Volume 4
Capítulo 39: O Limite
A Alghoryn aguardava ancorada, as velas recolhidas, o casco impecável. Vapor rosado escapava de um dos dutos laterais, dissipando-se no ar frio da manhã.
Havia pouca gente por perto.
Garwin estava ao pé da rampa. Cailynm, a um passo atrás dele, os olhos vermelhos, o rosto rígido de quem já tinha chorado tudo o que dava.
Shern parou diante dos dois.
Thurstan esperava mais acima, junto à entrada da nave, dando-lhes espaço.
— Você tem certeza? — Garwin perguntou.
Não levantou a voz. Não havia acusação ali. Só a pergunta nua.
Shern confirmou com a cabeça.
— Tenho.
Garwin respirou fundo.
— Você sabe que descendentes dos féericos param de envelhecer aos vinte — disse. — Você ainda tem tempo. Poderia ficar. Viver. Depois… depois ir atrás disso com calma.
Shern sustentou o olhar dele.
— Eu sei.
— Então por que agora?
Ela não desviou.
— Eu não sei — respondeu. — Mas eu preciso saber. Quero descobrir isso agora.
Silêncio.
O vento bateu no casco da nave, fazendo os cabos rangerem.
Cailynm deu um passo à frente.
Não falou nada.
Abraçou Shern.
Foi um abraço apertado, e curto demais. Como se segurar por mais tempo tornasse impossível soltar.
Shern fechou os olhos por um segundo.
Depois, Garwin se aproximou.
Não disse nada também.
Colocou a mão nas costas dela. Firme. Pesada.
Quando se afastou, os olhos dele estavam secos.
— Sabe que pode sempre voltar — disse apenas.
Shern fez um gesto breve.
— Eu volto.
Garwin olhou para Thurstan.
— Traga a nave de volta.
Thurstan inclinou a cabeça.
— Eu trago.
Shern subiu a rampa.
Parou no meio do caminho.
Virou-se.
Cailynm estava com a mão sobre a boca agora. Garwin mantinha os braços ao lado do corpo, imóvel.
— Eu amo vocês — Shern disse.
Garwin assentiu uma vez.
Ela entrou.
A rampa se fechou.
As velas propulsoras da Alghoryn despertaram com um ronco baixo, constante.
Garwin não se moveu enquanto a nave se afastava do solo.
Cailynm também não.
Só quando o céu engoliu a silhueta de madeira e metal é que ela fechou os olhos.
— E agora? — perguntou Cailynm.
Garwin continuou olhando.
— Fizemos tudo ao nosso alcance. Agora é tarde.
A Alghoryn ganhou altura em silêncio controlado. As velas propulsoras estabilizaram, e o balneário de Azlude foi ficando pequeno sob a névoa da manhã.
Thurstan mantinha as mãos firmes nos controles. Ajustes curtos. Olhos atentos aos círculos de runas que giravam à frente.
Shern ficou perto da lateral da cabine, observando o mundo se afastar.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
— A terra dos féericos fica perto de Sabriz — Thurstan disse, enfim. Não virou o rosto. — É um caminho curto, pela orla interior.
Shern assentiu.
— Quantos portais?
— Doze — respondeu. — Todos domésticos. Estáveis. Nada perigoso.
Ela olhou para os símbolos projetados à frente.
— Doze… — repetiu, mais para si.
— Sabriz é a nossa última parada — continuou ele. — Última cidade grande antes das fronteiras que ninguém ousa cruzar.
— Você já esteve lá? — Shern perguntou.
— Só passei por perto. — Um canto da boca dele se ergueu de leve. — É difícil esquecer.
A nave atravessou o primeiro portal com um estalo seco, quase educado. A luz mudou por um instante. Depois voltou ao normal.
Shern piscou, mas não comentou.
— Então… — ela começou hesitando. — Você sabe bastante sobre os féericos?
Thurstan respirou fundo antes de responder.
— Sei o que qualquer navegador que vive tempo suficiente acaba sabendo. Histórias. O tempo corre lá dentro de forma diferente… — fez um gesto vago com a mão. — Um dia lá pode ser anos aqui. Um ano lá, dias.
— Mas você nunca tentou entrar.
— Não — respondeu. — Nunca tive motivo.
— E agora? — Shern perguntou. — O que você acha disso?
Thurstan inclinou a cabeça de leve, como se ponderasse a pergunta com cuidado excessivo.
