Volume 4
Capítulo 40: Onde o Tempo Não Espera
Shern parou.
O último passo ficou suspenso por um instante, como se o corpo quisesse confirmar a decisão antes dela.
— Então… é isso — disse, baixo.
Não havia vento. Nenhum som que marcasse fronteira. Apenas o espaço aberto à frente, com a mesma cidadezinha ao sul.
Ela deu o passo.
O chão firme sob os pés pareceu mais leve do que lembrava. Shern esticou os ombros e respirou fundo, como quem testa o próprio corpo depois de muito tempo.
— Certo — murmurou. — Certo.
Deu mais dois passos, rápidos demais para quem acabara de sair de algum lugar importante.
Hesitou outra vez.
Olhou para as próprias mãos. Abriu e fechou os dedos.
— Eles não vão acreditar — disse, com um sorriso curto, quase rindo de si mesma. — Papai vai achar que eu estou exagerando. A mamãe vai até fingir que entendeu tudo.
Virou o rosto, como se já enxergasse o caminho de volta.
— E a tia Arastine… — completou, balançando a cabeça. — Ela vai saber. Preciso ir lá primeiro. Contar tudo pra ela.
O sorriso se firmou.
Shern levou a mão ao pulso e ajustou a pulseira de Arastine, girando-a até sentir o fecho da corrente grossa de ouro encaixar contra a pele.
— Pronto. Agora posso visitar ela — disse, decidida.
Endireitou a postura.
E seguiu em frente.
Shern entrou na cidade sem pressa.
As casas eram baixas, próximas demais umas das outras, como se tivessem sido construídas para dividir o silêncio. Não havia ninguém na rua. Apenas fumaça fina subindo de algumas chaminés e o som distante de água sendo puxada de um poço.
— Certo… — murmurou. — Primeiro, Sam Brehim.
Caminhou mais alguns passos, observando em volta.
— Não daqui — completou, quase rindo. — Óbvio que não.
Parou perto de uma esquina estreita, onde duas ruas se encontravam sem placa alguma.
— A cidade cresceu, mas não tem estação — disse, como se organizasse uma lista. — Preciso de um lugar com aeroplanos. Transporte comum. Nada especial.
Seguiu adiante.
Enquanto caminhava, levou a mão ao pulso e girou levemente a pulseira de Arastine, sentindo o peso firme do metal.
— Com isso aqui, ninguém vai perceber nada — comentou. — Vai dar tudo certo.
Deu de ombros.
— A tia sempre gostou das soluções simples.
Passou por um pequeno ancoradouro de barcos, vazio demais para aquela hora do dia. A bolsa de couro pesava pouco no cinto. Shern tocou nela de leve, quase por hábito.
— E dinheiro também não é problema — murmurou. — Thurstan exagera, como sempre.
Mais tarde, deixou a cidade numa carroça que seguia pela estrada principal. No fim do dia, alcançou uma cidade maior, larga e barulhenta, onde trilhos de carga cortavam o chão e placas indicavam rotas aéreas.
Casas deram lugar a armazéns baixos, galpões e plataformas suspensas. Um fluxo constante de gente passava por ali: trabalhadores, viajantes solitários, ninguém prestava atenção nela.
— Viu? — disse, satisfeita. — Tudo normal.
Algum tempo depois, Shern já estava na estação de embarque.
Aeroplanos de transporte repousavam alinhados, sem ornamentos ou velas cerimoniais. Apenas cascos funcionais, marcas de uso, gente entrando e saindo com malas pequenas demais para longas viagens.
Ela parou por um instante.
Olhou ao redor.
— Estranho… — murmurou.
Franziu a testa diante dos painéis de rota.
— Imadakar… — disse devagar. — Parece grande demais para eu nunca ter ouvido falar.
Ficou em silêncio por um segundo.
— Será que se passou tanto tempo assim?
Balançou a cabeça, afastando o pensamento.
— Não. É só impressão. Faz tempo que não passo por aqui.
Deslizou o dedo pelas rotas até encontrar o nome que procurava.
— Sam Brehim.
Parou.
— Direto? — perguntou, surpresa, em voz baixa.
Olhou de novo, conferindo.
— Desde quando tem rota direta pra lá?
Riu de leve.
— Bom… melhor pra mim.
