Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 27: Famílias

Mais uma das reuniões dos Vykes; até eu estou começando a me cansar delas. Tirando o fato de que consigo ver todos os meus irmãos, elas são sempre... demonstrações de hierarquias. Droga, estou realmente ficando velho, falando de família.

 

— Bom dia, mestre Aspher. — A camareira se curvou, como de costume.

 

Ela sempre se curvou assim, não? Nunca troquei mais do que duas palavras com ela.

 

— Bom dia, Moira. Acho que não precisa arrumar minha cama... não hoje, ao menos.

 

A mulher me olhou com um genuíno olhar de confusão. Quer dizer, ela provavelmente nunca escutou essa frase aqui em nossa casa.

 

— Perdão, mestre, mas a chefa deixou bem claro que haveria... punições, se alguma cama ficasse bagunçada. — O olhar agora era de súplica. Deus, o que fizeram com essa mulher? — Ótimo, arrume a cama; não quero ninguém se machucando por minha causa, ninguém desse lado, ao menos.

 

O dia está bem chuvoso. Aprecio isso. Ainda estamos no inverno, então aceito chuva no lugar de neve. Odeio a neve. Tudo fica sujo depois que ela passa. Não consigo treinar lá fora por algumas semanas depois que ela derrete. Hoje minha velha lança de treino quebrou; doeu mais do que eu esperava. Como um objeto pode fazer tanta falta? Lembro-me de quando a ganhei. Meu pai realmente me salvou, hein? Ou será que foi a lança?

 

Trevor continua treinando e treinando. Eu esperava menos; gosto quando me surpreendo positivamente. De vez em quando treinamos juntos. A maior parte do tempo ele fica no forte do rei — quer dizer, no forte de Reid, seu amigo. Não gosto muito disso. De vez em quando me pego pensando: eu já tive uma amizade assim? Nunca dormi na casa de um amigo, nunca me chamaram. Suponho que Trevor seja minha maior amizade, depois de meu pai. Quer dizer, Bjorn sempre é uma incógnita para mim. Posso dizer que me ama, mas sinto que ele se lembra de minha mãe todas as vezes em que me olha. Não o julgo por desviar o olhar.

 

Agora estou deitado na cama arrumada, olhando para o teto, esperando a batida na porta. Todas as reuniões são assim. Cada filho fica no seu quarto até que seja chamado. Acredito que meu pai gosta de conversar de forma privada com cada um antes do tópico geral. Sempre sou o primeiro, mesmo que não seja o mais velho. É bom.

 

— Aspher! — Uma batida forte na porta me puxa dos pensamentos amarrados que me distraem da monotonia.

 

— Indo!

 

Na porta, encontro Bhron, meu teoricamente "primo?". Bom, ele é parente da minha madrasta, então sei lá o que é meu. Bhron é muito parecido com o homem médio de Qudu. Quase dois metros, porte físico bruto, cabelo vermelho e uma cicatriz de batalha no seu olho esquerdo — sim, Bhron só tem um olho, e decide não esconder sua cicatriz com um tapa-olho. "Um troféu", ele diz, sempre que menciono o olho ou, no caso, a falta dele.

 

— Mandaram te chamar. O grandão tá bem sério hoje, não quis nem comer nada.

 

"Grandão" é o modo como Bhron se refere a meu pai. Sinceramente? Cabe bem.

 

— Quando ele não está sério? Bonitos trajes, por sinal.

 

— Valeu, Aspher. Sabia que cê ia notar. Diferente dos outros, cê tem bom gosto. — Bhron aprendeu tudo o que sabe de moda comigo; suponho que éramos muito ligados antigamente. Estava trajando um traje militar feito sob demanda na melhor alfaiataria da cidade — um conhecido era o dono do lugar. O traje era todo azul, com detalhes brancos e ombreiras douradas. Pessoalmente, escolheria outra cor para o destaque; sinto que o azul é demais. Eu não recomendo o lugar para qualquer um, mas Bhron me entende quando falamos de moda. Isso me agrada.