— Acho que você já decidiu — disse. — Não vai mudar em nada eu falar a minha opinião.
Ela assentiu.
— Garwin acha que é cedo.
— Seu pai é um homem bom — Thurstan respondeu. — Nem sempre acerta, mas… — deu de ombros. — Muitas vezes ele é uma pessoa incompreendida.
Shern ficou em silêncio por um momento.
— Você acha que eu vou demorar?
Ele lançou um olhar rápido para ela, depois voltou aos controles.
— Difícil dizer — respondeu. — Depende do que você chama de demorar.
Ela franziu a testa.
— Um mês. Talvez um ano.
Thurstan não corrigiu.
— Pode ser — disse apenas.
Aos poucos eles foram ficando em silêncio, enquanto a Alghoryn avançava em cruzeiro constante.
Os primeiros portais ficaram para trás ainda com o sol baixo. Cada travessia vinha acompanhada de um estalo seco, um breve desencaixe da luz — e depois horas de voo estável.
Thurstan ajustava as rotas sem pressa, recalibrando círculos mágicos a intervalos regulares.
Shern mudou de lugar mais de uma vez. Primeiro ficou junto ao vidro. Depois sentou. Depois voltou a ficar de pé.
— Ainda falta muito? — ela perguntou, quando a luz já entrava mais inclinada pela lateral da cabine.
— Bastante — Thurstan respondeu. — Mesmo com Sabriz ficando perto, ainda é longe de Azlude. É como contornar todo o norte da orla interior.
Outro portal se abriu à frente. A travessia foi suave.
Do outro lado, o céu estava mais pálido.
— Quantos já foram? — Shern perguntou.
— Cinco — ele respondeu. — Metade do caminho, praticamente.
Ela soltou o ar devagar.
O silêncio voltou.
Horas depois, Thurstan colocou um dos pés no apoio lateral e esticou o ombro, sem tirar os olhos da rota.
— Nem os descendentes dos féericos costumam ir até lá — comentou, quase casual.
— Por quê?
— Vocês são sortudos. Têm todo o tempo do mundo — disse ele, abrindo um compartimento com comida. — Normalmente começam a perder o rumo quando os amigos próximos começam a morrer.
— Mas eu sou diferente.
Ele assentiu, como se já esperasse a resposta.
Quando o último portal se fechou atrás deles, o céu à frente estava alaranjado. A luz batia baixo nas nuvens, alongando sombras.
— Estamos chegando — Thurstan disse.
Shern se aproximou do vidro.
A cidade surgiu aos poucos: torres claras, pontes suspensas, estruturas que pareciam talhadas direto da luz do entardecer.
— Sabriz — ele completou.
Shern avançou até o vidro frontal.
— É… bonita.
— Acho que você vai mudar de ideia se eles estiverem ocupados.
A nave alinhou para a aproximação da cidade.
— Eu vou te levar até o limite — Thurstan disse. — Depois disso, você segue sozinha.
Shern assentiu, sem olhar para ele.
— Você não precisa esperar.
— Vou esperar um mês — ele respondeu. — Depois disso, volto.
Ela virou o rosto.
— Não precisa.
Thurstan apenas inclinou a cabeça, aceitando.
À frente, o horizonte começou a ganhar forma.
Primeiro a colina — íngreme demais para ser natural. Depois as construções, empilhadas umas sobre as outras, sustentadas por pranchas, andaimes e passarelas que se cruzavam em ângulos improváveis.
— Aí está. Sabriz — Thurstan disse, sem diminuir a velocidade. — Nunca entendi por que ela acabou assim. Mas parece que todo mundo quer ficar o mais perto possível do templo.
Ele apontou para o topo da colina.
Destacando-se contra o céu claro, erguia-se o templo.
— É enorme — Shern comentou.
— É. — Thurstan assentiu. — Foi aqui que Arastine veio regenerar as pernas.
— Eu lembro do Garwin falando disso.
— Pois é. — Ele fez um ajuste curto nos controles. — O templo da Papisa domina tudo. Um branco impossível de ignorar.
— Tem uma presença estranha… — Shern disse. — Parece que puxa a gente pra lá.
Ela se aproximou do vidro frontal.
Foi então que percebeu o movimento.
O céu acima da cidade não estava vazio.
Centenas de formas verdes e amareladas cortavam o ar em trajetórias quebradas, agrupando-se e se desfazendo como se fossem um único corpo respirando. As asas translúcidas refletiam a luz do entardecer em flashes irregulares — erráticos demais para serem aves.
— Insetos — Shern disse.
— Muitos — Thurstan confirmou, já ajustando os controles. — Eles atacam a cidade com certa frequência.
Do lado da colina, sombras maiores mergulharam.
Grupos de cavaleiros avançavam em formação fechada, montados em grifos de asas largas. As criaturas desciam quase em queda livre, enquanto os cavaleiros disparavam paus de fogo primo em rajadas curtas e precisas. Outros passavam rente às torres, provocando o enxame antes de subir de novo, puxando parte dele para longe do templo.
— E essa defesa… — Shern perguntou. — Funciona?
Como resposta, um dos cavaleiros atravessou um inseto em pleno mergulho.
O corpo caiu girando, mas logo outro ocupou o espaço deixado. Depois mais dois.
— Cavaleiros Celestes — Thurstan disse. — Organizados. Corajosos. E sempre em menor número do que gostariam.
Um inseto maior surgiu por um instante no centro do enxame, protegido pelos outros. O padrão de voo mudou ao redor dele, como se o céu tivesse recebido uma ordem silenciosa.
— Comunas. Eles têm consciência compartilhada — Thurstan continuou. — Pelo que se comenta. Um comanda. O resto responde.
Shern franziu levemente o cenho.
Levou a mão ao braço oposto e apertou, como se o ar ali tivesse ficado mais pesado.
— Eles atacam sempre a cidade? — perguntou.
— Desde que foi construída — ele respondeu. — Mas não é bem a cidade. É a colina. Ou o que tem dentro dela. Abaixo do templo.
Um grifo passou em mergulho acentuado. A lança do cavaleiro atravessou outro inseto de lado a lado. O corpo desapareceu antes de tocar o chão.
— Dizem que eles se alimentam de magia — Thurstan acrescentou, em tom neutro. — E ali… — inclinou levemente a cabeça em direção à catedral — tem coisa antiga. Forte demais pra passar despercebida.
Shern permaneceu em silêncio.
Não observava os cavaleiros.
O olhar estava preso no templo.
O enxame se chocava contra a defesa aérea como maré insistente. Sem pressa. Sem desespero.
— E eles vêm de onde? — ela perguntou.
Thurstan não hesitou.
— Dizem que das terras dos féericos.
Shern virou o rosto devagar.
— Sempre?
— Sempre foi assim, desde o início — ele respondeu. — Ninguém sabe o motivo. Só o ponto de origem.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
A Alghoryn manteve distância, estável, fora do alcance imediato.
Shern respirou fundo.
— É possível seguir o rastro? — perguntou.
Thurstan olhou para ela pela primeira vez desde que Sabriz surgira no horizonte.
— É — disse. — Mas não é o que eu recomendaria agora.
Ela não respondeu.
— Podemos descer — ele continuou. — Passar a noite em Sabriz. Amanhã seguimos. Com calma.
Shern manteve o olhar fixo na cidade sitiada.
Depois, negou com a cabeça.
— Não.
Thurstan ficou calado por um instante.
Então assentiu.
— Certo.
As mãos dele se moveram pelos controles com mais cuidado agora. A Alghoryn começou a girar, desviando o eixo de aproximação.
Sabriz foi ficando para o lado.
Depois, para trás.
O enxame ainda era visível — um borrão inquieto contra o céu dourado do entardecer.
Thurstan recalibrou o timão. O som dos mecanismos mudou de tom — mais tenso, mais atento.
Nenhum dos dois falou.
Shern não se afastou do vidro.
Um dos cavaleiros celestes se destacava do restante da formação. O grifo batia as asas de forma irregular, perdendo altura enquanto tentava ganhar distância do núcleo do enxame.
— Aquele ali… — murmurou Shern.
Thurstan não respondeu de imediato. Ajustou um dos círculos rúnicos, corrigindo o curso da nave com movimentos curtos.
O inseto maior surgiu de novo.
Não mergulhou.
Não atacou diretamente.
Apenas se deslocou.
O enxame inteiro respondeu ao movimento.
A pressão sobre o cavaleiro aumentou de uma vez. Três insetos se lançaram quase ao mesmo tempo. O grifo desviou de dois. O terceiro rasgou parte da asa.
— Ele não vai conseguir sair — disse Shern.
Thurstan manteve o olhar à frente.
