Volume I
Capítulo 4: O Rei?
— O quê?! — O quê?! — Disseram Allastor e Reid em uníssono, enquanto Jin saboreava uma coxa de peru que Reid só havia visto no açougue da parte nobre de Zammor.
Jin odiava discussões; ora, sentar-se e conversar era muito mais prático. Discussões só serviam para magoar e até mesmo iniciar guerras que só seriam travadas por homens que nem sabiam a causa delas. Sabia que teria que dar aos dois explicações, mas, por ora, decidi resolver primeiro com Allastor.
— Reid, depois conversamos, preciso resolver algumas coisas com Allastor primeiro. — Soltou já sabendo o que iria acontecer, afinal, Reid só tinha treze anos.
— Mas, Jin!
— Depois. — Concluiu, apontando a porta.
Enquanto era dirigido a um quarto no forte, a cabeça de Reid trabalhava como quando estava prestes a roubar alguém. Calcular possibilidades e analisar informações eram uma parte importante de seu antigo trabalho. Pensou nos motivos de Jin para tê-lo tomado como discípulo; pensou também que não havia aceitado sê-lo; pensou em quem era Julie; pensou se Allastor era mesmo irmão de Jin.
Allastor era um homem grande e corpulento, com barba ruiva e cabelos curtos de mesma cor; tinha várias cicatrizes e parecia um guerreiro que tomava a frente nas batalhas. Já Jin era um homem de físico compatível com sua altura; tinha o corpo bem treinado, cabelos brancos como a lua que batiam nas costas, e nenhuma barba à vista. Não tinha nenhuma cicatriz visível — por mais que Reid jurasse já ter visto uma cicatriz em sua bochecha — e passava a sensação de que não perdia uma batalha havia alguns anos. Fora a espada de bainha azul que andava em sua cintura. Ninguém ousaria chamar este homem de mago, mas, pelo visto, ele era conhecido por ser um. Reid não conseguia imaginar a força de Jin.
— Chegamos a seus aposentos, senhor. — A fala da mulher trouxe Reid de volta à realidade.
Agradecendo à empregada, Reid entrou no quarto. Era o quarto mais bonito que já tinha visto em sua vida. Tinha uma cama de casal maior que a velha mesa de jantar que ficava em sua casa, em Zammor. A cama era coberta por tecidos brancos que passavam a sensação de serem tocados por nuvens; havia um espelho na parede, uma mesa com uma lamparina em cima, uma cadeira e até um banheiro próprio. Havia também alguns quadros de pessoas com a mesma cor de cabelo que Allastor, em poses diversas. Um deles até usava um tapa-olho e tinha uma mão faltando.
Decidido a tomar banho e esperar que Jin viesse dar explicações, Reid deitou-se na cama e esperou, esperou e esperou. Para passar o tempo, Reid abriu a gaveta da mesa. Lá dentro, uma adaga comum. Ele a pegou, sentiu o peso, imaginou se um dia precisaria usá-la.
Por volta das duas da manhã, Reid escutou batidas na porta.
— Reid, está acordado? — Disse Jin em um tom de voz baixo.
Acordando em meio a um susto, Reid ficou olhando para a porta por exatos três segundos enquanto raciocinava.
— Sim, pode entrar, Jin!
Jin estava vestido com uma roupa um tanto estranha; parecia um vestido muito estiloso, com detalhes vermelhos e nuvens douradas que pairavam sobre um rio carmim. Jin estava com um ar sério e os cabelos presos em um coque, seguro por uma espécie de palito.
— Posso me sentar? — Perguntou o homem, indicando a cadeira ao canto, junto à mesa.
— Claro. — Devolveu Reid.
Jin sentou-se e encarou os olhos de Reid por alguns segundos antes de falar.
— Pode perguntar; sei que você tem muitas.
— Por que agora sou seu discípulo?
— Você ainda não aceitou. — Explicou Jin, com um sorriso no rosto. — Mas eu o escolhi por um motivo. Annabelle... esse nome lhe lembra algo? — Indagou Jin, enquanto continuava a olhar fixamente nos olhos de Reid.
— É o nome da minha mãe; você a conheceu? — Reid sentiu a garganta apertar. Annabelle. Sua mãe. Jin a conhecia. Havia tanto que ele queria perguntar, mas as palavras não saíam.
— Costumávamos brincar quando menores, antes de ela se mudar para Zammor. Então aí está sua resposta: é um favor para sua mãe. — Explicou Jin em um tom divertido.
— Por que aqui e por que uma escola? Eu não posso só acompanhá-lo?
— O Sul é muito perigoso, Reid. No seu nível, você só me atrapalharia. Quanto à escola, você precisa aprender a ler e escrever; é importante na vida de todo mundo. Allastor me deve muito, e ele já concordou com meu pedido. — O homem fez uma pausa, parando para contemplar a mesa com a adaga na gaveta. — Como você evitará ser passado para trás por alguma guilda espertinha se não souber ler? Além disso, pensei que eu já tivesse ganhado sua confiança. Você não poderia confiar em mim, só dessa vez? — Pediu Jin, com as mãos juntas, como se estivesse pedindo moedas na rua.
— Acho que tudo bem, mas quem é Julie?
O clima ficou tenso na sala, enquanto a aura de Jin se soltou por um segundo e depois foi retraída.
— Desculpe-me, Reid; a aura consegue ser muito efetiva em pessoas mais fracas. Enfim, Julie foi minha única discípula até você. Há cerca de quinze anos, eu a encontrei em um vilarejo dizimado por uma praga que se espalhava pela água. Julie foi a única a identificar isso, mas foi tarde demais; ela estava quase morta em uma cabana. Junto dela, estavam os corpos de seus pais. Julie não hesitou em me seguir e, no fim, acabei gostando de sua companhia; eu a treinei por alguns anos, e logo ela estava em um nível satisfatório, digna de ser considerada uma arma essencial na guerra contra o outro continente. No final, Julie me traiu e fugiu para o outro continente, levando informações para eles. Acredito que ela tenha mudado de nome, quando se foi, não sei como a chamam hoje em dia. — O homem deu uma pausa. — Desde então, decidi mudar um pouco meu estilo de combate. Meu pai gostava muito de sua coleção de espadas; decidi tomá-la eu mesmo, por mais que ele tivesse perdido muitas delas, seja por duelos ou apostas. — Disse Jin, dando uma risada curta.
— Mas, Jin, eu nunca fui para a escola, não tenho dinheiro e sou um estrangeiro. — Suplicou Reid, enquanto listava os problemas em que conseguiu pensar para fazer Jin desistir de sua ideia.
— Reid, ninguém nasce sabendo, nem eu nem Allastor. Você vai para a escola para aprender. Allastor disse que proverá o necessário para você terminar os estudos. E sobre ser um estrangeiro, oculte essa informação. Você sempre pode dizer que é meu discípulo — depois que aceitar o cargo, é claro. — Disse Jin, com um sorrisinho maléfico de impaciência.
— Quando você parte?
— Amanhã, ao amanhecer; tenho planos de chegar ao sul em quarenta dias, isso sem contar imprevistos. — Explicou o homem, enquanto parecia perdido em pensamentos, provavelmente sobre a rota e possíveis obstáculos.
— Eu aceito. — Cedeu Reid, na voz mais baixa que podia produzir.
— Como? Eu não consegui ouvi-lo, Reid.
Isso era uma mentira; Jin conseguira ouvir em alto e bom som.
— Eu disse que aceito ser meio que seu discípulo, mas acho que o negócio é pior para você; deveria ter escolhido outra pessoa.
— Não existem meios na vida, Reid; decida-se de uma vez. Pessoas que usam meias-palavras são mentirosas e ardilosas; algum dia você vai entender isso.
— Tá bom, eu aceito ser seu discípulo; feliz agora? — Cuspiu Reid, com o rosto vermelho.
— Você fica melhor quando fala o que sente de verdade, Reid; deveria fazer isso mais vezes. Enfim, você não sabe a furada em que se meteu, garoto. Você vai treinar tanto que vai desejar voltar a roubar galinhas em Zammor, e eu vou fazê-lo treinar mais.
Após se despedir de Reid, Jin foi até Allastor terminar a conversa com o Rei. Enquanto seguia o caminho que levava aos aposentos reais, Jin passava por diversos empregados: alguns com sono, alguns que sabiam quem era Jin e demonstravam respeito, outros que o conheciam mas não baixavam a cabeça. Jin odiava que o tratassem assim; ele não havia feito nada que não fosse seu trabalho. Proteger os fracos — essa era a obrigação dos fortes — e Jin seguira essa ideologia por toda sua vida; gostava da sensação de salvar alguém.
Quando se deu conta, estava parado, batendo na porta de Allastor. Era uma porta um tanto massiva; provavelmente vários pinheiros de ferro tinham sido derrubados para fazer os móveis do forte.
— Entre, Jin; sua aura é tão forte que reprimi-la não muda nada. — Bradou Allastor em seu tom de voz habitual, bem barulhento.
— Pelo visto, viver como um rei não lhe tirou tudo. — Disse Jin, ainda diante da porta.
Enquanto entrava no quarto, Jin viu que os gostos de seu amigo continuavam os mesmos: a mesma simplicidade do homem que ele costumava ser.
— Vejo que seu apreço por pinheiros de ferro continua firme.
— São confiáveis, os pinheiros. Tenho uma cadeira que meu avô me deixou quando morreu; deve ser mais velha que este reinado. E o garoto? — Perguntou Allastor, com leve excitação na voz.
— Ele aceitou e conta com sua colaboração. — Disse Jin, secamente.
— E? Ele é, não é? — Perguntou Allastor, como uma criança ansiosa.
— Sim, Allastor, ele é filho de Annabelle, se é isso que quer saber. — Devolveu Jin, finalmente cedendo.
— HA! EU SABIA, DESDE SEMPRE, HAHAHAHA! — Bradou Allastor em um tom ainda mais alto de voz, enquanto ria.
