Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 6: Dropfang

Viver em Qudu provou-se, em muitas definições possíveis, divertido. Reid já se adaptara à sua nova vida. Morava no antigo quarto de hóspedes do forte de Allastor, que agora se tornara seu quarto pessoal. Ia para a escola Dropfang e treinava nos terrenos do forte todos os dias. Sua relação com Allastor e sua família era estranhamente boa. Allastor agia e pedia que o tratassem como um tio, e sua esposa e filha o tratavam como um primo distante. Allastor havia providenciado um selo oficial para Reid, assim ele não precisaria esperar a confirmação para entrar no forte.

Maria era um pouco mais velha que Reid, mas o tratava igualmente, e até chegaram a treinar juntos algumas vezes. A esposa de Allastor, Cynthia, não parecia incomodada com o pedido de Jin. Reid aprendera a ler e escrever mais rápido do que o esperado e agora estava focado no básico de esgrima e magia; era o que a Dropfang podia proporcionar antes de seus estudantes escolherem seus caminhos.

Reid tentava imitar o modo como Jin lutava, mas descobrira que era quase impossível. Investir em esgrima consumia muito tempo para focar-se em magia, e vice-versa. Ele estudava alternadamente todos os dias; afinal, não pensava que ficaria no mesmo nível que Jin algum dia, mas não queria ser um peso morto em sua jornada.

Descobriu que o uso de katanas em combate caíra em desuso e se tornara um estilo de nicho específico. Só havia um professor na Dropfang que podia ensinar o uso de katanas, e Reid era um dos seus poucos alunos.

Quanto à magia, Reid descobriu que se nascia com uma afinidade com algum elemento e que, geralmente, seu leque de feitiços era limitado a essa afinidade. O núcleo de mana formava-se por volta dos doze anos, e cabia ao mago treinar para aumentar sua capacidade de refinar a mana e seu reservatório. Estudara que podia acontecer de magos nascerem com dupla afinidade, mas o último que se inscrevera na Dropfang já morrera no outro continente em uma missão de reconhecimento.

Reid tinha afinidade com o elemento de fogo e potencial para o subelemento de relâmpago, se masterizado e desenvolvido.

O garoto encontrou-se algumas vezes com Valkyrie na escola; ela sempre o parava para conversar e parecia sempre feliz. Reid agradecia que estivessem em salas diferentes; sempre que falava com Valkyrie na escola, os garotos de sua sala o olhavam estranho pelo resto do dia.

Fizera um amigo na escola; seu nome era Trevor e, pelo que dissera, era de outro reino, tendo se mudado para Qudu com seus pais em busca do apoio do Rei Allastor para recuperarem um vilarejo tomado por uma tribo ao norte. Trevor tinha afinidade com o elemento de água. Sua amizade com Reid começara no mesmo dia em que Reid se apresentou à turma; pelo visto, o fato de não serem residentes naturais fizera os dois se unirem.

Era um tanto mais alto que a maioria dos garotos e um tanto mais bonito que eles também; seus cabelos prateados eram longos e passavam dos ombros. Suas orelhas eram pontudas e um tanto maiores que as dos outros; tinha um corpo magro, olhos azuis, pele branca como a neve e era muito mais educado que a maioria dos garotos. Sua voz era linda, e Reid gostava de ouvi-lo cantar.

Sua amizade havia sido bastante benéfica; afinal, os dois podiam conversar durante os intervalos. Reid percebeu que Trevor era um meio-elfo só depois de perguntar a Allastor. Reid sabia que Trevor era um nobre, mas tinha algo de diferente nele. Todos os outros garotos com quem comia junto sempre falavam de como sua família era poderosa e de como eles se tornariam incríveis guerreiros e conquistariam o outro continente; quando estava com Trevor, este sempre falava que sentia falta de sua terra e de como ele queria ser um cantor e tocar piano. Ouvir os outros falando sobre isso sempre deixava Reid pensativo; afinal, o que ele queria fazer? No momento, ele só queria ser forte e acompanhar Jin pelo mundo — objetivo que achava válido o suficiente.

Muitas pessoas na escola tinham curiosidade sobre Reid; afinal, os únicos que sabiam de seu benfeitor eram o Diretor da escola e Reid. A informação de que o rei tinha um protegido na academia era guardada a sete chaves. Reid sempre dizia que seu mestre o ajudava com tudo, mas nunca dizia o nome dele.

