Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 4

Capítulo 36: Inevitável

O impacto do corpo colossal fez o piso da nave central gemer. Colunas antigas rangiam, poeira despencava dos vitrais partidos, e a sombra da criatura cobria metade do salão. As asas abertas raspavam nos arcos de pedra, espalhando fragmentos de ossos antigos presos à própria estrutura da catedral.

— Pela minha cidade… — Arastine murmurou, sem tirar os olhos da coisa. — É o último limiar.

O corpo era grande demais para aquele espaço. Escamas enegrecidas se misturavam a placas expostas de osso antigo — tudo fundido como se jamais tivesse sido separado. Onde deveria haver carne, havia pedras mágicas incrustadas e fissuras pulsando energia morta, como veias abertas que nunca cicatrizavam.

— Não é um necromante, como você tinha dito — disse Shern, em voz baixa. — É como se fosse um dragão zumbi.

A pata dianteira direita, embora imitasse o gesto das outras, não tocava o chão por completo. Mantinha-se alguns centímetros acima da pedra, sustentada por magia pura. Instável. Tremulava levemente, como se estivesse sempre prestes a se desfazer.

Arastine manteve a espada baixa, o corpo ligeiramente inclinado para a frente. O braço esquerdo, mal refeito, tremia sob tiras de couro, selos e talismãs gastos.

Shern estava alguns metros atrás. Imóvel. A mão relaxada ao lado do corpo. Os olhos fixos na criatura.

— Então é isso que sobrou do secto — disse Arastine, cuspindo no chão de pedra. — Um dragão decrépito que acha que virou deus.

A criatura inclinou o crânio. O movimento foi lento demais para algo tão grande.

— Sobrou? — a voz ecoou pela catedral, fazendo sinos partidos vibrarem nos arcos superiores. — Eu sou aquele que irá se tornar o flagelo de Sam Brehim.

A pata sustentada por magia avançou um palmo. Runas negras surgiram no ar ao redor dela, girando em sentidos opostos.

Shern deu meio passo para o lado. Nada mais.

— Não se aproxime dele — Arastine arrancou o lacre de um frasco com os dentes, engolindo o conteúdo de uma vez. — Vou abrir a brecha pra você acabar com isso de uma vez por todas.

O líquido reagiu rápido. Veias luminosas correram pelo braço ferido. O tremor diminuiu, mas não cessou.

A criatura soltou um som grave, quase um riso.

— Você ainda insiste nesse papel? — disse. — Já deveria ter entendido o seu lugar. É só… um pequeno inseto prestes a ser pisado.

A cauda varreu o chão. Ossos antigos se desfizeram como areia.

Shern ergueu a mão.

A pata feita de magia distorceu.

Os símbolos vacilaram.

A criatura travou o movimento.

— …interessante — disse, agora mais baixo. — Então é você mesmo.

— Viu?

Arastine sorriu de lado, mesmo respirando pesado.

— E ela nem começou.

O crânio se virou lentamente na direção de Shern. A luz fria nos olhos se intensificou.

— Eu sei quem você é — disse a criatura. — E sei o que pode fazer.

Ele abriu as asas por completo. A pressão no ar aumentou.

— Foi por isso que deixei minha verdadeira forma à mostra.

— E acha que um dragão podre vai ser o suficiente pra nos derrotar? — Arastine flexionou as pernas. — Já matamos todos os seus lichs.

O dragão se ergueu sobre as patas traseiras. A cabeça quase tocou as arcadas superiores da nave.

— E se eu disser — a voz desceu, pesada — que eu sou os dois?

O ar da catedral afundou.

Não foi um som, nem um impacto — foi peso. As chamas das tochas se inclinaram para o chão, alongadas, como se algo invisível as puxasse. Ossos antigos, incrustados nas colunas e no piso, começaram a vibrar em uníssono.

— …isso não é uma magia comum — murmurou Arastine, ajustando o pé no chão. — Shern, ele vai invocar alguma coisa.

A criatura abriu o peito ósseo. Runas mortas se acenderam sob as escamas, pulsando como um coração invertido.

— A minha presença basta — a voz ecoou, profunda. — Mesmo mortos, ainda governamos o espaço ao nosso redor.

