando o grupo. Agora, a neve estava começando a cobrir todos os passos. Teria que se apressar. Após algum tempo de voltas em círculos, o grupo pareceu encontrar um rumo. Um acampamento medíocre, montado por pessoas despreparadas.
— Esses aventureiros comem qualquer coisa mesmo… — Lotus espiou o resto de comida num caldeirão, perto da fogueira.
O grupo não pareceu ficar muito mais tempo; as pegadas saíam do acampamento, mas depois disso foram consumidas pela incessante neve, deixando a garota sem muito o que seguir. Andando na direção que as pegadas indicavam, deu de cara com um pinheiro. Tinha marcas de lâmina, mas, fora isso, era normal. Perdida em pensamentos, Lotus viu, de relance, uma corda de pobre aparência amarrada na copa da árvore.
— Bom… alguém caiu em uma armadilha.
Ora, ela mesma já tinha capturado alguns fugitivos do Império com algo assim. Tudo o que se precisava era uma rede de qualidade, uma corda e um desavisado. A garota só não conseguia ver o motivo de algo assim ter sido montado para simples crianças. Tendo em vista que alguém fora sequestrado, era sensato assumir que fora Reid; Lotus não era a única de olho no garoto. Segundo Logan, aqueles otários da nação mágica também estavam na cidade. Allastor estava conversando com os dois lados, como o político que era.
— Se alguém vai recrutar esse garoto, vai ser eu!
Não conseguir usar magias se provara uma maldição para Lotus mais vezes do que conseguia se lembrar. Agora era uma dessas vezes. Se fosse uma maga, poderia localizar o garoto em instantes, assim como já vira um dos magiescravos do Império fazer. Geralmente eles ficavam parados, levantavam as mãos e, após algum tempo, achavam os fugitivos. Bem fácil, na opinião da garota.
— Quem são vocês?! — Um grupo de pessoas se aproximava de Lotus, com passadas bem dispersas.
— Quem caralhos é você?! O que você fez com o Reid?
O grupo, que mais parecia crianças, estava em estado de alerta, com o mais baixo segurando sua arma apontada para Lotus.
— Reid? Vocês o conhecem?
— Sim, ele está no nosso grupo. O que você está fazendo aqui? — A garota parecia ser a líder; tomou a frente do grupo, colocando os outros atrás de si.
— Estou atrás dele. Quando sumiu, me enviaram.
— Quando você diz que te enviaram, quem? — Como se não fosse possível, o grupo ficou ainda mais acuado.
— O Rei Allastor. Quem mais seria? — Lotus analisava quaisquer movimentos do grupo, sempre com a mão direita segurando o cabo de sua espada.
— Oh… claro. — Os membros do grupo pareceram se acalmar um pouco, com a menção de Allastor.
— Então? O que aconteceu?
— Reid caiu em uma armadilha, aí começamos a escutar vários trovões e ele nos mandou correr. — O garoto de menor altura guardara sua arma.
— Trovões, aqui? Isso não é um bom sinal. Sabem se ele disse mais alguma coisa?
O garoto que ficara calado por todo o encontro finalmente se manifestou.
— Ele falou que era um tipo de criatura perigosa, arrepiante ou algo assim. — O garoto voltou a se calar.
— Arrepiante. Bom, tenho uma boa e uma má notícia. A má é que quase ninguém matou um Arrepiante nesse continente há muito tempo. — O grupo se assustou; o menor garoto estava visivelmente tremendo. — A boa é que estão falando com uma das que já mataram.
— Você tá falando sério?
— Sem chance!
— Não me importa o que vocês pensam. Se quiserem salvar seu amigo… — A última palavra saiu arrastadamente. — …deveriam me seguir e ficar bem quietos. Já vi muitos idiotas perderem suas vidas pela boca.
— Você é muito metida, parece ser mais nova que a gente!
— Ah… obrigada. Cuido bastante de minha aparência. Então, vamos? Ou será que preferem me encarar por mais algumas horas?
— E essa tal criatura, como você conseguiu matar? — O garoto Sebastian andava logo atrás de Lotus, seguido por seus outros amigos.
— Bom, digamos que da seiva de que ele se alimenta, eu tenho menos que nada. — Lotus, mais uma vez, acariciava o cabo de sua espada.
— E Reid, tem a mesma sorte?
— Bom, digamos que… Reid exala seiva como uma cachoeira.
— Que papo estranho… — soltou Tom, meio a um passo em falso.
Lotus não queria revelar nada ao grupo. Achou que contara até demais.