Quando estavam juntos, Trevor e Reid se destacavam em muitos fatores, suas aparências tão parecidas e tão distantes ao mesmo tempo. O cabelo de Trevor era prateado e longo; já o de Reid era preto e curto. Os dois eram altos, e ambos estudavam esgrima e magia ao mesmo tempo. Na turma em que estavam, quase todos os meninos eram ruivos. Aparentemente, existira uma sala só para estrangeiros antigamente, mas hoje em dia todos eram distribuídos igualmente entre as turmas. A maioria dos meninos falava alto e ria sempre na mesma altura elevada, lembrando o Rei Allastor.

Reid não gostava de atenção e fazia de tudo para evitá-la, mas, infelizmente, todo seu mistério só contribuía contra ele. Atualmente, estava mais focado em seu potencial mágico; achava que ter afinidade com magia de destruição era uma faca de dois gumes: destruição em massa ou não, ainda era destruição. Relâmpagos... agora que parara para pensar, lembrara-se de que nunca vira ninguém na guilda que tivesse afinidade com relâmpagos.

Treinar seu núcleo mágico era tão importante quanto aprender novas magias — se não mais — e, para treiná-lo, você precisava se concentrar ao extremo; por isso, Reid teve uma conversa com Allastor certo dia.

— Perdão, milorde Allastor, poderia me conceder alguns minutos? — Reid melhorara muito em seus modos nestes últimos meses; por mais que não gostasse, agora parecia um nobre.

— Eu já lhe disse para me chamar de tio, Reid, mas sim: sobre o que quer falar? Vai finalmente me pedir dinheiro? — Disse Allastor em seu tom de voz brincalhão. Allastor achava que adolescentes gostassem de dinheiro; afinal, Maria pedia dinheiro toda semana, mas Reid não pedira uma única vez. Sempre pedia que um empregado comprasse em seu lugar as coisas necessárias.

— Eu não acho que seria adequado, senhor; não somos parentes, embora eu aprecie que me trate como um membro da família. Enfim, gostaria de um espaço para que eu possa treinar meu núcleo; tem que ser sem intromissões e meio calmo. Não preciso de uma sala própria; só preciso treinar. — Disse Reid no seu tom de voz habitual de quando conversava com o rei.

— Oh, certo, sim, pode usar o salão de reuniões para isso; vou deixar avisado aos empregados para não o interromperem enquanto estiver lá. Mas diga-me: por que não me pediu conselhos sobre esgrima? Sei que não sou um mago, mas sei que está treinando os dois ao mesmo tempo. — Disse Allastor, enquanto alisava sua barba recém-aparada e se sentava no seu lugar na sala de estar; era uma cadeira rústica feita de pinheiros de ferro. Reid achava a madeira linda, mas um tanto simples para um rei.

— Pois seria uma perda de tempo para alguém tão habilidoso como vós, milorde; prefiro progredir devagar por enquanto, e, quando eu tiver minha base formada, pedirei certamente por sua ajuda. — Devolveu Reid, enquanto se curvava levemente.

— Você tem certeza de que tem treze anos? Sinto como se falasse com um senhor um tanto quanto educado; enfim, Reid, venha falar comigo sempre que tiver uma dúvida ou algum problema.

— É, eu tenho uma dúvida, Tio Allastor: como eu faço para uma garota sair do meu pé? — Perguntou Reid um tanto envergonhado; afinal, nunca havia conversado sobre garotas com algum adulto que não fosse Jin. Conversar com Trevor era fácil, mas com um adulto era diferente.

— Primeiro, diga-me: quem é a garota e tirá-la de seu pé em que sentido? — Indagou Allastor, com um sorriso enorme estampado na cara por finalmente ter uma conversa dessas com Reid. Allastor sempre quis ter mais filhos e sempre desejara um casal, mas sua esposa tinha dificuldades em manter as gestações e sempre acabava perdendo os bebês; por isso Allastor não fizera mais nenhuma tentativa de conseguir um herdeiro ao trono.

— Ela se chama Valkyrie, e ela não sai do meu pé. Quando estamos na escola, ela sempre me para nos corredores para poder conversar por muito tempo, e, sempre que tem tempo livre, vai à minha sala conversar, e isso deixa os outros garotos num estado meio mórbido. — Disse Reid, ainda mais envergonhado.

