Volume 4
Capítulo 36: Inevitável
O impacto do corpo colossal fez o piso da nave central gemer. Colunas antigas rangiam, poeira despencava dos vitrais partidos, e a sombra da criatura cobria metade do salão. As asas abertas raspavam nos arcos de pedra, espalhando fragmentos de ossos antigos presos à própria estrutura da catedral.
— Pela minha cidade… — Arastine murmurou, sem tirar os olhos da coisa. — É o último limiar.
O corpo era grande demais para aquele espaço. Escamas enegrecidas se misturavam a placas expostas de osso antigo — tudo fundido como se jamais tivesse sido separado. Onde deveria haver carne, havia pedras mágicas incrustadas e fissuras pulsando energia morta, como veias abertas que nunca cicatrizavam.
— Não é um necromante, como você tinha dito — disse Shern, em voz baixa. — É como se fosse um dragão zumbi.
A pata dianteira direita, embora imitasse o gesto das outras, não tocava o chão por completo. Mantinha-se alguns centímetros acima da pedra, sustentada por magia pura. Instável. Tremulava levemente, como se estivesse sempre prestes a se desfazer.
Arastine manteve a espada baixa, o corpo ligeiramente inclinado para a frente. O braço esquerdo, mal refeito, tremia sob tiras de couro, selos e talismãs gastos.
Shern estava alguns metros atrás. Imóvel. A mão relaxada ao lado do corpo. Os olhos fixos na criatura.
— Então é isso que sobrou do secto — disse Arastine, cuspindo no chão de pedra. — Um dragão decrépito que acha que virou deus.
A criatura inclinou o crânio. O movimento foi lento demais para algo tão grande.
— Sobrou? — a voz ecoou pela catedral, fazendo sinos partidos vibrarem nos arcos superiores. — Eu sou aquele que irá se tornar o flagelo de Sam Brehim.
A pata sustentada por magia avançou um palmo. Runas negras surgiram no ar ao redor dela, girando em sentidos opostos.
Shern deu meio passo para o lado. Nada mais.
— Não se aproxime dele — Arastine arrancou o lacre de um frasco com os dentes, engolindo o conteúdo de uma vez. — Vou abrir a brecha pra você acabar com isso de uma vez por todas.
O líquido reagiu rápido. Veias luminosas correram pelo braço ferido. O tremor diminuiu, mas não cessou.
A criatura soltou um som grave, quase um riso.
— Você ainda insiste nesse papel? — disse. — Já deveria ter entendido o seu lugar. É só… um pequeno inseto prestes a ser pisado.
A cauda varreu o chão. Ossos antigos se desfizeram como areia.
Shern ergueu a mão.
A pata feita de magia distorceu.
Os símbolos vacilaram.
A criatura travou o movimento.
— …interessante — disse, agora mais baixo. — Então é você mesmo.
— Viu?
Arastine sorriu de lado, mesmo respirando pesado.
— E ela nem começou.
O crânio se virou lentamente na direção de Shern. A luz fria nos olhos se intensificou.
— Eu sei quem você é — disse a criatura. — E sei o que pode fazer.
Ele abriu as asas por completo. A pressão no ar aumentou.
— Foi por isso que deixei minha verdadeira forma à mostra.
— E acha que um dragão podre vai ser o suficiente pra nos derrotar? — Arastine flexionou as pernas. — Já matamos todos os seus lichs.
O dragão se ergueu sobre as patas traseiras. A cabeça quase tocou as arcadas superiores da nave.
— E se eu disser — a voz desceu, pesada — que eu sou os dois?
O ar da catedral afundou.
Não foi um som, nem um impacto — foi peso. As chamas das tochas se inclinaram para o chão, alongadas, como se algo invisível as puxasse. Ossos antigos, incrustados nas colunas e no piso, começaram a vibrar em uníssono.
— …isso não é uma magia comum — murmurou Arastine, ajustando o pé no chão. — Shern, ele vai invocar alguma coisa.
A criatura abriu o peito ósseo. Runas mortas se acenderam sob as escamas, pulsando como um coração invertido.
— A minha presença basta — a voz ecoou, profunda. — Mesmo mortos, ainda governamos o espaço ao nosso redor.
O piso rachou.
Das fendas, mãos esqueléticas emergiram primeiro. Depois braços inteiros. Corpos de tamanho médio se ergueram em sequência — guerreiros antigos, clérigos quebrados, restos de monstros fundidos em formas tortas.
— Um teste simples — continuou o dracolich. — Vamos ver quanto tempo vocês duram respirando aqui.
Arastine sacou a espada e avançou sem responder.
Um estalo seco. Um selo de couro se rompeu no pulso direito, espalhando símbolos dourados pela lâmina. A espada ganhou peso, luz comprimida ao longo do fio.
— Vem — disse ela, em voz baixa.
O primeiro esqueleto caiu em dois golpes. O segundo perdeu a cabeça num giro curto. O terceiro explodiu quando ela ativou uma varinha presa ao cinto — uma descarga curta, precisa, que pulverizou ossos sem tocar o chão ao redor.
— Três cargas — resmungou. — Ainda valeu o preço.
Outro grupo avançou.
Shern permaneceu imóvel.
Um dos mortos ergueu o braço; runas negras começaram a se formar no ar. A magia se consolidava — densa, quase sólida.
Shern ergueu dois dedos.
O símbolo tremeu.
Depois se rasgou ao meio, como tecido molhado.
A criatura caiu desmontada, sem nunca completar a invocação.
O dracolich inclinou ligeiramente o crânio.
— Curioso.
Uma sombra maior se projetou atrás dele.
Algo enorme começou a se formar: costelas largas, uma cabeça de animal fundida a restos humanos, músculos necromânticos se trançando no ar antes mesmo de tocar o chão.
— Shern! Não deixa essa passar! — gritou Arastine.
A garota deu um passo à frente.
A criatura terminou de se formar.
E, no instante seguinte, se desfez.
Não explodiu, nem caiu. Simplesmente perdeu coesão. Ossos se separaram, energia vazou em filamentos pálidos e evaporou antes de tocar o piso.
O silêncio que veio depois durou meio segundo a mais do que deveria.
— Desencantar… — a voz do dracolich soou diferente. — Não dissipar. Não anular. Você corta o feitiço pela raiz. Que criaturinha mais interessante.
Arastine respirava pesado, cercada por restos.
— Toma cuidado, Shern — disse, limpando sangue da boca com o polegar. — Ele não é só um dragão morto. É um mago que virou dragão… e depois virou lich. Está um patamar acima do que enfrentamos no átrio.
— Não — corrigiu ele. — Eu era apenas um humilde clérigo que se tornou Deus.
As asas se moveram levemente. A gravidade pareceu ceder por um instante — depois voltou ainda mais forte.
— Um dracolich não precisa de filactério de alma — continuou. — Eu sou absoluto. Em todos os estados.
Mais ossos se ergueram. Desta vez, em círculos mais amplos.
Shern observava cada formação.
— Está nos medindo? — disse, em voz baixa. — Se não vier com tudo, eu não me responsabilizo pelas consequências.
— Claro que não — respondeu o dracolich, ouvindo. — Estou me divertindo com a rara companhia dessas tolas que ousam me desafiar.
Arastine ativou outro selo. Um impacto invisível empurrou três criaturas para trás ao mesmo tempo, esmagando-as contra uma coluna.
Ela cambaleou.
— …droga.
O braço esquerdo não respondeu de imediato.
— Não percebe, garota? — disse o dracolich. — A humana velha já não aguenta mais o ritmo imposto.
O crânio se voltou para Shern.
— Quanto tempo até você errar?
Shern não respondeu.
Outra invocação começou — desta vez instável, forçada.
Ela levantou a mão.
A magia falhou antes mesmo de nascer.
O dracolich soltou um som grave, satisfeito.
— Entendo — disse. — Está se preservando.
As criaturas avançaram novamente.
— Segura mais um pouco — disse Arastine, firme, apesar do cansaço. — Só mais um pouco.
Shern assentiu, quase imperceptível, com os dentes cerrados.
A criatura abriu as mandíbulas devagar demais, como quem mede o espaço antes de falar. A luz morta se acumulou no fundo do crânio, condensando-se em uma massa opaca, sem cor definida.
— Desviem disso, se forem capazes — disse o dracolich, quase entediado. — Energia negativa é inevitável.
O sopro veio em linha reta.
Não queimou. Não explodiu.
Onde tocou, o ar morreu.
Arastine já estava em movimento.
— Agora!
Ela arrancou um disco de metal do cinto e o lançou no chão. O objeto se abriu no impacto, dobrando o espaço à frente como uma lâmina invisível. O sopro foi sugado para o vazio distorcido e desapareceu com um estalo seco, como algo sendo engolido à força.
O piso atrás delas permaneceu intacto.
O disco rachou ao meio.
— Último uso — Arastine rosnou. — Valia mais que metade da minha casa.
O dracolich inclinou a cabeça.
— Interessante — disse. — Poucos mortais ainda carregam relíquias assim. Menos ainda sabem quando usá-las.
As asas se contraíram levemente.
O ar respondeu.
Sombras antigas se desprenderam das colunas, do altar e das paredes. Como se sempre tivessem estado ali. Eram formas mais densas, mais estáveis, armadas — assim como Arastine — com armas mágicas.
— Ele está convocando coisas mais poderosas — Arastine disse, recuando um passo para se colocar à frente de Shern. — Nossas chances estão diminuindo.
— Eu sei — Shern respondeu, baixa. — Vamos encontrar uma solução.
Uma criatura avançou em linha reta.
Arastine puxou um pergaminho, rasgou o selo com os dentes e bateu o papel contra a lâmina. O impacto se propagou como uma onda curta. A coisa foi arremessada contra outra; panos e sombras se rasgaram no choque.
— Dois — Arastine murmurou. — Ainda dá.
Outra veio pela lateral.
Ela ativou a varinha presa ao antebraço. Um disparo curto, azul-esbranquiçado, atravessou o corpo imaterial da criatura e a dispersou antes do impacto.
— Três cargas — disse. — Depois disso, não temos mais recursos.
— Está queimando recursos rápido demais — o dracolich observou. — Estratégias emocionais costumam falhar antes do fim.
— Cala a boca — Arastine respondeu, ofegante. — Você vai estar destruído antes disso.
Uma forma maior começou a se erguer.
Shern recuou meio passo.
Não atacou.
As runas que sustentavam a criatura oscilaram, desalinhadas por um instante.
Arastine percebeu.
— Agora!
Ela avançou e cravou a espada no ponto instável. A lâmina atravessou a junção mágica, e a criatura colapsou sobre si mesma, como se tivesse sido desmontada por dentro.
— Boa leitura — Arastine disse, sem olhar para trás. — Continua assim.
O dracolich estreitou os olhos.
— Você não interfere com força plena — disse para Shern. — Está desafiando a lógica dos ritos tradicionais.
Shern manteve o olhar fixo nele.
— E você também está se contendo — respondeu. — Está com medo de errar.
Um silêncio pesado caiu por um segundo.
Então o chão tremeu de novo.
Mais ossadas se ergueram, agora em formação. Não avançavam todas juntas. Cercavam. Forçavam deslocamento.
— Ele está tentando me cansar — Arastine disse, já respirando em solavancos. — Quer me matar no desgaste.
Ela ativou outro selo.
Um campo translúcido se formou ao redor do corpo por um instante — e se quebrou no impacto seguinte.
Arastine caiu de lado.
— Droga…
O braço esquerdo não respondeu de imediato.
— Não force — Shern disse, tensa pela primeira vez. — Eu posso—
— Não — Arastine cortou. — Ainda não.
Ela se levantou, apoiando-se na espada.
— Se você drenar agora, ele foge — completou. — Aguenta.
— Fascinante — disse o dracolich, por fim. — Um mestre que se oferece ao ataque para proteger o aprendiz… e uma serva que se recusa a mover antes da hora.
As criaturas avançaram mais uma vez.
— Segura a linha — Arastine disse, firme, mesmo tremendo. — Eu ainda consigo.
Shern assentiu, quase imperceptível.
As criaturas atacaram.
Arastine esquivou com uma pirueta. As sandálias deram impulso no ar.
A garra veio junto com o deslocamento.
O dracolich avançou o corpo apenas o suficiente para forçar Arastine a reagir mais uma vez. Ela girou o tronco, ativando um selo de desvio no último instante.
Foi quando a pata mágica atravessou o espaço.
A garra etérea passou pelo flanco de Arastine como névoa sólida, e tudo o que tocou perdeu densidade. O chão sob seus pés apodreceu num palmo. A respiração falhou. A força sumiu das pernas.
Ela caiu deitada.
— Ah… — o dracolich murmurou, satisfeito. — Agora sim. Definhe até a morte enquanto lido com a garota.
Arastine tentou se levantar. As mãos mal tinham força para se apoiar no piso da catedral, como se o mundo estivesse mole demais. O braço direito tremia. O esquerdo não respondeu. O rosto bateu na pedra.
Shern deu um passo à frente.
— Não — disse ele, firme. — Ainda não é a sua vez.
O espaço à frente de Shern se dobrou. Um círculo de símbolos se fechou ao redor dela, girando em direções opostas, comprimindo o ar como um funil invertido.
— Arastine! — a voz de Shern saiu mais alta do que pretendia.
— Preste atenção em mim — disse ele. — Nossa luta ainda não terminou.
A gravidade a puxou para cima. Como se o mundo tentasse arrancá-la dali.
Shern gritou. Os vitrais atrás dela estalaram. As bordas do círculo vibraram quando ela empurrou de volta, forçando a própria vontade contra o decreto.
— Interessante… — comentou o dracolich. — Você resiste como poucos conseguem.
A pressão aumentou.
Arastine, ainda no chão, respirava em puxões curtos. O peito ardia. A visão escurecia pelas bordas.
Ela riu. Fraco, um som quase ridículo.
— Sempre… — murmurou. — Sempre escolhe o alvo errado. Era pra ter me matado quando podia.
Com a mão trêmula, puxou o tecido do vestido até a coxa.
Havia uma corrente de prata ali, presa por dentro. Frascos pequenos, opacos, marcados com selos antigos. Ela apertou um deles contra a pele.
O vidro cedeu.
O líquido entrou.
O efeito foi imediato.
O vazio no corpo recuou como uma maré contrariada. A carne queimou. Os músculos se contraíram num espasmo violento. Arastine gritou — curto, contido — e então puxou ar de verdade.
— Acha que me renderei assim? — disse Shern, enquanto também conjurava.
— Veremos, pequena mortal!
Arastine se levantou num único movimento imperfeito. Cambaleou, mas ficou de pé.
— Sete anos guardando isso — disse ela, cuspindo sangue no chão. — Não ia desperdiçar com coisa menor.
Ela arrancou um broche do peito. Um símbolo pesado, antigo, cravado de linhas interrompidas.
— Agora escuta bem — continuou avançando. — Essa porcaria aí...
Ergueu o broche.
— Não vai funcionar mais.
O símbolo brilhou uma única vez.
O círculo ao redor de Shern estalou, como vidro sob pressão, e se desfez.
O dracolich recuou a cabeça.
— Sigilo de ruptura… — a voz perdeu a calma pela primeira vez. — Você ousa—
— Ousar é tudo que me sobrou.
Shern sentiu o espaço se estabilizar. O peso diminuiu. A tentativa de expulsão se desfez antes de completar o ciclo.
Ela não atacou.
Mas algo mudou.
— Acha que eu não senti? — disse o dracolich. — Eu sei o que está tentando fazer. Quer me banir com a minha própria magia.
Shern encontrou o olhar dele.
— Sim, e vou conseguir — disse, baixa. — Só você que não quer admitir.
Arastine respirava com dificuldade, mas se manteve à frente.
— Vai ter que decidir — ela falou. — Ou é sugado pelo banimento… ou perde a magia. Para sempre.
O dracolich abriu as asas, irritado.
— Malditas mortais — rosnou. — Vão pagar por me darem essa escolha.
O chão voltou a tremer.
Mas agora, pela primeira vez, havia pressa nos movimentos dele.
E Shern, imóvel, começou a contar.
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