Volume I
Capítulo 1: A Técnica Ruim
Reid nunca se considerou um homem de sorte. Mas, naquela noite, a lua estava cheia, e o velho bêbado roncava tão alto que afugentava até as corujas.
Fácil demais.
Era o que ele pensava enquanto observava, de tocaia, o acampamento montado às margens do rio. Um velho sozinho. Uma fogueira fraca. Uma espada encostada numa pedra, tão bonita que doía de olhar — lâmina azul com detalhes vermelhos que pareciam fios de sangue. E joias. Muitas joias.
Reid ativou sua melhor técnica: Véu do Luar. Seus passos ficaram silenciosos. Seu corpo, quase invisível. Era uma habilidade de ladrão, não de guerreiro — mas ladrão era o que ele era. Sobrevivente, gostava de dizer. Ladrão, na boca dos outros.
Andar no cascalho sem fazer barulho foi a parte mais fácil.
O problema veio quando ele se aproximou da fogueira e sentiu o cheiro.
Álcool?
Não. O velho bebia de uma garrafa escura, mas o ar ao redor não tinha o fedor de bebida barata que Reid conhecia bem dos becos de Zammor. Tinha cheiro de... terra molhada. E algo mais. Algo que fez os pelos de sua nuca se arrepiarem.
Ele agarrou a espada e correu.
—
Reid olhou para trás uma, duas vezes. Nada. O velho devia estar dormindo até agora. Quatro quilômetros depois, Reid parou numa árvore, ofegante. A lua brilhava entre os galhos nus. A espada estava em suas mãos. Linda. Perigosa. Escrita estranha na base da lâmina, numa língua que ele nunca tinha visto.
— Que diabos de língua é essa?
— É linda, né, garoto?
Reid levou a mão à adaga. Mas algo frio tocou seu pescoço antes que ele pudesse sacá-la.
— Eu ficaria parado se fosse você.
O sussurro veio das suas costas. Reid sentiu o hálito quente contra a orelha. Não se moveu.
— Posso pelo menos me virar? — perguntou, os dentes cerrados.
— Não sei. Vai tentar me roubar de novo?
Cacete.
— Calma aí. Você é o velho? Como você me encontrou?
— Quem você está chamando de velho, moleque?
Quando Reid se virou, não viu um velho. Viu um homem. Atlético. Cabelo branco comprido, preso num coque desleixado. Olhos negros como carvão. Uma cicatriz na bochecha em forma de bolha. Vestes negras que se confundiam com a noite.
O homem era bonito. Daquele tipo que faria qualquer nobre de Zammor babar. Reid odiou-o instantaneamente.
— Você estava fingindo o tempo todo?
— Estava. Mas nem teve graça. Você percebeu rápido demais. — O homem inclinou a cabeça, estudando Reid como se ele fosse um inseto interessante. — Diga-me, por que roubou a Morte Azul? Ela não é minha favorita, mas é bem rara. Sabe quantos donos tive que matar para consegui-la?
— Você vai me matar agora?
— Depende das suas respostas.
O homem ergueu uma mão. E então a noite ficou mais escura. Uma barreira densa, sólida como vidro negro, envolveu os dois. Reid sentiu o peso no ar, como se estivesse submerso.
— Isso é magia? — Reid tentou mover os braços e sentiu uma resistência, como se a própria escuridão tivesse textura de mel.
— Sim. Bem forte. Não que você consiga reconhecê-la.
— Acha que estou sendo arrogante? — O homem riu. — Você não conseguiria me ferir nem se eu deixasse. Isso, meu querido ladrão de bêbados, é um fato.
Reid engoliu seco. Analisou. Primeiro: ele não sentiu o homem se aproximar. Segundo: a barreira apareceu num piscar de olhos. Terceiro: o homem andava com uma espada cara e um corpo de guerreiro. Magia e esgrima.
— Desistiu?
— Não sou tão burro assim. Você me mataria antes de eu pensar em qualquer coisa.
— Garoto esperto. Certo, então. — O homem conjurou uma cadeira de pedra e sentou-se. — Me chamo Jin Haruto. E você, garoto, acaba de tentar roubar um mago de combate. Parabéns pela burrice.
— Reid. Reid Star.
— Por que decidiu virar ladrão, Reid Star?
A pergunta veio tão casual quanto perguntar as horas. Reid hesitou.
— Dinheiro.
— Por que não virou aventureiro?
— Já tentei.
— Quem morreu?
Reid congelou.
O homem — Jin — não desviou o olhar.
— Sua mãe? Sua irmã? Talvez seu pai?
— Verdade. Minha mãe e minha irmã morreram. Mas a promessa não foi para elas. (ver observação)
— Tenho tempo. E você não tem como sair daqui.
Reid suspirou. Sentou-se no chão frio.
— Dois anos atrás. Primeira missão. Espíritos agourentos numa fazenda. Eu não sabia que eles voltavam depois de um tempo. Ninguém me ensinou. — A voz de Reid saiu mais baixa. — No outro dia, a família inteira estava morta. Brutalmente. Na mesma cama.
— Sinto muito.
— A filha mais nova não estava entre os corpos. Eu segui os rastros de sangue até a floresta. Encontrei-a pendurada numa laranjeira. — Reid pausou. A imagem veio, como sempre vinha. — A expressão no rosto dela... Nunca vou esquecer.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Jin não disse “você é novo”, não tentou consolar com clichês. Só esperou.
— Você é forte, Reid.
— Como assim?
— Poucas pessoas teriam continuado depois disso. — Jin se levantou, dissipou a cadeira de pedra com um gesto. — Vamos. Preciso que faça algo por mim.
— Um favor?
— Sim. E, se sobreviver, eu lhe ensino uma técnica melhor que esse Véu do Luar medíocre.
Reid franziu a testa.
— Minha técnica não é medíocre.
— Acredite. Pessoas mais fortes que você sempre notarão sua presença. Sua vontade assassina é quase inexistente.
— Eu já escutei isso antes. Talvez eu só não tenha uma.
Jin olhou para ele por um longo segundo. Algo no olhar do homem mudou — não era pena, não era desprezo. Era... reconhecimento.
— Então vou lhe ensinar a conseguir uma.
Reid piscou. Esperava uma execução, um castigo, talvez ser entregue aos guardas. Não... isso.
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