— Valkyrie? Você conhece a mais velha da casa dos Vykes? Bonita a garota; quando crescer, vai quebrar muitos corações. Que mundo pequeno. — Disse Allastor, em uma risada alta. — Olha, Reid, você tem amigos na sua escola? — Perguntou Allastor no seu "modo pai" de dar conselhos.

— Tenho, sim; ele se chama Trevor, aquele meio-elfo que mencionei antes. — Disse Reid, confuso com a mudança repentina de assunto.

— Então, você não gosta de conversar com ele? Rir com ele? Você não vai até ele sempre que o vê? Provavelmente é o mesmo com Valkyrie; ela o enxerga como um amigo do mesmo modo que você vê Trevor. — Disse Allastor em uma conclusão que deixaria até seu antigo mestre orgulhoso, pensou.

— Então quer dizer que nós somos só amigos? — Disse Reid, com o choque de realidade que acabara de receber. Reid já tivera paixonites antes, como por Ana, mas nunca namorara nem nada; quando se tem treze anos, esses assuntos podem ser confusos.

— Eu posso estar errado, é claro, mas por que não tenta ser amigo de Valkyrie também? Tenho certeza de que será bom para vocês dois; além disso, os Vykes são boas pessoas. O primogênito deles, Brand, salvou muitas vidas no último ano, mesmo tendo recebido ordens para executá-las depois dos saques. — Disse Allastor, enquanto bebia algo que Reid achava ser vinho em uma caneca feita de um chifre banhado a ouro. Tinha detalhes de guerreiros lutando e um único guerreiro em pé sobre o corpo de muitos já mortos.

— Obrigado, tio, pelos conselhos; alguma notícia sobre Jin? — Disse Reid, enquanto recuperava sua postura diplomática que sempre usava com Allastor.

— Ele mandou um mensageiro há um tempo; disse haver chegado em casa e que teria que resolver algumas coisas, e que em cerca de sete meses estaria de volta. Ele disse mais algumas coisas, só que diretamente para você: "Não tenha vergonha de usar meu nome para ficar mais forte" e "Não treine esgrima e magia ao mesmo tempo; seu corpo não vai aguentar a longo prazo. Eu só comecei esgrima depois de anos sendo um mago de alto nível". Também disse que era para você aproveitar sua vida escolar; um soldado sem convicções é só uma casca em uma guerra. — Disse Allastor, olhando para cima, tentando lembrar-se de tudo. Allastor decidira inventar a última parte. Jin nunca dissera aquilo, mas Allastor sabia que só se vivia uma vez. Treinar desde sempre o fizera o melhor, mas a que custo? Quantos amigos ele deixara de ter? Quantas paixonites de escola? Não que ele não amasse sua vida atual, mas sua esposa viera de um casamento arranjado por diplomacia, e demoraram-se anos até que se amassem de verdade. Não, Reid não podia cometer o mesmo erro que ele.

— Entendo, então o mestre Jin disse isso. Obrigado, milorde; preciso ir para o meu quarto. — Disse Reid, digerindo a mensagem de Jin. Era um tanto abandonar sua rotina assim do nada; afinal, ele estava começando a pegar o jeito das coisas, já podia formar um feitiço útil, e sua esgrima ainda era de iniciante, mas podia matar alguns monstros.

Enquanto seguia em direção ao seu quarto, pensava no que Jin queria dizer com não ser bom a longo prazo treinar esgrima e magia ao mesmo tempo; se fosse só cansaço corporal, Reid sabia que poderia aguentar. Não tinha intenção de parar; se Jin podia fazer, então Reid também poderia — ou era assim que ele pensava.

Reid recobrou a consciência quando passou pelo quarto de Maria e foi chamado por ela.

— Reid, você pode me ajudar? — Entrando no quarto de Maria, Reid se espantou com o quão bonito era; tinha uma cor principal branca e móveis de madeira vermelha. A cama dela era maior que a de Reid, mas não parecia muito útil, visto que Maria dormia sozinha. Seu quarto também tinha um banheiro próprio, mas era feito de forma diferente: piso e paredes de mármore claro, e o resto de mármore escuro. Parecia ter também um miniquarto para guardar suas roupas, e havia tapetes grandes espalhados pelos cômodos; era quase duas vezes maior que sua casa em Zammor.

— Oi, Maria, o que aconteceu?

