Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 2: As Aranhas

Reid tinha medo de aranhas.

Não era um medo bonito, desses que você conta rindo depois. Era o tipo que gelava a espinha e travava os dedos na adaga. Ele não sabia explicar quando começou. Só sabia que funcionava: sempre que uma aranha estava por perto, ele não estava.

Por isso, quando Jin disse para onde o favor os levaria, Reid quase recusou na hora.

— Floresta de Zafan? Você tá louco? Lá há monstros.

— Monstros, sim. Mas não é deles que você tem medo.

Jin limpava a Morte Azul com um pano preto. A lâmina azul brilhava à luz da lua. Reid sentiu um calafrio.

— O que há lá dentro?

— Devastadores.

— Que porra é essa?

— Criaturas que vivem sozinhas. Territoriais. Inteligentes. — Jin ergueu os olhos. Eram negros, frios. — Eles pegam o seu maior trauma e o usam contra você. Você verá a pessoa que mais o marcou. Ouvirá a voz dela. E quando chegar perto...

— Eu morro.

— Se acreditar nela, sim.

Reid engoliu seco.

— Por que eu faria isso?

— Porque eu vou estar do lado de fora. E porque você me deve.

A floresta de Zafan à noite era um pesadelo de galhos retorcidos e sombras que se mexiam sozinhas. Reid caminhava em silêncio, a adaga na mão, os ouvidos atentos. Jin tinha ficado para trás — "vai na frente, eu o cubro" — e Reid já estava começando a acreditar que o velho mentiroso tinha sumido de propósito. Reid olhou para a escuridão entre as árvores. Cada instinto que ele tinha gritava para correr na direção oposta. Mas Jin estava atrás dele, e a dívida... a dívida era real. Ele respirou fundo e deu o primeiro passo.

Foi quando ouviu.

— ...socorro!

Uma voz. Feminina. Familiar.

Reid parou.

— Por favor! Alguém!

O coração dele disparou. Não podia ser. Ele conhecia aquela voz. Tinha-a ouvido todas as noites nos últimos dois anos, nos pesadelos que não o deixavam dormir.

— ANA?

Ele correu. Os galhos arranhavam seu rosto. As raízes tentavam tropeçá-lo. Ele não sentia nada. Só o desespero.
Até que a clareira apareceu.

E lá estava ela.

Ana.

Viva.

Sorrindo.

Reid? É você?

Ela abriu os braços. A luz da lua refletia nos cabelos claros dela, nos olhos que ele jurou que nunca mais veria.

— ANA, VOCÊ TAVA MORTA. EU VI A ÁRVORE.

Do que você está falando, Reid? Eu estou aqui. — Ela deu um passo à frente. — Você já terminou o serviço que mamãe pediu?

As pernas de Reid fraquejaram. A culpa veio como um soco no estômago.

— EU... ME PERDOA, ANA. FOI MINHA CULPA. ELES MORRERAM POR MINHA CAUSA.

Ele soluçava. As lágrimas ardiam no frio. Ana sorria. Os braços ainda abertos.

Tudo bem, Reid. Eu te perdoo. Vem cá dar-me um abraço.

Ele foi.

Cada passo era uma promessa de alívio. Cada passo, um pouco menos de culpa. Quando ele já estava a poucos metros, quando já sentia o calor imaginário do abraço...

Algo o puxou para trás.

Com força.

Reid voou pelo ar, bateu nas costas contra uma árvore. Quando levantou a cabeça, viu Jin. A espada do homem já estava fora da bainha.

E a cabeça de Ana rolava no chão.

— NÃO!

Reid tentou se levantar, mas o corpo não obedeceu. O ódio queimava mais que o frio.

— VOCÊ MATOU ELA. VOCÊ É UM MONSTRO. EU VOU TE MATAR!

— Reid, não era ela.

Jin embainhou a espada. O sangue sumiu da lâmina como se nunca tivesse estado ali. Reid olhou para o chão.

Onde antes estava Ana, agora havia uma criatura disforme. Pele cinzenta e úmida, como a de um cogumelo. Olhos vazios, sem pupilas. Membros finos como galhos secos, que estalaram quando o corpo caiu.

— Não era ela — repetiu Jin, mais baixo.

Reid caiu de joelhos. O choro que veio não era de raiva. Era de vergonha.

Horas depois, Reid acordou amarrado a uma cadeira de pedra.

A fogueira crepitava. Sua espada estava encostada numa rocha, e Jin preparava algo numa cabaça.

— Então, o nome dela era Ana. Namorada?

Reid não respondeu.

— O Devastador pegou seu maior trauma. Eu devia ter avisado. — Jin ofereceu a cabaça. — Beba. É lírio prateado. Limpa o núcleo de mana.

O líquido tinha cheiro de terra e mel. Reid bebeu sem pensar. Desceu queimando, mas a queimação logo se transformou em um frescor que se espalhou pelo peito. Reid sentiu algo dentro dele se acalmar — algo que ele nem sabia que estava agitado.

— Ela não era minha namorada. — A voz saiu rouca. — O amor sempre foi só meu. Ela mal sabia que eu existia — ou, se sabia, nunca demonstrou.

Jin não disse "sinto muito". Não perguntou mais nada. Só ficou ali, em silêncio, enquanto o fogo queimava.

Depois de um longo tempo, ele falou:

— Reid, tem uma aranha no seu ombro.

Reid não se mexeu.

Não por medo.

Porque já tinha visto coisa pior.

Jin suspirou. Não era o medo que ele esperava encontrar.

— Você realmente não tem medo de nada, né?

Reid olhou para a fogueira.

— Tenho. Só não é de aranha.

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