— Sabe, moça enviada pelo rei… você acaricia o cabo desta espada até demais. — Rosa soltou a frase arrastadamente.
— Hum, bom. Digamos que ela é uma extensão do meu corpo; meio que preciso me lembrar de onde ela está. — Lotus seguia as pegadas que saíam da armadilha, sem olhar para o grupo.
— Estranho… — Tom cuspiu por entre os dentes.
O grupo caminhou, caminhou e caminhou por algo que pareceu longas e arrastadas horas, para, enfim, encontrarem algo que parecia fora de lugar naquele oceano de neve.
— Não se mexam.
— Ué, por quê? — foi escutado em uníssono.
— Chegamos.
Tom engoliu em seco. Rosa soltou a mão do garoto. Sebastian começou a tremer.
— Vo... cê tem c... erteza? — Tom era o mais assustado, tendo em vista que gaguejava durante toda a frase.
— Olha… vou ser realista com vocês. — Lotus desembainhou sua lâmina. O som que produziu causou até um arrepio em Sebastian. — As coisas podem ficar feias lá dentro. Lembram que disse já ter matado uma dessas coisas? Bem… eu tinha um grupo de dez homens comigo. Perdemos quatro naquele dia. — A garota fez uma espécie de aceno fronte ao peito esquerdo, no lugar em que seu uniforme exibia suas medalhas.
— Puta merda…
— Estamos fodidos!
Rosa foi a única que pareceu não se abalar, não tanto quanto seus companheiros.
— Certo, vamos.
A "toca" da criatura fedia a fossa. Era quase debilitante. Diversas cestas de feno estavam jogadas em um canto. Em outro, celas e mais celas de barro estavam vazias. Pelo menos não tinha nenhum esqueleto dentro delas. Quanto mais andavam pelo ninho, mais confuso parecia. Lembrava muito… uma casa humana. Encontraram uma cozinha com um gigantesco tronco de árvore como mesa. No fogo, uma costela inteira de cervo; não tinha a melhor das aparências, mas faria inveja à maioria das pessoas comuns nesse inverno rigoroso.
— O que matamos era muito menos organizado.
Andando mais pela "casa", o grupo deu de cara com a porta de uma espécie de porão; estava entreaberta e, honestamente, nem o mais corajoso dos padres entraria ali dentro.
— Então? Quem vai primeiro? — Lotus perguntou ao grupo.
— N... ão sou eu!
— Relaxem, eu vou primeiro. — A garota deu uma pequena risada.
Ao entrar no porão, sendo seguida bem lentamente pelo grupo, deparou-se com um som inusitado: uma espécie de chiado. Quanto mais caminhavam pelo porão, mais perto chegavam da fonte do barulho.
— Reid?!
O garoto estava ali, em sua posição de meditação matinal.
— Puta que pariu! Sua perna!
Tom desmaiara, logo após gritar e apontar para o garoto.
— Oi! Que bom que não me abandon… Lotus? O que você está fazendo aqui?
— Eu… bom, estou aqui para te salvar! — A garota soltou a risada mais sem graça que já conseguira produzir.
— Calma aí! Primeiro de tudo, o que aconteceu com você? — Rosa tentava acordar Tom, sem muito sucesso.
— Bom… digamos que cansei de ser resgatado. Então decidi que nunca mais dependeria de ninguém para me salvar.
— Então? O que isso significa?
— Ué, eu matei a criatura. Como podem ver pelo estado de minha perna esquerda, não foi um passeio no parque. Quando fiquei preso na armadilha, lembrei de algo que Jin nos ensinou; coincidentemente, ele já tinha nos alertado que algo assim vivia por essas florestas. Drenei toda minha mana; devo dizer que foi um processo muito demorado.
— Ah! Então era disso que vocês estavam falando, garota enviada pelo rei. Você não tem mana alguma?
— Bom… eu nunca desenvolvi meu núcleo.
— Aliás, me perdoem, pessoal. Usei vocês para achar o Arrepiante.
— Isso foi meio cuzão de você. Então? Cadê o corpo dele?
— Ah, eu já o absorvi. — O garoto sorriu. — Por isso vim atrás dele. Os corpos dos Arrepiantes são formados por mana pura.
— Calma aí, tá dizendo que você armou isso tudo? Ser sequestrado e tal?
— Bom, sim. Quer dizer, de qual outro modo eu encontraria a criatura?
Algo estava estranho. Reid não agia assim. Lotus achou que conhecesse o garoto.
