Volume 4
Capítulo 38: Quase Normal
A pequena vila fervilhava à beira do lago. Lanternas refletiam na água como estrelas desalinhadas; aeroplanos repousavam em meio ao campo, bandeiras coloridas estalavam com o vento da tarde. A música se espalhava entre mesas cheias, risos altos e brindes constantes.
— Aos quinze! — alguém gritou.
— Aos quinze da Shern! — responderam de vários pontos.
Palmas. Taças se chocando.
Shern passou entre os convidados com um sorriso contido, aceitando cumprimentos enquanto avançava sem pressa.
— Você cresceu demais — disse o dono do estaleiro de Milhandu, acenando para ela. — Nem parece aquela menina correndo pelos hangares.
— É… — Shern respondeu, baixa, educada.
— Dança depois, hein? — chamou um rapaz, rindo. — Primeira valsa é sua!
Ela assentiu com a cabeça e seguiu.
O espaço da valsa estava aberto, limpo, delimitado por tochas baixas. Shern parou ali por um instante, olhando o centro vazio. Girou levemente o corpo, como se medisse o lugar.
— Está linda — disse uma senhora, apertando-lhe as mãos. — Seu pai deve estar orgulhoso.
Shern assentiu, sem responder.
Garwin a alcançou perto da pista de dança. Vestia-se bem demais para combinar com o rosto cansado.
— Feliz aniversário — disse, com um sorriso breve.
— Obrigada — ela respondeu.
Ele ofereceu o braço.
— Vamos? É a hora da valsa.
Shern hesitou um instante. Olhou o centro da pista — amplo, iluminado, à espera.
— Só um pouco — disse.
Garwin a conduziu para o meio. A música mudou para algo mais lento, cerimonioso. Alguns convidados abriram espaço, observando com atenção respeitosa.
— Está tudo bem? — ele perguntou, baixo, enquanto começavam a girar.
— Está — Shern respondeu rápido demais.
Eles dançaram. Passos corretos. Distância medida. O vestido dela se movia com o vento do lago, mas o corpo permanecia rígido.
— Se quiser parar… — Garwin começou.
— Não — ela disse. — Está tudo bem.
Ao redor, vozes se misturavam.
— Bonita festa.
— Sim… apesar de tudo.
— Pois é.
— Depois do que aconteceu na retomada…
— Shh.
A dança terminou antes da música. Garwin a soltou com cuidado.
— Obrigado — disse ele, mais para si do que para ela.
Shern se afastou da pista.
Parou à beira do espaço da valsa, agora ocupado por outros casais. Observou em silêncio. Os olhos passaram pelos rostos — pares incompletos, espaços abertos, lugares que ninguém ocupou.
— Estranho — murmurou uma garota perto dali. — Tem gente demais faltando hoje.
— Não fala disso — o amigo respondeu, rápido. — Ainda mais aqui.
— Mas é impossível não notar.
— Eu sei. Só… não fala.
O silêncio que se seguiu pesou por um instante. Alguém riu alto em outra mesa. Um brinde foi erguido. A música subiu de novo.
Shern desviou o olhar.
— Ali devia ser o lugar dos Branvek… — sussurrou para si. — Coitados.
— Shern! — alguém chamou. — Vem cá, deixa eu ver o vestido!
Ela levantou a mão em resposta, sem virar.
O vento soprou mais forte, fazendo seus cabelos metálicos balançarem. Shern apertou os dedos contra o tecido do vestido e deu alguns passos para longe da pista, misturando-se outra vez entre os convidados.
Uma cadeira de rodas surgiu na borda da festa sem qualquer anúncio.
As rodas rangeram baixo ao cruzar a grama. Arastine empurrava sozinha, com os braços firmes, o tronco ereto. As pernas não estavam ali — e ninguém precisou comentar.
— É ela.
— Sim… é.
— Veio mesmo.
As conversas não pararam. Apenas perderam fôlego por um instante.
— …então eu disse pra ele—
— Shh. Depois.
— Desculpa.
Risos retomaram. Taças se ergueram de novo. Ainda assim, alguns corpos se viraram discretamente, abrindo espaço sem oferecer aproximação.
Conversas vacilaram quando Arastine passou. Olhares se voltaram para ela.
Não reagiu.
— Olha só — murmurou um aeronauta, baixo demais para virar afronta. — Coragem.
— Ou falta de noção — respondeu outro, sem encará-la.
Arastine seguiu.
— Arastine.
Thurstan apareceu à frente dela como se estivesse chegando atrasado para algo trivial. Agachou um pouco, ficando à altura do rosto dela.
— Muito difícil a reconstrução? — perguntou, sorrindo.
— Você nem imagina — ela respondeu. — Vejo que você continua fingindo que isso aqui é normal.
— Pra mim é — disse ele. — Ver todas as pessoas com quem eu me importo juntas já é motivo suficiente.
Ele tocou o braço dela, firme, sem cerimônia.
— Bom te ver.
— Bom ver alguém que não me olha torto — Arastine respondeu.
Thurstan riu de leve.
— Se for pra contar erros, vamos ter que falar do gás-trovão também.
Ela soltou um ar curto pelo nariz. Sorriu apenas com os lábios, sem mostrar os dentes ou os olhos acompanharem.
Do outro lado da festa, Garwin interrompeu a própria fala.
— Garwin? — alguém chamou.
Ele não respondeu.
— Garwin.
Os olhos dele estavam fixos em Arastine.
— Ela veio… — murmurou, mais para si do que para os outros.
Deu um passo à frente.
Cailynm segurou seu braço.
— Não — disse, baixa.
— Cailynm—
— Agora não.
Ela não o olhava. Observava a festa como se nada tivesse acontecido.
— Não hoje — completou.
Garwin ficou imóvel por um segundo. Depois assentiu, tenso.
— Não hoje — repetiu.
Antes que o clima pudesse azedar de vez, uma voz cortou o espaço.
— Tia!
Shern veio correndo.
— Arastine! — chamou de novo, já perto demais para frear.
Ela se lançou no abraço, os braços apertando o pescoço da guerreira sem medir força.
— Você veio! — disse, rindo e quase chorando ao mesmo tempo. — Eu achei que você não—
— Eu disse que viria — Arastine respondeu, envolvendo-a com cuidado. — Não perderia isso por nada.
— Mesmo? — Shern se afastou um pouco, com os olhos brilhando. — Mesmo com… tudo?
Arastine sustentou o olhar dela por um instante longo demais.
— Especialmente por causa disso.
Shern sorriu com os lábios, olhos e dentes a mostra.
— Então fica comigo um pouco?
— Claro.
Ao redor delas, a música voltou a subir.
— Vamos brindar?
— Agora sim!
— Aos quinze!
A festa seguiu.
Quase normal.
Garwin observava à distância, os braços cruzados, o maxilar tenso.
— Isso não vai acabar bem — murmurou para Cailynm.
— Eu sei — ela respondeu. — Mas não aqui.
Garwin voltou o olhar para Shern e Arastine, juntas no meio da multidão.
— Não aqui — concordou.
Garwin se aproximou devagar, sem pressa.
Shern ainda estava ao lado de Arastine, contando algo baixo demais para virar assunto. Ria de leve, inclinada para frente, os olhos brilhando de um jeito que não aparecera o dia inteiro.
— Posso? — Garwin perguntou, parando à frente delas.
Shern se virou primeiro.
— Pai!
— Está tudo bem? — ele perguntou, tocando de leve o ombro da filha.
— Tá — ela respondeu. — A Arastine veio.
— Eu vi.
Garwin voltou o olhar para a guerreira. Não sorriu. Mas também não fechou o rosto.
— Arastine.
— Garwin — ela respondeu, firme. — Cailynm.
Cailynm estava um passo atrás. O olhar passou por Arastine como se atravessasse um objeto neutro. Não respondeu.
Um silêncio curto se instalou.
— Como você está? — Garwin perguntou. A pergunta veio direta, sem rodeios. — Quero dizer… de verdade.
Arastine apoiou melhor as mãos nas rodas.
— Viva — respondeu. — Cansada. Aprendendo a me adaptar às novas condições de vida todos os dias.
— Imagino.
— Não — ela corrigiu, sem dureza. — Não imagina.
Garwin aceitou o golpe sem reagir.
— Tem sido difícil?
— Tem sido definitivo — Arastine respondeu. — Reconstruir uma cidade custa caro. Muito caro. Vendi tudo o que tinha. O resto foi favor e dívida.
Shern franziu o cenho.
— Você não devia falar disso assim — disse. — A cidade precisava—
— Eu sei — Arastine interrompeu, suave. — E foi por isso que eu fiz.
Garwin respirou fundo.
— As pernas — ele disse, depois de um instante. — Você já procurou alguém?
Arastine desviou o olhar por meio segundo.
— Não — respondeu. — Não sobrou nada para isso. E, sendo sincera… não era prioridade.
— Vai ser — Garwin disse.
Ela voltou o rosto para ele.
— O quê?
— Não vai ser mais uma preocupação sua — ele continuou. — Eu vou pagar pelas suas pernas.
Shern abriu a boca.
— Pai, você—
— Não agora, Shern — Garwin disse, sem levantar a voz.
Arastine ficou em silêncio.
O rosto não mudou. Mas os ombros perderam tensão, quase imperceptível.
— Não precisa — ela disse, depois. — Você já fez—
— Precisa sim — Garwin cortou. — E não é favor.
Eles se encararam.
— É encerramento — ele completou.
Cailynm desviou o olhar para o lago.
— Garwin… — Arastine começou.
— Eu sei — ele disse. — Não estou tentando consertar nada. Só resolver o que ficou pendente.
Arastine assentiu devagar.
— Entendo.
Shern olhava de um para o outro, confusa.
— Vocês estão estranhos — disse. — Aconteceu alguma coisa?
Garwin pousou a mão no ombro dela.
— Nada que precise te preocupar hoje.
— Mas—
— Vai lá com o Vendeler — ele sugeriu. — Ele estava te procurando. Quer te mostrar uma coisa da Alghoryn.
Shern hesitou.
Olhou para Arastine.
— Eu já volto.
— Claro — Arastine respondeu, com um sorriso pequeno. — Vai lá.
Shern se afastou, ainda olhando por cima do ombro.
O silêncio voltou.
Mais denso agora.
— Precisamos conversar — Arastine disse, antes que Garwin abrisse a boca.
— Sim — ele respondeu. — Precisamos.
Cailynm finalmente falou:
— Não agora.
— Eu sei — Arastine concordou.
— Vou deixar você aproveitar a festa.
— Certo.
Eles ficaram ali por mais um segundo, imóveis, enquanto a música seguia atrás deles e alguém erguia um novo brinde ao longe.
Quando Garwin se virou para ir embora, Arastine falou:
— Garwin.
Ele parou.
— Obrigada.
Ele não respondeu.
Só assentiu uma vez, curto, e seguiu com Cailynm sem olhar para trás.
Arastine ficou ali, sozinha na cadeira.
Shern ria à distância, de costas para ela.
Alguém passou entre as duas. Depois outro.
Garwin permaneceu à margem da festa, uma taça intocada na mão.
A música seguia viva. Risos estouravam em pontos diferentes do balneário. Alguém dançava perto demais da beira do lago, arrancando protestos divertidos. Nada havia parado por causa de Arastine — e isso, mais do que qualquer hostilidade aberta, era o que mais chamava atenção.
Ela estava alguns metros à frente, cercada por movimento, mas não por gente. Shern falava animada ao seu lado, inclinando-se para ficar na altura do rosto da guerreira. Thurstan surgia e sumia, sempre deixando alguma frase leve no ar antes de seguir adiante.
Garwin acompanhava a cena.
— Bela festa — comentou um comerciante, aproximando-se com um sorriso largo. — O balneário de Azlude nunca esteve tão cheio.
— É — Garwin respondeu. — Está bonita.
— E a garota… — o homem ergueu a taça discretamente, indicando Shern. — Cresceu bem. Mérito seu.
Garwin assentiu.
— Mérito dela.
O homem riu, satisfeito com a resposta, e se afastou.
Garwin não bebeu.
Mudou o peso do corpo de uma perna para a outra. Ajustou o punho da camisa. O olhar voltou, inevitável, para Arastine.
Ela falava pouco. O corpo firme contrastava com a cadeira imóvel. Quando alguém passava perto demais, ela recuava um pouco, abrindo espaço sozinha. Não pedia. Não reclamava. Não se explicava.
— Garwin.
Cailynm surgiu ao seu lado sem aviso.
— Você vai ficar aí a festa toda? — perguntou, neutra demais para ser casual.
— Por enquanto — ele respondeu.
Ela seguiu o olhar dele e encontrou Arastine.
O rosto de Cailynm fechou um grau.
— Não estraga isso — disse, baixo. — Não agora.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Garwin respirou fundo.
— Sei.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. A música mudou. Um novo brinde foi anunciado ao fundo.
— Ela parece… tranquila — Cailynm comentou, sem convicção.
— Não confunda silêncio com tranquilidade — Garwin respondeu.
Cailynm não retrucou.
Do outro lado, Shern riu alto de algo que Arastine disse.
O riso se destacou acima da música.
Garwin ergueu o olhar.
Os dedos dele apertaram a taça um pouco mais.
— Quando? — Cailynm perguntou.
— Quando a festa der tudo aquilo que tem que dar.
— E se ela não quiser?
Garwin desviou o olhar por um instante, finalmente encarando a esposa.
— Então eu vou falar mesmo assim.
Cailynm sustentou o olhar dele. Depois assentiu.
— Certo.
Ela se afastou, misturando-se novamente entre os convidados.
Garwin ficou só.
À frente, Arastine levantou o rosto por um segundo e seus olhos cruzaram os dele. Não houve sorriso. Não houve aceno.
Só reconhecimento.
Garwin inclinou levemente a cabeça, em um gesto quase imperceptível.
Arastine respondeu do mesmo modo.
Eles se afastaram apenas o suficiente para que a música chegasse abafada.
Ainda era possível ver as lanternas refletindo no lago, ouvir risos dispersos, o som distante de taças. Mas ali, entre duas árvores e um aeroplano ancorado, o ar parecia mais pesado.
Garwin parou primeiro.
Arastine alinhou a cadeira ao lado dele. Não olhou para Cailynm de imediato. Cailynm também não a encarou.
Arastine foi a primeira a falar.
— Então — disse. — Vai ser agora ou vai fingir mais um pouco?
Garwin manteve a voz baixa.
— Eu pedi para você não envolver a Shern.
— Pediu — Arastine respondeu. — E daí?
— Eu pedi sério.
— E eu estava ocupada — ela cortou. — Pessoas morrendo costumam atrapalhar promessas.
Cailynm desviou o rosto.
— Você mentiu — Garwin disse.
Arastine riu, curto.
— Claro que menti. Todo mundo mente quando precisa.
— Você mentiu pra mim.
— E daí? — ela devolveu, apontando com o queixo para Cailynm. — Você mente pra ela até hoje. Ou por acaso contou que ela não é sua filha?
O ar pesou.
— Não traz isso pra cá — Garwin disse, agora mais frio.
— Por quê? — Arastine rebateu. — Porque dói? Porque fica feio numa festa?
Ela respirava mais rápido.
— Quantos morreram por sua causa? — Garwin perguntou. — Quantos amigos nossos? Você está irreconhecível.
— Menos do que morreriam se eu não fizesse nada! — ela disparou. — Ou você acha que cidades se libertam com discursos?
— Você os usou — Garwin disse. — Usou como paus de fogo primo. Aponta, dispara e descarta. Você usou a minha filha.
— Ninguém estava lá por ignorância! — Arastine gritou, sem se conter. — Todos sabiam dos riscos. E ela salvou mais vidas do que vocês salvaram em anos!
Cailynm falou pela primeira vez, seca:
— Ela é uma criança. Você colocou uma criança pra enfrentar a morte. Pra ver amigos morrerem na frente dela.
Arastine virou-se para ela.
— E você é o quê? — cuspiu. — O engraçado é que você não pensou nisso quando abandonou ela pra abrir as pernas pra um demônio.
Garwin deu um passo à frente.
— Chega.
Silêncio.
— Eu vou pagar sua regeneração — ele disse. — Considere isso como a minha última generosidade.
Arastine arregalou os olhos.
— Generosidade? — riu, amarga. — Está me jogando fora como jogam um pau de fogo primo conflagrado?
— Pense o que quiser — Garwin continuou. — Depois disso, você fica longe da Shern.
Ela ficou alguns segundos sem responder.
Então sorriu torto.
— Engraçado — disse. — Quando ela salvou vocês da bruxa e do demônio, não falaram em limites.
— Foi errado ela ter se envolvido nisso também — Garwin respondeu.
— E se ela não tivesse ido? — Arastine devolveu, a voz quebrando pela primeira vez. — Não percebe que eu a criaria? Que tudo terminaria do mesmo jeito?
Garwin não respondeu.
— Você vai contar pra ela? — Arastine perguntou. — Ou vai continuar fingindo que ela nasceu das entranhas dessa aí, em vez de ter sido encontrada numa nave estranha pelo Vendeler?
O rosto de Garwin endureceu.
— Isso não é seu direito.
— Nunca foi — ela respondeu. — Assim como o de vocês em esconder a verdade dela, ou colocarem uma pedra sobre o seu potencial.
Um silêncio final.
— Some da vida dela — Garwin disse. — Antes que você a destrua de vez.
Arastine o encarou.
— Eu já perdi tudo — disse. — Vocês só estão atrasados pra perceber.
Ela girou a cadeira para sair.
Foi quando uma voz surgiu atrás deles, casual demais para o peso do momento.
— Vocês sabem que ela ouviu tudo, né?
Garwin virou-se num susto contido.
Thurstan estava parado a poucos passos, um copo na mão, o semblante neutro — o mesmo de sempre, como se tivesse chegado atrasado a uma conversa comum.
— O quê? — Garwin perguntou.
Thurstan inclinou a cabeça de leve, apontando com o queixo para longe, em direção às luzes do lago.
— A Shern.
Silêncio.
— Descendentes dos féericos escutam longe — continuou ele. — Muito longe. Tom normal, sem esforço. Desde sempre.
Cailynm empalideceu.
— Você… — Garwin começou, a voz falhando. — Você tem certeza?
Thurstan bebeu um gole.
— Garwin — disse, sem dureza. — Se vocês estavam falando isso aqui, ela estava ouvindo desde o primeiro “mentira”.
Arastine fechou os olhos.
Por um segundo inteiro.
Quando abriu, havia algo feio ali — não raiva. Derrota.
— Então é isso — murmurou. — Parabéns.
Ela empurrou a cadeira para a frente.
— Agora sim vocês conseguiram.
Thurstan observou Arastine se afastar.
Depois olhou para Garwin.
— Vai atrás dela?
Garwin não respondeu.
Olhou na direção da festa.
Para as lanternas refletidas na água.
Para onde Shern não estava mais.
***
O lago estava quase negro naquele ponto. As lanternas da festa já não alcançavam ali; apenas um reflexo fraco tremia na água, quebrado pelo vento.
Shern estava sentada na pedra baixa da margem.
Os joelhos juntos. As mãos largadas no colo. O vestido ainda impecável, deslocado demais naquele canto escuro.
As lágrimas escorriam sem som. Ela não fungava. Não tremia. Apenas deixava cair, uma após a outra, como se o corpo tivesse esquecido como reagir.
— Shern.
Ela não virou.
— Posso… — a voz hesitou. — Posso sentar?
Silêncio.
Vendeler aproximou-se devagar e parou a um passo dela. Esperou. Só então se sentou na pedra ao lado, deixando espaço suficiente para não invadir.
Ficaram assim por alguns segundos. O som distante da música chegava amortecido, irrelevante.
— Eu ouvi você correndo — ele disse, baixo. — Achei melhor vir ver.
Shern piscou devagar.
— Você sabia — disse. Não era uma pergunta.
Vendeler respirou fundo.
— Sabia.
Ela virou o rosto então. Os olhos estavam vermelhos, mas secos agora.
— Então por quê? — perguntou. — Por que você não me criou?
A pergunta saiu simples. Direta. Muito maior do que parecia.
Vendeler demorou a responder.
— Porque eu não saberia — disse por fim. — Eu só fui a pessoa que te encontrou. E porque… — engoliu em seco. — porque achei que você merecia algo melhor. Garwin e Cailynm eram o único casal, na época. Por isso ofereci que você fosse criada por eles.
Shern franziu a testa.
— Você me salvou do mar.
— Sim.
— Me carregou.
— Sim.
— Me entregou pra eles.
Ele assentiu.
— Entreguei.
— Então por que isso não foi o bastante?
Vendeler olhou para o lago.
— Eu não entendo qual é o seu problema com os seus pais — respondeu. — Até onde eu sei, eles estão com a razão… — fez um gesto vago com a mão. — Falar palavras bonitas é fácil. Difícil é assumir responsabilidades.
Ela desviou o olhar.
— Eles mentiram pra mim.
— Mentiram — ele concordou. — Foi necessário.
— Então por que você está defendendo eles?
Vendeler virou-se para ela.
— Porque título é palavra — disse. — Pai, mãe… isso é rótulo. O que importa é quem levanta quando você cai. Quem paga o preço. Quem escolhe ficar quando seria mais fácil ir embora.
Shern apertou os dedos no tecido do vestido.
— E você acha que foram eles? Você não estava aqui nos últimos anos.
— Eu tenho certeza — respondeu. — Garwin deu, e dá tudo o que tem por você. Tempo, dinheiro, proteção, escolha. E Cailynm… — hesitou. — Cailynm errou muito. Mas, mesmo errando, nunca deixou de te dar o carinho de mãe.
Shern respirou fundo.
— E mesmo assim… — a voz falhou. — Mesmo assim eu não sei quem eu sou.
Vendeler inclinou um pouco o corpo, sério agora.
— Saber de onde você veio não apaga quem esteve com você até aqui — disse. — Mas eu entendo querer saber. E você não vai conseguir isso fugindo.
Ela ficou em silêncio.
As lanternas da festa refletiam longe, tremidas.
— Você tem que falar com ele — Vendeler completou. — Não depois. Não quando doer menos. Agora.
Shern fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, as lágrimas tinham parado.
Ela se levantou.
— Obrigada — disse, sem olhar para ele.
Vendeler assentiu.
— Vai lá.
Shern caminhou de volta em direção à luz.
Encontrou Garwin e Cailynm perto de uma mesa já quase vazia. Garwin estava de costas. Cailynm, de braços cruzados.
— Pai.
Garwin virou-se no mesmo instante.
— Shern—
— Eu ouvi tudo — ela disse. A voz estava firme demais para uma garota de quinze anos. — E não vim discutir.
Silêncio.
— Eu quero saber de onde eu vim — continuou. — Quero entender a minha origem. Quem eu sou além disso tudo.
Cailynm desviou o olhar.
Garwin fechou os olhos por um segundo.
— Nós vamos conversar — ele disse. — Com calma. Do jeito certo.
Shern fez um gesto afirmativo.
— Mas eu vou buscar respostas — completou. — Com ou sem vocês.
Garwin sustentou o olhar da filha.
Depois respirou fundo.
— Eu não vou participar disso.
— Pra mim não faz diferença — ela respondeu. — Eu vou igual.
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