— Eu meio que escutei sua conversa com o papai, mas foi sem querer, eu juro! — A cara de Reid foi de pálida por exaustão para vermelha como um tomate em questão de milésimos.

— Ah, HAHA! Sim, então o que você queria? — Disse Reid, sem olhar nos olhos de Maria. A vergonha podia causar dor física nas pessoas quando era muito forte. Reid não tinha vergonha da parte formal de sua conversa com o rei, mas sim da parte que envolvia Valkyrie. Falar sobre garotas com um adulto já era difícil; imagine falar sobre garotas e ser ouvido por outra garota.

— Então... eu estudo na mesma turma que um dos irmãos Vykes e, alguns dias atrás, ele me disse que a sua irmã mais nova não parava de falar de um garoto estrangeiro. Isso lhe lembra alguém? — Perguntou Maria, com um sorriso meio macabro no rosto.

— Acho que sim, mas o que tem isso?

— Quer dizer que você precisa tomar uma atitude. — Disse Maria secamente.

— Mas eu já decidi que vou ser amigo dela. — Disse Reid, ingenuamente.

— Todos os homens são assim? — Disse Maria, enquanto caía na real.

— Já estão se espalhando rumores na escola, você sabe, não é? Rumores de que a mais velha das irmãs Vykes está namorando um estrangeiro. — Disse Maria, enquanto estava sentada em uma cadeira que parecia valer mais que uma espada de qualidade.

— Rumores são apenas rumores, Maria; eu não a namoro. — Concluiu Reid, ficando mais sério com o desenrolar da conversa.

— É, mas no momento, para a escola, vocês namoram. Dê um jeito de resolver essa história; está manchando o nome dos Vykes porque você não falou do tio Jin para ninguém.

— Eu vou resolver; obrigado por me avisar. — Disse Reid, enquanto saía do quarto.

Que história era essa? Ele não namorava Valkyrie; de onde esses rumores haviam começado? Será que ela os começara sem querer? Tinha que esclarecer as coisas, mas isso teria que esperar até a volta das aulas na semana seguinte.

Reid decidiu não seguir os conselhos de Jin e continuou com seu treinamento. Ler estava se provando muito útil; havia pedido alguns livros a Allastor, e ele comprara muitos. Agora tinha uma pequena base de teorias para se basear. Descobriu que seu núcleo de mana se desenvolvia com constância e não reagia negativamente quando forçado além do limite, ao contrário da esgrima. Reid chegara a vomitar no dia em que experimentara treinar esgrima até não conseguir mais. Treinar seu núcleo de mana era, em muitas etapas, uma terapia. Para treinar o núcleo, era necessária uma meditação muito focada e nenhuma interrupção. Enquanto meditava, você deveria buscar fragmentos no peito e preenchê-los com mana; assim se melhorava a qualidade da mana e a capacidade do núcleo.

Quando voltaram às aulas, Reid decidiu conversar com Valkyrie sobre os rumores, mas, antes, decidiu pedir a opinião de Trevor. Talvez ele tivesse uma visão diferente sobre tudo o que estava acontecendo.

— Reid, eu achei que vocês já estivessem namorando. — Disse Trevor em sua voz normal e monótona.

Então essa era a força que um rumor podia ter em uma escola; era realmente muito forte.

— Não, cara, eu não namoro a Valkyrie; nós nem somos amigos. Eu só a conheci na cidade uma vez, e ela fica me seguindo por aí. É realmente chato que esses rumores existam…

— Reid, você passou dos limites. — Disse Trevor, tossindo de leve e apontando com a cabeça para uma Valkyrie em um estado inicial de choro, saindo pela porta de sua sala.

Ela escutara a conversa dos dois — óbvio que ela tinha que ter escutado —, estava se preparando para cumprimentar os dois e iniciar uma conversa.

— Valk… — Disse Reid, antes de Valkyrie sair correndo. A culpa afetou Reid de um modo que ele não esperava; ainda não tinha nenhuma relação com ela, então achava que não estivesse errado, mas algo em sua mente lhe dizia o contrário.

— O quão ruim você acha que foi? — Perguntou Reid a Trevor, enquanto levava uma mão à têmpora.

— Se seu objetivo era acabar com os rumores, você conseguiu; dê uma olhada em volta. Muitas pessoas viram o que aconteceu. — Disse Trevor, enquanto andava com as mãos nas costas em direção ao refeitório, junto de Reid.

— Acha que dá para consertar? — Continuou Reid, enquanto se sentava no lugar habitual dos dois.

— A pergunta devia ser: você quer consertar? Porque você queria que os rumores parassem, mas duvido que a Valkyrie o ignore se você for atrás dela. Sugiro que tome uma ação rapidamente; sua reputação só vai diminuir a partir de agora. — Concluiu Trevor, enquanto comia seu doce favorito: um pudim com geleia de frutas vermelhas.

— Preciso pensar. Depois falo com você. — Disse Reid, e saiu com seus pensamentos.

— Mas a gente não ia para a minha casa hoje? — Exclamou um Trevor confuso, que ainda continuava a degustar seu pudim.

Reid andou algum tempo enquanto pensava; sempre que precisava pensar, parecia parar no mesmo lugar de sempre: o jardim botânico da escola. O lugar o ajudava em muitas coisas, e organizar sua mente era uma delas.

Sentando-se, começou a meditar; mais ou menos uma hora depois, sentiu a presença de outra pessoa se aproximar por suas costas. Como não exalava nenhuma vontade assassina, deixou que viesse.

— Por que você disse aquilo? — Era Valkyrie, e, por sua voz, já tinha parado de chorar.

— Eu não sei; só pensei que seria melhor acabar com os rumores. Estava manchando sua honra e a reputação de sua família; você sabe o que falam sobre mim por aí. — Disse Reid, saindo de sua posição de meditação e virando-se para ela.

— Eu pensei que fôssemos amigos; eu já lhe disse antes que não ligo para essas merdas que falam de você. Até tentei fazê-los parar. Sabe o quão difícil é arranjar uma amizade de verdade com alguém quando se é nobre? — Disse ela, com uma gota de choro odioso começando a brotar de seus olhos.

Valkyrie estava com os olhos vermelhos, que combinavam com seus cabelos; usava uma camiseta azul acompanhada do uniforme feminino, que consistia em uma saia preta, um blazer negro e sapatilhas. Ela estava evitando olhar nos olhos de Reid durante toda a conversa.

— Desculpe-me, Valkyrie; eu havia pensado em algo fútil. Perdoe-me. — Disse Reid, fazendo a mesma saudação de antes.

— Você continua fazendo a saudação errada. — Disse Valkyrie, dando uma risada e um tapa em Reid.

— Como você sabia que eu estava aqui? — Perguntou Reid, enquanto voltava para o refeitório com Valkyrie.

— Quando perguntei para Trevor, ele não me disse onde você estava, mas disse que você tinha que pensar, e uma coisa leva à outra. — Explicou Valkyrie, enquanto se olhava no espelho de bolso. Era bem bonito, na verdade. Tinha detalhes de rosas douradas e era feito de ouro.

— Eu tenho que me encontrar com Trevor; combinamos de ir à casa dele hoje. Quer vir comigo? — Perguntou Reid, enquanto arrumava seu uniforme, que estava fora da calça.

— Geralmente, minha família não deixa que eu saia assim… — Respondeu Valkyrie, com visível tristeza estampada no rosto.

— Tudo bem, então por que não pede para ir à minha casa na semana que vem? — Perguntou Reid, tentando animar sua "nova" amiga.

— Eu adoraria. É uma promessa, certo? — E toda a tristeza não existia mais.

— Eu acho que sim; vejo você depois. — Disse Reid, enquanto saía do jardim e encontrava Trevor no corredor. Estava um tanto feliz demais; aparentemente, hoje era dia de pudim em dobro.

— Como foi? Fizeram as pazes? — Perguntou Trevor, enquanto lia um livro que falava sobre a terceira guerra entre as tribos da província do sul.

— Acho que sim; pelo visto, as mulheres são mais complicadas do que eu me lembrava. E o convite continua de pé?

— Eu avisei minha família, então creio que sim. E você? Avisou seu mestre? — Reid não contara sobre Jin nem mesmo para Trevor; isso o deixava com um peso na consciência, mas não tinha nada que pudesse fazer.

— Eu avisei ontem, então eles não esperam que eu durma em casa. Eu preciso saber de algo antes de ir à sua casa? — Trevor ponderou por alguns segundos antes de responder.