— Vamos te tirar daqui, depois conversamos com mais calma. — Lotus tomou a frente do grupo mais uma vez, enquanto Rosa curava o que conseguia da perna de Reid. Era um machucado único, um que somente a mana mais pura poderia causar; diversos microcortes infectados com mana. A perna lembrava muito um pedaço de carne pendurado em um açougue qualquer; um pedaço vendido por um péssimo caçador.
Sair da toca foi muito fácil, com a perna de Reid não atrapalhando o grupo. Rosa conseguira fechar os sangramentos, mas nada além disso. Já do lado de fora, a neve parecia ter cessado, dando um caminho de volta à cidade com menos esforço. Qudu continuava do mesmo modo; o bom e velho inverno forçava as pessoas a trabalhar o dobro. Passaram pela guarda sendo um tanto encarados, mas sem interrupções.
— Você me surpreende de vez em quando.
— Como é?
— Acho que essa coisa de ficar me seguindo… é muito estranha. Talvez devêssemos parar de nos ver.
— Como assim? Ficar te seguindo? — A garota soltou uma risada sem graça. — Você não é tão import...
— Lotus, eu não sou burro. Só… fica longe de mim, tá bom? — O garoto deu um tapinha no ombro da garota, virou-se e partiu em direção ao forte, parando brevemente para falar com o grupo de aventureiros que o acompanhava. — Depois passem lá no forte, quero ensinar algumas coisas para vocês. Digam aos guardas que Reid os mandou. — O grupo acenou com a cabeça ao mesmo tempo.
Os pensamentos de Lotus giravam como neve em ventania. O Império. Logan. A promoção que escapava. O garoto ingrato que ousava dispensá-la. Ela riu — não havia mais o que fazer. Tudo desmoronava porque um pirralho decidiu ser esperto.
— Quem esse filho da puta acha que é? Não, alguém deve ter plantado isso na cabeça dele. Ele não é tão esperto. — Enquanto conversava consigo mesma, a garota ficava mais e mais irritada. Uma veia saltava em sua testa enquanto seu plano falhava; todos os seus sonhos de ser alguém no Império indo embora do mesmo modo que surgiram: do nada.
— Ei, a gente vai embora, valeu por tudo. — Rosa veio ao encontro da instável Lotus. Carregava um saco, o de comprovação do serviço do elemental de gelo.
— Sai daqui! — Lotus empurrou a garota com toda a força que conseguiu arranjar.
— Ei! Calma aí! A gente não te fez nada!
— Ele. Não. Ideia. Preciso. Pensar… — Lotus começou a rir, sem muito movimento da face, soltando o som de risadas de um modo bem vago.
— Deixa ela, tá enlouquecendo, vamos embora. — Tom agarrou o braço livre de Rosa e partiu, deixando uma pessoa diferente da que conheceram hoje mais cedo.
—
Já no forte, um animado Reid recebia os serviços de sua curandeira predileta.
— Senhor Reid, me esclareça algo. Por que, toda vez que o vejo, você tem um machucado horrendo?
— Hum, senhora Tavon, é uma dúvida válida. Talvez eu somente seja fraco, ou talvez eu goste de lhe ver.
— Quanta besteira. Me diga, esse é um tipo de ferimento que nunca vi antes… estes cortes, nem mesmo o melhor dos espadachins poderia ter feito isso.
— Bom, foi uma criatura quem os fez; acredito que usou mana pura.
— Esplêndido! São muito… limpos, se assim posso dizer. Relaxe, como uma pessoa menos experiente lhe fez o favor de parar o sangramento, minha ajuda vai doer mais que o normal. Tente morder algo.
Não foi uma mentira; doeu de um modo espantoso. Reid acabou mordendo a parte de dentro do braço esquerdo.
— Bom, agora, se me permite dar-lhe um conselho, evite forçar esta perna por alguns dias. Sei que você é um jovem promissor, mas me importo com sua saúde.
— Eu... na verdade, agradeço por isso. Talvez eu precise descansar um pouco. De novo, tem certeza de que não quer nada como pagamento?
— Seus mestres me pagam mais que o suficiente, nem mesmo o boticário do reino poderia sonhar em ganhar tanto quanto eu. Só tome cuidado, sim?
O garoto saiu da sala designada à curandeira real. Era uma sala modesta, sem muitas decorações. Decidindo-se reportar a Jin, seguiu em direção ao lugar onde o homem deveria estar.
