Volume I
Capítulo 10: Pontas Soltas
Era realmente uma balança regulada; não havia o que fazer. De um lado, uma santa da espada e, do outro, um santo da espada. Conflitos assim geralmente resultavam em guerras ou cidades destruídas; tudo dependia de um matar o outro ou de um Deus da Espada intervir, mas, infelizmente, Deuses da Espada estavam em falta no momento.
— Olá, Elise.
— Olá, Jin.
A cena era no mínimo estranha; os dois estavam sérios e leves ao mesmo tempo. No entanto, a aura que os dois emanavam dançava caoticamente em volta de seus corpos. Uma aura branca fluida contra uma aura amarela caótica que rebatia os avanços da outra; o chão sobre o qual estavam já perdia sua primeira camada.
Os funcionários da fazenda de Elise estavam horrorizados; muitos não conseguiam nem respirar, e os poucos que podiam já estavam caídos de costas no chão. Era esmagador.
— Quando meus funcionários vieram me dizer que alguém me procurava, eu esperava muita gente, mas você não era nenhuma delas.
— Você mudou; está com a pele bronzeada. Pelo visto, a fazenda tem lhe feito bem. — Disse Jin, agora olhando Elise dos pés à cabeça.
— E você não mudou nada; continua a mesma assombração pálida de sempre.
O que parecia impossível tornou-se real: a aura ficou mais intensa e densa, e agora sua dança era mais brutal; uma não esperava mais que a outra respondesse e partia para cima sempre que podia.
— Quais assuntos você tem comigo, Jin? — Suspirou. — Pelo que me lembro, não somos mais amigos nem amantes; você não gostava mais da própria companhia do que de mim?
— Eu tenho um favor para lhe pedir, Elise; você me deve.
E foi muito rápido, tão rápido quanto o piscar de olhos de um dos funcionários. A espada de Elise foi sacada e avançou em direção ao pescoço de Jin, que reagiu na mesma velocidade, bloqueando o ataque.
— Eu não te devo nada, Jin; saia da minha propriedade.
— Você sempre foi assim, né? Sempre estressada; por que não está usando a sua espada?
Mais um golpe foi deferido em direção ao ombro esquerdo de Jin, que de novo o repeliu, só que agora fez um corte horizontal em direção à barriga de Elise, que, por sua vez, recuou.
— Por que, depois de tantos anos, agora? — Perguntou Elise, quase chorando de raiva, com a espada em guarda.
— Porque é importante; eu preciso conversar primeiro.
— Você deveria se envergonhar depois de tudo que me fez passar.
— Eu me arrependo do modo como tratei você, mas, por favor, vamos conversar.
Elise deu uma longa expirada antes de embainhar sua espada, gesto que foi copiado pelo homem.
— Continuem o trabalho, pessoal! Siga-me, Jin.
— Como ordenado.
A fazenda era estupidamente grande; podia acomodar uma cidade se necessário. Tinha tantos funcionários e era bem-organizada; produzia muita coisa, pelo que Jin pôde ver. Animais eram criados também; Jin viu várias vacas e muitos cavalos de qualidade, que poderiam ser vendidos por três moedas de ouro facilmente. Havia acomodações para os funcionários, e muitos tinham famílias completas lá.
— Eu compro escravos e faço acordos com eles; pagam por sua liberdade com trabalho e recebem um salário para o resto, podem até me pagar com o que ganham. A maioria escolhe não ir embora e acaba formando famílias nos terrenos que compram de mim. — Disse Elise, percebendo a curiosidade de Jin.
— Que nobre; você realmente mudou. — Respondeu Jin, fazendo a bronzeada Elise ganhar mais cor nas bochechas.
— Calado! Só me siga; ainda não concordei em ajudá-lo.
— Como quiser, Vossa Majestade.
Chegaram ao que Jin só podia presumir que era a casa de Elise; era, em poucas palavras, bastante extravagante. Seguia um estilo mais nortenho, com pilastras de mármore e jardins bem cuidados.
— Você não mudou tanto assim.
— Thomas! Sirva-nos algo enquanto conversamos. Sente-se, Jin. — Disse Elise, oferecendo uma poltrona um tanto quanto confortável enquanto se sentava na sua própria.
— Obrigado; gostaria de um chá cítrico, se possível.
— Cítrico? Mas você sempre gostou de chá-verde… Enfim, um chá de cascas de laranja para o rapaz e, para mim, um chá-verde, Thomas.
— Como desejar, senhora; gostariam de um bolo de milho que acabou de sair do forno?
— Não, nós dois não gostamos de bolo de milho…
— Na verdade, eu quero. — Disse Jin, falando com Thomas.
— É para já, senhor. Senhora, com licença. — E saiu.
Elise encarou Jin por um tempo. Era realmente aquele Jin que ela conhecia? Por que ele usava uma espada? E por que ele era tão bom com ela? E como diabos ele fez isso? Elise lembrava-se de Jin sendo um mago e bem mais magro que agora; tinha uma aparência mais forte, mas não era nada comparada à de Allastor ou Bjorn.
— Por que você carrega uma espada?
— Eu perdi uma aposta com Allastor. — Disse Jin, dando um sorriso.
— Allastor? Ah, sim, vocês mantiveram contato, né? O que ele está fazendo? Provavelmente está brigando com ursos por seus territórios. — Disse Elise, dando uma risada.
— Na verdade, Allastor agora é um rei e é pai também. — Disse Jin, enquanto se aconchegava na poltrona.
Elise teve um pequeno choque; ela estava isolada neste lado do continente por tempo demais. Até Allastor havia mudado.
— Sobre o favor, Elise, eu gostaria que me dissesse a localização da espada da Trovoada, já que você não parece estar usando-a.
Silêncio.
— Você só pode estar brincando, não é?
— Eu queria estar; infelizmente, eu preciso dela.
Silêncio.
— Mas você me deu ela de presente… de namoro.
— Eu tenho uma moeda de troca por ela.
Silêncio.
— Não.
— Como é?
— Eu disse que não; não vou te dar a espada.
— Vamos, Elise, não seja assim; é importante que eu a consiga.
— Saia da minha casa, agora!
— Eu vou estar em Qudu se você mudar de ideia; venha procurar-me.
Elise condensou uma nuvem na mão esquerda que crepitava com raios, forte o suficiente para abrir um pedaço da casa.
— Eu já vou. Isso na sua mão não é direcionado a mim; pense bem nisso, Elise.
Então, Jin saiu pela mesma porta pela qual havia entrado.
Elise dissipou sua magia e ficou ali, sentada, imóvel, processando tudo que acabara de acontecer. Por que, depois de tantos anos, Jin havia voltado? E por que havia pedido justamente o seu presente mais valioso? Elise pensou que já tivesse superado tudo que tinha acontecido, pensou ter superado ele. Por que a Trovoada era importante?
Precisava pensar; Jin nunca a procurara antes, nunca havia usado uma espada antes e, pelo que parecia, não usava magia há algum tempo. Algo grande acontecera ou algo maior estava prestes a acontecer; por que Qudu? Dava quase três meses de viagem a cavalo. Que saco.
— Senhora?
— Oi…
— O chá, senhora.
— Eu quero o cítrico, e me dê esse bolo também.
— E o senhor Jin?
— Ele se foi, por enquanto.
— Entendo; aqui está.
Era realmente bom; até o bolo era bom. Pelo visto, Jin sabia de uma ou duas coisas.
— Está do seu agrado, senhora?
— Infelizmente, sim.
— Ainda não o superou, não é?
Elise pensou por alguns instantes e disse:
— Não, não superei; eu pensei que tivesse, mas, no final, ele ainda tem um lugar especial dentro de mim.
— Entendo. Vou avisar a cozinheira sobre isso; estamos na época de colheita do milho.
—
Alguns dias tinham se passado desde a visita de Jin à fazenda; Elise andara mais fechada e pensativa, e isso era perceptível aos funcionários. Algo mudara; até uma reunião foi marcada. Geralmente as reuniões eram somente em casos importantes.
— Bom dia, pessoal.
Um bom-dia foi respondido em uníssono; Elise era respeitosa e era respeitada por todos.
— Recentemente, recebi a visita de um antigo amigo e creio que, a esse ponto, todos já estão sabendo disso; por isso, achei que devia avisar a todos de modo democrático. Quem aqui já morou ou esteve em Qudu?
Nenhuma mão se levantou.
— Alguém sabe quanto tempo demora para se chegar a Qudu?
Nenhuma mão entre as cem pessoas se levantou.
— Decidi que vou até Qudu resolver alguns negócios pessoais. Como a viagem inteira pode demorar quase um ano, vou deixar alguém no comando como meio de precaução, porque acredito em vocês.
Murmúrios foram ouvidos no meio; Elise dificilmente se ausentava da fazenda e nunca havia deixado alguém no comando. As mudanças haviam chegado.
— Portanto, gostaria de fazer uma votação, onde a maioria escolhe o líder provisório. Aqueles que quiserem se candidatar, subam aqui no palanque.
Houve hesitação, mas, depois de um longo minuto, duas pessoas subiram.
Um homem de meia-idade, com cabelos castanhos e cerca de um metro e noventa de altura, subiu junto com uma mulher jovem de cabelos vermelhos e olhos verdes, cuja altura batia no peito do homem.
— Thomas e Arabella. Ótimo. Aqueles que quiserem Thomas como o líder provisório, levantem a mão!
Setenta pessoas ergueram as mãos; ora, Thomas estava na fazenda desde o começo, e todos os novatos eram treinados por ele. Parecia a escolha óbvia.
— Aqueles que querem Arabella como líder, levantem suas mãos!
Cerca de vinte e cinco pessoas ergueram suas mãos. Arabella era, acima de tudo, esforçada, mas poucas pessoas confiavam o suficiente nela; na verdade, ela não sabia como poderiam. Em sua visão, eram todos escravos; era inconcebível para Arabella que os que conseguiam comprar a liberdade continuassem ali. Ela estava se esforçando tanto para que pudesse ser livre.
— Fica decidido então que, por maioria, Thomas é o líder provisório. Só continuem com suas tarefas e evitem problemas, que tudo ficará bem. Amo todos vocês.
Para os novatos, Elise era no mínimo estranha. Ela os comprava e os trazia por muitos dias para uma fazenda; nem chegava a tratá-los mal, e só lhes dava sua nova função e explicava o acordo para sua liberdade. Thomas mesmo foi o primeiro. Prisioneiro de guerra, foi comprado por Elise e a serviu por bastante tempo. Conseguiu sua liberdade com dois anos de serviço, mas decidiu que não iria embora.
Então, negociou um salário e um quarto na então construção da casa de Elise e tem sido seu mordomo desde então. Thomas não mantinha relações de amizade com os outros empregados depois que terminava de treiná-los; corria um boato de que Thomas tinha interesse em Elise, mas, desde a visita de Jin, todos haviam começado a sentir pena de Thomas. Era realmente uma pena.
As pessoas começaram a especular a situação toda, e aqueles que haviam visto Jin em pessoa o descreviam como um monstro. Todos sabiam que Elise era forte; ora, já haviam tido tentativas de saques na fazenda, e ela os tinha defendido sozinha. Mas aquele homem chegara do nada e a desafiara, ficando em pé de igualdade? Como poderia, então, Thomas competir contra um monstro? Era compreensível que Thomas gostasse dela.
Elise era, resumidamente, espetacular: alta, forte e linda. Tinha os cabelos loiros e pele morena, olhos negros como a noite; tinha uma marca de nascença que lembrava um mapa nas costas, uma pintinha na bochecha e muita atitude. Era a definição de mulher forte.
Porém, existia um pequeno ponto fraco nela, e esse ponto se chamava Jin Haruto. Jin fora seu primeiro namorado e a havia ajudado em uma época difícil de sua vida; era realmente seu "príncipe encantado" das histórias.
Mas tudo mudou quando Jin foi traído por sua discípula. Elise não sabia a história toda, mas se culpava por não ter conseguido salvar Jin daquilo de que ela havia sido salva.
Jin mudou muito depois da traição; costumava brincar muito e demonstrar seus sentimentos. Nos dias que se passaram, Jin não confiava nem mesmo em Allastor; a desconfiança era tanta que, durante as missões do grupo, Jin se envolvia em magia de nível deus para dormir.
Elise achava que, se tivesse tentado mais, poderia ter feito mais por ele. Mal sabia ela que não, ela não podia. Então, certo dia, acordou com uma carta em seu saco de dormir. Ela dizia:
"Elise, meu amor, não consigo; juro que tentei, mas minha mente desistiu de tentar, meu corpo está em um impasse. Não posso continuar te machucando assim; decidi que é melhor terminarmos. Sei que é uma maneira ruim de terminar, mas não vejo um modo de te ferir menos com minhas palavras. Minha sanidade no momento é mais preciosa do que a nossa companhia. Espero que um dia possa me perdoar. Do seu Jin"
Essa carta foi obviamente queimada por ódio, e milésimos depois foram feitas tentativas de recuperação por arrependimento; mas ela não existia mais.
A Trovoada era o que Elise havia encontrado junto com a carta; a espada era um presente de Jin. No começo, Elise não sabia o que pensar da espada; sabia que tinha sido do pai de Jin e que era de qualidade. Sabia também que Jin queria que ela ficasse com a espada. Depois começou a usá-la para suas missões, e era realmente a melhor espada que já empunhara.
Jin havia dito uma vez que a espada só funcionava se seu portador tivesse afinidade com o elemento de relâmpago. Era basicamente uma amplificadora; podia até mesmo partir montanhas se, hipoteticamente, Allastor tivesse afinidade com a magia de eletricidade e a empunhasse.
Era engraçado: Allastor costumava odiar as espadas que Jin apresentava, até o dia em que viu a espada "Pedra Negra". Mas isso fica para outra hora.
Anos depois, Elise recebeu um mensageiro de Bjorn; o mensageiro dizia que Jin havia partido para o outro continente sozinho, sem mais nem menos. Foi aí que Elise decidiu aposentar a espada e guardá-la como recordação; estivera guardada até hoje, mesmo que lhe tenha rendido o título de "Elise, a Trovoada".
—
Elise sabia que Jin não comprava brigas que sabia não poder ganhar. Certa vez, de noite, os únicos acordados eram Allastor, que limpava um javali que havia caçado, e Elise, que estava de guarda.
— Diga-me, Allastor: em uma luta sincera, valendo tudo, quanto tempo demoraria para que você matasse Jin? — Perguntou, dando uma risada.
Allastor, que era sempre brincalhão, ficou com uma cara mórbida.
— Eu nunca mataria Jin.
— Hipoteticamente, sei que são amigos e tudo, mas isso é uma situação de imaginação; vamos, Allastor.
— Igualmente, eu nunca poderia matar Jin; você nunca o viu furioso, né? Eu seria somente um espadachim correndo para cima de um mago de nível Deus.
— Pera, sério? O grande Allastor tem medo do pequeno Jin? — E começou a rir.
— Você não conheceu Jin no começo; não sabe como ele era. — O homem parou de limpar o javali. — Já o vi torturar um exército inteiro com magia de lava e terra; já fez chover ácido sobre exércitos. Os gritos duravam pouco tempo; então os interrogava. Isso quando não usava magia de ilusão. — A espinha do homem ficou gelada. — Você já ouviu seus pais lhe implorando para que os matasse? Jin já trilhou um caminho de que se arrepende hoje em dia, mas eu me lembro de como ele era e posso lhe assegurar: ele é melhor hoje em dia. Então, não, eu nunca mataria Jin.
E a conversa foi tomada por um silêncio ensurdecedor; uma coruja chirriava, e o som do vento era macabro.
— Como pode alguém ter tanto poder?
— Não sei, mas você é especial. Jin nunca nos apresentara uma mulher como sua namorada, tampouco permitira que uma estranha se juntasse a nós. Só quero que entenda que você não deve se comparar a Jin; é perda de tempo.
— Você já lutou contra ele antes, né?
— Suspirou. — Já, infelizmente já; mas ele pegou leve, eu acho. Usou ilusão e me fez acreditar que o tinha matado com um golpe depois de uma discussão besta que tivemos antes de nos apresentarmos. Na época eu era mais burro, eu acho, então ele só precisou manter a ilusão até o feitiço de jaula de adamantino ficar pronto. Só não conte para ele que esse feitiço não funciona mais em mim.
— E então?
— Então ele me perguntou por que eu estava atrás dele; daí expliquei que precisava de ajuda, e aqui estamos hoje.
— Fácil assim?
— Eu tive que prometer algumas coisas e fazer concessões, mas no fim deu tudo certo.
— E como se sai do feitiço de jaula de adamantino?
— Você precisa jogar sua espada fora e meditar; é aí que a maioria dos espadachins morre. A adrenalina pode deixar tudo mais difícil, então geralmente eu só quebro a jaula. — Disse Allastor, dando de ombros.
— Parece fácil quando ouço você falar.
— Me ajude aqui.
Era um javali grande; Elise teve que retirar as tripas enquanto Allastor o segurava.
— Confie em Jin; algum dia ele vai lhe pedir um favor do nada; vai parecer um pouco absurdo, mas você tem que ajudá-lo.
— Você o coloca em um pedestal muito alto, Allastor. — Disse Elise, limpando as mãos em um pano um tanto surrado.
— De uma coisa eu sei: se minha vida estivesse em jogo, Jin faria de tudo por ela, e é só nisso que eu acredito. Quer saber de um fato curioso?
— Qual?
— Bjorn foi criado pelo pai de Jin depois que ele o achou escondido em uma vila saqueada, então os dois são quase irmãos. Por isso Bjorn seguiria Jin até o inferno se ele o pedisse.
— Então todos do grupo devem algo a Jin; que parada, hein?
— É uma coincidência, mas ele nunca cobrou nada de nós até hoje, e eu sei que esse dia vai chegar.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios