Volume I
Capítulo 11: O Vermelho
Elise estava tão bonita quanto sempre; eu fiz a coisa certa, sei disso. O caminho de volta para Qudu era bem rápido daqui, graças às minhas habilidades. Poderia chegar até lá em três semanas e ver o progresso de Reid. Pelo que Allastor tinha me dito, ele estava indo bem; pelo menos tinha se acostumado à vida em Qudu e tinha alguns amigos.
Eu acho que está chegando a hora de levá-lo para um choque de realidade e ver o que o treino tem feito por ele. Maria também queria seguir esse caminho, o problema era que Allastor preferiria declarar guerras a deixar Maria virar uma aventureira, mas poucas coisas podiam lhe fazer mal em uma dungeon de nível baixo.
Sinceramente, era difícil falar com Reid sobre muitas coisas; ele era, sobretudo, igual a mim, e isso era dificultoso. Eu nem mesmo sabia como contar a ele a relação que tínhamos. Não pude treiná-lo no seu começo e tive que vir até aqui. Allastor obviamente era melhor do que eu em esgrima, então creio que precisaria só refinar a magia dele. Espero que ele esteja focando nisso. Reid pode ser muito emotivo; espero que Allastor consiga controlá-lo.
Preciso ir o mais rápido que conseguir. Elise, com certeza, já deve estar a caminho de Qudu, e meus planos vão se concretizar. Considerando que Elise vai trazer a espada, ela deve chegar mais rápido que o normal. Pelo visto, vou ter que usar magia de novo. — Suspirou. — Não deve ser problema chegar em Qudu. Allastor vai tomar um susto.
— Senhor Jin!
Jin, que já tinha sentido a presença do homem, disse:
— Eu ainda me pergunto como me acham no meio do nada.
— Sou um Mensageiro da corte real de Qudu; me mandaram entregar uma mensagem ao senhor.
— Prossiga.
"Caro senhor Jin, poucas coisas poderiam lhe ferir, mas espero que esta carta o encontre bem. Venho lhe avisar, já que me pediu que mantivesse um olho em Reid. O garoto planeja fugir do reino e se tornar um aventureiro, na próxima semana. Aparentemente ele planeja fugir com um filho dos Evergreen e a filha mais velha da casa Vykes em direção ao oeste."
— Quando eu penso que Reid não pode mais me surpreender. Pelo visto terei que me apressar. — O homem fez uma pausa. — Envie uma resposta ao rei de Qudu pedindo que ele interviesse, mas deixe Reid fugir no final; diga que tenho um plano.
—
Tudo estava pronto; seria hoje. Hoje era o dia da formatura na Dropfang, e era um costume que os professores fossem escolhidos pelos alunos para receber indicações de academia dentro e fora de Qudu. Reid não havia escolhido ninguém, nem Trevor e nem Valkyrie. Tinham se dedicado ao plano por completo; mesmo a parte de Trevor tendo sido a mais fácil, ainda era difícil abdicar de seu conforto e viver de maneira péssima por alguns meses ou até o resto da sua vida, que era o caso de alguns aventureiros.
Mediocridade era o que a maioria das pessoas pensava. O nível de bronze era uma posição malvista. Ser da classe bronze era, em sua maior parte do tempo, contentar-se com missões de limpeza de rios e fazendas, trabalho braçal e seus derivados. Muitos aventureiros investiram tudo na carreira, e aqueles que não obtinham sucesso estagnavam e nunca mudavam.
— Você está lindo. — Disse Josie, uma garota da classe quatro. Ela era o que os garotos de Qudu chamavam de perfeita; os padrões deles divergiam, mas chegavam a uma linha tênue. Josie era uma nobre menor de Qudu, seu pai era dono de duas minas de prata.
E ela não estava errada. Reid estava impecável: seu cabelo estava em toda sua glória e estava agora amarrado. Tinha joias emprestadas por Allastor, que eram um bracelete de guerra, um brinco ornamentado e um cordão com uma esmeralda como pingente. Vestia um terno vermelho como sangue de bisão que acentuava sua faceta; seus sapatos eram pretos e foram bem limpos pelos empregados de Allastor. Era realmente um grande evento; até Allastor estava no local.
