Volume I
Capítulo 26: O passado daquele que mudou
— Você acha que ele falou sério? — Elise estava deitada com a cabeça apoiada no peito de Jin.
— Você não precisa complicar o Reid. Se ele disse algo, é o que pensa. — O homem beijou a testa de sua noiva.
— Hum… se você diz. — Elise se ajeitou para ficar com os olhos fixos nos de Jin. — Está animado para a nossa pequena aventura?
— Estou. Vai ser um grupo grande, mas não devemos ter muitos problemas. E você?
— Bastante. Agora que sou da família, me sinto mais à vontade perto deles.
— Gosto que pense assim. Você fica muito bonita quando está pensativa. — Jin começou a acariciar os cabelos da mulher.
— Ah, é? Só assim? Não fico bonita de qualquer outro jeito? — Alguém foi beliscado.
— Se eu pudesse descrever sua beleza em uma única frase, creio que as palavras ainda nem tenham sido inventadas.
A mulher corou como nunca.
— Essa é nova… você tá treinando essas coisas com alguém?
— Ah, sim, com uma mulher muito bonita.
— Ah, é? Quem seria essa mulher?
— Só a mulher com quem vou me casar. Ela é linda, forte, esforçada. Tem uma cicatriz na parte de cima da b... — Elise calou Jin com um intenso beijo. — Ela beija muito bem.
— Você quem me ensinou. Se lembra de quando nos conhecemos? Você era bem diferente de hoje.
— Foi na época em que eu estava fazendo um nome, não?
— Sim. Você era grudado com aqueles dois, pareciam uma gangue.
— Agora que você diz, foi realmente coisa do acaso termos nos encontrado, não?
Elise saiu de cima do peito de seu noivo e deitou a cabeça no travesseiro disposto à esquerda da cama.
— Tanto faz, mas você era bem cuzão naquela época. — A mulher tinha um biquinho muitíssimo fofo na opinião de seu noivo. — Até Allastor era mais legal.
— Ah, pode ser que seja verdade. Foi logo depois que reencontrei meus pais de verdade; não foi tão fácil lidar com aquilo.
O homem não entrou em detalhes, mas, se fossem postos na mesma sala, o Jin de antes provavelmente sentiria desdém pelo atual. Suas personalidades seriam como água e óleo. Enquanto o Jin atual é muito mais paciente e trabalha com compreensão, o antigo era, em resumo, um adolescente que acabara de receber um motivo para fazer do mundo seu inimigo — um adolescente muito poderoso.
Digamos que nem tudo o que o homem contara a Bjorn naquela noite fora verdade. Logo após reencontrar-se com seus pais biológicos, Jin foi tomado por vários estágios de variados sentimentos. O primeiro deles fora a decepção. Quando era criança, a única lembrança de que gostava era a de brincar com seus amigos em sua vila natal. Quando Aspher Haruto o acolheu, Jin nutria um sentimento de não pertencer. Então, quando finalmente se reencontrou com os que seriam seus verdadeiros familiares, a quebra de expectativa lhe rendeu um gosto muitíssimo amargo na boca.
Logo após a decepção, o garoto pegou a primeira caravana que conseguiu, partindo assim para as terras centrais. Seu pai adotivo, Aspher, era do mais alto escalão do Império, um reino que lucrava com guerras e criava mais inimigos a cada dia. Isso não impediu o adolescente de encontrar trabalho nas ricas e movimentadas terras centrais. Foi muito fácil assumir uma identidade e um passado diferentes. Como eram um reino em expansão, qualquer ajuda era bem-vinda.
— Então, aqui é onde você dorme. — O dono da pousada apontou para um quadrado de madeira recheado de palha, na parte de trás de seu estabelecimento. — Alguma dúvida?
Jin tinha uma aparência muito diferente da atual: mais jovem, mais enérgico, sem uma deficiência no seu núcleo de mana e, por consequência, sem carregar espadas.
— Quando o grupo parte? — As roupas do garoto lembravam muito as de um aventureiro que acabara de concluir seu primeiro grande trabalho. Uma camada de roupas confortáveis de algodão de cor branca e partes de armadura de couro, exceto que, no caso de Jin, uma espécie de capa cobria a maioria das coisas; era uma capa cor de musgo, que não tinha tanta serventia em um combate corpo a corpo, mas esta não era sua intenção.
— O grandão disse que partiriam duas horas antes do amanhecer. Só não entendo por que não ficou num quarto junto aos demais. — O dono da pousada não era necessariamente ganancioso; sua dúvida era genuína. De todos os grupos de aventureiros que já atendera, este era o primeiro em que todos os membros dormiam em quartos separados.