— Você ainda não a esqueceu depois de todos esses anos; que triste, irmão. O garoto já sabe? — Continuou Allastor, secando algumas lágrimas.
— Saiba que será sua última ação com os dois braços se você disser a ele; estou avisando, Allastor: não diga nada a ele. — Soltou Jin em um tom ameaçador.
— Tudo bem, mas alguma hora ele tem de saber, Jin; é direito dele.
— Ele saberá algum dia, mas será no momento certo. Enfim, espero que cuide dele enquanto resolvo algumas coisas pelo Sul; devo estar de volta em um ano e meio. — Disse Jin, agora sentado em uma cadeira um tanto confortável demais para ser de Allastor.
— Por onde andam sua esposa e Maria? — Perguntou Jin, apreciando a cadeira.
— Estão em uma reunião política em Vyioena; partiram há quatro dias. Já Maria, ela não esperava que o tio viesse ao reino, então dormiu na escola. Ela vai ficar uma fera quando descobrir que você foi embora sem lhe dar um abraço, e ainda por cima tendo tomado um discípulo. — Disse Allastor, como uma mãe que repreende um filho.
— Diga-lhe que, quando eu voltar, lhe ensinarei uma técnica nova de espadas. — Disse Jin, satisfeito.
— Por que você continua com essa história de espadas, Jin? Por que não ensina magia para a garota logo? Ela fica fascinada quando o vê usando magias. — Indagou Allastor, enquanto acariciava a barba.
— Tenho meus motivos; está com medo de ser superado por um mago, irmão? — Disse Jin, com um olhar engraçado.
— No dia em que minha esgrima for pior do que a de um mago magricela, eu mesmo corto meus dois braços. Enfim, como vai a coleção de espadas? — Perguntou Allastor, com interesse no único assunto em que era superior a Jin — isso e ser pai.
— Não muito bem; na verdade, a Morte Azul foi a última que encontrei. Pelo visto, a maioria dos donos que meu pai arrumou ou está morta ou está velha demais para um duelo; no fim, acabou virando uma caça às bruxas. — Explicou Jin, soltando um suspiro.
— E como encontrou essa tal "Morte Azul"? Desenterrou algum defunto? — Disse Allastor, enquanto soltava uma gargalhada.
— Na verdade, foi em um duelo; devia ser o filho do dono que morrera. Rapaz corajoso. Lutou até a morte; antes de morrer, ainda disse que teria feito de novo. — Disse Jin de forma monótona.
— Eu não morreria por uma mísera espada, ainda mais uma que não me pertence; o garoto tinha o que chamamos de "honra tola". O que tem de especial nessa daí? A última que o vi usar foi aquela verde com detalhes brancos... Praga alguma coisa. — Disse Allastor, enquanto tentava se lembrar.
— "Praga Eterna". Era a preferida de minha tia; bastava um corte, e nenhum sacerdote o salvaria do veneno — isso antigamente. Hoje em dia, a cidade sagrada deve ter alguns que podem. A "Morte Azul", no entanto, tem um encantamento que combina com pessoas fracas. Ela compensa a força do espadachim com a do alvo; por exemplo, sua força física é maior que a minha, mas, com o encantamento, nossas forças ficam parelhas. Pode ser uma faca de dois gumes: se você for mais forte e lutar contra alguém mais fraco, a luta é decidida por técnica. Foi assim que o garoto perdeu; ele não tinha técnica, mas sim força, graças ao encantamento. — Explicou Jin, como um professor.
— Por que você não me dá logo a "Pedra Negra", hein, meu irmão? Você nem a usa mesmo. — Disse Allastor, igualzinho a um goblin.
— Você viraria um monstro incontrolável; sabe que não lha darei. Você não precisa de mais força bruta; precisa de uma mente melhor, seu gorila. — Disse Jin, enquanto soltava uma rara gargalhada.
— Você sabe que ela vai ser minha algum dia. — Disse Allastor, enquanto ria com Jin.
— Eu sei, irmão; também sei que porcos voam. — Respondeu Jin, antes de se virar e sair para seus aposentos.
Ao sair do quarto, Jin tomou o mesmo caminho que usara antes, enquanto andava, se viu pensando na conversa que acabara de ter. Uma voz feminina o trouxe de volta.
— Boa noite, senhor. — Disse a mulher, enquanto demonstrava respeito, curvando-se.
— Geralmente, as pessoas só conversam comigo por favores; a que devo a conversa?
— Na verdade, eu gostaria de lhe agradecer. Não sei se você se lembra, mas você me salvou há uns três anos de alguns sequestradores, perto da masmorra da Gruta; devo minha vida ao senhor.
— Lembro-me. Você estava em um grupo. Fico feliz que tenha conseguido seguir em frente; geralmente as pessoas não se recuperam.
— Gostaria de fazer algo para compensar o que fez por mim. Qualquer coisa.
Jin olhou para a mulher e ponderou; precisava, sim, de um favor.
— Gostaria que você mantivesse um olho no Reid enquanto eu estiver fora; ele pode ser impulsivo.
— Como desejar, senhor. — E a mulher se foi pelas sombras do mesmo jeito que viera.
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