 

Meu pai está sentado na mesma cadeira de sempre, no seu escritório. Passei muito tempo aqui. Quando entro na sala, ele me olha e repete o de sempre: me encara por alguns segundos e desvia o olhar. Bhron se despede e bate a porta atrás de mim.

 

— Bom dia, pai. Sua bênção. — Temos esse costume aqui em casa; Bjorn ensinou a todos os filhos. Acredito que ele mesmo tenha sido ensinado quando criança.

 

— Deus o abençoe. — Meu pai pega minha mão e beija a parte de cima. Pode parecer simples, mas eu gosto desse costume. Vou ensinar aos meus futuros filhos. — Sente-se. — Ele aponta para a poltrona ao meu lado, e eu sigo seu comando.

 

Ele está com uma cara bem ruim. Não dormiu direito. Bjorn sempre faz isso: quando marca uma reunião, nunca é para futilidades, então ele fica organizando a cabeça na madrugada anterior e acaba perdendo o sono. "Seus olhos ficam mais bonitos com olheiras por baixo" — esse é um comentário que já escutei das empregadas sobre meu pai, e tenho que concordar. É verdade. Gosto de como me pareço com ele nas ações; também não dormi muito na noite passada.

 

— Como já havíamos conversado, você será o líder do exército conquistador. Ainda tem certeza de que é isso o que quer? — Meu pai me olha com os mesmos olhos de quando me ensinou a usar uma lança pela primeira vez.

 

— Sim, tenho certeza.

 

Sua expressão endurece um pouco. Ele solta um longo e demorado suspiro, joga-se para trás em sua cadeira e encara o teto por algum tempo. Ele tem esse costume quando algo vai contra seus planos. Depois de mais ou menos um minuto, volta à posição normal.

 

— Eu decidi que vamos precisar aumentar o número do grupo invasor.

 

Não consigo conter minha surpresa — pelo visto, meu pai percebe, vendo como reage logo em seguida.

 

— Você sabe o que isso significa, não sabe?

 

Claro que sei. Como não saberia?

 

— Quem será o líder do segundo exército? — Pergunto mais como um modo de continuar a conversa. Ambos sabemos que isso só poderia significar uma coisa: o primeiro exército seria enviado para um massacre no plano original.

 

— Eu mesmo. O conselho decidiu.

 

Escuto a frase bem lentamente, mesmo que meu pai não tenha se demorado.

 

— Você só pode estar brincando.

 

— Eu queria estar.

 

— Essa... era a minha chance, pai. Foi para isso que me preparei por toda a minha vida.

 

— Você não perdeu a sua chance, Aspher. Você será líder de um exército, e eu serei de outro.

 

— E de quem o senhor acha que vão se lembrar, se vencermos esta guerra? Do grandioso Bjorn "O Urso Prateado" ou do fodido do Aspher? — Consigo sentir lágrimas brotando no meu rosto e minha voz começando a falhar. Talvez sejam de ódio.

 

— Olha a boca! Você seria morto em duas horas no plano original.

 

— Que se foda! Era minha chance, e você conseguiu roubar até isso de mim! — Meu corpo se levanta da cadeira e me vejo em pé, apontando o dedo para meu pai. Acho que nunca fiz isso antes.

 

Meu pai bate com a mão na sua mesa.

 

— Cale a boca! Você não tem noção do que eu tive que fazer para conseguir mudar esse plano, e agora você me trata assim? Sabe quanto vai nos custar tudo isso? Aqueles filhos da puta do conselho me botaram numa saia justa. — Meu pai está com um lado dos olhos tremendo; acho que é o estresse.

 

— Dinheiro? É só nisso que pensa? — Sento-me de novo na cadeira.

 

— Que se foda o dinheiro, Aspher. Disseram que, se falharmos nessa guerra, posso esquecer o nome Vyke.

 

Meu pai se orgulha de poucas coisas nesta vida, mas a que ele é mais aberto sobre é o nome que construiu: os Vykes. Acho que, por saber disso, eu quis irritá-lo mais ainda. Infantil, não?

 

— Só o nome importa para o senhor. Por que não importou quando Ugor e Rosa foram embora? — Aqui eu sei que já passei da linha.

 

Consigo ver uma veia saltando na testa de meu pai, mas, inesperadamente, ele respira bem profundamente.

 

— Ugor e Rosa foram chamados aqui hoje. Acha mesmo que não amo meus filhos? Admito, não os tratei bem quando fugiram, mas sou humano também, Aspher. Erro muito, e você sempre me lembra disso.

 

— O que o Rei e Jin disseram sobre o novo plano? Quer dizer, eles fizeram parte dele, não?

 

— Obviamente que sim. Disseram que era o melhor caminho. Você tem noção do impasse em que nos encontramos?

 

Eu tenho, mas não vou deixar barato.

 

— Imagino que o pobre garoto Aspher não será o líder absoluto de seu próprio exército, não?

 

Meu pai me olha de cima a baixo e depois me encara por algum tempo.

 

— Você será líder absoluto de seu próprio exército, Aspher. Ambos receberemos ordens e sugestões de ação, mas, no final, você decide como matar seus homens.

 

— Quantas tropas? Assumindo que o número será maior, não?

 

— Duas mil para cada um.

 

O último número era de mil no total. Deus do Céu, eu estaria me matando no plano anterior.

 

— Bom, o acordo com os outros reinos deu certo?

 

— Sim. Homens estão chegando das duas nações.

 

— Suponho que terminamos?

 

— Não. Quem será seu braço direito na guerra? Você não pode fazer tudo sozinho.

 

Bom, eu realmente estava esperando essa pergunta.

 

— Bhron.

 

Meu pai também parece esperar por essa resposta.

 

— Tem certeza? O garoto é bom, mas ainda não está no seu nível. Não seria melhor escolher alguém mais "preparado"?

 

— Como quem, por exemplo?

 

— Seu irmão Yuri.

 

— Ah, pai, nem comece.

 

— Qual é, Asp, o garoto merece uma chance, não?

 

— Primeiro, ele não é nem de longe do nível de Bhron. E segundo, é um pirralho muito malcriado.

 

— Sim, mas você sabe que ele precisa de uma chance, assim como você. Ou tenho que te lembrar de como era no começo?

 

Foram tempos sombrios aqueles depois de meu fracasso na magia e do começo do caminho da lança.

 

— Até mesmo Valk seria melhor do que ele, e olhe que ela é mais nova!

 

— Sua mãe... quer dizer, sua madrasta, Lin, me pediu isso como um favor, pra ver se o garoto muda.

 

— Então por que o senhor não o escolhe para o seu próprio exército?

 

— Você ficaria confortável em me ter como seu líder?

 

— Nem ferrando.

 

— Então. Não precisa tratá-lo diferente dos outros. Leve Bhron como seu braço direito e Yuri como sua mão esquerda.

 

Meu pai realmente quer agradar sua esposa. Lin nunca me tratou mal, então imagino que não tenha problema.

 

— Tá bem. Certo. Aceito o garoto. Mas, a qualquer sinal de desobediência, ele vai sofrer punições como qualquer outro.

 

— Você é o líder.

 

Os sorrisos de meu pai são raros e me fazem bem. Eu gosto deles. Sinto que são momentos que se tem que conquistar. Quer dizer, até nisso me pareço com ele.

 

— Terminamos?

 

Meu pai me dá um sinal de beleza com as mãos e aponta a porta. Ele é estranho de vez em quando. Tio Jin já me contou que, na infância, meu pai nunca dizia quando queria algo; ele tinha que adivinhar por alguns microssinais. Meu avô era bem rico, mas, naquela parte do continente, não tinha muito o que uma criança pudesse querer. O Império sobrevive de guerras.

 

Do lado de fora da porta, encontro uma visita inesperada. Lin me encara com aqueles olhos verdes que vejo em tantos irmãos meus. Se eu tivesse que descrever minha relação com ela, diria que é igual à que tenho com meus irmãos mais novos. Desde que comecei a ser importante no exército, não fico tanto tempo em casa, então meio que não convivo com os pequenos.

