Volume I
Capítulo 28: Excêntricos
— Nós já estamos indo. Esqueceram de algo? Não voltaremos tão cedo.
Pouco menos de uma semana antes da grande reunião dos Vykes, um grupo um tanto grande estava reunido na sala de jantar do forte do Rei.
— Eu não vi o Poeira esses dias; alguém o viu? — Reid estava vestido com o jaquetão que ganhara de Valk e com roupas grossas de lã, e carregava uma mochila modesta de cor musgo.
— Agora que perguntou, realmente não o vejo há algum tempo; os empregados dizem que ele não tem dormido em casa.
Pouco tempo se passara desde todo o evento com o Arrepiante. Treinos e tratativas dividiam as mentes do grupo — uma corrida contra um relógio que não exibia suas horas.
— Tá me escutando, Reid? — Trevor estalou os dedos diante da face do garoto, trazendo-o assim de volta à discussão. — Ele já fez isso antes? Nunca tive um gato, mas dizem que os machos gostam de sumir por vários dias.
— Bom, ele sempre saía, mas não se demorava tanto quanto agora.
— Não esquenta; provavelmente deve estar comendo na casa de uma segunda família. Ele vai aparecer; ele sempre...
— Ele sempre aparece.
Mesmo que todos dissessem estar prontos, demorou um pouco mais de trinta minutos até que deixassem o forte: Valk esqueceu coisas, Trevor esqueceu uma coifa de malha barata, Allastor voltou correndo para buscar algo que disse ser útil para uma aventura como aquelas, e Reid voltou uma vez para procurar Poeira, mesmo que lhe dissessem que estava atrasado.
A nova espada de Reid era, em algumas palavras, muito peculiar. O garoto evitava treinar tanto assim com ela, devido ao problema com a mana, mas, sempre que treinava, podia sentir o mesmo formigamento de quando a ganhara de Jin em seu aniversário. Quando balançava, era como se... a espada transmitisse sentimentos quanto à qualidade do golpe, à velocidade e à força aplicada. Reid podia até mesmo jurar que a espada respirava durante os treinos. Trevor recebeu a notícia com preocupação no olhar, o que fez Reid forçá-lo a experimentar a coisa toda. Infelizmente, o amigo não conseguiu nem mesmo treinar meia hora com a espada, visto que um segundo a mais teria lhe custado um desmaio por conta da drenagem excessiva de mana. De todos do grupo a quem contou as peculiaridades da espada, somente Allastor pareceu entender.
— Ah, claro! A minha faz isso também. Imagino que você não esteja muito íntimo com ela. Essa aqui... — Allastor acariciou o cabo de sua massiva espada. — ...ela tem uma personalidade muito... difícil, mas parece bater com o que você está me dizendo. — O homem pediu a espada emprestada. — Interessante. De onde será que Jin tirou essa?
— Você também consegue senti-la "respirando"?
— Não, mas ela está quase me rejeitando. Quer dizer, ela está tentando sugar até a última gota de mana do meu núcleo. Bem, garoto, você realmente tem um reservatório maior que a maioria. Eu diria que você deve treinar sempre com ela em mãos, pra ver o que acontece.
Reid nunca chegou a desmaiar, mas ficava sempre à beira de um colapso; e, embora não ficasse falando, o visual da espada era muito maneiro.
—
— Alguém se lembra das aulas que tivemos sobre masmorras? Sei que não foram nosso foco principal, mas cobrimos bem a essência. — Jin estava no meio do grupo, junto às crianças, com Elise na vanguarda e Allastor atrás.
Todos levantaram as mãos, inclusive Elise, que se interessava muito pelo assunto.
— Ótimo. Bem, essa aqui não chega a ser um risco iminente de morte, tendo em vista que temos um Deus da Espada conosco. — Allastor estufou o peito. — Entretanto, tomem cuidado com cada passo que tomarem. — Jin recebeu um pequeno beliscão. — Claro, também temos uma das maiores Santas da Espada do continente conosco.
— Uma pergunta que passou pela minha cabeça: como se vira um Deus da Espada? — Trevor coçou a bochecha enquanto Reid perguntava.
— Não é tão simples. Você precisa desafiar um Deus da Espada atual. Você precisa matá-lo ou que ele o admita como igual. Eu não consegui derrotar aquele troglodita ali. — A mulher apontou para trás, fazendo Allastor dar uma breve risada. — Vocês não imaginam a disparidade de nível.
— Não foi tão ruim assim, pelo que me lembro; vocês dois ficaram feridos. — Jin acariciava a cabeça de sua noiva, como um dono que faz carinho em seu cachorro.
— Ah, é, mestre Jin, o senhor nunca desafiou Allastor?
Um silêncio meio agudo tomou conta da conversa, durando alguns segundos.
— Bom, acho que não, né, Allastor?
— Não. Você ainda não treinava a espada nos seus dias dourados, antes de... tudo acontecer. Magia sempre foi sua praia. — Allastor tinha um visível olhar de pena nos olhos, um olhar compartilhado por Elise.
— E vocês dois? Já se enfrentaram? — Valkyrie apontou para o casal do grupo.
— Bom, muitas vezes.
— É. Muitas vezes. Acredito que sempre fomos assim, até no começo, né?
— Não. Uma luta de verdade, sem treinos ou brigas.
Os dois noivos se encararam lentamente. Jin pendeu levemente o pescoço para a esquerda enquanto pensava; Elise coçou o queixo ao mesmo tempo. Allastor bocejou.
— Eu... acredito que nunca nos vimos como iguais.
— Sim. Quer dizer, minha magia sempre foi uma vergonha, e Jin nunca sequer tinha encostado em uma espada.
Allastor chutou uma pedra que estava em seu caminho, fazendo-a voar por longos segundos.
— Falando nisso, quanto ainda falta para chegarmos?
— Muito.
—
Em tempos de paz, viajar pelas estradas que saíam de Qudu era muito tranquilo; alguns bandos de ladrões até tentavam algumas coisas, como sequestros e coisas do tipo, mas este grupo não teria muitos obstáculos. A viagem até a masmorra demoraria mais alguns dias, então o grupo escolheu um cume bem localizado, com visão da estrada, para passar a noite; montariam acampamento e sairiam de manhã.
O cheiro de madeira queimada que vinha da fogueira trazia uma tranquilidade muito recorrente aos narizes de Reid. Não demorou muito para que o cheiro mudasse para o de carne assada. O garoto não deixava de se surpreender com a facilidade que Allastor tinha de achar caça. O homem sumia por duas horas e voltava com criaturas tão grandes que faziam duvidar da quantidade de alimento disponível na área.
Dessa vez, uma corça-de-patas-afiadas teve o infeliz encontro com o homem. Pesava cerca de vinte quilos. Reid reparou que possuía um único defeito no corpo: um único perfuramento.
— Tio Allastor, como o senhor caça? Quer dizer, sei que o senhor não tem um arco.
— Oho! Um potencial apreciador de caçadas! Com a Valk, seremos três. E sim, não uso um arco; acho-os muito difíceis, e não é algo que você possa aprender sem uma vida de prática. Bom, a espada também.
Valkyrie não estava por perto; ela e Elise tinham ido tomar banho juntas. Jin usara magia para construir um chuveiro para o grupo, mesmo que Trevor tivesse quase implorado para que o homem o deixasse fazer. Era simples, mas eficiente: uma caixa de pedra cheia de água ficava suspensa por estacas do mesmo material, e uma espécie de cano, ligado a um chuveiro, ficava na parte de baixo da caixa.
— Qual a sua dúvida, de verdade, Reid? Quer saber como os mato ou como os rastreio?
— Tudo, na verdade.
O homem formou um gigante sorriso; era bem contagiante. Trevor estava por perto, mas não era bem um apreciador de caçadas. Sentia pena das criaturas, mas as comia depois de mortas. "Eles já morreram mesmo; não vamos deixar que tenham morrido em vão."
— Vamos pelo início, então. — O homem puxou uma adaga muitíssimo bonita de seu cinto. Tinha uns dezenove centímetros, cabo de bétula-voh, e sua lâmina era feita como uma espécie de vórtice, afiada como uma navalha. — Esta aqui é minha companheira. A perfuração que você viu mais cedo foi ela quem fez. — Jogou a adaga para Reid, que a pegou no ar. — O primeiro passo para uma boa caçada é saber o que você quer caçar. Muitos caçadores menores caçam por oportunidade, contentando-se com alguns coelhos ou um ocasional javali. Mas nós? Nós sabemos onde o ouro está.
Valkyrie apareceu com Elise depois do banho. Estavam com semblantes bem relaxados. A julgar pela cor das bochechas de Valk, provavelmente aquecera a água para as duas tomarem um banho quente.