Trevor estava vestido com um terno verde perolado que combinava muito com ele e tinha várias joias. Cerca de cinco anéis que Reid imaginou serem relíquias da família. Trevor havia ido à casa de Reid mais cedo para se arrumar, então os empregados deram um jeito de deixar os cabelos de ambos iguais. Um ao lado do outro, eram realmente um banquete de detalhes; até alguns garotos estavam olhando para Trevor. Ele era realmente lindo: o cabelo loiro fazia contraste com o ouro.
— Onde está a Valkyrie? Ela já deveria ter chegado; será que ela desistiu? — Disse Trevor, enquanto olhava pela festa, tentando evitar os diversos olhares que os seguiam.
— Ela não desistiria assim; já deve estar chegando. Essas pessoas não percebem que é desconfortável quando alguém fica te encarando? — Reclamou Reid, enquanto bebia uma taça de vinho.
— Daqui a mais um pouco isso acaba. — Disse Trevor, enquanto percebia o estoque gigantesco de pudins. — E você deveria aproveitar; sinto que esses luxos não vão existir na nossa nova vida.
— Ela está linda.
— Como é? — Disse um Trevor que já devorava seu pudim. — Você não consegue esconder, né, amigo?
— Quê? Não, cara, é só um elogio.
Valkyrie estava, sim, linda. Era um destaque: seu vestido azul-cobalto era uma adição linda ao seu guarda-roupa; tinha um único colar feito de platina, incrustado com uma safira; seus brincos eram feitos de ouro de paládio. Realmente linda.
— Olá, garotos, estão encantadores.
— Obrigado. — Responderam os dois ao mesmo tempo.
— Engraçado, Reid aqui disse o mesmo sobre você, não é? — Trevor comia seu segundo pudim e sorria de leve em direção a Reid.
— Sério? Que fofo, Reid.
— É, você está deslumbrante, mas eu sinto que não curto toda essa exposição.
— Você deveria acostumar-se; pelo visto, o Rei Allastor chamará todos da família ao palco.
— Deus me livre, preferiria escutar um sermão do mestre Jin.
— Eu ainda não acredito que o lendário Jin Haruto é seu mestre; como você pôde esconder isso por tanto tempo? Eu já teria dito isso aos quatro ventos.
— Eu tenho que confessar que também faria. — Disse Trevor, enquanto tinha um brilho no olhar e limpava a boca em um guardanapo. — Jin Haruto é um herói para a nossa tribo e para a maioria dos elfos; ouvi muitas histórias quando era criança sobre ele ter nos apoiado antes do tratado entre raças. Muitos dos poucos territórios que temos hoje em dia se devem à ajuda dele.
— Meu pai diz que é irmão mais novo do Jin, mas ninguém lá em casa acredita; ele nunca foi visitar o próprio irmão? — Disse Valkyrie com desdém.
— Não fiquem espalhando; devemos ter só mais dois dias aqui. Como estão os preparativos?
— Meu pai, como esperado, não deixou; disse que era loucura e que eu não aguentaria a vida de aventureira. Então vamos seguir com o plano.
— Meus pais já aceitaram faz um tempo; a maioria dos elfos sai de casa muito cedo, então, para eles, deve ser normal. — Disse Trevor, enquanto tomava um hidromel originado do sul do continente.
— Então o plano continua o mesmo; Maria ainda não me entregou, e acho que nem vai.
— A Maria é bem famosa na cidade; uma garota interessante, eu diria. Ela está aqui hoje?
— Imagino que sim; Allastor mandou que ela se arrumasse também.
— Não vejo nada de mais na Maria; ela é bem normal para o meu gosto. — Disse Valkyrie, virando-se abruptamente na direção das bebidas.
Era realmente uma mesa bem variada: vinhos, conhaques, uísques, hidroméis e até licores de frutas estavam postados. A mesa de comidas não deixava a desejar: diversos animais estufados foram dispostos; havia um porco inteiro no centro, e um caldo que fora preparado por quatro dias inteiros. Era realmente luxuoso.
— Como deve ser? Ser forte desse jeito e não poder lutar? — Disse Valkyrie, enquanto apontava com a cabeça para Allastor.
— Na verdade, dizem por aí que Allastor ainda treina todo dia, mesmo tendo se tornado rei; isso é verdade, Reid? — Disse Trevor, enquanto bebia sua quarta taça de vinho.
— É verdade, mas Allastor treina separado de todo mundo; os guardas dizem que existe um salão no subsolo usado somente para o treinamento de Allastor. — Respondeu Reid, enquanto se mantinha longe do álcool e focava nas comidas.
— Deve ser um espetáculo ver o homem que já foi considerado o mais forte do mundo treinando; imagine em uma batalha de verdade. — Valkyrie estava em sua quinta taça de licor de morango.
— Eu não sei se deve ser bonito entrar em uma batalha contra o tio Allastor; se eu fosse um soldado raso em uma batalha contra um exército que tem Allastor como líder, eu não cairia sem lutar — levaria tantos quanto pudesse antes de enfrentá-lo.
— É lindo ver você pensar tanto de mim, Reid.
Todos os três viraram-se em um susto coletivo em direção à voz forte que vinha de suas costas. Allastor estava imponente; trajava uma armadura leve e carregava uma espada gigantesca consigo.
— Olá, garotos… e garota. — Disse Allastor, dando uma risadinha.
— Majestade!
— Majestade!
— Majestade!
Os três fizeram reverências ao rei, uma pior que a outra, tanto pelo álcool quanto pelo susto e nervosismo.
— Não se incomodem comigo; apreciem a festa. Reid, quero que suba ao palco comigo hoje; sabe que o considero da família.
— Eu aprecio isso, tio Allastor, mas não sei se gosto dessa exposição toda.
— Não vai precisar dizer muito, só umas quatro palavras, e depois nós encerramos. Vamos, vai ser divertido.
— Certo, até depois, pessoal. — Disse Reid para os dois, enquanto saía com Allastor.
— Você vai comer esse pudim? — Perguntou Trevor a Valkyrie.
— Você devia maneirar nos pudins; você come demais.
O palco era bastante grande e tinha sido montado somente para esse evento no ginásio da escola Dropfang; ao seu lado, estavam Allastor, Maria e Cynthia.
— Boa noite a todos; imagino que todos já estejamos bem animados. — Disse Allastor, apontando com a cabeça em direção a Trevor e Valkyrie. — Mas sinto que devia dizer algumas coisas antes de continuarmos a festa. — O rei parou de falar e sacou a espada. — O continente não entra em guerra há muitos anos, e assim eu espero que continue; mas vocês são a nossa mais nova e mais promissora geração, e saibam que espero grandes frutos de vocês. — Allastor colocou os braços nos ombros de Reid e Maria ao mesmo tempo, enquanto falava isso.
— Passo a palavra à minha maravilhosa filha, sua princesa, Maria.
Maria aparentemente já estava preparada; seguiu mais à frente no palco e começou seu discurso.
— Sei que todos vocês aqui esperam muito de vocês mesmos, e devo concordar que sim, vocês deveriam; mas isso não quer dizer que não possam viver sua juventude. Apreciem essa época; ela nunca mais vai voltar. Sejam vocês espadachins ou magos, sei que darão tudo de si, sendo aventureiros — olhou para Reid por um milésimo — ou, sendo soldados, deem tudo de si.
— Acho que é sua vez. — Disse Cynthia no ouvido de Reid.
Seguindo em direção à frente do palco, muitos rostos estavam concentrados nele; afinal, ninguém além de seus amigos e professores sabia da situação em que estava.
— Boa noite a todos. Muitos aqui da academia me conhecem, mas não sabem quem eu realmente sou: me chamo Reid Star, sou discípulo de Jin Haruto e afilhado do Rei Allastor. — Reid parou, mais para deixar o choque da multidão se dissipar. — Espero que, no futuro, nos encontremos em tempos melhores que os atuais. Não estamos em guerra, mas todos sabemos que a situação atual é somente uma guerra fria. Algum dia, entraremos em batalhas que muitos de nós nem sabemos por que acontecem. Espero que escolham suas vidas e não sejam arrastados para algo que seus pais começaram.
O silêncio no salão era ensurdecedor; as pessoas pareciam chocadas com o discurso de Reid. Foram longos trinta segundos, mas uma pessoa começou a bater palmas. Allastor deu a deixa ao resto.
— Foram mais que quatro palavras. — Disse Allastor para Reid, enquanto desciam do palco.
Reid foi em direção a seus dois amigos, que estavam em estado de alerta.
— Você confessou.
— Você finalmente falou.
— Nada vai importar depois que nós formos. — Reid sentou-se em uma mesa e começou a beber um suco.
— Espero que você tenha certeza sobre isso.
