Volume 2

Capítulo 123: Retorno Do Inferno

Com as portas do grande salão de reuniões se fechando atrás de Jian, rei de Donfang, o som ecoou pelo ambiente, deixando um resquício de silêncio que parecia quase palpável. No salão, agora restavam apenas três monarcas: Aldebaram, Endrick e Caz e o Anfitrião.

Caz manteve o olhar fixo à frente, a luz dos lustres refletindo em seus olhos com um brilho determinado. Seus lábios se curvaram em um sorriso frio enquanto ela falava.

— Jian é astuto o suficiente para não revelar nada, Endrick — sua voz era um murmúrio firme que cortava o silêncio como uma lâmina. — Pensei que já soubesse disso.

Endrick não respondeu de imediato. Seus dedos tamborilavam levemente na superfície da mesa, cada toque uma expressão de sua inquietação. O olhar estava centrado, mas havia uma intensidade fervorosa em seus olhos, como se estivesse despedaçando mentalmente cada palavra dita por Jian.

— Tenho plena ciência desse fato — disse finalmente, a voz trazendo tons de calmaria. — Mas mesmo assim, ele não é uma divindade, é um humano que deixa brechas… E eu já tirei algumas respostas na forma que foi dita.

Endrick se inclinou ligeiramente para frente, seus olhos fixando-se nos de Caz com uma determinação ardente.

— Ele pode ter se esforçado para manter a fachada, mas cada pequena hesitação, cada mudança sutil no tom... Tudo isso revela mais do que ele gostaria.

Endrick suspeitava do verdadeiro propósito do torneio planejado por Jian. Não havia nenhuma data comemorativa que justificasse a realização do evento, o que já despertava dúvidas. Mas o que mais inquietava Endrick eram os prêmios oferecidos: não se tratavam de relíquias baratas ou grandes somas de dinheiro. Eram artefatos mágicos de imenso prestígio e, o mais perturbador, a mão da filha de Jian, o que faria do vencedor o sucessor de Donfang.

Decidido a entender melhor, Endrick questionou Jian sobre o motivo do torneio. A resposta que recebeu foi breve e vaga. Aldebaram, ainda sem compreender o propósito dos questionamentos, aceitou a resposta de Jian mentalmente, talvez devido à sua ingenuidade. Contudo, com as palavras de Endrick e Caz ressoando em sua mente, ele se sentiu confuso e perdido em meio à complexidade das intenções políticas que o cercavam. 

Ele parecia uma criança tentando compreender um jogo de adultos, sem sucesso. No entanto, Endrick, com sua experiência, captou nuances que escaparam aos outros. Notou uma leve alteração no tom de voz de Jian e a repetição de certas palavras, sinais sutis, mas reveladores, de que havia algo muito maior por trás do evento.

— Às vezes, me surpreendo com sua perspicácia, rei Endrick — disse Caz, a voz soando como uma brisa gelada que percorria um campo desolado. Não se podia discernir se era um elogio ou uma crítica velada.

Endrick permitiu-se um sorriso calculado, seus olhos brilhando com uma astúcia indomável. Ele se inclinou para trás, repousando confortavelmente contra o encosto da cadeira, os dedos tamborilando levemente no braço do móvel. 

— Eles ainda me subestimam demais — murmurou, a voz carregando um tom de satisfação contida. — Quando falam comigo, acham que não precisam ser tão cautelosos. Isso facilita muito para mim.

"Como vou entrar nesse assunto? Eu não consigo nem sequer respirar direito aqui." Aldebaram pensava, sentindo o coração bater descompassado. Ele imaginou que com a saída dos outros reis o ar ficaria mais leve, mas a maneira como aqueles dois falavam, cada palavra carregada de significado, parecia aumentar a pressão ao seu redor. O suor escorria por suas têmporas, e ele sentia as palmas das mãos úmidas, incapaz de encontrar as palavras certas para se expressar.

— O mundo está tão estranho — começou Caz, cruzando uma perna sobre a outra com uma elegância calculada. — Que eu não acharia demasiado, Jian estar tramando algo.

Ela lançou um olhar penetrante à frente. Endrick, sentado ao lado de Aldebaram, sentiu o arrepio da desconfiança percorrer-lhe a espinha. Ele já havia dito a Aldebaram na carruagem que o mundo parecia estar entrando em uma espécie de era do caos, e agora as palavras de Caz reforçavam essa sensação inquietante.

— Estranho você diz... — murmurou Endrick, a voz carregada de uma gravidade sombria.

Endrick se remexeu na cadeira, o olhar perdido em pensamentos. Sentia o peso do mundo nos ombros: países à beira de conflitos, hostilidade crescente entre nações, quase-guerras prestes a eclodir. Demônios emergindo das profundezas do inferno, deuses como Mani reencarnando, e vampiros, agora mais conscientes e organizados, atacando com frequência alarmante. Além disso, reis como Jian exibindo comportamentos cada vez mais estranhos, sinalizando um desequilíbrio inquietante e crescente. Caz continuou, o rosto marcado por uma expressão de desdém.

— Todo tipo de rato parece estar saindo dos bueiros — Ela franziu o nariz delicadamente, como se apenas pensar nisso a incomodasse profundamente. — As organizações chinesas mesmo parecem estar se espalhando pelo continente inteiro.

— As tríades? — Endrick ergueu uma sobrancelha, seu olhar denotando perplexidade profunda. — A última de renome foi Xuè Lián, mas ela simplesmente desapareceu há alguns anos. Você está sugerindo que eles retornaram?

— Não é uma sugestão, Rei Endrick, é uma certeza — respondeu com firmeza, desenlaçando as pernas e cruzando os braços. Seu olhar carregava uma intensidade que combinava com a gravidade de suas palavras. — Eles retomaram suas atividades criminosas. Cascia, por estar tão próxima de Donfang, está sofrendo muito.

Aldebaram observava a conversa com surpresa. Desde que vira Caz pela primeira vez, a considerou reservada e pouco falante, com uma rigidez inabalável. No entanto, agora percebia uma mudança sutil. Embora ainda contida e ponderada, ela parecia mais leve, variando o tom de voz e até mudando sua postura, cruzando as pernas de uma maneira que Aldebaram nunca imaginara possível ao vê-la pela primeira vez no dia.

— Não apenas isso, meus nobres reis — O anfitrião, que até então parecia apenas uma figura de autoridade distante, decidiu falar, capturando a atenção de todos na sala suntuosa. — Receberam a notícia? Uma rachadura colossal se abriu no paredão sul.

Os monarcas presentes se entreolharam, trocando olhares carregados de preocupação e incerteza. Aldebaram observou atentamente a reação de cada um, buscando compreender o motivo da súbita tensão que se espalhava pela sala.

— Me perdoem a ignorância... — Aldebaram interrompeu o silêncio, sentindo-se compelido a romper com a atmosfera carregada de segredos. — Mas o que exatamente é o paredão sul, e o que há além dele?

A conversa na sala ampla do palácio ecoava com uma mistura de incredulidade e curiosidade sentivel. Endrick, postado com os braços cruzados, lançava seu olhar fixo para além do horizonte invisível.

— O paredão sul — começou ele, sua voz serena ecoando no salão. — Separa nosso continente de um outro, inexplorado por nós até então, conhecido como Sul. E por trás dele, estão diversos reinos.

Os olhos de Aldebaram se arregalaram, o cenho franzido denotando a surpresa que o dominava ao ouvir tais palavras. Nunca em sua vida imaginara que terras ainda desconhecidas pudessem existir tão próximas. Ele já tinha visto o imenso paredão uma vez, mas jamais imaginaria que além dele se estendiam reinos dos quais nunca ouvira falar.

— E como são esses reinos? — indagou ele, ainda atônito, enquanto Astrid, posicionada atrás dele, observava com igual fascínio.

A conversa se desdobrava lentamente na sala iluminada, onde Caz, com um gesto ponderado, descansava as mãos sobre a mesa enquanto explicava:

— Do outro lado do paredão, existem povos completamente diferentes. Que, assim como os giganoides azuis, possuem uma pigmentação de pele diferente. No entanto, em vez de azul, é um tom bronzeado ou escuro, muito distinto do nosso.

Aldebaram, com a boca entreaberta, absorvia cada revelação como se o mundo estivesse se expandindo exponencialmente. Era como se uma tela, antes pintada com poucas cores, agora recebesse novas pinceladas. Contudo, algo ainda martelava-lhe a mente, deixando o rosto tomado pela surpresa expressar perplexidade.

— Mas por que o muro existe? Por que essa cultura nunca foi compartilhada conosco, habitantes deste lado? — questionou, buscando entender o cerne da questão.

— É uma consequência da guerra celestial. — O anfitrião começou a dizer, retrocedendo alguns passos até encostar no palanque atrás de si, cruzando os braços reflexivo antes de continuar: — Como você já deve saber, a última guerra custou muitas vidas divinas, principalmente dos deuses desses povos do sul. Em menor número, eles precisavam proteger seu povo de outros, erguendo o grande muro como a solução mais sensata.

Aldebaram ergueu levemente as sobrancelhas, seu olhar fixo no anfitrião enquanto processava as palavras com uma seriedade crescente.

— Proteger de quem? — indagou, suas pálpebras abaixando-se ligeiramente, revelando uma expressão intensamente inquisitiva. A palavra "proteção" reverberava em sua mente, evocando uma teia de questões e advertências.

— Bem, as crônicas que sobreviveram de eras passadas nos contam histórias de exploração e escravidão contra esses povos — explicou, seu tom carregado de pesar.

A atmosfera na sala tornou-se densa, como se um peso invisível pairasse sobre todos. Aldebaram absorveu as palavras de Lindolf sobre o significado de "proteger", sentindo um peso crescente em seu peito. Não eram demônios ou outras entidades sobrenaturais que ameaçavam, mas sim os próprios seres humanos que haviam oprimido esses povos. A construção milenar do muro ao sul agora fazia completo sentido; era uma barreira erguida pela dignidade de um povo que havia sofrido injustiças nas mãos de outros que se consideravam superiores.

No entanto, uma nova sombra de incerteza se abria conforme a rachadura no grande paredão. Aldebaram ergueu os olhos castanhos para Lindolf, buscando respostas que ele já temia conhecer.

— O que exatamente acontecerá se o muro ceder? 

— Não podemos prever com exatidão. — Endrick, ao seu lado com os braços cruzados e um olhar penetrante, começou a responder de forma assertiva, como se visse o desenrolar dos eventos à frente. — Mas é seguro deduzir que as nações deste lado irão lançar uma incursão em busca de terras e recursos.

Aquelas palavras, embora esperadas, atingiram Aldebaram como um novo golpe certeiro. Ele queria acreditar na bondade das pessoas, em um cenário menos sombrio, mas as palavras de Endrick não deixavam margem para ilusões. O guerreiro recostou-se na cadeira, perdido em pensamentos melancólicos, confrontando a cruel realidade do futuro incerto.

— Isso é típico de quem se vê como superior, Rei Endrick — Caz quebrou o silêncio que havia se colocado, as palavras carregadas de uma crítica sutil enquanto ela examinava suas unhas pintadas de azul. — Simplesmente ignorar que os povos do outro possam ser mais poderosos que nós. 

Endrick concordou com um leve sorriso, levando a mão aos cabelos enquanto ponderava.

— De fato, rainha Caz. Bem, neste cenário existem duas possibilidades... Mythárea invadindo os reinos do sul, ou os reinos do sul invadindo Mythárea. — Suspirou pesadamente. — É uma visão pessimista, porém lamentavelmente realista. Em última análise, a ganância parece ser inerente a todos os seres conscientes. Não consigo imaginar qualquer possibilidade que se afaste disso.

A sala voltou a se envolver em um silêncio sepulcral, onde apenas o eco das respirações profundas preenchia o espaço. Era uma visão desoladora, que não prometia um futuro unificado, mas sim batalhas que escravizariam todo um povo em nome do poder, onde a ganância se ergueria triunfante. Aldebaram lutava para não enxergar as coisas dessa maneira sombria, embora seus olhos já tivessem testemunhado a crueldade humana suficiente para compreender essa realidade. Já Endrick, com seu olhar experiente, não conseguia ver de outra forma. No fim, talvez por Aldebaram, ainda ser novo nas intricadas teias políticas, conseguia vislumbrar além, muito provavelmente um além inalcançável.

— E se houvesse uma alternativa? — Todos se viraram para ele, perplexos. O guerreiro avaliava cada rosto presente enquanto prosseguia: — Uma alternativa que não nos colocasse uns contra os outros, mas que promovesse a paz, uma união entre nossos povos... — Aldebaram parecia contemplar suas próprias palavras, seus olhos erguendo-se para o teto. — Eu sei que é uma ideia audaciosa, mas sempre sonhei com isso, unindo meus povos... Um sonho pelo qual estou disposto a lutar para tornar realidade. Por que não considerar o mesmo para outros povos?

Os olhos de Aldebaram buscavam desesperadamente por aceitação entre os presentes. Um mundo onde ninguém julgasse nem tentasse subjugar o outro, onde os povos se unissem de mãos dadas sem preconceitos nem opressão. No entanto, tudo o que recebia em resposta eram olhares frios, que pareciam não levar suas palavras a sério, como se fossem meros devaneios de um idealista. Exceto por Astrid, cujo olhar de apoio era inabalável, respaldando as ideias de seu pai sem hesitação.

— Palavras inspiradoras, Rei Aldebaram... Em um mundo ideal, elas seriam fáceis de realizar e maravilhosas de se viver... — Endrick balançou a cabeça negativamente, os olhos semicerrados, demonstrando ceticismo quanto à viabilidade da proposta. — Mas isso é apenas um sonho, algo que não se aplica à realidade, não quando há sempre aqueles que desejam mais... Rei Aldebaram, um mundo ideal não é o mundo real, e dificilmente o será, infelizmente.

Foi como um soco no estômago, formando um nó na garganta. A invalidade de suas palavras doía mais que cortes profundos, mas Aldebaram já esperava algo assim. O problema dele era ver o mundo com cores intensas demais.

"Aldebaram, meu amigo, neste mundo no qual você está se aventurando sem compreender completamente, irá testemunhar coisas que irão transformá-lo... Verá em primeira mão o quão desumano um rei pode ser..." Endrick lamentava-se por Aldebaram, o guerreiro que via o mundo em tons vibrantes, estava prestes a encarar atos que gradualmente desbotariam cada cor. Ele havia acabado de entrar em um mundo cruel chamado política. Com esse último pensamento, todos se levantaram e avançaram em direção à saída, passando pelas imponentes portas. Aldebaram ainda sentia o peso da lamentação, absorvendo cada palavra que ouvira. 

— Rei Aldebaram — Caz apareceu ao lado do guerreiro, interrompendo o turbilhão de pensamentos que o assaltava. — Sua visão é enriquecida por uma perspicácia que poucos reis possuem. É por isso que desejo continuar nossa conversa, especialmente sobre os giganoides de pele azul, e ajudar no que puder. — Seu olhar, apesar de sereno, faiscava com compaixão. Ela inclinou levemente a cabeça, um gesto de respeito raro entre reis. — Então, para podermos discutir melhor, convido-o a visitar meu reino. Aceita?

Aldebaram sentiu um breve momento de hesitação. Ele observou Caz atentamente, procurando por qualquer sinal de duplicidade, mas encontrou apenas sinceridade. 

— Oh... Eu... Claro! Claro que aceito. — Ele abriu um sorriso frágil, uma tentativa de transmitir segurança que mal disfarçava sua apreensão. — Irei assim que possível.

Caz fez uma saudação formal, como a etiqueta exigia, e saiu acompanhada por seu guardião, Lian, que acenou cordialmente para todos, especialmente para Astrid, cuja presença parecia sempre atrair olhares admirados. No fim, Aldebaram alcançou tudo o que desejava: ser aceito na liga, abordar o assunto dos gigantes azuis e, mais importante, começar a forjar laços com outros monarcas.

Enquanto Aldebaram e Endrick caminhavam até a carruagem. As estrelas começavam a brilhar no céu noturno, pontuando o firmamento com pontos de luz que pareciam refletir as esperanças e os temores dos homens abaixo. Finalmente, a reunião havia terminado, e eles retornariam para seus respectivos reinos. Endrick, na verdade, acompanharia Aldebaram até seu reino antes de voltar para Felizia.

O cocheiro puxou suavemente as rédeas, iniciando o movimento das rodas que pareciam deslizar como se flutuassem sobre o chão. Os cascos dos cavalos ecoavam no silêncio da noite, enquanto o céu estrelado, dominado pela imponente lua, parecia sereno e pronto para guiar os reis de volta a Estudenfel, envolvendo-os numa aura de segurança e tranquilidade.

     

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No céu mergulhado na claridade do fogo infernal, entre imponentes rochas vermelhas que pareciam reter o próprio espaço, os seres que ali viviam eram confinados em um ambiente desolador. Sem estrelas ou lua à vista, apenas a vastidão sombria dominava com suas montanhas de fogo. Abaixo do teto rochoso, o solo se estendia como uma paisagem aterrorizante: um chão vermelho cortado por rios de lava serpenteantes, que brilhavam como veios de lava. Seres demoníacos moviam-se entre as labaredas, alguns atormentando, outros sendo atormentados. O cheiro pungente de enxofre impregnava o ar, tornando cada respiração um desafio naquele inferno literal.

Diante de um abismo sem fim, um ser destoante dos demônios de pele vermelha emergia.

— Hades, há quanto tempo não nos encontramos… — A voz de Pandora era mordaz, porém sedutora como a de uma súcubo, ressoando no ar com uma melodia perversa que arrepiava a espinha dos mais fracos a tentação. 

Ele não se virou, seus olhos de tons roxos como uvas continuavam serenos focados a frente. No entanto, Pandora estava ali, logo atrás dele, sua presença imponente como sempre, os cabelos vermelhos intensos fluindo como um rio de sangue, cada fio parecendo ter sido tingido com o sangue dos inocentes.

Ela se aproximou mais, os passos suaves e calculados, como se estivesse dançando em meio ao caos. Seus olhos cintilavam com uma malícia inconfundível enquanto um sorriso sinistro curvava os lábios.

— Na verdade, quanto tempo você não vem ao inferno… — Ela continuou, a voz agora um sussurro venenoso, tão próximo que ele podia sentir o calor das sílabas roçando-lhe o pescoço. O ar ao redor parecia vibrar com a tensão, uma mistura de desejo e perigo.

— Pandora... O que a rainha do submundo faz fora de seus domínios? — questionou Hades, enquanto uma brisa quente como o bafo de um dragão agitava seus cabelos roxos escuros. Sua voz suave reverberou pelo espaço, ecoando nas paredes de pedra antiga.

Pandora deu um passo à frente emparelhando com ele, os olhos carmesim brilhando com uma intensidade que parecia perfurar a alma de qualquer ser.

— Como assim? Você sabe muito bem que todo o inferno é meu domínio, Hades. — Ela deslizou a mão pelos ombros dele com uma suavidade ameaçadora, cada toque carregado de uma força sutil, porém inescapável.

Nenhum dos dois parecia ter a mínima intenção de desviar o olhar para o outro, como se fazer isso fosse demonstrar fraqueza ou falta de respeito. Seus olhares permaneciam firmes e desafiadores, como lâminas afiadas, observando a terra desolada e infernal à frente.

— Devo dizer que nada mudou desde a última vez que estive aqui — pontuou, a voz carregada com tons sutis de nostalgia.

A atmosfera estava impregnada de uma tensão sutil, mas carregada de um afeto antigo entre os dois, como se tivessem compartilhado muitos anos de convivência e criado laços profundos. Havia uma familiaridade quase palpável, uma conexão que desafiava o tempo e as circunstâncias, dissolvendo qualquer sugestão de confronto iminente.

— O inferno não muda, é como uma maldição que nos impede de sair do lugar... Você sabe bem disso — desabafou, com um tom de amargura na voz. — Agora, como eu disse antes, faz muito tempo desde a sua última visita… Hades, o que o traz às terras esquecidas do inferno?

A luz vacilante das chamas refletia no rosto dela, destacando suas feições endurecidas por uma certa frustração. O calor sufocante do inferno envolvia-os, tornando cada respiração um desafio árduo, como se inalassem a própria essência do fogo, queimando-lhes a garganta. Hades, com seu semblante enigmático, permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo cada detalhe da paisagem desolada e árida que os cercava. Ele percebeu uma pitada de hostilidade nas palavras dela, algo esperado dado o contexto. Com um sorriso sagaz, quebrou o silêncio:

— Você não acreditaria se eu dissesse que senti saudades, não é? — O abismo à frente deles parecia rugir, como se uma fera há muito contida tentasse escapar de suas profundezas. — Vim entender o motivo de certas coisas estarem ocorrendo…

— Então você percebeu... — Ela apertou os olhos, os cabelos vermelhos dançando ao vento quente que soprava pelo deserto árido do inferno.

Hades sentiu os braços dela começarem a apertar contra ele, um sinal claro de nervosismo oculto que a abalava. 

— Difícil seria eu não perceber. Você não fez questão de esconder... — Seu tom era calmo, mas carregado de uma tensão submersa. — Como deve imaginar, não me importo com o que deuses ou demônios fazem. Mas há algo que desejo saber... O porquê do envolvimento daqueles garotos?

A paisagem estendia-se até onde a vista alcançava, uma terra árida onde criaturas demoníacas pareciam travar uma batalha desesperada pela sobrevivência em meio ao ambiente hostil que muitos chamavam de inferno. Pandora observava essas criaturas com um olhar penetrante, seu coração, outrora sereno, agora começava a palpitar levemente com a tensão do momento. Ao seu lado, Hades exibia uma calma aparente, seu semblante imperturbável como uma máscara de pedra esculpida pelas eras. Ele a ignorava, ou melhor, parecia não se importar com a aura avassaladora que ela emanava, mesmo tentando conter. Como se a grandiosidade dela, a mulher mais poderosa do inferno, respeitada e temida até pelos primordiais, fosse irrelevante.

— Ambos foram peças fundamentais para dar início a tudo isso... — Ela piscou uma vez, refletindo sobre suas próprias palavras. — Sempre houve essa estranha conexão entre eles e eu, o que facilitou bastante a manipulação.

— Gideon era o escolhido... Alaric, por sua vez, parecia insignificante neste mundo, mas ambos estavam estranhamente ligados à rainha do inferno. Este mundo realmente reserva suas surpresas. — Hades ergueu um sorriso sutil que curvou suavemente as maçãs do rosto, apertando seus olhos com astúcia. — Se minhas investigações estiverem corretas, foi você quem sussurrou as primeiras palavras de invocação de Luna para ambos...

A respiração de Pandora prendeu-se por um instante, seu coração que já palpitava levemente, agora acelerava como se estivesse em uma maratona. As palavras de Hades foram proferidas num tom baixo e controlado, carregadas de um subtexto manipulativo e frio que poderia resfriar o próprio inferno. Toda essa reação descontrolada de Pandora não era apenas pela surpresa, mas pela astúcia penetrante de Hades, que parecia ter conhecimento de algo muito mais comprometedor do que ela esperava. A perspicácia dele era assombrosa; Hades verdadeiramente se mostrava digno do título de senhor do submundo.

— Apenas dei o empurrão inicial. — Apesar de intimidada, Pandora ergueu o queixo, sentindo a necessidade de honrar o título que lhe fora conferido, o de rainha do inferno. Sua voz tremia ligeiramente, mas ela manteve a postura firme. — O resto foram apenas as consequências dos primeiros atos…

Hades não olhava diretamente para ela; seu olhar fixo à frente parecia buscar respostas nas labaredas que dançavam ao redor. Cada palavra era uma leve pressão, como se tentasse desvendar segredos enterrados nas profundezas.

— E como você conseguiu isso? — Sua voz era como um sussurro carregado de desconfiança. — Como obteve influência além do Inferno e, mais ainda, como conhecia as palavras de invocação?

Cada pergunta era como um peso sobre os ombros de Pandora, que se sentia pequena diante dele. Ela podia tentar demonstrar imponência, mas frente a Hades, era o mesmo que nada. As questões eram pertinentes, pois desafiavam os limites estabelecidos pela barreira que separava os reinos, onde a influência externa era estritamente proibida, especialmente vinda do inferno. E as palavras de invocação, guardadas com tanto zelo, eram conhecidas apenas por poucos humanos, alguns afirmavam que haviam sido perdidas há séculos.

— Alguém me auxiliou... — Ela hesitou, os dedos delicados tocando o tecido sedoso do vestido negro, apertando-o suavemente como se buscasse apoio. — Desculpe, Hades, revelar o nome poderia custar-me tudo…

Hades assentiu lentamente, como se já esperasse essa resposta, mas ainda não completamente satisfeito, um sorriso malicioso enfeitava os lábios.

— Isso confirma algumas das minhas suspeitas, mas não todas. — Ele baixou as pálpebras, suas íris roxas desviando suavemente para baixo, enquanto sua mente ponderava. — Diga-me, Pandora, você interferiu de alguma forma no segundo garoto, Alaric? Alterou seu corpo, ou modificou algo em sua essência?

— Não — respondeu rapidamente, soltando o tecido do vestido enquanto uma onda de alívio fugaz passava por ela. A tensão ainda vibrava no ar entre eles. — Apenas sussurrei as palavras de invocação de Luna.

Uma resposta inesperada que pegou o senhor do submundo de surpresa, especialmente porque ele havia associado Alaric principalmente a Pandora. Soltou um ar quente pelo nariz, uma risada nasal contida, que se transformou em um sorriso belo e enigmático.

— Terei que arrancar respostas daquele deus então… Que ele acorde logo. Contudo, isso é muito intrigante, realmente intrigante. As peças ainda parecem desconexas entre si... — murmurou ele, mais para si mesmo do que para a outra pessoa. Sua expressão era um misto de curiosidade e determinação, como se estivesse montando um quebra-cabeça complexo. — Bem, não pretendo me intrometer nos seus planos, desde que não afetem profundamente os meus interesses. No entanto, é prudente ficar esperta; os outros deuses da morte têm um cuidado peculiar com a vida dos seres, muito mais do que eu…

Pandora assentiu suavemente, seus olhos fixos nos contornos sombrios do reino à sua volta. Hades finalmente desviou a íris roxa de esguelha para a bela mulher ao seu lado, a rainha do inferno, cuja imponência rivalizava até mesmo com a dos deuses. Sua beleza desafiava o próprio conceito de perfeição. Hades, impassível, não era dado a cobiças mundanas, pois já tinha o chamado amor esperando por ele no submundo. Assim, com o objetivo alcançado, planejava partir. Com um gesto suave, retirou o braço de Pandora, que estava envolto ao redor de seu pescoço, ela não protestou. Quando estava prestes a se afastar, um baque seco ecoou atrás dele, como se algo poderoso tivesse pousado, seguido pelo bater de asas.

Hades não precisou se virar para saber o que era, continuou fixo a frente, seu olho roxo esquerdo era visível. Por cima do ombro, atrás dele, Noir se erguia com suas asas negras estendidas, um ser de pele vermelha cuja presença dominava o ambiente.

— Noir, a quanto tempo — murmurou Hades, ele não precisa confirmar com o olhar, a aura que emanava como uma amálgama de escuridão pronta para engolir tudo, era simplesmente inconfundível.

Pandora virou-se, os olhos fixos em sua criação, observando-o com um misto de amor materno e uma autoridade imponente.

— Noir, meu filho, o que faz aqui? — sua voz soou suave, mas não havia dúvida de quem estava no controle.

— Mãe... — começou Noir com relutância, sabendo que chamar Pandora de qualquer outra forma poderia desencadear sua ira. — Procurei por você em seu castelo e não a encontrei. Senti sua aura... e a dele, e vim aqui.

Noir, normalmente cheio de orgulho e soberba, neste momento parecia um gatinho assustado. Não havia como manter a imponência diante da Rainha do Inferno, muito menos frente a Hades. Comparado a esses dois, Noir, um dos primordiais mais poderosos, era como uma barata diante de titãs.

— Ah, agora entendo por que nenhum demônio se aproximou de mim… — comentou Hades calmamente, suas pálpebras abaixando um pouco em um semblante solene. — Esqueci de suprimir minha aura...

Pandora, de perfil para ambos, observava as costas de Hades, franzindo ligeiramente as sobrancelhas em surpresa. O simples fato de o rei do submundo deixar sua aura vazar sem impedimentos fazia qualquer demônio manter-se afastado, temendo-o. A Rainha do Inferno tinha a habilidade de selecionar a aura que desejava sentir e a intensidade dessa sensação, para não ser afetada pelas consequências devastadoras. Curiosa sobre a aura de Hades depois de tanto tempo, decidiu vê-la em todo seu esplendor.

Foi uma decisão tola. No momento em que ela selecionou Hades e permitiu que toda a magnitude da sua energia a atingisse, foi como um soco direto no estômago. Pior ainda, foi como se um punho em brasas tivesse penetrado sua barriga, liberando uma temperatura escaldante que subiu-lhe garganta, queimando tudo no caminho. Pandora cambaleou, tentando resistir à força esmagadora. A aura de Hades era um amálgama roxo que permeava o inferno, parecendo não ter fim definido. Algumas almas pareciam orbitá-lo, mas, a pouca distância de Pandora depois de pandora, a aura aparentava uma calma enganadora, como o mar em um dia ensolarado. Pandora, não pode suportar mais aqueles efeitos aterradores, desativando a visão da aura dele.

Ela inspirou profundamente, lutando para recuperar o fôlego enquanto a sensação de opressão gradualmente se dissipava. Logo, seu corpo relaxou mais uma vez. No fundo, ser afetada por isso, ou ter tal reação, não significava fraqueza por parte de Pandora. A verdade era que deuses mais poderosos ou certos demônios em pleno domínio de seus poderes podiam desencadear uma aura tão intensa quanto aquela, capaz de afetar até mesmo seres igualmente fortes.

Pandora, por exemplo, possuía a habilidade de expandir sua própria aura para rivalizar ou, pelo menos, neutralizar os efeitos de Hades sobre ela. Era por isso que esses seres se dedicavam a treinar sua resistência contra influências externas. Hades, em particular, dominava artimanhas ocultas para manipular sua aura com precisão, provocando os efeitos que desejava, o impacto que quisesse.

— É falta de educação ficar espiando os outros assim, Pandora — disse Hades tranquilamente, sem parecer fazer esforço para manter aquela presença tão intensa, finalmente virando-se para encarar Noir, mantendo um olhar incisivo. — E você, Noir, não parece estar sendo afetado por mim, mas afirmou ter sentido minha aura… Curioso.

Encarar Hades diretamente, mesmo para Noir, era uma tarefa difícil, como estar diante do absoluto. Embora Hades, à primeira vista, parecesse um ser bondoso, com uma expressão amistosa no rosto, havia sempre algo mais escondido por trás.

— Você sabe o motivo disso, Hades…

— Ah, sim… — Hades colocou as mãos nas costas, as maçãs do rosto subindo enquanto apertava um pouco o olhar. — Realmente sei... Por falar nisso, como está o presente que te dei?

Ciente das palavras do outro, o primordial estendeu ambas as mãos, como se aguardasse receber algo. Seus olhos vagaram de uma mão para a outra, até que, de repente, do nada absoluto surgiu um brilho negro, como se a luz e a cor simplesmente desaparecessem. Essa aura negra coalesceu entre suas mãos, tomando a forma de uma lâmina curva, semelhante a uma foice, seguida pelo cabo. Completamente invocada, a foice repousou nas mãos de Noir.

— Ainda mais magnífica do que há milênios... — murmurou Hades, seus olhos brilhando com um fulgor peculiar. — A Amálgama da Morte, a foice do submundo. Foi um presente digno de pai para filho, acho eu...

Os olhos de Noir, geralmente inexpressivos, cintilaram com uma intensidade rara, um brilho que contrastava fortemente com o habitual tom obscuro e mordaz de suas íris. A mudança era sutil, mas perceptível, lembrando um roxo profundo e sinistro, evocando o olhar do ser à sua frente, um olhar roxo da morte. Ninguém respondeu. Pandora observava Hades com uma ternura sutil em seu olhar, embora o temor transparecesse em cada traço de seu rosto. Suas mãos permaneciam tensas, como se estivessem prontas para qualquer eventualidade.

Por fim, Hades percebeu que tinha perdido tempo demais. Sem mais palavras, começou a dar passos para trás em direção ao abismo. Como se estivesse renunciando à própria vida, deixou-se cair no buraco sem fim.

— Ele nunca muda, esse jeito... — resmungou Pandora, aproximando-se do abismo ao lado de Noir.

Olhando para baixo, não havia mais nada a ser visto, e a aura que envolvia Noir desapareceu, indicando que Hades, sem mais nem menos, havia desaparecido do inferno, deixando-os sozinhos. Pandora suspirou aliviada; após uma reunião tensa com o deus, as coisas pareciam estar bem, pelo menos por enquanto.



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