Ajustou a alça da bolsa no ombro e avançou sem hesitar.
— Nada de Jillar. Nada de Azlude — comentou. — Chego mais rápido. Eles nem vão suspeitar de nada.
Subiu a rampa do aeroplano junto com os outros passageiros.
Antes de entrar, lançou um último olhar para a plataforma.
— Tudo certo — disse, tranquila. — Tudo sob controle.
E embarcou.
O interior do aeroplano era maior do que Shern esperava.
Os bancos formavam duas fileiras largas, com espaço suficiente para circulação. Havia compartimentos superiores de carga, placas de runas embutidas nas paredes e um painel de rotas ativo no fundo da cabine.
Ela sentou perto da lateral, a bolsa apoiada entre os pés.
Olhou em volta.
— Ué… — murmurou.
Passageiros demais para um transporte comum. Gente carregando malas rígidas, caixas lacradas, instrumentos embrulhados em pano grosso. Ninguém parecia perdido, nem com pressa.
Dois tripulantes pararam alguns passos à frente, perto do painel rúnico.
— Se mantiver esse ritmo, chega no eixo antes do segundo turno — disse um.
— Ainda bem — respondeu o outro. — Imadakar anda cobrando pontualidade. Não querem atraso nas conexões.
Shern ergueu a cabeça de leve.
— Imadakar… — repetiu, quase sem som.
Os dois seguiram pelo corredor.
Ela ficou olhando para o nada por um instante.
— Desde quando isso virou eixo? — murmurou.
Do outro lado da cabine, passageiros comentavam rotas, conexões, cidades. Alguns nomes eram familiares. Outros não. Um deles falou de portos novos, inexistentes para Shern, como se fossem antigos.
Ela inclinou a cabeça, ouvindo sem parecer.
— Faz tempo que eu não viajo… — disse baixo. — Deve ser isso.
O aeroplano subiu com um solavanco suave. Pela janela, a cidade encolheu rápido demais.
— Tudo estranho.
Ela se inclinou um pouco para olhar melhor.
Não era só aquele aeroplano.
Outros cruzavam as rotas ao redor — maiores, largos, com mais velas abertas do que ela lembrava ser comum. Alguns passavam tão alto que pareciam riscos no céu. Outros vinham perto, rápidos, firmes, como se aquele espaço estivesse sempre cheio.
— Tem muito tráfego hoje — comentou, sozinha.
Outro aeroplano cruzou à frente. Depois outro.
— Muito mesmo.
O painel de rotas ao fundo da cabine pulsava com linhas luminosas que se cruzavam e se ramificavam. Algumas atravessavam toda a projeção antes de desaparecer.
Shern levantou-se um pouco no banco para ver melhor.
— Isso tudo…? — murmurou.
Seu dedo acompanhou uma das linhas no ar, sem tocar.
Em vários pontos, o mesmo nome aparecia.
— Imadakar… de novo.
Do lado de fora, dois aeroplanos gigantes cruzaram o campo de visão em direções opostas. O deslocamento de ar fez o casco vibrar de leve.
Shern apertou a alça da bolsa.
— Ok… — disse, devagar. — Ok.
Encostou a cabeça no apoio do banco.
— Fiquei mais tempo lá dentro do que imaginei — murmurou. — Só isso.
O aeroplano cruzou muitos portais durante aquele dia. No outro dia, no meio da manhã, o aeroplano diminuiu a velocidade.
O som constante das velas propulsoras mudou de tom — mais grave, mais cuidadoso. Pela janela, o horizonte começou a se abrir: primeiro em linhas claras, depois em volumes definidos demais para uma vila.
— Atenção aos passageiros — disse uma voz calma, vinda da proa. — Estamos entrando no espaço aéreo de Sam Brehim. Próxima parada: Arastineia.
Um pequeno burburinho percorreu a cabine.
— Passageiros extraplanares são aconselhados a desembarcar na estação anterior — continuou a voz. — para evitar transtornos de deportação.
Shern não se mexeu.
Olhou para fora.
— Eu não acredito que a cidade cresceu tanto assim pra ter ancoradouro próprio — murmurou.
Pontes largas cruzavam canais artificiais. Torres claras se erguiam em níveis, conectadas por passarelas e plataformas suspensas. Aeroplanos maiores cortavam o céu em rotas precisas, alinhados como se obedecessem a um desenho invisível.
— Arastineia… — disse, baixo.
Levou a mão à bolsa, puxou o caderno gasto e o abriu sobre o colo. As páginas estavam amareladas pelo tempo. Passou os dedos até encontrar o desenho.
— Ruínas… — murmurou. — Eram só ruínas, há pouco tempo.
Ergueu o olhar outra vez.
— Não… — disse, quase sem voz.
Fechou o caderno devagar.
O aeroplano avançou sobre um ancoradouro monumental, largo o suficiente para receber vinte naves daquele porte ao mesmo tempo. Bandeiras claras tremulavam nos mastros altos. Pessoas se moviam como uma massa disforme por passarelas amplas, em fluxo contínuo.
— Nada disso aqui existia antes — murmurou.
A nave tocou o solo com uma suavidade excessiva para algo tão grande. As rampas se estenderam. Passageiros começaram a se levantar, conversando, recolhendo bagagens, seguindo adiante como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Shern ficou sentada por um tempo a mais.
Depois se levantou.
Desceu a rampa junto com os outros.
O chão era de pedra clara, polida pelo uso. À frente, a avenida se abria larga e movimentada. Vendedores gritavam ofertas. Mensageiros cruzavam correndo. Guardas passavam em pares, armaduras limpas.
— Arastineia… — repetiu, agora quase para si.
Parou no meio da avenida.
As pessoas desviaram sem reclamar, seguindo seus próprios caminhos. Aeroplanos cruzavam acima, sombras largas deslizando pelas fachadas altas.
Shern ergueu a cabeça.
Acima dela, a catedral ainda flutuava.
— Sem dúvida, é aqui — disse. — Mas nada combina com o que eu lembrava.
Shern parou diante da estátua.
Era uma entre muitas.
Ao longo da avenida, figuras de pedra surgiam em intervalos regulares: a mesma mulher em posições diferentes — em pé, com a espada apoiada no chão; sentada, com a lâmina atravessada entre os joelhos; caminhando, o manto aberto ao vento.
Mas aquela, em especial, fez Shern travar.
Arastine estava ajoelhada.
Uma perna no chão, a outra dobrada à frente. A espada cravada na pedra, as duas mãos apoiadas no punho. O rosto erguido, firme, como se estivesse prestes a se levantar.
Na base da estátua, uma placa de metal polido:
ARASTINE
A LÂMINA DE SAM BREHIM
Shern piscou.
Deu um passo à frente.
— …Arastine? — disse, em voz baixa.
Aproximou-se mais, devagar, como se a estátua pudesse se mover se ela chegasse muito perto.
— Então te deram uma estátua — continuou, séria. — Mas por que tem tantas?
Passou os dedos pelo metal frio da placa.
— Isso não faz sentido.
Um homem que passava diminuiu o passo ao ouvir a pergunta. Olhou para Shern, depois para a estátua, e desviou o olhar, visivelmente desconfortável.
— Com licença — Shern chamou. — Onde eu posso encontrar essa pessoa?
O homem parou.
Abriu a boca, fechou de novo.
— Essa… pessoa? — repetiu, hesitante.
— Sim. — Shern apontou para a estátua. — Arastine. Onde ela mora?
O homem franziu o cenho.
— Eu… — pigarreou. — Desculpe. Preciso ir.
E se afastou, rápido.
Shern virou-se para uma mulher próxima, que observava outra das estátuas com uma criança ao lado.
— Você — Shern disse. — Pode me dizer onde encontro Arastine? Essa mulher da estátua.
A mulher ficou imóvel por um segundo.
Depois, pousou a mão no ombro da criança.
— Querida, vá andando — disse, em voz baixa.
A criança obedeceu.
A mulher voltou o olhar para Shern, visivelmente constrangida.
— É… — começou. — Talvez você devesse procurar um guia.
— Um guia? — Shern repetiu. — Eu só quero falar com ela.
A mulher assentiu uma vez, rígida.
— Claro. — Forçou um sorriso curto. — Boa sorte.
E também se afastou.
Shern ficou parada, olhando ao redor.
Ninguém parecia notar nada de estranho.
As pessoas passavam pelas estátuas como quem passa por fontes antigas ou prédios históricos. Algumas paravam. Outras não. Todas seguiam em frente.
— Eu só fiquei pouco tempo fora — murmurou. — Isso não é possível.
— Moça.
Shern virou-se.
Uma criança estava parada a poucos passos, magra, roupas simples, com um sorriso esperto para alguém tão pequeno.
— A senhora está procurando a Arastine, né?
Shern se ajoelhou diante dela sem pensar.
— Sim — disse rápido demais. — Você sabe onde ela está?
A criança assentiu, confiante.
— Sei, sim.
— Onde?
— No Jardim dos Heróis.
Shern soltou o ar, aliviada.
— Jardim… — repetiu. — Claro. Faz sentido.
A criança inclinou a cabeça.
— Eu posso levar a senhora até lá.
— Pode? — Shern abriu um sorriso, pela primeira vez. — Ótimo.
— Mas… — a criança estendeu a mão. — Guias cobram.
Shern riu, curto, nervoso.
— Justo.
Puxou uma moeda da bolsa e colocou na mão pequena.
— Por aqui — disse a criança, já virando de costas.
Shern se levantou.
Antes de seguir, olhou mais uma vez para a estátua ajoelhada.
Tentou, mas o sorriso não veio.
Então seguiu a criança pela avenida, afastando-se das figuras de pedra.
O Jardim dos Heróis era silencioso demais para um lugar tão aberto.
Caminhos largos de pedra clara se cruzavam entre canteiros baixos e árvores antigas. Monumentos surgiam em intervalos regulares — alguns simples, outros altos demais, carregados de símbolos e datas.
A criança andava à frente, sem pressa.
— É logo ali — disse, apontando.
Um túmulo ocupava o centro do jardim.
Não era o maior, mas era o mais cuidado. Pedra clara, limpa, sem rachaduras. Uma estátua menor repousava atrás da lápide: a mesma mulher das avenidas, agora em pé, espada apoiada ao lado do corpo, o olhar voltado para frente.
Shern parou.
Deu dois passos.
Depois mais um.
Na lápide, apenas o essencial:
ARASTINE
A Lâmina de Sam Brehim
† 934
Shern ficou olhando o número.
— Novecentos e trinta e quatro… — murmurou, sem perceber que falou em voz alta.
A criança se aproximou, parando ao lado dela.
— Ela foi importante — disse, num tom neutro, quase decorado. — Dizem que reconquistou a cidade dominada por um secto de lichs necromantes. Tinha até dragão na luta.
Shern não respondeu.
— Todo mundo aprende sobre ela na escola — a criança continuou. — Já faz muito tempo.
Shern se agachou lentamente diante da lápide.
Passou os dedos pela data, como se o relevo pudesse mudar.
— Muito tempo? Que ano é hoje? — perguntou, ainda olhando para a pedra.
— Mil trezentos e oito — respondeu a criança, sem hesitar. — Por quê?
A mão de Shern parou.
Os dedos tremeram uma única vez antes de se fecharem.
Ela puxou o ar, curto demais.
Ao fundo, guardas cruzavam um dos caminhos laterais do jardim, conversando baixo, lanças apoiadas no ombro. Um deles lançou um olhar rápido na direção dela. Outro seguiu andando, como se nada estivesse fora do lugar.
— Faz… — a criança pensou por um instante. — Uns quatro séculos, eu acho.
Shern não disse nada.
Sentou-se devagar no degrau de pedra diante do túmulo.
O som do jardim continuou: passos distantes, folhas se movendo, vozes baixas que não tinham nada a ver com ela.
A criança esperou alguns segundos.
— A senhora quer que eu fique aqui? — perguntou.
Shern não respondeu.
Ficou sentada, imóvel, diante do nome gravado na pedra.
E não se levantou.
O Jardim dos Heróis continuava silencioso.
— Quatrocentos anos… — disse em meio às lágrimas e aos soluços. — Parecia só umas semanas lá…
A testa encostada na pedra fria. Os dedos cravados no próprio pulso, apertando a pulseira até a corrente morder a pele. O choro vinha curto, quebrado, sem som suficiente para chamar atenção.
— Pai… você pediu… — murmurou, quase sem voz. — Você pediu pra eu não ir.
Tentou respirar fundo. Falhou.
— Eu devia ter ouvido.
A mão escorregou da lápide. O corpo cedeu um pouco, como se o peso tivesse aumentado de repente.
Passos soaram atrás dela.
Shern não se mexeu.
— Senhora — disse uma voz masculina, firme, educada demais. — Preciso que se levante, por favor.
Ela ergueu o rosto devagar.
Quatro guardas de Sam Brehim estavam parados a alguns metros. Armaduras limpas, símbolos oficiais no peito. Nenhuma arma empunhada. Apenas presença.
— A senhora foi identificada como extraplanar. — continuou o mesmo guarda.
Shern piscou.
Olhou para o túmulo. Depois, para eles.
— Eu… — começou, mas a voz falhou. Limpou o rosto com a manga. — Eu só vim ver alguém.
— Entendemos — disse outro. — Mas extraplanares não são bem-vindos no reino.
O primeiro deu um passo à frente.
— A senhora será conduzida para deportação imediata.
Shern baixou o olhar para o próprio pulso.
A pulseira de Arastine ainda estava ali.
— Não — disse. — Não, não…
Um dos guardas ergueu um bastão curto, metálico, com inscrições gastas pelo uso.
— Itens mágicos rudes como esse não funcionam mais — comentou, quase entediado. — Pode ficar tranquila.
O mundo apertou.
O som do jardim pareceu distante. As árvores, os caminhos, os monumentos — tudo ficou estreito.
— Fiquem longe de mim — disse Shern, dando um passo atrás.
— Senhora — o guarda suspirou. — Não complique...
Ela virou e correu.
— Peguem ela! — alguém gritou.
Os passos vieram atrás, rápidos.
Shern disparou pelo caminho de pedra, o jardim se abrindo em inúmeras saídas. Pessoas começaram a olhar, a se afastar. Uma mão quase tocou seu ombro.
Ela girou.
Ergueu o braço.
A magia saiu contida.
Três guardas implodiram ao mesmo tempo. Armaduras dobraram para dentro, ossos quebraram sem som, corpos caíram como sacos vazios no chão.
— Eu… eu… não queria… — Shern ficou parada por meio segundo.
Então correu de novo.
Gritos explodiram ao redor. Portas se fecharam com força. Gente se dispersou em pânico.
— Esquadrão arcano! — alguém berrou ao longe.
Ela atravessou uma praça, tropeçou, apoiou-se numa coluna e seguiu. Um grupo surgiu à frente — guardas reforçados, um mago no centro, símbolos brilhando.
O mago ergueu o cajado.
Shern não parou.
Abriu os dedos.
Sua magia atravessou o grupo como uma lâmina invisível. O brilho dos encantamentos morreu no ar. Runas se apagaram. Cajados racharam. Amuletos caíram no chão como pedaços de metal inúteis.
O mago olhou para as próprias mãos, atônito.
Shern passou por eles correndo.
O céu escureceu de repente.
A sombra veio antes do som.
Um aeroplano cruzava acima da cidade — lento, amplo demais, ocupando tudo. As velas propulsoras vibravam. O casco refletia o fogo que já começava a surgir em alguns pontos da avenida.
— Não… — murmurou Shern, parando no meio da rua. — Uma puritânia.
O aeroplano virou.
— E agora? O que eu faço? — disse para si, erguendo os braços.
— Fique parada! — gritou outro grupo de guardas, se aproximando.
— Não! — Ela ergueu os braços em meio às lágrimas.
Dessa vez, não foi contido.
A magia atingiu o casco em cheio.
O aeroplano implodiu no ar.
O som veio depois — uma explosão seca, metal se dobrando, fogo se abrindo no céu. Destroços começaram a cair, rasgando telhados, explodindo contra o chão, espalhando chamas.
Shern observou.
Caiu sentada sobre as pernas no meio da avenida, o impacto fazendo o mundo girar.
Respirou fundo. Tossiu.
Forçou-se a levantar.
Ficou em pé, cambaleante, enquanto o céu ardia acima dela.
Sirenes começaram a soar.
Sinos tocaram em sequência desesperada.
Gritos humanos se misturaram ao fogo, ao metal, ao caos que se espalhava pela cidade.
Shern ficou ali por um instante, cercada por todos os lados.
Então deu um passo à frente.
E outro.
E desapareceu entre a fumaça.
A fumaça ainda subia quando a voz veio do lado oposto da avenida.
— Ei. Por aqui.
Não foi um grito.
Não foi uma ordem.
Shern virou o rosto.
Entre duas construções parcialmente queimadas, um homem a observava de pé, imóvel demais para o caos ao redor. Usava um casaco longo, roxo-escuro, reforçado nos ombros. Um cinto largo prendia instrumentos metálicos e pequenos frascos. Os olhos não estavam nela — varriam a rua, os telhados, o céu.
Ele fez um gesto curto com a mão.
— Agora.
Shern hesitou por menos de um segundo.
Depois correu até ele.
O homem se virou no mesmo instante e entrou pela porta lateral de uma casa baixa. Shern passou logo atrás. O interior cheirava a madeira antiga e poeira. Ele atravessou sem olhar para os lados, abriu outra porta, seguiu por um corredor estreito e saiu pelos fundos de um estabelecimento fechado às pressas.
Do lado de fora, gritos. Passos. Ordens desencontradas.
Eles não correram.
Andaram.
— Respira — disse ele, baixo, enquanto empurrava uma porta de serviço. — Eles procuram barulho.
Shern tentou responder, mas o ar ainda vinha irregular. Seguiu.
Passaram por cozinhas abandonadas, depósitos, um pequeno pátio interno. Em cada saída, ele parava por um instante, escutava, mudava a rota.
— Qual é o seu nome? — perguntou, sem olhar para ela.
— Shern.
Ele assentiu, como se anotasse um detalhe qualquer.
— O que você veio fazer em Sam Brehim, Shern?
Ela demorou a responder.
— Ver alguém. — Engoliu em seco. — Arastine.
Ele parou.
Virou-se devagar.
— Arastine?
Shern confirmou com a cabeça.
— Eu não sabia… — disse, as palavras saindo truncadas. — Eu estive em outro lugar. Quando voltei… tinham passado quatrocentos anos.
O homem a observou por um instante mais longo. Os olhos percorreram o rosto dela, a postura desalinhada, a pulseira no pulso.
— E como você conhece Arastine? — perguntou.
— Ela era da Alghoryn — respondeu Shern, como se fosse óbvio. — Como meus pais.
O silêncio se estendeu por um segundo além do necessário.
Então ele respirou fundo.
— Entendi.
Retomou a caminhada.
— Meu nome é Joel Wynne — disse, enquanto empurrava uma última porta. — Eu também tenho aeroplano. Na verdade… aeroplanos.
Saíram para um jardim interno murado. Bem cuidado. Estátuas pequenas, flores alinhadas. Uma residência nobre.
— Para onde estamos indo? — Shern perguntou, a voz ainda instável.
— Tem um portal selvagem no jardim da casa desse bispo — respondeu Joel, sem diminuir o passo.
Shern apenas assentiu.
— A Alghoryn — continuou ele, mais baixo — foi um aeroplano único que já cruzou esses céus. Eu procurei por ela durante metade da minha vida. Nunca encontrei nem os destroços.
Parou diante de um canteiro de pedra.
— Mas encontrei histórias.
Shern se aproximou.
O ar ali parecia errado. Levemente deslocado.
— Você é… — ela começou.
— Não agora. — Joel se agachou e tocou a borda do canteiro. Um símbolo gasto respondeu com um brilho fraco. — Depois.
O espaço à frente deles se abriu numa fenda fina, quase invisível. A luz do jardim se dobrou sobre si mesma. Do outro lado, outro lugar — mais frio, mais escuro. Uma silhueta aguardava.
Joel se levantou e deu um passo para o lado, abrindo caminho.
— Confia em mim só dessa vez — disse, simples. — Depois você decide o resto.
Shern olhou para trás.
A cidade ainda ardia além dos muros. Sirenes ecoavam à distância. O nome de Arastine parecia pesar mais do que a própria fumaça.
Então atravessou.
O mundo se fechou atrás deles com um som seco.
E Sam Brehim ficou para trás.
***
O lugar onde estavam era mais baixo.
Um córrego estreito cortava a área, água escura correndo lenta entre pedras antigas. Um trapiche de madeira rangia sob o peso do tempo.
Shern estava sentada ali havia algum tempo.
Os pés quase tocavam a água. Os ombros permaneciam curvados. A respiração ainda vinha irregular.
Joel permanecia mais acima, sobre uma elevação de pedra. Um pequeno dispositivo metálico flutuava diante dele, girando devagar, emitindo pulsos de luz suave. Ele observou, ajustou um símbolo com o polegar e assentiu para si mesmo.
— Estamos em Trinn — disse, guardando o artefato. — Longe o suficiente.
Shern não respondeu.
Abriu a bolsa devagar.
Olhou para a pulseira por um instante a mais do que precisava. Depois a envolveu num pano simples e a guardou na bolsa, como quem esconde algo frágil demais para o mundo.
O silêncio se estendeu.
Então o vento mudou.
O som veio primeiro — grave, contínuo.
Um aeroplano surgiu acima das campinas acidentadas, descendo com precisão calculada. O casco trazia a insígnia de Imadakar. Cordas se soltaram. Uma escada de madeira e corda caiu até poucos metros do trapiche.
Joel olhou para Shern.
— Vamos?
Ela assentiu.
O homem foi o primeiro a subir.
Shern o seguiu logo atrás.
Dentro, o aeroplano era funcional. Bancos firmes. Pouca ornamentação. Homens aguardavam em silêncio, reconhecendo Joel apenas com um gesto curto.
— Vamos para Azlude — disse ele. — Direto.
O aeroplano ganhou altitude.
***
Durante dois dias, a viagem foi só isso.
O céu mudando de cor. O ruído constante das velas. O balanço lento que nunca deixava o corpo esquecer que estava em movimento.
Shern quase não saiu do quarto.
Quando saiu, foi para ficar em silêncio.
Foi numa dessas vezes que Joel falou novamente.
— Seu nome corre entre aventureiros — disse, sem rodeios. — Derrotar um dracolich não é algo comum. Nem mesmo raro. É… específico.
Ela não reagiu.
— Imadakar sempre procura gente assim — ele continuou. — Missões. Pagamento. Poder real. Não histórias.
Shern demorou antes de responder.
— Se você sabe tanto sobre mim… — a voz saiu baixa, hesitante. — Então sabe da nossa história.
Ele a olhou.
— Onde está o túmulo de Garwin? — perguntou. — Onde meu pai foi enterrado?
Joel não desviou o olhar.
— Garwin e Cailynm estão em Azlude.
Ela assentiu uma única vez.
— Você pode me levar até lá?
— Já estamos indo.
E não disse mais nada.
***
A casa à beira do lago, no balneário próximo de Azlude, era antiga.
Pedra sobre pedra. Um cemitério ocupava a parte mais elevada do terreno, cercado por árvores antigas que filtravam o vento.
Os túmulos estavam lado a lado.
GARWIN
CAILYNM
Simples. Sem títulos.
Shern ajoelhou-se diante deles.
As mãos tocaram a pedra fria. Os dedos percorreram os nomes com cuidado, como se pudessem desaparecer se ela não confirmasse que estavam ali.
O choro veio baixo.
Contido.
Os ombros tremiam um de cada vez. O ar entrava e saía com dificuldade. Nenhuma palavra. Nenhuma explicação.
Joel permaneceu alguns passos atrás.
Esperou.
Foi Shern quem falou primeiro.
— E Vendeler?
Joel demorou um instante.
— O túmulo dele se perdeu com o tempo — disse. — Nenhum deles teve descendentes.
Ela abaixou a cabeça.
— Então eu fui a única.
O silêncio voltou.
Depois:
— Thurstan?
Joel respirou fundo.
— Thurstan ficou com a Alghoryn — respondeu. — E desapareceu.
Ela ergueu o rosto devagar.
— Então ninguém sabe onde ela está.
— Não.
Shern permaneceu ali por mais algum tempo.
Então se levantou.
— Eu vou encontrá-la — disse, com a voz ainda ferida, mas firme. — Mas pra isso vou precisar de recursos.
Joel assentiu e se colocou ao lado dela.
— É por isso que Imadakar existe — disse. — Missões. Ouro. Influência. Informação. Ela é o centro do mundo hoje.
Quando terminou, o vento atravessou o campo aberto.
Shern ficou em silêncio.
Olhou para os túmulos uma última vez.
Depois, para o horizonte.
O céu estava limpo.
— Então… — disse, após um silêncio longo.
Virou-se para Joel.
— Me leve para Imadakar.
— Como desejar.
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