— Eu sinceramente quero cada vez menos ir, mas eu preciso.
— Com licença. — Disse uma garota que parecia mais velha que Maria; tinha cabelos dourados e olhos claros, e não parecia ser nativa de Qudu.
— Gostaria de um pouco de seu tempo, senhor Reid Star.
Trevor e Valkyrie entreolharam-se. Era claro que aquela garota era uma nobre mandada por seus pais em busca de boas relações com alguém como Reid.
— Claro. Encontro vocês aqui de novo.
— Obrigada por seu tempo. Me chamo Ellen, sou da casa dos Foxwolves; somos do ramo de mercadores e possuímos cerca de trinta e quatro guildas espalhadas por todo o continente. — Disse Ellen, enquanto caminhava lado a lado com Reid; eram quase do mesmo tamanho, e ela era bem alta.
— Imagino que seus pais devam tê-la mandado falar comigo.
— Muito pelo contrário, tomei essa decisão por mim mesma; quero só um pouco de seu tempo para explicar meus planos.
— Tem meu tempo, eu acho.
Sentaram-se em uma mesa vazia, um em frente ao outro. Reid tomava uma garrafa de água.
— Eu quero assumir a liderança da guilda.
— Isso me faz assumir que há uma disputa por esse posto.
— Planejo reunir apoiadores e superar a influência que meu irmão mais velho tem; creio que você seria uma das maiores ajudas que posso conseguir no começo.
Reid olhou para a jovem por alguns segundos antes de responder. As pessoas costumavam ficar incomodadas com os olhares firmes de Reid.
— Fico lisonjeado em ter sido sua primeira opção; entretanto, você está atrás da influência que não é minha. Meu mestre é dono de seu próprio nome, e Allastor também; por que não os procura?
— Tanto eu quanto você sabemos que nunca me cederiam uma reunião; por isso, eu o procurei. Quero firmar um trato com você.
Ellen olhou para Reid por alguns segundos.
— Quando eu assumir o controle das guildas com ajuda de sua influência, será noventa e cinco por cinco sobre os lucros.
— De todas as trinta e quatro guildas? — Reid levantou uma sobrancelha.
— De todas as atuais e das futuras que forem abertas.
— Noventa por dez.
— Você está fazendo as coisas mais complicadas para mim.
— Digo o mesmo de você; pelo que vejo, você não será a única que vai querer minha atenção nesta noite.
Exatos cinquenta e seis segundos foram gastos com olhares e pensamentos.
— Feito, mas com a condição de que você seja parte da guilda no futuro.
— Fechado.
E ali estava mais um negócio fechado por Reid. Viver como ladrão lhe rendera ao menos alguma coisa de bom. Negociar com fora da lei era muito mais difícil do que com nobres — nesse caso, uma nobre jovem e ambiciosa.
Enquanto voltava para a mesa, foi parado.
— Oi, Reid.
Era Josie, a garota que o tinha elogiado mais cedo. Estava visivelmente mais solta por conta do álcool.
— Eaí, Josie.
— Você se importaria de dançar comigo? — A garota estendeu a mão.
A garota estava vestindo um vestido curto vermelho, usava sapatos bem bonitos, e seus cabelos loiros estavam soltos, quase chegando à sua cintura.
Reid não negou e pegou a mão da garota. Era muito, muito delicada; nenhuma marca que sugerisse trabalho braçal ou treino de esgrima. Só podia ser uma maga.
— Vamos então; você sabe dançar? — Perguntou Josie.
— Vamos descobrir agora.
O ritmo da música era bem lento, então não precisava fazer muito; Reid agradeceu por isso.
— Sabe... desde primeiro dia em que te vi na escola, sabia que tinha algo diferente em você. — Soltou a garota, aproximando-se do ouvido de Reid.
— É mesmo? O quê, por exemplo? — Reid respondeu também no ouvido dela.
— Eu não sei explicar, mas você era sempre tão educado comigo que às vezes me dava até raiva. — A garota colocou uma mão na cintura de Reid e uma no ombro direito.
— Você não gosta de ser tratada com educação? — Perguntou um Reid confuso.
— Não! Quer dizer, gosto, mas eu queria ter mais intimidade com você.
— Então deveria ter conversado comigo; eu realmente não sei dizer isso de outra maneira.
A garota agiu muito rápido, roubando um beijo do garoto. Reid foi pego de surpresa; ficou em estado de choque por alguns segundos, até que conseguiu recobrar o comando de seu próprio corpo, separando a garota de si.
