Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 3: Saco de Batatas

— Você vai se atrasar, Reid. — Uma voz sussurrou.

Se atrasar? Para o quê? Reid não sabia dizer.

— Ela precisa de você, Reid, vamos logo.

A voz da sua irmã. Ele a reconheceria em qualquer lugar.

— Ela está fingindo, Reid, ajude-a, por favor, irmão.

— REID! — Gritou Jin, após inúmeras tentativas de acordar o desmaiado Reid.

O garoto acordou com um pulo. O cheiro fresco de um chá invadiu seu nariz.

Era uma manhã linda, digna de se sorrir; podia-se ouvir o lindo som da floresta e seus ventos quase sussurrantes, os pássaros não pareciam querer parar, e lá estava Reid, sentado diante de uma fogueira, limpando o rosto com seus trapos imundos, observado por Jin.

— Você com certeza dorme muito, né, garoto?

— Me deixa em paz, Jin.

— Já faz algumas semanas, Reid, continua com a sua mente naquilo?

— Não, é diferente dessa vez. — O garoto fez uma pausa e contemplou seus pés. — Eu me lembrei da minha família em um sonho, mas só vi minha irmã nele.

— Ah, sim, talvez se você ocupar sua mente com algo, o sonho volte até você com mais clareza.

— É, pode ser.

Reid acompanhara Jin por quatro semanas e não podia ter tido uma primeira impressão mais errada do homem. Ele odiava bebidas tanto quanto odiava estranhos. Encontraram um mercador no sétimo dia de viagem que lhes oferecera um gole de sua "melhor bebida" (que parecia álcool puro aos olhos de Reid).

Foi a primeira vez que via Jin ficar bravo desde que se conheceram; isso contando com quando tiveram o incidente com o Devastador. Reid especulava que o homem perdera alguém para o alcoolismo, mas isso era sua suposição. Após discutir com o mercador, Jin o ameaçou, e Reid pôde jurar que viu o pobre homem tremer — ora, ele mesmo havia tremido.

Jin seguia uma rotina extrema aos olhos de Reid; comia muito e treinava o dobro. Reid não sabia por que Jin aperfeiçoava sua esgrima, que aos seus olhos era perfeita.

Quando perguntou a Jin, recebeu um "Sempre existirá alguém melhor do que você, justamente naquilo que você mais ama". Reid odiava treinar, mas era grato por Jin nunca o ter forçado a isso. Não sabia o que o homem queria ou qual era a relação entre os dois, tampouco tinha coragem de perguntar; tudo parecia estranho demais. Mas o que Reid poderia fazer? Sua vida nunca fora boa o suficiente para ele querer ficar em Zammor. Gostava de sua casa, mas não era um lugar seguro para alguém que não fazia mais parte do submundo.

Gostava de perguntar sobre a vida de Jin, algo sobre o qual o próprio não gostava de conversar. Aparentemente, Jin não confiava muito em Reid para se abrir tanto, mas Reid sabia que Jin se importava com ele. Quando ainda estava abalado com o incidente do Devastador, Jin cuidara dele como um irmão mais velho. Era difícil agradecer; Reid não tinha educação, e expressar seus sentimentos era uma tarefa bastante difícil.

Com vinte e oito dias de viagem, chegaram à cidade de Qudu, no reino de Paragos. Qudu era uma cidade consideravelmente mais próspera que Zammor; contava com vários ferreiros, escolas e até mesmo universidades de teor mágico e de esgrima. Reid nunca havia visto uma cidade tão bonita. A quantidade de mendigos e crianças morrendo de fome nas ruas era bem menor que em Zammor. Isso o fez pensar que, em um mundo repleto de magias extraordinárias, tantas pessoas morriam invisíveis aos olhos dos mais fortes, por causas que podiam ser resolvidas. Este era um questionamento que voltava à sua cabeça e desaparecia toda vez que via uma criança pedindo dinheiro na rua.

— Poderia me ajudar a comer, senhor? Uma moeda de bronze já me ajudaria muito. — Disse uma criança de cabelos castanhos e um tanto desarrumados.

Reid não gostava de dizer não a elas, mas o que podia fazer? Ele mesmo não tinha dinheiro; estava vivendo às custas de Jin esse tempo todo, e não tinha coragem de pedir por mais. Jin doou algumas moedas de bronze umas cinco vezes, mas, após um tempo, suspeitou que a informação de onde conseguir dinheiro havia sido espalhada e parou de doar. Reid sabia que Jin tinha dinheiro, mas sabia também que, se continuasse a doar, ficaria sem dinheiro para pagar a hospedagem na cidade.