— Não confio em caipiras.
— Você não está muito longe de um caipira. Já vi porcos mais limpos. — O taverneiro cuspiu no chão, entrando pela porta por onde haviam passado.
— Sempre as piores pocilgas. Se bem que não se pode esperar muito de um lugar desse. — O jovem se deitou no emaranhado de palha, sua cama. — Em horas como esta, sinto falta da minha casa.
O rapaz abandonara o nome Haruto, abdicando, assim, de toda e qualquer riqueza ou até mesmo qualquer vantagem que o nome lhe proporcionaria; se bem que, em um lugar como esse, só o ouro fala, e no momento os bolsos de Jin estavam mudos. Aceitara este serviço como última opção, pois participar de um grupo era obrigatório. Seu grupo consistia em um massivo guerreiro, dois curandeiros e ele — um mago quebrado de grana. Não fora a melhor de suas dormidas; por vezes sentiu algumas picadas de insetos, mas conseguira dormir a maior parte da noite. Infelizmente, as missões que conseguira pegar sozinho não pagavam muita coisa, fazendo-o escolher entrar em um grupo aleatório.
Um galo anuncia ao longe que o dia está começando, mesmo que esteja um breu lá fora. Levantando-se de sua cama após um longo período de ponderamento, Jin verifica se não foi roubado enquanto dormia; alguns acontecimentos ensinam melhor do que conversas. Entrando pela porta que o taverneiro usara, Jin vê que é o primeiro acordado do grupo. Decide perguntar ao atendente o que há para comer, mais como uma forma de passatempo, pois não poderia pagar por nada que lhe fosse ofertado. O simples fato de só conseguir comer quando termina um trabalho e então ser chamado para comer com os contratantes pesa o ego do garoto — mesmo que signifique uma refeição grátis.
Quebrado seria um eufemismo para descrever a situação do ex-herdeiro da família Haruto. Pensar em desistir e voltar para casa? Sim, muitas vezes este foi um dos pensamentos que lhe corroera a consciência, mas algo não o deixa voltar. Não agora. Não sem um nome para si que não fosse "mais um herdeiro patético".
O primeiro membro a aparecer foi o guerreiro parrudo. O homem parecia um armário. Carregava uma clava com espinhos feita de metal e vestia uma armadura de couro muito desgastada. Jin não vira o homem pronunciar mais que três palavras seguidas de uma vez. Era até cômico o quão dentro do estereótipo o homem se encaixava. O mais impressionante era que, diferente de qualquer outro guerreiro que Jin vira neste reino, este não possuía uma cicatriz sequer. Logo após, como se tivessem combinado, os outros dois membros — os curandeiros — apareceram.
A conversa toda não durou mais do que dois minutos. Nomes foram ditos, mãos foram apertadas, e nada que valesse a atenção de Jin fora apresentado. Afinal, se tudo fosse como o rei havia dito, metade do grupo estaria morta em duas horas. A missão parecia meio idiota se considerado o número de grupos participantes, mas a criatura que matariam era um tanto desconhecida para os caipiras desta parte. Jin já tivera alguns encontros com Golems Montanheses, e nenhum fora um desafio especial; este, no entanto, pagaria muito mais do que o normal para uma missão assim.
— Jin, né? — O curandeiro de estatura maior chamou da parte da frente do grupo, enquanto se moviam para o ponto de encontro. — É bom ter um mago no grupo, mas em que tipo de magia você se especializou? Lembro de um antigo amigo dizendo que é assim que vocês se dividem.
— Magia de destruição no geral.
— Que bom. Qual elemento? — Desta vez, fora o guerreiro quem perguntou.
— Todos eles.
O grupo riu de uma maneira muito insultante para o jovem mago, fazendo seu humor se azedar.
— Qual é, cara, fala logo seu elemento. Não vamos te tratar diferente por isso.
— Eu já disse: todos eles. — O mago desprezava o grupo cada vez mais. — Não acreditam porque vivem em um fim de mundo e estão acostumados a trepar com cabras e beber mijo de cavalo como se fosse vinho.
Ops. Esta última frase mexeu com o grupo, mas ninguém perdeu o controle.
— Sei onde dormiu ontem à noite, sei também que não tem onde cair morto. Talvez devesse se acostumar à sua nova vida, filhinho da mamãe. Você agora é um dos que trepam com cabras e bebem mijo de cavalo; pior ainda: você não pode pagar nem pelo mijo. — O guerreiro não parava de andar, mas continuava falando com o garoto. — Sua reação só confirma que estou certo. Não sei do seu passado, mas, se continuar com esta personalidade, vai acabar morto por algo que não um maldito Golem.