— Eu não ligo para isso, mas minha família é considerada nobre, então, para dar uma boa primeira impressão, seria legal tratá-los bem. Mas isso é com você; não faz diferença. — Disse Trevor, dando de ombros.

— Cara, você deveria se importar mais com eles.

A Dropfang ficava na parte plana da cidade; as residências dos nobres ficavam no distrito comercial, na parte alta da cidade, e o distrito residencial dos plebeus ficava na parte baixa. Era comum encontrar nobres no distrito residencial; afinal, os mercados de escravos ficavam lá.

Reid descobrira que escravos estavam sendo comercializados em Qudu de maneira inusitada. Cerca de um mês antes, Reid andava pelo distrito comercial quando viu uma criança perdida. A aparência dela estava péssima: era branca como a neve e tinha cabelos pálidos, mas tinha cicatrizes por todo o corpo e estava suja de barro; não parecia comer havia dias e tinha um olhar morto.

— O que aconteceu, pequeno? — Disse Reid, enquanto se ajoelhava perto da criança.

— Eles… — Oi? Eles quem? — Vão bater em mim… — Como assim bater em você? Por quê? — Falar com ocê.

— Afaste-se, senhor; este escravo é propriedade da casa Volger. Ele já foi adquirido pelo valor justo. — Disse um homem alto e forte, que aparentava ser um capataz dessa tal casa Volger. Atrás dele, estavam outras pessoas em fila, acorrentadas umas nas outras, todas no mesmo estado que o garoto.

— Desculpe-me, você disse escravo? — Perguntou Reid, não querendo aceitar a situação.

— Sim, senhor. — Disse o homem, confuso.

— E o que seria um valor justo? — Perguntou Reid. Ele queria libertar aquelas pessoas, pelo menos as crianças; suas vidas não eram propriedade de ninguém.

— Pagamos uma moeda de ouro por cada criança e duas moedas de ouro e uma de prata por cada adulto. Veja que são da tribo Mob, uma raça de anões; são famosos por seus ferreiros. — Disse o homem, mais como um papagaio que replica aquilo que ouve.

Isso era muito dinheiro, muito mais do que Reid tinha; suas economias consistiam em um presente de Allastor que agora estava terminando. Teria que arrumar mais dinheiro.

— Sinto muito, pequeno. — Disse Reid, com visível frustração na voz. Não podia comprar briga por algo que não era considerado errado naquele reino.

— Não. — Disse Allastor, sentado em uma poltrona que sua esposa encomendara e que era muito mais confortável que as outras.

— Mas, tio, estão vendendo crianças; o senhor tem que me ouvir. — Disse Reid, mais emocionado que o normal.

— Eu sei, Reid, mas isso não é da nossa conta; este reino trata a escravidão como normal há séculos. Eu mesmo tentei abolir, mas não encontrei nem três apoiadores entre as maiores casas. — Disse Allastor, fazendo sinal com a mão para uma empregada trazer uma xícara de chá de escarbúneo.

— Mas, tio, com o apoio do mestre Jin, o senhor conseguiria. — Continuou Reid, fazendo beicinho pela primeira vez na vida.

— Reid, tente entender: boa parte da receita de Qudu vem através de guerras e saques. Em guerras, inimigos não mortos são tratados como mercadoria — assim como vinho ou ouro —, e não tem nada a ver com raças ou algo assim. Embora eu tenha que admitir que existem exceções, há casas que compram outras raças por curiosidade ou até mesmo por fetiches. Enfim, seu mestre se recusa a me ajudar com decisões do reino.

— Mas o senhor não é o rei? Pensei que fosse a autoridade máxima.

— Um rei não é totalmente absoluto. Eu poderia declarar a proibição da escravidão amanhã, e poucas casas acatariam a lei; lá estaria eu, um rei sem súditos. Um pastor sem rebanho não passa de um idiota com um cajado. As casas iriam exigir compensação por perder seus escravos, e aí seriam anos até se resolver tudo; depois, os escravistas ilegais fariam fortunas saqueando vilarejos. — Disse Allastor, parando de beber e olhando para a lareira crepitante. Geralmente, Allastor odiava a lareira, mas hoje ela estava linda. — Enfim, Reid, não tente mudar tudo agora; ser forte não é só sobre matar as pessoas. Consiga aliados; em breve você perceberá o quanto eles podem valer a pena — talvez com aquele seu amigo Trevor e a menina dos Vykes.

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