 

— Olá, Aspher. Como tem passado? — A mulher que causou a epidemia de ruivos na família. Tinha um porte baixo e frágil, um vestido púrpura e um cheiro de lavanda. Algumas sardas se encontravam aqui e ali por debaixo da maquiagem.

 

— Lin. Bem, e você? Aceitei o pedido que fez. Levarei Yuri comigo.

 

O sorriso que derruba homens aparece de novo.

 

— Que ótimo, Aspher! O meu neném só precisa de um rumo. Pegue leve com ele, sim?

 

Nem fodendo.

 

— Claro que sim. — Faço uma saudação meia-boca e me dirijo para a sala de jantar principal da casa. Lá encontro Bhron e Valkyrie sentados em seus lugares, calados. De vez em quando, sinto pena de Valk; o garoto Reid a ilude tanto.

 

Bhron me vê e começa a acenar para que eu me sente ao seu lado, o que aceito.

 

— Eu o escolhi para ser meu braço direito na guerra. — Solto, assim que me sento, virando a cabeça para o rapaz.

 

O garoto Bhron entra em êxtase, mas se contém da melhor maneira que pode. Por que eu parei de falar com Bhron mesmo? Lembro-me de sermos carne e osso.

 

Demorou mais de uma hora para que todos chegassem. Na mesa, estavam Bjorn, Lin, Yuri, Valkyrie, Bhron, Ugor, Rosa, Brand, Linda — a criança mais nova — e eu. Todos os Vykes que quiseram vir.

 

— Como todos já devem saber, uma nova invasão começará em algumas semanas. Vocês foram chamados aqui para que saibam do plano. Fico feliz que tenham vindo. — Meu pai olhou para cada pessoa, uma por vez. — Eu participarei da invasão como líder do segundo exército. Aspher será o líder do primeiro exército.

 

Um vozeirio começou na mesa; acredito que alguns dos mais velhos já sabiam, mas os mais novos com certeza receberam a notícia com surpresa. Odeio discussões.

 

Demorou um tempo até os ânimos se acalmarem e meu pai começar a explicar o plano para a prole. Demorou mais tempo ainda até que todos tivessem entendido os motivos. Alguns de meus irmãos mais velhos não concordam até hoje que eu seja líder do exército. Brand é o mais publicamente contra. Ele já tem algum prestígio dentro da força; acredito que seja uma pancada bem grande em seu ego me ter como líder. Não o julgo, vendo como acabei de discutir com meu pai. Já Ugor e Rosa me olham com os mesmos olhos de quando os ajudei a fugir de casa — uma espécie de "sinto muito". Gosto dos dois. Valk foi a que mais falou em toda a reunião. Ela basicamente não concordou com nada. Acho que ela gosta de mim, sei lá. Talvez tenha algo a ver com Trevor.

 

O dia terminou com algumas taças de vinho caro e conversas entre os irmãos mais velhos. Ugor é agora professor numa escola de magias. Rosa é chefe de uma guilda de aventureiros focados em suporte mágico. Ficou difícil segurar o choro com as histórias que me contaram do começo, depois da fuga. Agora moram juntos. Sempre foram assim, acho que por serem gêmeos. Sei lá.

 

Deitei na cama que Moira arrumara mais cedo. O cheiro de lavanda ainda impregnava o ar — Lin devia ter passado por aqui depois da reunião. A chuva continuava lá fora, tamborilando na janela como um lembrete de que o mundo não parava. Fechei os olhos e vi o rosto de Bjorn quando falei de Ugor e Rosa. Depois vi Bhron sorrindo ao ser escolhido. Depois vi Yuri, que nem desconfiava da responsabilidade que ia cair nas costas dele. Dois mil homens. Minha mão direita coçou, como sempre fazia quando eu pensava demais em batalha. Amanhã eu compraria uma lança nova. Não seria igual à velha — nunca era —, mas teria que servir. Por ora, bastava o som da chuva e o peso de um nome que eu ainda não sabia se queria carregar. 

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