Jin cuspiu no chão, mas não se abalou; o restante da viagem foi muito silencioso, sendo interrompido somente por constantes cochichos dos curandeiros. Mais ou menos uma hora de viagem a pé se decorreu até que o grupo chegou ao local combinado. Era uma planície com uma montanha gigantesca à direita. De certo modo, era quase artificial; a montanha tinha todos os elementos de uma montanha comum, mas faltava algo…
— Ótimo! Venham aqui!
Um cavaleiro das histórias de fadas chamava os grupos para se reunirem. O homem parecia uma lata de metal e carregava uma espada dourada. Não se conseguia ver nada de sua aparência, que estava completamente coberta pela armadura.
— O trabalho é simples. Matem o Golem Montanhês. Guerreiros, comecem com o que fazem de melhor: abram espaço para os magos. Curandeiros, vocês devem esquecer dos magos; a vanguarda é sua prioridade. Alguém tem alguma dúvida?
Uma pessoa levantou a mão.
— Onde se encontra esse Golem? — Um mago de não mais de vinte anos perguntou.
— Está olhando para ele! — O cavaleiro apontou para a gigantesca montanha; o pico passava dos setenta metros de altura.
Era isso. A palavra que Jin buscava era "continuidade". Era uma montanha no meio do nada. Isso mudava as coisas. Os Golems que já tinha matado não passavam nunca dos vinte metros de altura. Então era por isso o número elevado de grupos. Contando com ele, cerca de sete magos estavam presentes. Analisando a mana deles, Jin descartou quatro como inúteis.
— Você. Elemento? — Jin apontou para o mais promissor do grupo de magos.
— Terra.
Menos mal. Melhor do que um de fogo. Magos de fogo não eram lá muito úteis contra Golems — pelo menos não os presentes. Magias de fogo de nível divino podiam ajudar, mas estes caipiras não estavam nesse nível.
— Você, mago de terra, acorde a criatura! — O líder gritou para o garoto que acabara de falar com Jin.
O mago se concentrou em seu cajado, fechou os olhos e começou a entoar um longo cântico. Cerca de quarenta segundos se passaram antes que algo começasse a acontecer. Colunas de pedra surgiam em volta da montanha; após subirem um pouco, caíam por cima da criatura. De começo, nada aconteceu, desencadeando uma onda de risadas do grupo. Mas, de repente, o chão começou a tremer, quase como um terremoto. O grupo ficou em estado de alerta. E então aconteceu: uma avalanche começou a cair enquanto a criatura despertava de seu sono.
Sem muito o que fazer, os guerreiros correram para subir na montanha, mirando o que quer que fosse o núcleo da coisa.
— Estou rodeado de idiotas. — Jin começou a lançar um feitiço do elemento de terra. Muita mana ia para a ponta de seu cajado. Quando o soltou, uma espécie de estaca de pedra se formara à sua frente; usando um pouco mais de mana, o garoto conseguiu deixá-la pontuda. Com um tanto de esforço, Jin alcançou o elemento de vento e, unindo-o com sua magia, fez a estaca começar a girar e girar, adquirindo momento. Em uma última estampida de mana bruta, lançou a coisa na direção onde geralmente se ficava o núcleo daquelas criaturas. O feitiço todo não durou mais do que dez segundos.
Acertou em cheio. Quer dizer, como poderia errar uma montanha? Mas aquilo balançou a criatura; a estaca ficou cravada em algum lugar importante.
— Allastor! A estaca marca o núcleo! — Gritou o líder para um garoto ruivo que aparentava ser maior que o guerreiro com quem Jin viera.
Allastor? Jin não sabia quem era, mas, se recebera uma ordem dessas, com certeza sabia o que fazer. Quando parou para olhar para os lados, Jin sentiu-se balear. Muitos mortos. Durante os poucos segundos em que se concentrara, a criatura pisoteara metade dos guerreiros e acertara alguns curandeiros e magos com gigantescos pedregulhos. Em um canto, só se podia ver uma massa vermelha, que um dia já fora alguém.
O mago se apoiou em um tronco perdido, recobrando um equilíbrio escasso no momento. Ao menos este tal de Allastor era bom. Vendo de longe, parecia que ele estava somente escalando sem direção, mas ia direto para a estaca de pedra alojada na parte da frente do que seria o peito da coisa. Chegou lá em poucos segundos. Com uma força que parecia inacreditável, o garoto puxou a estaca de pedra de seu lugar, revelando uma cratera. Sem nem hesitar, o guerreiro se jogou para dentro, sumindo assim de vista.