O piso rachou.

Das fendas, mãos esqueléticas emergiram primeiro. Depois braços inteiros. Corpos de tamanho médio se ergueram em sequência — guerreiros antigos, clérigos quebrados, restos de monstros fundidos em formas tortas.

— Um teste simples — continuou o dracolich. — Vamos ver quanto tempo vocês duram respirando aqui.

Arastine sacou a espada e avançou sem responder.

Um estalo seco. Um selo de couro se rompeu no pulso direito, espalhando símbolos dourados pela lâmina. A espada ganhou peso, luz comprimida ao longo do fio.

— Vem — disse ela, em voz baixa.

O primeiro esqueleto caiu em dois golpes. O segundo perdeu a cabeça num giro curto. O terceiro explodiu quando ela ativou uma varinha presa ao cinto — uma descarga curta, precisa, que pulverizou ossos sem tocar o chão ao redor.

— Três cargas — resmungou. — Ainda valeu o preço.

Outro grupo avançou.

Shern permaneceu imóvel.

Um dos mortos ergueu o braço; runas negras começaram a se formar no ar. A magia se consolidava — densa, quase sólida.

Shern ergueu dois dedos.

O símbolo tremeu.

Depois se rasgou ao meio, como tecido molhado.

A criatura caiu desmontada, sem nunca completar a invocação.

O dracolich inclinou ligeiramente o crânio.

— Curioso.

Uma sombra maior se projetou atrás dele.

Algo enorme começou a se formar: costelas largas, uma cabeça de animal fundida a restos humanos, músculos necromânticos se trançando no ar antes mesmo de tocar o chão.

— Shern! Não deixa essa passar! — gritou Arastine.

A garota deu um passo à frente.

A criatura terminou de se formar.

E, no instante seguinte, se desfez.

Não explodiu, nem caiu. Simplesmente perdeu coesão. Ossos se separaram, energia vazou em filamentos pálidos e evaporou antes de tocar o piso.

O silêncio que veio depois durou meio segundo a mais do que deveria.

— Desencantar… — a voz do dracolich soou diferente. — Não dissipar. Não anular. Você corta o feitiço pela raiz. Que criaturinha mais interessante.

Arastine respirava pesado, cercada por restos.

— Toma cuidado, Shern — disse, limpando sangue da boca com o polegar. — Ele não é só um dragão morto. É um mago que virou dragão… e depois virou lich. Está um patamar acima do que enfrentamos no átrio.

— Não — corrigiu ele. — Eu era apenas um humilde clérigo que se tornou Deus.

As asas se moveram levemente. A gravidade pareceu ceder por um instante — depois voltou ainda mais forte.

— Um dracolich não precisa de filactério de alma — continuou. — Eu sou absoluto. Em todos os estados.

Mais ossos se ergueram. Desta vez, em círculos mais amplos.

Shern observava cada formação.

— Está nos medindo? — disse, em voz baixa. — Se não vier com tudo, eu não me responsabilizo pelas consequências.

— Claro que não — respondeu o dracolich, ouvindo. — Estou me divertindo com a rara companhia dessas tolas que ousam me desafiar.

Arastine ativou outro selo. Um impacto invisível empurrou três criaturas para trás ao mesmo tempo, esmagando-as contra uma coluna.

Ela cambaleou.

— …droga.

O braço esquerdo não respondeu de imediato.

— Não percebe, garota? — disse o dracolich. — A humana velha já não aguenta mais o ritmo imposto.

O crânio se voltou para Shern.

— Quanto tempo até você errar?

Shern não respondeu.

Outra invocação começou — desta vez instável, forçada.

Ela levantou a mão.

A magia falhou antes mesmo de nascer.

O dracolich soltou um som grave, satisfeito.

— Entendo — disse. — Está se preservando.

As criaturas avançaram novamente.

— Segura mais um pouco — disse Arastine, firme, apesar do cansaço. — Só mais um pouco.

Shern assentiu, quase imperceptível, com os dentes cerrados.

A criatura abriu as mandíbulas devagar demais, como quem mede o espaço antes de falar. A luz morta se acumulou no fundo do crânio, condensando-se em uma massa opaca, sem cor definida.

— Desviem disso, se forem capazes — disse o dracolich, quase entediado. — Energia negativa é inevitável.

O sopro veio em linha reta.

Não queimou. Não explodiu.

Onde tocou, o ar morreu.

Arastine já estava em movimento.

— Agora!

Ela arrancou um disco de metal do cinto e o lançou no chão. O objeto se abriu no impacto, dobrando o espaço à frente como uma lâmina invisível. O sopro foi sugado para o vazio distorcido e desapareceu com um estalo seco, como algo sendo engolido à força.

O piso atrás delas permaneceu intacto.

O disco rachou ao meio.

— Último uso — Arastine rosnou. — Valia mais que metade da minha casa.

O dracolich inclinou a cabeça.

— Interessante — disse. — Poucos mortais ainda carregam relíquias assim. Menos ainda sabem quando usá-las.

As asas se contraíram levemente.

O ar respondeu.

Sombras antigas se desprenderam das colunas, do altar e das paredes. Como se sempre tivessem estado ali. Eram formas mais densas, mais estáveis, armadas — assim como Arastine — com armas mágicas.

— Ele está convocando coisas mais poderosas — Arastine disse, recuando um passo para se colocar à frente de Shern. — Nossas chances estão diminuindo.

— Eu sei — Shern respondeu, baixa. — Vamos encontrar uma solução.

Uma criatura avançou em linha reta.

Arastine puxou um pergaminho, rasgou o selo com os dentes e bateu o papel contra a lâmina. O impacto se propagou como uma onda curta. A coisa foi arremessada contra outra; panos e sombras se rasgaram no choque.

— Dois — Arastine murmurou. — Ainda dá.

Outra veio pela lateral.

Ela ativou a varinha presa ao antebraço. Um disparo curto, azul-esbranquiçado, atravessou o corpo imaterial da criatura e a dispersou antes do impacto.

— Três cargas — disse. — Depois disso, não temos mais recursos.

— Está queimando recursos rápido demais — o dracolich observou. — Estratégias emocionais costumam falhar antes do fim.

— Cala a boca — Arastine respondeu, ofegante. — Você vai estar destruído antes disso.

Uma forma maior começou a se erguer.

Shern recuou meio passo.

Não atacou.

As runas que sustentavam a criatura oscilaram, desalinhadas por um instante.

Arastine percebeu.

— Agora!

Ela avançou e cravou a espada no ponto instável. A lâmina atravessou a junção mágica, e a criatura colapsou sobre si mesma, como se tivesse sido desmontada por dentro.

— Boa leitura — Arastine disse, sem olhar para trás. — Continua assim.

O dracolich estreitou os olhos.

— Você não interfere com força plena — disse para Shern. — Está desafiando a lógica dos ritos tradicionais.

Shern manteve o olhar fixo nele.

— E você também está se contendo — respondeu. — Está com medo de errar.

Um silêncio pesado caiu por um segundo.

Então o chão tremeu de novo.

Mais ossadas se ergueram, agora em formação. Não avançavam todas juntas. Cercavam. Forçavam deslocamento.

— Ele está tentando me cansar — Arastine disse, já respirando em solavancos. — Quer me matar no desgaste.

Ela ativou outro selo.

Um campo translúcido se formou ao redor do corpo por um instante — e se quebrou no impacto seguinte.

Arastine caiu de lado.

— Droga…

O braço esquerdo não respondeu de imediato.

— Não force — Shern disse, tensa pela primeira vez. — Eu posso—

— Não — Arastine cortou. — Ainda não.

Ela se levantou, apoiando-se na espada.

— Se você drenar agora, ele foge — completou. — Aguenta.

— Fascinante — disse o dracolich, por fim. — Um mestre que se oferece ao ataque para proteger o aprendiz… e uma serva que se recusa a mover antes da hora.

As criaturas avançaram mais uma vez.

— Segura a linha — Arastine disse, firme, mesmo tremendo. — Eu ainda consigo.

Shern assentiu, quase imperceptível.

As criaturas atacaram.