— Depois de decidir o que vai caçar, o próximo passo — e o mais importante — é se livrar de qualquer presença que você emane. Por exemplo, sua aura, sua respiração e sua vontade assassina. Retrair sua aura, na maioria das vezes, já lhe garante muita vantagem, mas um excelente caçador busca percepção zero. Obviamente, não fazer barulho também ajuda. — O homem fez sinal para que Reid lhe devolvesse a adaga. — Com o que você caça também importa muito. Como você havia mencionado, um arco é a escolha padrão. Podem custar uma fortuna ou uma mixaria, fazendo deles uma arma apreciada tanto pela elite quanto pela baixa classe.
— Estão falando de caçadas? — Valkyrie ainda enxugava o cabelo com uma toalha cor de âmbar, enfeitada com detalhes de gansos. Estava vestida com um pijama largo, feito de cetim, de cor verde-musgo.
— Exatamente. Estou explicando o básico a Reid. Junte-se a nós. — Allastor esperou que a garota se sentasse no tronco de madeira, próximo à fogueira. — Bjorn é um grande apreciador de caçadas. Na verdade, ele me apresentou à arte de se caçar de verdade. Creio que Aspher deva tê-lo ensinado. Conte-nos sobre como caça, garota Vyke.
— Ah, papai me ensinou com uma balestra. São ótimas armas para quem não tem uma mão forte o suficiente para um arco. Como não tenho dois metros de altura, é mais fácil me esgueirar. Na maioria das vezes, os maiores desafios são esconder minha mana e carregar os corpos.
— Interessante. Nunca a vi com uma balestra nas mãos. — Reid estava sentado um pouco mais distante da fogueira. — Elas são caras?
— Hoh! E como. Diferente dos arcos, artesãos de balestras são... excêntricos. Só vendem para um grupo seleto e destroem trabalhos medianos. Acho que só existem dois no continente. Obviamente, você pode encontrar balestras ruins por aí, mas, na maior parte das vezes, são de artesãos não certificados.
— Sim. Papai é um grande cliente dos artesãos. Tem uma coleção modesta delas; são caras até para ele.
O cheiro do perfume de Valkyrie invadiu as narinas de Reid. Era um cheiro gostoso de pêssego, bem suave.
— Entendi, mas como o senhor faz para atirar a adaga? Não acho que força física apenas seja o segredo.
— E está certo. Tem uma técnica que roubei de um guarda meu não muito tempo atrás. Antes dela, eu só atirava a adaga. — O homem deu uma risada fraca. — Olhe, preste atenção em como minha mão segura a adaga. Se eu pegar somente no cabo, a força diminui muito. Pegue na ponta da lâmina, de modo que a parte do cabo quase encoste no seu antebraço. — A feição de Allastor ficou tensa. — Agora, concentre mana somente no seu dedo indicador e no polegar; os outros servem para definir a direção. Quando achar que condensou mana o suficiente, solte como uma cachoeira apenas o suficiente para atirá-la. — E assim o homem o fez. A adaga acertou uma árvore não muito grossa, perfurando bem fundo.
As crianças bateram palmas de animação. Trevor até soltou um pequeno grito de "viva". Allastor fez uma pequena reverência antes de arrancar a adaga do tronco da árvore.
— Vamos caçar em alguma oportunidade próxima, Reid. Você, Valk e eu. Essas coisas precisam ser vividas; não dá para aprender só com aulas.
O garoto concordou com a cabeça. Valk já caçara com Allastor outras vezes. Certa vez, até Bjorn comparecera.
—
Elise estava enroscada em um sonolento Jin, deitados dentro de um único saco de dormir. A mulher parecia quase colada ao homem por debaixo do cobertor.
— Acha que teremos complicações? Não é a mais perigosa, mas não chega a ser fácil. — Elise enrolava com os dedos os longos e pálidos cabelos de seu noivo.
— Difícil dizer. Entrar em masmorras é sempre um tiro no escuro, ainda mais a Cripta dos Antigos. Escutei boatos de mortos-vivos recentes nessa. Sabe o que significa, não sabe?
— Infelizmente, sim. Um Lich, não?
— Provavelmente, mas julgando pela quantidade de mortos-vivos, é um bem fraco. Ainda bem que temos Allastor conosco. Não sei o que faria se...
Elise calou Jin com um beijo.
— Não fale isso. Você não vai precisar usar magia. As crianças estão em um nível alto. Sabem se defender.
— Você... tem razão. Todos evoluíram bastante.
Jin apertou o abraço.
— Eu te amo.
A face da imponente Elise, a Trovoada, corou de maneira recorde.
— Eu... também te amo. Muito.
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