Jin não perdeu tempo e preparou outra estaca, desta vez com um pouco mais de paciência. A forma da ponta se tornava cada vez mais mortífera. Seu progresso com a magia de terra havia melhorado muito com o tempo; podia esculpir quase milimetricamente. Após alguns segundos, deu-se ao trabalho de concentrar-se exclusivamente na magia de vento. Desta vez, uma espécie de vácuo fora colocado na ponta da maciça estaca de pedra. Lançando a magia, e repleto de adrenalina, Jin nem se importou com seu núcleo de mana. Podia fazer dezenas dessas magias de uma vez sem se esgotar. Quer dizer, eram versões menores e menos detalhadas? Sim, mas ainda tinham o mesmo princípio. A estaca, dessa vez, adentrou muito mais fundo na imensidão de pedra que era a criatura, mas não a fez sentir tanto quanto a primeira. O garoto fez uma nota mental: nada de vácuo para alvos que sejam feitos de pedra. Talvez a ponta da estaca precisasse ser menos pontuda — pensamentos que somente um entusiasta tem em meio ao caos.
Então, do completo nada, Jin sentiu uma pancada na cabeça, sendo jogado ao chão. O mundo parecia girar em meio ao caos. A criatura com a qual lutavam já não mais se mexia, e os que sobraram do grupo de ataque corriam como baratas, de um lado ao outro. Jin tentou se mexer, mas sentiu uma força no seu peito. Um pé estava posto ali.
— Olha só, ele tinha um colar legal! A bolsa não é ruim também. — Um dos guerreiros gritava para o líder do grupo.
— Peguem tudo! Um mago fraco assim vai morrer em terras como estas. Cortem os calcanhares dele; não quero surpresas. — O homem vestido de lata pegou os itens roubados de Jin. — Rápido, Allastor já deve estar voltando!
— Você ainda não falou com ele?!
— Óbvio que não. O garoto fica falando de honra e todo esse tipo de merda. Ele não ia achar isso aceitável. Ande logo com isso!
— Foi mal, cara… — O homem pegou seu porrete e levantou-o no ar. Esta foi a última coisa de que Jin se lembra antes de ser acertado na cabeça.
Acordar de um sono é algo ruim, mas acordar após uma paulada na cabeça provou-se uma das experiências que Jin queria esquecer.
— Puta que me pariu…
O garoto massageava sua testa; mal sabia ele que um galo enorme lhe causava aquela sensação. No breve segundo que se passou, imediatamente checou seus calcanhares e, para seu alívio, estavam inteiros. Pelo visto, os ladrões acharam que a pancada na cabeça era o suficiente.
— Levaram até aquela merda de pergaminho. Caralho! — O referido pergaminho era algo que estava guardando para emergências, uma recompensa de uma missão passada. Um mercador o comprara de um aprendiz de curandeiro por um preço irrisório, mas não tinha como usá-lo por não ter mana em seu corpo. Então anunciou uma missão na guilda local; como recompensa, um pergaminho "Cura-Tudo". Jin fora o único mago que aparecera para matar o Troll. Sempre fora péssimo com magia de cura, então tinha que estocar pergaminhos.
Não fora a primeira vez que Jin fora roubado, e também não fora a pior. Desta vez, roubaram-lhe tralhas e uma bolsa de pergaminhos de cura; sinceramente, a bolsa valia muito mais que aquele cajado que fora levado. Jin conseguia lançar magias sem um catalisador, então não era de todo mal. Agora, porém, seu sangue fervia de uma maneira diferente. Será que todo o grupo era composto de ladrões? Quer dizer, talvez eles tivessem escolhido alvos que valessem a pena roubar. Olhando em volta, muitos corpos estavam jogados em diferentes partes do campo de batalha. A maior parte deles tinha sido saqueada. O garoto concluiu ser um grupo oportunista: aceitavam a missão principal e, se a situação lhes aparecesse, matariam os que sobrassem e os roubariam.
Enquanto caminhava em direção ao corpo do Golem, Jin viu o grupo com o qual viera. O guerreiro massivo tinha a metade de baixo do corpo faltando; seu rosto expressava felicidade — meio macabro. Os dois curandeiros foram mortos pelo mesmo pisão da criatura; teria sido difícil reconhecer algo no meio daquela pilha de carne, mas as roupas eram inconfundíveis.