Por volta das quatro da tarde, Jin os levou até um forte na cidade, enquanto contava a Reid como a economia de Qudu era movida. Aparentemente, eles monopolizaram quatro dungeons próximas, e cada guilda que quisesse explorar devia pagar tributos à cidade. Reid não entendia bem por que a cidade tinha direito sobre as dungeons, mas a população parecia ter aceitado. Jin disse que o lucro de se limpar uma dungeon pode ser gigante, dependendo da qualificação dela, mas que não era incomum grupos inteiros serem devastados até em dungeons de níveis mais baixos.

Qudu tinha controle sobre quatro dungeons próximas, sendo estas: "Ciclo", de nível oito (era a única que ficava perto de um vilarejo, sendo este Lanzho), a de menor nível; "Gruta Profunda", de nível seis; "Cripta dos Antigos", de nível cinco; e "Abismo das Sombras", de nível três.

Qudu ainda ficava a um dia de viagem da dungeon "Boca do Inferno", sendo uma das três de nível um do continente.

Jin disse que eles não podiam controlar uma dungeon de nível um, porque os grupos que limpavam estas dungeons tinham poder de varrer cidades inteiras do mapa. Reid concordou que a decisão havia sido esperta.

Quando chegaram ao forte, Reid percebeu que estavam em algum lugar importante, afinal tinham guardas com armaduras maciças guardando os portões e as entradas. Foi quando um guarda disse:

— Identifiquem-se; este forte é de propriedade do Rei Allastor e sua família.

— Diga que Jin está aqui. Se ele não se lembrar, diga que o Primeiro da Primeira Ordem de Magos está aqui.

— Existe uma ordem de magos? — Reid perguntou baixinho.

— São só uns palhaços que precisam de títulos, mas são úteis quando querem.

Reid podia jurar que viu o guarda se espantar por dentro de seu elmo fechado. O homem entrou no forte e, cerca de dois minutos depois, Reid e Jin estavam sentados à mesa na presença de Allastor. Era um lugar bastante aconchegante, diferente do que Reid imaginava de um rei; as paredes eram maciças, de uma pedra que Reid não conhecia, e o chão era de algo que Jin chamava de mármore, muito bonito na opinião de Reid.

A mesa era rústica, feita de uma árvore cujo tamanho Reid só podia imaginar, e as coisas que ficavam em cima da mesa eram feitas do mesmo metal que aquelas moedas douradas que ele via Jin tirar dos bolsos. Só reconheceu da mesa os copos, os pratos e as colheres; havia um mini forcado e uma adaga com serras — aparentemente, as carnes que cortavam eram muito fibrosas.

Sempre que Jin falava algo, as pessoas baixavam as cabeças e se referiam a ele como senhor.

— Continua o mesmo após tantos anos, como posso ver, não é? — Disse Allastor, enquanto se dirigia a Jin. A voz do homem condizia com seu tamanho.

— E você mudou muito desde a última vez que nos vimos; acho que é na parte da barriga.

Um silêncio ensurdecedor pairou sobre a mesa de jantar. Reid podia ver os dois homens se avaliando enquanto vários guardas questionavam se valia a pena erguer suas armas, até que se escutou uma risada vinda de Allastor.

— HAHAHAHA, você não sabe a falta que senti de você, Jin! Por onde esteve andando? Espero que tenha abandonado aquilo…

— É sempre bom ver você também, Allastor. Eu fui para o norte em busca de uma espada nova e, como pode ver, arrumei um discípulo.

Com um olhar surpreso, Allastor olhou pela primeira vez para Reid, como se sua existência só tivesse sido considerada agora.

— Este fedelho? Por que ele?

Discípulo? Então era assim que Jin enxergava Reid. Parecia fazer sentido agora.

— Algum problema com o meu novo discípulo?

— Nenhum, Jin, mas é que você não aceita ninguém como discípulo desde a Julie…

— Basta, Allastor; eu não quero ter essa conversa agora.

— Por que não Maria? Ela é sua afilhada e já está na escola de magia. Achei que fôssemos quase irmãos, Jin! — O homem não parecia estar bravo de verdade, mas qualquer movimento que fizesse podia ser muito ameaçador.

— Maria já tem você, Allastor, e eu tenho meus motivos pessoais; não tem nada a ver com não sermos próximos, e você sabe que amo Maria.

— Eu sei, Jin, me desculpe, mas, então, por que esse saco de batatas com pernas está sentado aqui?

Reid não entendia por que estava sendo ofendido; ele não havia dito uma palavra até agora.

— Modos, Allastor; não o desrespeite de novo. Ele é meu discípulo, e ponto. Estou aqui porque preciso de um favor seu.

— Qualquer um por você, irmão. Diga. — Allastor degustava uma taça de vinho que poderia servir quatro pessoas.

— Preciso que tome conta de Reid e o coloque em uma escola enquanto volto para o sul.

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