— O que está fazendo?! — Exclamou o garoto, afastando-se da garota.
— Você não gostou? Eu fiz errado?
— O quê?! Não, não é isso; eu não acho que sinta o mesmo por você.
— Então por que está tão vermelho? — A garota aproximou-se novamente de Reid.
— Eu... eu não sei! Eu preciso ir! — Aquilo realmente balançara Reid.
Seguiu sem rumo pelo salão até que deu de cara com a mesa em que os amigos estavam. Era estranho ver aqueles dois bêbados; as personalidades quase se invertiam. Trevor era muito mais brincalhão quando estava bêbado, já Valkyrie ficava estranhamente séria quando bêbada.
— Preciso ir embora; vejo vocês depois.
— Hummh… — Foi uma resposta suficiente para Reid, dada pelos dois.
—
Era inverno, e Qudu estava bem fria; era difícil sair por aí à noite, mas Reid tinha um objetivo. Usando um pouco de sua magia, ele fez um feitiço simples de orbe luminária; era realmente útil: a criatura o seguia até que você desfizesse o feitiço. Cerca de cinco minutos de caminhada já haviam se passado, e Reid havia chegado ao forte do reino. Cumprimentou os guardas e seguiu para seu quarto. A primeira parte do plano estava pronta: deixar Trevor e Valkyrie bêbados foi fácil, a festa foi uma boa cortina de fumaça; entrou e pegou suas coisas, que já tinham sido arrumadas havia dias, no caso de uma saída brusca.
Tomou um banho e trocou-se; seu traje de gala, agora, não tinha serventia nenhuma. Colocou roupas casuais e um peitoral de couro por baixo da camiseta. Fora um ótimo negócio: o vendedor só precisou ser convencido três vezes para baixar o preço.
—
Saiu do castelo normalmente, o que era estranho; deveria haver guardas ali postados. Seguiu até o portão da cidade; tudo estava muito quieto, e foi então que pensou ter sentido algo ou alguém. Continuou do mesmo jeito, mas agora estava do lado de fora da cidade e não conseguiu mais fingir.
— Saia! Sei que está me seguindo; revele-se agora!
— Pelo visto, o treino tem feito algo, meu sobrinho. — Era Allastor, e tinha um sorriso no rosto, totalmente alheio à situação em que estavam.
— Tio Allastor?
— Tentando sair de fininho e deixar seus amigos? Eles já devem ter desmaiado a essa hora.
— Maria me entregou?
— Não, não foi Maria.
O clima era muito tenso; o vento nem sequer pensava em ali passar.
— Diga-me, Reid, por quê? Sua estadia não foi boa aqui em Qudu?
— Foi, sim, tio, é só que eu preciso disso; o senhor tem que me entender.
Allastor entendia perfeitamente; até havia planejado fazer vista grossa e permitir que Reid se fosse, mas Jin pediu que o confrontasse. A história era diferente.
— Eu entendo, mas diga-me: você já tem um plano? Ou pretende improvisar tudo? — Perguntou Allastor, agora retirando a armadura de ombro. O barulho de quando ela caiu parecia o de um feitiço de terra sendo atirado.
— Eu já tenho um plano, sim.
— Então prove-me que consegue. Se conseguir acertar-me três vezes, eu permitirei que parta. Se for nocauteado antes disso, você virará um prisioneiro até que Jin volte. VENHA!
Allastor não pretendia realmente prender Reid, mas palavras eram mágicas.
— Agora fodeu. — Era realmente impossível que Reid fosse acertar os três golpes, mas a ideia de correr também não parecia muito promissora; largou suas coisas e entrou em postura de combate.
Reid avançou em direção a Allastor com toda a velocidade que tinha; iria apostar nisso. Ora, Allastor tinha quase três metros; certamente ele era mais lento que Reid.
Avançando, Reid usou a técnica de combate do estilo Deus Vermelho, "Passo Leve", com um aumento considerável em sua velocidade. Reid logo surgiu ao lado esquerdo de Allastor, mirando-lhe a coxa. Bum! Recebeu um golpe nas costas. Em choque, Reid instantaneamente voltou, com o pouco ar que ainda tinha nos pulmões.
— Reid, diga-me uma coisa: você sabe quem sou?
Ofegante e tentando recobrar o ar expelido, Reid respondeu:
— Óbvio. — Huph… Huph.
— Então, eu sou "Allastor, o Vermelho"; a academia do Deus Vermelho ensina sobre meus feitos. Como achou que usar minha própria técnica contra mim seria uma boa ideia?
— Eu queria apostar na velocidade.
— Está me subestimando, garoto. Pegue isso! — Allastor jogou uma espada na direção de Reid.
— Vamos nos matar com espadas?
— Vou deixar que use uma espada; continuarei desarmado.
O sangue de Reid ardeu de raiva; como Allastor podia pensar tão pouco dele? Agarrando a espada atirada em sua direção, Reid partiu para cima, agora mirando a jugular de Allastor. Fazendo uma finta com o lado esquerdo do corpo, tentou chamar a atenção de Allastor para que baixasse a guarda direita. — Vush. — A espada passou direto em direção ao chão.
Allastor desviou e já tinha preparado um segundo tapa nas costas de Reid. O garoto, que já tinha antecipado isso, jogou-se para a esquerda com a espada mirada no calcanhar de Allastor. — Consegui! Acertei-o! — Foi o que ele pensou. — BAM! — A perna de Allastor encontrou-lhe a barriga. Reid foi jogado em direção a uma árvore próxima, colidindo e caindo no chão.
Enquanto vomitava, percebeu a movimentação de Allastor aproximando-se com tudo.
— Em uma batalha de verdade, o inimigo não vai esperar que você se recupere; levante-se!
Com toda a força que ainda tinha, Reid jogou-se para o lado e assumiu uma postura que havia aprendido observando um dos soldados do castelo treinar. Basicamente, ela consistia em trabalhar nos erros e aberturas do inimigo. Respirou fundo e esperou o vendaval. Mas este nunca veio.
— Reconheço isso... acha que essa postura vai te salvar? — Perguntou Allastor, enquanto sentado no chão encarava Reid.
Reid não respondeu.
— Quando eu tinha quinze anos, criei essa postura em um momento de desespero; ela me salvou em uma única situação. Sabe qual foi?
Silêncio.
— Minha mãe estava sendo espancada por alguns clientes do bordel onde trabalhava; na época, eu ainda não tinha a força que tenho hoje, então, quando fui em sua defesa, quase fui morto. Mas dizem que um animal encurralado é muito mais perigoso, então eu me concentrei e esperei que o primeiro deles viesse. — Allastor levantou-se. — Eu não vou te matar, Reid; saia dessa postura e lute como o homem que sei que você é. Você não precisa se humilhar com essa postura, tal qual eu fiz.
Era tudo ou nada. Reid partiu para cima de Allastor e fez uma ótima finta com a espada. Mirando o ombro esquerdo de Allastor, Reid balançou a espada e, quando Allastor defendeu-se, Reid jogou-se no chão, acertando as pernas de Allastor e fazendo com que ele se desequilibrasse. Vendo a janela que criara, Reid instantaneamente levantou-se e avançou para cima de Allastor com tudo que tinha. Três segundos haviam se passado quando, de repente — BAM! — Reid foi nocauteado.
—
Quando acordou, estava deitado ao lado de Allastor.
— Impressionante, Reid, uma finta perfeita.
— Mas de que adiantou? Não consegui os três acertos. — Disse Reid, enquanto massageava a testa.
— Na verdade, você acertou, sim; antes de ser nocauteado — se fosse um milésimo antes, teria perdido. Parabéns, vai poder viver uma vida pior por vontade própria.
Caindo de costas na neve, Reid respirou fundo e ficou ali parado, observando as estrelas.
— Só não morra. Vou avisar seus amigos quando me perguntarem; boa sorte, Reid, espero muito de você.
Levantando-se do lado de Reid, Allastor pegou sua espada, sua ombreira e foi-se, em direção aos portões da cidade.
— Eu não vou lhe dar a espada; trabalhe pela sua própria.
— Humph. — Foi o único som que Reid conseguiu produzir.
Allastor não se importou de mentir para Reid, não naquele momento. Os olhos de Reid já eram provas suficientes para ele; determinação queimava naquele garoto. Chegava a lembrar um pouco Bjorn quando era um garoto.
Depois de algum tempo, Reid se levantou e recolheu suas coisas, assim como sempre fizera, partindo para um futuro tão incerto quanto qualquer outro.
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