Arastine esquivou com uma pirueta. As sandálias deram impulso no ar.

A garra veio junto com o deslocamento.

O dracolich avançou o corpo apenas o suficiente para forçar Arastine a reagir mais uma vez. Ela girou o tronco, ativando um selo de desvio no último instante.

Foi quando a pata mágica atravessou o espaço.

A garra etérea passou pelo flanco de Arastine como névoa sólida, e tudo o que tocou perdeu densidade. O chão sob seus pés apodreceu num palmo. A respiração falhou. A força sumiu das pernas.

Ela caiu deitada.

— Ah… — o dracolich murmurou, satisfeito. — Agora sim. Definhe até a morte enquanto lido com a garota.

Arastine tentou se levantar. As mãos mal tinham força para se apoiar no piso da catedral, como se o mundo estivesse mole demais. O braço direito tremia. O esquerdo não respondeu. O rosto bateu na pedra.

Shern deu um passo à frente.

— Não — disse ele, firme. — Ainda não é a sua vez.

O espaço à frente de Shern se dobrou. Um círculo de símbolos se fechou ao redor dela, girando em direções opostas, comprimindo o ar como um funil invertido.

— Arastine! — a voz de Shern saiu mais alta do que pretendia.

— Preste atenção em mim — disse ele. — Nossa luta ainda não terminou.

A gravidade a puxou para cima. Como se o mundo tentasse arrancá-la dali.

Shern gritou. Os vitrais atrás dela estalaram. As bordas do círculo vibraram quando ela empurrou de volta, forçando a própria vontade contra o decreto.

— Interessante… — comentou o dracolich. — Você resiste como poucos conseguem.

A pressão aumentou.

Arastine, ainda no chão, respirava em puxões curtos. O peito ardia. A visão escurecia pelas bordas.

Ela riu. Fraco, um som quase ridículo.

— Sempre… — murmurou. — Sempre escolhe o alvo errado. Era pra ter me matado quando podia.

Com a mão trêmula, puxou o tecido do vestido até a coxa.

Havia uma corrente de prata ali, presa por dentro. Frascos pequenos, opacos, marcados com selos antigos. Ela apertou um deles contra a pele.

O vidro cedeu.

O líquido entrou.

O efeito foi imediato.

O vazio no corpo recuou como uma maré contrariada. A carne queimou. Os músculos se contraíram num espasmo violento. Arastine gritou — curto, contido — e então puxou ar de verdade.

— Acha que me renderei assim? — disse Shern, enquanto também conjurava.

— Veremos, pequena mortal!

Arastine se levantou num único movimento imperfeito. Cambaleou, mas ficou de pé.

— Sete anos guardando isso — disse ela, cuspindo sangue no chão. — Não ia desperdiçar com coisa menor.

Ela arrancou um broche do peito. Um símbolo pesado, antigo, cravado de linhas interrompidas.

— Agora escuta bem — continuou avançando. — Essa porcaria aí...

Ergueu o broche.

— Não vai funcionar mais.

O símbolo brilhou uma única vez.

O círculo ao redor de Shern estalou, como vidro sob pressão, e se desfez.

O dracolich recuou a cabeça.

— Sigilo de ruptura… — a voz perdeu a calma pela primeira vez. — Você ousa—

— Ousar é tudo que me sobrou.

Shern sentiu o espaço se estabilizar. O peso diminuiu. A tentativa de expulsão se desfez antes de completar o ciclo.

Ela não atacou.

Mas algo mudou.

— Acha que eu não senti? — disse o dracolich. — Eu sei o que está tentando fazer. Quer me banir com a minha própria magia.

Shern encontrou o olhar dele.

— Sim, e vou conseguir — disse, baixa. — Só você que não quer admitir.

Arastine respirava com dificuldade, mas se manteve à frente.

— Vai ter que decidir — ela falou. — Ou é sugado pelo banimento… ou perde a magia. Para sempre.

O dracolich abriu as asas, irritado.

— Malditas mortais — rosnou. — Vão pagar por me darem essa escolha.

O chão voltou a tremer.

Mas agora, pela primeira vez, havia pressa nos movimentos dele.

E Shern, imóvel, começou a contar.

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