— Os cavaleiros sabem recuar — respondeu, contido. — Eles têm treinamento para isso.
O grifo perdeu mais altura. Um dos cavaleiros ao longe tentou se aproximar, mas foi forçado a subir quando o enxame se reorganizou.
Shern fechou os dedos com força contra o antebraço, as unhas pressionando o tecido da roupa.
— Thurstan… — começou.
— Não — ele disse, antes que ela terminasse.
Ela virou o rosto para ele.
— Você nem sabe o que eu ia pedir.
— Sei — respondeu. — E não é uma boa ideia.
O inseto maior avançou mais um pouco. Lento. Sem agressividade aparente. Como se estivesse medindo distância.
O cavaleiro puxou o grifo para cima numa tentativa final. As asas falharam por um instante.
— Dá a volta — disse Shern. — Só um desvio curto.
Thurstan finalmente olhou para ela.
— Isso nos coloca dentro do alcance do enxame.
— Eu sei.
— E dentro da atenção daquele — acrescentou, inclinando levemente a cabeça na direção do Comuna.
— Eu sei.
— Não é problema nosso — disse Thurstan, firme, mas controlado.
Shern sustentou o olhar.
— Então de quem é?
O silêncio durou apenas o tempo de um ajuste mecânico nos controles.
— Se algo der errado — Thurstan disse —, teu pai vai me matar.
— Vai ser comigo — respondeu Shern, sem hesitar. — A decisão é minha.
Thurstan desviou o olhar para a cidade, agora mais distante.
O grifo perdeu mais altitude. O cavaleiro se inclinou para frente, tentando aliviar o peso da montaria.
— Você sabe que isso não vai salvar todo mundo — disse Thurstan.
— Eu não estou tentando salvar todo mundo — Shern respondeu. — Só não quero ir embora fingindo que não vi.
Ele ficou em silêncio por mais um segundo.
Depois, soltou o ar pelo nariz.
— Segura.
As mãos dele se moveram com rapidez controlada. A Alghoryn inclinou o casco, descrevendo uma curva ampla. O som dos mecanismos mudou de tom — mais grave, mais tenso.
Sabriz começou a crescer de novo no campo de visão.
— Vamos entrar pelo flanco — continuou Thurstan. — Curto. Sem heroísmo. Se isso chamar coisa demais, a gente sai.
— Certo. — Shern assentiu. — Vou para o convés.
O enxame reagiu quase imediatamente.
Thurstan acelerou o aeroplano. As velas em forma de fole bateram com violência, varrendo o ar à frente da proa e forçando parte das criaturas a se dispersar.
— Eles notaram — disse Thurstan.
— Eu sei.
O Comuna girou no ar.
Não avançou.
Ainda assim, o simples movimento foi suficiente para que o enxame inteiro reajustasse a formação.
O cavaleiro forçou o grifo numa subida desesperada. Um dos insetos se chocou contra o corpo da criatura, ricocheteando para longe.
— Agora — disse Thurstan.
A Alghoryn avançou mais um pouco, cruzando a trajetória do enxame.
— Vou subir — disse Shern, já se afastando da ponte de comando.
— Não. É perigoso. Fique aqui — respondeu Thurstan, sem tirar os olhos dos controles.
Ela hesitou por um instante, a mão suspensa no batente.
— Tudo bem — disse. — Acho que consigo pelo vidro mesmo.
Shern deu um passo à frente.
— Thurstan.
Ele virou o rosto só o suficiente para vê-la.
— Não faz isso.
Ela não respondeu.
Os braços se abriram num movimento curto, quase displicente — como quem mede distância.
— Shern, não...
O ar à frente da Alghoryn se contraiu.
— Agora — ela disse.
O Comuna estremeceu no ar.
— O que você...
O corpo do inseto se dobrou sobre si mesmo. As placas externas se fecharam de uma vez, esmagadas por uma força invisível. Não houve explosão. Não houve clarão.
O espaço que ele ocupava simplesmente colapsou.
— Que loucura…
O céu ficou vazio onde o Comuna estivera.
Por um segundo, nada aconteceu.
Então o enxame se desfez.
— Eles… perderam a formação — Thurstan murmurou.
Insetos colidiram entre si, erráticos, sem eixo. Alguns despencaram. Outros fugiram em direções aleatórias.
— Olha — Shern disse.
O cavaleiro puxou o grifo para cima. As asas bateram com força renovada, ganhando altura. Outro cavaleiro cruzou por cima, abrindo espaço.
— Ele saiu — Thurstan confirmou, a voz baixa demais. — Saiu mesmo.
Shern abaixou os braços.
— Pode ir — disse.
Thurstan demorou a reagir.
— Você… — a frase morreu no meio.
Ele engoliu seco.
— Isso foi… — parou de novo. — Isso foi fácil demais.
Shern não respondeu.
— Certo — ele disse, rápido demais. — Certo, certo.
As mãos dele voltaram aos controles com força visível.
— Segura.
A Alghoryn girou bruscamente. Os mecanismos rangiam sob a mudança de curso.
— Estamos saindo — Thurstan avisou, sem tirar os olhos da frente.
Sabriz começou a se afastar pelo vidro.
— Eles não vão seguir — Shern disse.
— Não depois disso — ele respondeu.
O enxame, agora fragmentado, ficou para trás como poeira viva contra o céu dourado.
A nave ganhou velocidade.
— Da próxima vez — Thurstan disse, depois de um longo silêncio —, você avisa antes.
— Não ia dar tempo.
Ele não respondeu.
A Alghoryn atravessou a camada de nuvens.
Sabriz desapareceu.
A quietude voltou a ocupar a cabine, até eles chegarem no seu destino.
A Alghoryn desceu devagar, descrevendo um arco largo sobre o lago.
— Não tem ancoradouro — Thurstan disse, reduzindo a velocidade. — É uma vila isolada. Quase ninguém vem aqui.
A cidade se espalhava ao redor do vale, pequena e quieta. Casas baixas, telhados escuros, fumaça rala subindo de algumas chaminés. Nenhum movimento apressado. Nenhum sinal de alarme.
— É… — Shern murmurou. — Parece tranquila.
— É — ele confirmou. — Gente normal tem medo de ficar perto da terra dos féericos.
A nave tocou a água com cuidado. O casco oscilou uma vez, depois se estabilizou. Thurstan desligou parte dos sistemas, mantendo apenas o necessário.
Shern se aproximou da borda, olhando para a cidade.
— E a terra dos féericos? — perguntou.
Thurstan soltou o cinto e se levantou.
— Norte — disse, apontando por sobre o vale. — Passando aquelas duas montanhas.
Shern seguiu a direção do gesto.
As montanhas gêmeas se erguiam ao fundo, escuras, quase simétricas. Entre elas, o vale parecia se estreitar — e desaparecer.
— Depois dali? — ela perguntou.
— Depois dali, você já entrou — respondeu. — Não tem placa. Não tem aviso.
Ela assentiu.
— Então é aqui.
— É aqui.
Houve um breve silêncio.
Thurstan abriu um compartimento lateral e tirou uma pequena bolsa de couro. Colocou-a na mão dela.
— Dez moedas de ouro.
Shern olhou para a bolsa.
— Pra quê?
— Caso alguma coisa dê errado — ele disse, simples. — Se você voltar e eu não estiver mais aqui… com isso fica mais fácil voltar pra casa.
— Faz sentido — disse ela, guardando a bolsa.
Thurstan assentiu, satisfeito por não precisar insistir.
— Vou esperar — acrescentou. — Um tempo.
— Quanto?
Ele deu de ombros.
— O que der.
Shern olhou de novo para o vale. Depois, para o norte.
— Obrigada, Thurstan.
— Não precisa — ele respondeu. — Você sabe que, daqui pra frente, pode não ter volta.
Ela esboçou um sorriso curto.
— Eu sei. Mas vou assim mesmo.
Shern desceu pela lateral da nave, pisando na água rasa perto da margem. Caminhou alguns passos, depois parou.
Virou-se.
Thurstan ainda estava ali, apoiado na amurada, observando.
Ela levantou a mão num gesto breve.
Ele respondeu com um aceno quase imperceptível.
Shern seguiu em direção à cidade.
Thurstan ficou.
A Alghoryn balançou levemente no lago.
Shern caminhou pela trilha estreita entre as casas silenciosas. Nenhuma janela se abriu. Nenhuma porta rangeu. À medida que avançava, a nave diminuía atrás dela, até se tornar apenas um ponto imóvel sobre a água.
Ela parou.
Ergueu o olhar para o norte.
Entre as duas montanhas gêmeas, o vale se estreitava — e desaparecia.
Shern deu um passo nessa direção.
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