Entrando no Golem pelo buraco que fizera, Jin esperava encontrar algo que valesse a pena vender, mas nem isso. Aquele tal de Allastor havia feito um bom trabalho extraindo tudo. Até mesmo as menores das pepitas de núcleo haviam sido levadas. Era hora de caçar; esta não seria a primeira vez que Jin mataria humanos. Como dito anteriormente, fora roubado outras vezes.
Rastrear bandos grandes não era nem um pouco difícil. Após duas horas seguindo os rastros, Jin se encontrou encarando uma espécie de gruta, um tanto distante da "cidade" em que dormira na noite anterior. Dava para saber que tinha pessoas pelo brilho das tochas; fora isso, seria um bom esconderijo.
— Agora nós só precisamos relatar ao rei que a missão foi concluída. Finalmente vou conseguir sair dessa vida de dormir em buracos. — O líder estava sentado no meio da roda reunida diante de uma fogueira de chão; um porco estava espetado ali, assando rapidamente.
— Vou usar minha parte para sair desse fim de mundo, recomeçar, talvez nas planícies áureas.
— Eu sempre quis comer uma prostituta da minha cidade natal, finalmente…
— Vou comprar uma espada melhor, talvez umas peças de malha.
— E você, Allastor? Agora que finalizamos esse trabalho grande, o que vai fazer com sua parte?
O maior do grupo não prestava atenção na conversa até ouvir seu nome.
— Vou formar um exército.
Todos na gruta soltaram a maior gargalhada possível com a fala de Allastor; alguns até mesmo rolavam no chão. Honestamente, não era uma reação incomum para Allastor. Exércitos eram movidos por duas coisas: dinheiro e pátria. Allastor era deficiente das duas coisas.
— Vão se foder! Todos vocês.
— Para que você quer um exército, Allastor? — Perguntara o líder.
— Quero fazer um nome. Quero ser alguém que vá entrar para a história, alguém maior que um simples pé rapado…
— Então usurpe um reino. Seja um bom rei, cuide do seu povo, defenda seu território. Aí talvez, somente talvez, você seja lembrado.
— Qual a graça em usurpar um reino? Matar um fodido com uma coroa na cabeça que governa outros fodidos? Se fosse rei, formaria uma nação de guerreiros, uma nação que conquista porque pode, e não porque lhe deixam.
— Então entre para o Império. Ouvi dizer que eles valorizam isso lá.
O grande e ruivo homem se calou.
— Vou dormir.
Allastor não confiava no bando, mas era o melhor que conseguira. Sempre dormia separado, empoleirado em uma árvore próxima aos esconderijos, e voltava ao amanhecer. Após se firmar confortável em sua árvore, ele se amarrava nela com uma corda bem grossa e dormia como uma rocha.
— Cê acha que devemos matar o grandão?
— Nah. Ele é útil. Podemos usá-lo por mais algum tempo. Só não mencione nada e ficaremos bem.
— Que barulho é esse?
E então, de repente, o teto e as paredes começaram a derreter em lava; um grande estrondo chamou a atenção de todos para a entrada enquanto um enorme pedregulho se chocava contra ela.
— Ataque! Estamos sendo atacados!
Os que ainda não haviam sido derretidos, pegos desavisados pela lava, entraram em estado de alerta. Um mago abriu caminho por uma parede que levava para fora usando magia explosiva. Péssima decisão: os que saíram correndo sem prestar atenção caíram num fosso repleto de espinhos feitos de pedra; os gritos não duraram muito. A cabeça do líder não parava de girar e ver seus homens morrendo, um a um.
— Abram o pedregulho! Vamos, caralho! Pra fora!
O mago de antes abriu caminho mais uma vez. Dessa vez, ninguém caiu em uma armadilha. Todos os que restavam do grupo correram para fora. Uma figura estava em pé ali, sem se mexer. A última coisa de que o homem se lembrava era de olhar para os céus enquanto uma chuva caía fervorosamente. Com a chuva, os corpos daqueles que resistiam eram queimados.
— O que caralho é você? Allastor vai te foder! Tá me ouvindo?! Ele vai te fazer implorar pela morte!
O último homem vivo no chão perguntava ao causador daquilo. Sua expressão era fraca; partes do seu corpo estavam deformadas; só estava vivo porque lhe fora permitido. Tossia bastante.
O atacante, sem responder, lançou uma pequena magia de pedra em formato de broca na testa do homem, atravessando-a. Por algum tempo, um abutre saqueou tudo de valor que restara dos mortos, quase concluindo o que viera fazer. Só restava agora um pequeno problema…
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios