Volume I
Capítulo 5: A Chama
O primeiro dia na cidade de Qudu havia sido um tanto corrido. Allastor havia designado alguns empregados para levar Reid e ajudá-lo a conseguir os itens necessários para a escola. Aparentemente, existia um código de vestimenta, porque o primeiro lugar em que pararam foi em um alfaiate.
"Vistam esse garoto adequadamente, e pelo amor de Deus, queimem os trapos dele" foi o que Allastor disse aos empregados. Reid pensava ser exagero chamar suas roupas de trapo, mas, quando chegaram ao alfaiate, percebeu estar errado.
Existiam ternos negros como carvão, azuis como o céu e até mesmo aqueles vermelhos como maçãs. Quando Reid se dirigiu ao terno vermelho, foi repreendido por um dos empregados. Aparentemente, a escola que frequentaria só permitia ternos de cor preta e azul. Reid se perguntou se seria obrigado a usar aquilo diariamente, mas logo viu que só em eventos na escola, porque as "roupas casuais" logo foram compradas e pareciam elegantes. Eram camisetas brancas, calças pretas de um tecido estranho, sapatos pretos e uma gravata de escolha pessoal.
Terminaram as compras das roupas, e Reid foi levado a um cabeleireiro e obrigado a cortar o cabelo, que já batia em seus ombros. O garoto soltou uma única lágrima durante todo o processo. Depois de cortar o cabelo, o garoto saiu, acompanhado de sua trupe de empregados, pelas ruas de Qudu. Como não tinha muito espaço de fala nas decisões, usava seu tempo para pensar, pensava principalmente no futuro; algo que não gostava de fazer.
Enquanto estava perdido em pensamentos, foi interrompido por uma voz doce que vinha de trás.
— Você parece importante. — Disse a garota de cabelos cor de fogo. Olhos verdes que brilhavam com curiosidade, estatura média e sardas leves nas bochecas.
— Eu não sou, e você? — Devolveu Reid naturalmente.
— Nem eu, mas as pessoas falam que meu pai é. Enfim, de onde você é? Tem uma quantidade grande de empregados o seguindo. — Apontou a garota, enquanto se inclinava para o lado para poder ver os empregados, que pareciam animados para gastar o dinheiro de Allastor e ainda poder vestir Reid como uma boneca.
— Eles não são meus empregados, mas você também tem muitos seguranças a vigiando. — Constatou Reid, indicando com os olhos todos os numerosos seguranças.
— Eles são do meu pai; decidi vir comprar algumas coisas para a escola, e ele não me deixou vir sozinha. E você?
— Eu também, mas não conheço nada na cidade, então eles são bem úteis. — Admitiu Reid, enquanto apontava para trás, na direção dos empregados.
— Então, Reid, por que não fazemos companhia um para o outro? Eu conheço muitos lugares em Qudu. — Sugeriu a garota, enquanto inclinava o pescoço para o lado.
— Como você se chama? — Perguntou Reid.
— Valkyrie, só Valkyrie. — Disse a garota, dando uma risadinha pelos cantos dos lábios.
— Então, Valkyrie, pelo que sei, esses lix… — O garoto parou, limpando a garganta. — Quero dizer, os nobres geralmente se orgulham muito de seus nomes; por que escolhe ocultar o seu? — Indagou Reid, enquanto caminhava com Valkyrie ao seu lado em direção a uma livraria chamada "Garranchos e Parasitas", nome que Reid achava incrível.
Valkyrie apenas deu de ombros e soltou uma risada.
— Então, Reid, você não parece ser daqui; de onde é? — Perguntou Valkyrie, enquanto caminhava com o olhar fixo no rosto de Reid.
Ela o achava um rapaz intrigante: não parecia ser um nobre, mas era importante; não se portava como um nobre, mas vestia roupas de alto refino; tinha um modo de andar que indicava que já tinha vivido mais do que sua idade podia dizer. Valkyrie não estava interessada em Reid ou algo assim; sua aparência era comum na opinião dela.
Reid era um tanto alto para sua idade, de corpo esbelto mas magro, com uma aparência de quem passava fome; seus cabelos, agora cortados, tinham uma cor negra e o deixavam com um ar mais jovial; seus olhos castanhos eram sempre afiados; tinha uma cicatriz na bochecha que sugeria que já tivera alguns inimigos. O total oposto de muitos meninos naturais de Qudu — quer dizer, tirando a parte das cicatrizes, a maior parte dos garotos se envolvia em muitas brigas.