— Ah, Reid, vejo que voltou. Então? — Jin parecia melhor de sua doença; ao menos tinha cor nas bochechas, e seu cabelo estava em toda a sua glória novamente. Trajava uma espécie de uniforme, um que Reid já vira Bjorn usar.
— Você tinha razão, aquela criatura vivia lá mesmo. — Reid se jogou no chão. — Foi estranho…
— Me diga, então. — Jin fez um sinal com a mão para dois homens com quem conversava antes de o garoto entrar na sala. — Enviem os mensageiros. — Os dois homens saíram da sala sem demonstrar emoções.
— Bom, não gostei de usar aquelas crianças, mas foram bem úteis. Como você previu, estava usando o elemental para limpar seu território. Caí de propósito na armadilha e a criatura me levou até sua toca. — Reid tirou algo do bolso e jogou aos pés de Jin. — Isso aí quase tirou minha perna.
— Mas funcionou, não? — O homem se abaixou e pegou o amuleto negro que o garoto jogara.
— Claro. Quando a criatura tentou sugar meu núcleo, isso aí começou a brilhar e a atacou; bom, imagino que minha perna tenha tomado de resguardo.
— Devo assumir que conseguiu absorver o núcleo?
— Ah, sim. Demorou menos de cinco minutos. Consegue ver? — O garoto expôs o peito.
— Amarelo-claro, quase mudando. Ótimo, estou orgulhoso de você.
— Também estou, de mim, é claro.
— Antes de qualquer pessoa, feliz aniversário!
O garoto olhou para os olhos de Jin, para o chão, para seus pés e então a realização o encontrou.
— Ah, é. Havia esquecido. Obrigado!
— Tecnicamente, agora pelos olhos da lei, você é um adulto. Honestamente, você já é um adulto muito antes de ter quinze anos. — Jin se esforçou para levantar o garoto do chão e então o abraçou. — Tenho um presente para você. — O homem entrou em uma sala à esquerda e voltou com uma espada nos braços.
— Você realmente acertou! Eu estava considerando comprar uma. — O sorriso de Reid era algo… reconfortante, um pequeno vislumbre de uma infância há muito perdida.
— Bom, não foi fácil. Espero que goste. — Jin sorria a cada palavra; a visão que tinha de Reid sorrindo era o melhor presente que poderia receber, mesmo agora.
O garoto pegou a espada roxa das mãos de seu mestre. Era… linda. Um roxo apavorante dominava o fio da lâmina, sendo seguido logo atrás por um lilás fantasmagórico. O cabo era feito de algum material entrelaçado de cor negra. A espada tinha um único detalhe em sua lâmina: um símbolo que Reid não reconheceu.
— É a marca do artesão. — O homem apontou para o símbolo, ao ver o olhar de confusão de Reid. — Mestres artesãos têm isso de marcar obras-primas. Esta é a terceira espada magistral de Gohtra Sah. Um fator interessante é que este artesão odiava meu pai, mas um pequeno favor lhe rendeu esta espada.
— Um favor?
— Digamos que meu pai salvou a terra natal de Gohtra Sah de uma invasão; este ato lhe rendeu uma única espada. — Jin ainda segurava o medalhão que Reid jogara aos seus pés. Tinha um visual um tanto estranho; uma espécie de flor pálida jazia em meio à escuridão.
— Então essa é uma daquelas suas espadas especiais?
— Toda espada me é especial. Esta, no entanto, é uma que nunca me atrevi a usar. Digamos que não tenho o mesmo luxo que você.
— Como assim? Isso aqui é amaldiçoado?!
— Não. — Jin soltou uma pequena risada. — Teste-a e me diga se sente algo.
O garoto pegou no cabo da espada com as duas mãos e entrou em posição de combate. Um formigamento um tanto prazeroso invadiu seu peito, mas se quietou quando balançou a espada ao vento pela primeira vez. Algo muito estranho estava acontecendo, mas o garoto não tinha certeza do que.
— Isso aqui… é muito estranho!
— Então você já percebeu. Balance a espada, mas mantenha sua respiração controlada. Depois, olhe para o seu núcleo. — Jin se sentara novamente.
— Isso… está bebendo do meu núcleo!
Jin não conseguiu conter um pequeno sorriso e uma leve salva de palmas.
— Exatamente.
— Mas o que ela faz? Além de beber minha mana, e bem rápido.
— Aí está a coisa mais engraçada. Eu não sei. Quando tentei, queimei meu reservatório umas três vezes. A única coisa que consigo lhe dizer com certeza é que você foi feito para ela.
Reid nunca ficara tão confuso quanto agora. Sem muito mais o que dizer, ele agradeceu o presente.
— Bom, se nem você sabe como a espada funciona, imagino que me reste testar.
— Esse é um dos motivos de vocês terem sido feitos um para o outro. — O sorriso de Jin não diminuiu.
— Obrigado pelo presente. Fico com vergonha de ter lhe dado algo tão barato no seu aniversário.
— Foi um dos melhores presentes que já ganhei, fique tranquilo. Então? Vai nos acompanhar na dungeon?
— Claro! Quero testar isso aqui.
Reid balançou a espada mais algumas vezes, mas nada além de sua mana sendo consumida em velocidades alarmantes aconteceu.
— Aliás, antes que você seja surpreendido… — O homem se sentou. — Elise e eu… bem, nós vamos nos casar.
— Isso é... repentino, mas dava para perceber pelo jeito que vocês se comportavam nos treinos.
— Então você apro…
— Olha, Jin, quando você começou a nos treinar, eu fiquei com um pé atrás, após toda aquela conversa sobre o futuro. Achei que estava exagerando, mas, vendo como sua saúde vai e vem, percebi que algo iria mesmo acontecer. Agora, com esse casamento, algo me diz que você só está se despedindo, assim como jovens se casam em tempos de guerra.
— Eu não fui verdadeiro em muitas coisas com você, então entendo que você pense assim. Vou lhe dizer algo e você decide o que fazer com essa informação. Bjorn vai salvar todos os seus filhos, ou ao menos vai lhes dar o direito de lutar por suas vidas. Em alguns dias, uma reunião será marcada na casa dos Vykes; todos os filhos vão ser convocados, pelo menos os que não abandonaram o nome.
— Eu… não sei bem se entendi. O que vai ser discutido na reunião?
— Bjorn não me disse. — Alguém bateu na porta. — Eles chegaram.
— Quem chegou?
— Surpresa! — Muitas pessoas escancararam a porta. Dentre elas, Valkyrie, Trevor, Allastor, Elise, Maria e Cynthia. Traziam consigo um generoso bolo de aparência bastante cara. Era enfeitado com pequenos sinos dourados; o glacê fora montado para se assemelhar a cortinas de seda. — Feliz aniversário, Reid!
Foi uma cena muito engraçada. Reid fora realmente pego de surpresa. Durante toda a cena, nem mesmo conseguia piscar. O garoto começou a chorar pequenas e lentas lágrimas.
— Ah, Reid… por que você está chorando? — Valkyrie correu para abraçar seu amigo.
— Eu não sei… acho que faz muito tempo que não… — Reid começou a rir. — Valeu, pessoal.
A sala parecia um pouco pequena para o grupo, a mesa de comidas e bebidas montadas e os numerosos presentes. Tudo correu muito bem; as comidas eram as favoritas de Reid. Uma banda de cordeiro fora assada com uma farofa de bananas, arroz branco e até mesmo uma salada de frutas fora disposta. O bolo tinha recheio de creme e abacaxi.
— Eu nunca ganhei uma festa como essa. — O aniversariante estava sentado aos pés da mesa de bebidas. — Não sei nem o que dizer.
— Você pode abrir os presentes. Vamos lá, este é o meu. — Valkyrie entregou um jaquetão de aparência bem cara, com detalhes de ouro e cor branca. — Ele é feito de couro de Urso-Espreitante.
— Isso é incrível! Eu nunca cheguei a ver um urso desses. Isso deve ter sido caro, eu não acho que posso aceit…
— Se você me devolver isso, eu vou te bater. — A garota sorriu e voltou para o seu lugar.
— Agora é minha vez! — Trevor se levantou, com os punhos cerrados. — Fecha os olhos e abre a mão.
Reid obedeceu. De olhos fechados e mão aberta, sentiu algo bem pequeno cair na sua palma.
— O que…
— Pode abrir.
O garoto abriu os olhos, encontrando um anel em sua mão. Era um anel negro, sem nenhum detalhe.
— Oh, um anel. Obrigado.
— Ah, qual é, você nem testou ele! Vamos, veste ele.
Trevor pegou o anel e forçou no dedo anelar do garoto. Primeiro, Reid sentiu uma pequena coceira.
— Ai! Isso me queimou.
— Sim, agora imbua mana nele.
Seguindo a instrução, o garoto sentiu uma sensação engraçada.
— Pera, isso aqui é um daqueles anéis que os aventureiros usam?
— Issae! Então? Vamos! Guarde alguma coisa nele. Não é muito grande, mas deve dar para guardar umas provisões para aventuras.
Reid ativou o anel dimensional e tocou, com a parte de cima dele, uma garrafa de vinho que estava por perto.
— Caralho! Isso é muito foda… eu não mereço nada assim, cara.
— Faço das palavras de Valkyrie as minhas.
— Agora, o nosso presente. — Allastor, Cynthia e Maria foram os próximos. — Bom, é uma tradição que o presente de aniversário de quinze anos seja um que lhe ajudará em sua vocação. Nosso presente é algo que estivemos pensando em guardar, mas agora não vemos mais motivos para isso. — Allastor pegou de maneira estranhamente delicada uma caixa de prata. — Abra.
— Tudo bem… — Reid abriu a caixa, revelando um colar de aparência vermelha. — Hum, então?
— Coloque no pescoço. — Cynthia estava logo atrás de Allastor.
— Esse é um colar de fênix. — Allastor começou a falar, sendo interrompido por suspiros de todos os outros na sala, exceto de sua família e de Reid. — São extremamente raros. Eles te protegem de um único golpe fatal, te salvando da morte. Jin já viu um sendo usado bem de perto, então pode atestar por nós. Os colares, embora possam sugerir pelo nome, não podem ressuscitar. Então é uma última esperança. — Allastor abraçou Reid, sendo seguido por Maria e Cynthia. — Queremos que fique com esse.
— Vocês não podem estar falando sério… e vocês?
Ao mesmo tempo, os três ergueram dos pescoços colares iguais ao que estava com Reid.
— Todos temos os nossos. Consegui cinco há muitos anos, após uma invasão nas terras do reino mágico; tive que devolver as terras em troca dessas coisas. Imagino que os que estão nesta sala sejam os últimos existentes.
— Não morra, Reid. Isso no seu pescoço tem que ser um alívio, não uma esperança. — Cynthia sentou-se em seu lugar novamente.
— Agora, é o meu! Aqui, Reid, não sabia o que te dar, então perguntei para o elfo.
— Que legal! Obrigado, Elise. Eu amo essas bombas de chocolate.
A mulher ficou bem contente com a reação do garoto; voltou então para perto de Jin.
— Ah, e parabéns pelo noivado. Fico feliz por vocês.
— Obrigado, Reid. Sua opinião nos é muito importante.
Depois de mais algumas horas, Reid se encontrava bem cheio e carregava vários presentes até seu quarto. Seu jaquetão, seu anel dimensional e o colar estavam vestidos; em suas mãos, a espada que ganhara de Jin e as bombas de chocolate de Elise. Quando adentrou o quarto, jogou tudo em cima da cama e foi tomar um banho. Enquanto se ensaboava, o garoto percebia que, sim, sua vida valia a pena. O cheiro da espuma do sabão de menta podia até ser enjoativo no começo, mas passava uma sensação de limpeza absurda. Já sem roupas e enxuto, o garoto decidiu vestir somente uma calça de pano e repassar todos os seus presentes.
Agora com mais paciência, Reid pôde ver a dimensão da qualidade do jaquetão que ganhara de Valkyrie. O couro era maleável e muito resistente ao mesmo tempo. Tinha uma cor branca, mas talvez fosse o estilo do artesão; os detalhes dourados eram, na verdade, pontos-chave reforçados com metal pintado de dourado, quase uma segunda camada de proteção, visando os órgãos mais importantes.
O garoto tentou imbuir mana no colar que ganhara, mas nada acontecia; teria que confiar que aquilo de aparência tão frágil lhe salvaria da morte. Já com o anel, fora diferente. Imbuindo mana, o garoto decidiu testar as capacidades de armazenamento. Primeiro, decidiu ver se guardaria sua espada e, para sua própria surpresa, a espada que ganhara de Jin coube no espaço dimensional; mas, logo após tentar guardar seu jaquetão, o anel acabou cuspindo a espada de volta para liberar espaço. Não parecia ser grande, mas também não muito pequeno; iria servir. As bombas de chocolate eram de uma confeitaria muito famosa de Qudu; se você não estivesse na fila desde muito cedo, nem chegaria a ver os doces, dada a alta demanda.
Após mais algum tempo se divertindo com o anel mágico, Reid acabou pegando no sono. Poeira estava em sua fase de rebeldia, então dormia separado de seu dono na maioria das noites; nesta, no entanto, decidiu que poderia tolerá-lo, como uma forma de agrado.
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