O padrão de beleza pode ser muito diferente em diferentes cidades. Qudu era um reino com passado de gerações guerreiras; muitos combatentes faziam de Qudu sua morada. Ser ruivo, alto e bom em combate já bastava para a maioria das garotas dali. Valkyrie tinha quatro irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas; ela já estava cheia de seus irmãos serem exatamente como o estereótipo que se tinha dos homens de Qudu. Olhar para Reid era um banho de diversidade, pensava Valkyrie.
— Eu nasci em Zammor, mas meu mestre decidiu que, no momento, Qudu era melhor para meu desenvolvimento. — Reid sabia que seu mestre era influente, mas não sabia o quanto; não queria citar Jin. Reid sempre odiou viver à sombra de outros; não seria agora que iria apreciar isso. Claro, Reid sabia que usar o nome de Jin seria muito útil — não era idiota —, só estava esperando as oportunidades certas.
— Então, seu mestre é alguém inteligente. Qudu é um berço para aqueles que buscam aperfeiçoar sua esgrima; veja, nosso rei, Allastor, já foi considerado o melhor guerreiro entre os dois continentes, era chamado de "Allastor, o Vermelho". — A garota fez uma pequena pausa para garantir que o garoto estava acompanhando. — Era chamado assim porque sempre saía pintado de sangue depois de suas batalhas; dizem as pessoas que ele fazia parte do grupo que expulsou os intrusos de nosso litoral há uns anos. — Disse Valkyrie, feliz por usar o conhecimento que seus irmãos lhe haviam ensinado; ela achara que era inútil até este momento.
— Meu mestre é uma pessoa estranha em seus muitos jeitos, mas ele é, sim, inteligente. Enfim, você ainda não me disse por que esconde seu nome. — Disse Reid, enquanto observava Valkyrie ler para ele um pergaminho que estava sendo vendido — "Potencialize o crescimento de seus cabelos" —, o que deixou Reid um tanto animado.
— Eu não gosto de criar armas contra mim mesma; sabe quantas crianças nobres são sequestradas hoje em dia? — Disse Valkyrie, indignada com a falta de conhecimento de Reid, antes de se lembrar de que ele não era um nobre.
Reid achou irônico ter se lembrado da história da criança nobre de Zammor no mesmo dia, mas conteve um sorriso e continuou a pegar os materiais necessários. No fim, Reid sabia que todos os nobres eram iguais: se sua posição fosse ameaçada, todos eles mudavam de personalidade. Reid os achava muito fúteis. Então, o garoto se lembrou de Allastor; por que não o achava fútil? Era a impressão que ele passava ou o modo como vivia? Reid percebeu, então, que exceções existiam.
— Enfim, Valkyrie, muito obrigado por sua ajuda, mas sinto que os empregados do senhor Al… Alan já estão cansados e precisam fazer suas tarefas. — Disse Reid, quase cometendo um erro bobo. Esperou que Valkyrie tivesse deixado passar.
— Mas já? Continua cedo, o sol nem se pôs ainda; você tem um toque de recolher? — Indagou Valkyrie, com uma pequena decepção na face. Era difícil conversar e rir com algum garoto sem ser obrigada por seu pai a "melhorar as relações entre as famílias".
— Eu não acho que eu tenha esse negócio de recolher, mas sou um hóspede e não quero abusar da boa vontade de meu anfitrião. Espero que tenha um ótimo fim de dia; até qualquer outra ocasião. — Encerrou Reid, imitando uma saudação que aprendera com uma senhora no forte de Allastor, e então se foi com a trupe de empregados carregados de sacolas e mais sacolas.
— Sabe, vocês não precisam me seguir assim; podem ir só de boa... — Soltou o garoto para o grupo de empregados.
— Ordens de nosso senhor, Reid. — Disse a senhora mais velha do grupo, que tinha um sorriso estampado no rosto.
— Que fofo… — Disse Valkyrie para si mesma. Reid com certeza não era um nobre; aquela saudação só era usada quando se estava diante de algum rei.
Então veio, em um sopro: Alan? Não, era Allastor. Ele estava sob proteção do Rei Allastor; qual seria a relação entre os dois? Seria Reid um bastardo? Não, impossível; a filha do rei era mais parecida com ele do que com a mãe. Provavelmente o mestre de Reid era alguém ligado a Allastor e bastante influente. Exigir favores de um rei era algo que poucas pessoas podiam fazer. Valkyrie sabia que iria encontrar Reid de novo; iriam para a mesma escola. Todos os nobres iam para Dropfang antes de irem para qualquer outra academia mais específica, como Florefather ou a Academia do Deus Vermelho.
— Senhorita? — Disse um dos seguranças, acordando Valkyrie de seu transe de pensamentos.
— Vamos embora; acho que terminamos por hoje. — Disse Valkyrie, com um semblante mais animado que o normal. Um dos guardas, então, fez um som agudo, e todos os outros saíram de suas posições.
A casa de Valkyrie era uma das maiores de Qudu, ficando na parte mais rica da cidade, perto do forte do Rei Allastor. Seu pai, Bjorn, era um dos homens mais influentes do reino. Quando chegou à propriedade, viu-se sozinha. Nenhum de seus irmãos ou pais estava em casa. Sua família era muito ocupada; a maior parte deles lutava no exército do reino, pela influência que Bjorn tinha com Allastor.
Decidiu tomar um banho.
— Ana, poderia preparar meu banho, por favor? — Pediu a garota.
— Dia cheio, senhorita? Imagino que queira um banho bem lento e espumoso. — Ana fez carinho na cabeça da garota.
Como uma segunda mãe, Ana cuidara de todos os filhos de Bjorn, mas tinha um dengo por Valkyrie; era sua princesinha.
— Na verdade... foi um dia muito divertido. — A garota despiu-se e entrou na banheira.
A empregada fez uma reverência e encaminhou-se para sair do banheiro.
— Ana... Será que você não pode ficar um pouco? Eu... queria conversar com alguém.
A empregada foi pega de surpresa; Valkyrie não tomava banho com ela havia alguns anos.
— Claro, meu bem; qualquer coisa por você.
Apesar de ter pedido para conversar, a garota estava muito quieta, sentada na banheira. Ana esfregava as costas dela enquanto cantarolava uma canção. Sabia que Valkyrie falaria em algum momento; sempre fora assim.
— Eu... conheci um garoto hoje, Ana. — A garota finalmente falou, quebrando a canção de Ana.
— Hmm, um garoto, você diz? E esse garoto era bonito? — A empregada soltou uma pequena risada, fazendo cocegas na garota.
Valkyrie deu uma risada, tentando se soltar das cocegas.
— Não! Ele não era bonito... Era muito estranho, na verdade. — Valkyrie parou de rir, virando-se para encarar Ana. — Ele tinha um montão de empregados seguindo-o.
— Outro nobre, então? Essa cidade é cheia deles.
— Não, ele não era um nobre. Era até fofo vê-lo fazendo tudo errado. — A garota soltou uma pequena risada.
— Fofo, é? Sei... Então, se não era um nobre, por que tinha tantos empregados? — Ana parou de esfregar as costas da garota e começou a enxaguar.
— Aí está o mais estranho de tudo: ele disse que era um hóspede, e o anfitrião tinha cedido os empregados. Como alguém como ele poderia ser tão importante?
— Alguém como ele... Um camponês como eu, você diz? De fato, não somos ninguém para os nobres, mas ainda somos pessoas.
— Eu... eu não quis dizer isso, Ana; me desculpe, por favor!
— Tudo bem, meu amor. Então, me conte mais sobre esse garoto; qual era o nome dele? — Ana acariciou a testa de Valkyrie com o dedo indicador.
— O nome dele é Reid. Ele tem o cabelo escuro, meio curto, e parece que não come muito, a julgar só pelo porte físico, mas ele é muito divertido; parece... parece que eu não preciso me importar com muitas coisas de nobre perto dele, não preciso me atentar se estou andando direito e essas coisas.
— Que bom, meu amor. Parece ser um bom amigo. Você vai vê-lo de novo?
— Bom, eu não sei exatamente onde ele mora nem nada, mas acho que ele é hóspede do Rei Allastor. — Disse a garota, coçando a cabeça.
Ana ficou sem reação.
— Do Rei? Valkyrie, meu bem, você sabe que não é qualquer um que pode pedir favores a um rei, não sabe? Tem certeza de que esse Reid disse a verdade? — A mulher parou de enxaguar a garota.
— Bem... Ele não me disse isso, mas meio que deixou escapar.
— Entendi... Pronto, terminei; pode se secar. — A mulher levantou-se de seu banquinho.
— Você acha que ele gosta de mim? Quer dizer, ele riu comigo, e nós brincamos juntos. — A garota estava se secando com uma toalha bem maior que ela.
— Ah, meu bem, qualquer um que não gostar de você é um grande idiota. — Ana abraçou a garota e deu um beijo em sua testa, fazendo-a corar.
— Quando você fala assim, me faz desejar ter nascido sua filha... — Valkyrie parou, pensativa.
— Não diga isso, meu bem. Vamos! Venha jantar.
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