Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 4

Capítulo 35: Vínculos

— Eu não acredito — disse Cailynm, ao encarar o local onde antes ficava o portal.

A Alghoryn pairava sobre aquelas ruínas de ossos como uma ave de rapina escolhendo sua presa.

— O que aconteceu? — perguntou Garwin através do comunicador.

— Por que não sobe até aqui e vê você mesmo? — disse Thurstan, sem nunca tirar uma mão do timão.

O capitão demorou um tempo até sair da sala das balistas e chegar à ponte de comando da nave.

— Você tem uma boca, hein? — disse ele, olhando para Thurstan e depois para o vazio onde ficava o portal.

— Eu? — Thurstan arregalou os olhos, apontando para o próprio peito.

— Sim. Agora temos que atravessar vinte portais — disse Garwin, com a mão apoiada no vidro da ponte.

Cailynm começou a operar o painel.

— O pior não são os vinte portais — disse Thurstan, voltando ao timão. — É a recepção das naves de Sam Brehim. Afinal, quantas puritânias derrubamos nos últimos anos?

— Fora os condutores da muralha. — concordou Garwin. — Fizemos nossa fortuna com isso.

— Bem, o tecido dimensional está restaurado — disse Cailynm, quando terminou de mexer no painel. — Não tem mais solução. A passagem da Shern fechou esse portal de vez.

Garwin foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Então ele colapsou.

Ninguém respondeu de imediato.

Thurstan se aproximou do painel, passando os dedos a poucos centímetros das runas mortas.

— Não colapsou sozinho — disse. — Foi forçado. Quem passou… puxou demais.

Cailynm manteve os olhos no vazio onde o portal existira.

— Pelo jeito ela nem ao menos hesitou — disse, em voz baixa.

Garwin fechou a mão devagar.

— Quando foi que começamos a perder ela?

O vento atravessou o círculo, levantando poeira fina. Thurstan se ajeitou, caminhando até os controles da nave.

— Desde sempre — respondeu. — É normal os jovens serem atraídos por revoluções.

Cailynm virou o rosto para ele.

— Você está dizendo que a culpa é nossa?

— Não. — Thurstan disse, rápido demais. — Estou dizendo que… talvez vocês a tenham ensinado tão bem que ela já tenha a percepção de salvar os outros antes de si mesma.

O silêncio voltou. Mais pesado.

Garwin respirou fundo.

— O que o Vendeler pensaria disso? — murmurou. — Temos que encontrá-la de uma vez. Antes que o pior aconteça.

Thurstan levantou os olhos.

— Não quero discordar, mas você sabe que, indo até lá, nós corremos muito mais risco do que ela, certo?

Cailynm cruzou os braços, tensa.

— Se você está com medo — disse — pode descer.

Thurstan inclinou a cabeça.

— Ei, ei. Vá com calma. Não foi minha culpa ela escolher Arastine.

O nome caiu como pedra.

— Arastine não é o problema — Garwin respondeu, seco. — A revolução não é o problema.

— Então o que é? — Cailynm perguntou.

Garwin demorou um segundo a mais do que deveria.

— O problema é alguém olhar para a nossa filha e ver uma arma antes de ver uma pessoa.

Thurstan desviou o olhar.

— E se ela também estiver se vendo assim?

Cailynm deu um passo à frente.

— Não. — disse. — Ela sabe quem é.

— Sabe quem é? — Thurstan retrucou. — Ou sabe quem precisam que ela seja?

Garwin apertou o maxilar.

— Pouco importa isso agora. Ela fugiu.

— Não. — Cailynm corrigiu. — Ela foi enganada. Seduzida por aquela mulher.

Outra pausa.

O ar ainda parecia errado, como se o portal tivesse levado algo além de espaço.

— Quantos portais até Sam Brehim? — Garwin perguntou.

Thurstan respirou fundo.

— Depende de quão dispostos estamos a sermos vistos.

— Não somos bem-vindos lá. — Cailynm disse.

— Nunca fomos. — Thurstan respondeu.

Garwin assentiu lentamente.

— Que seja. Vamos pelo caminho mais rápido.

Thurstan olhou para ele.

— Mesmo que ela não queira ser encontrada?

Garwin não respondeu de imediato.

Cailynm respondeu por ele.

— A gente não vai atrás para trazê-la de volta.

Thurstan franziu a testa.

— Então para quê?

Cailynm encarou o vazio onde o portal se desfez.

— Para garantir que, quando tudo isso acabar… — ela disse — …ela ainda tenha para onde voltar.

O vento soprou mais forte, apagando as últimas runas.

Garwin deu o primeiro passo para fora do círculo.

— Calculem o curso e sigam para o próximo portal. — disse. — Antes que seja tarde demais.

Thurstan fechou os olhos por um instante.

Depois assentiu.

— Espero sair vivo dessa.

***

A criatura de ossos saltou.

Mandíbulas sem carne se abriram no ar, vértebras rangendo enquanto o corpo desmontado se recompunha no salto. Fragmentos de fêmur e costelas giraram, encaixando-se no impacto.

— Agora! — Arastine gritou.

Ela cuspiu fogo.

O cone de chamas varreu a criatura de cima a baixo. Ossos estalaram, racharam, escureceram — mas não caíram. As costelas queimadas continuaram a se mover, avançando como garras carbonizadas.

O rubi preso à corrente dourada no pescoço de Arastine piscou uma última vez.

E se apagou.

— Droga… — ela rosnou, cambaleando um passo.

Outra criatura emergiu do chão.

Depois outra.

O piso da rua estava coberto por ossadas incompletas: braços a mais, crânios sem mandíbula, colunas vertebrais rastejando como serpentes. Entre elas, corpos de aventureiros jaziam espalhados — armaduras partidas, capas rasgadas, símbolos de guilda esmagados sob a massa animada.

Do outro lado da praça, o homem de manto vermelho ergueu a mão.

Runas negras giraram ao redor de seus dedos.

— Já percebeu a diferença? — a voz dele ecoou, calma demais. — Todos vieram com a mesma certeza.

Um projétil de energia ossificada cortou o ar.

Shern ergueu o braço.

A magia desviou o golpe no último instante, fazendo-o explodir contra uma pilha de crânios. Fragmentos voaram como estilhaços brancos.

— Fica atrás de mim! — Arastine ordenou, puxando a espada apesar do braço trêmulo.

— Tô tentando. Não dá — Shern respondeu, firme.

Ela estendeu a mão.

Os ossos à frente estremeceram, como se o ar tivesse ficado pesado demais. Algumas criaturas perderam coesão, membros se soltando — mas nenhuma caiu por completo.

— Tá se segurando? — Arastine perguntou, entre dentes.

— Não sei — Shern respondeu. — Tô cuidando pra não me descontrolar.

O homem riu.

O som saiu abafado pelo interior da catedral às costas dele, misturado ao eco distante dos sinos.

— Bonito — disse. — Depois de empenhar tantos recursos…

Fez um gesto amplo.

— …sua última cartada é uma descendente dos féericos que nem idade plena atingiu.

Ele deu um passo à frente.

— Observe, garota.

Outra onda de ossos se ergueu do chão, arrancando restos de corpos antigos, fundindo-se a armaduras partidas.

— Todos esses tentaram salvar alguém — continuou. — Mas infelizmente morreram aqui.

Ele apontou para Arastine.

— E você… — a voz ganhou um leve prazer — …não vai ser diferente.

Uma lança óssea surgiu no ar e disparou.

Arastine tentou erguer o escudo.

Não conseguiu.

Shern desviou a trajetória com um gesto brusco. A lança passou de raspão e se cravou no chão, vibrando.

— Não se contenha, Shern! — Arastine gritou, ofegante. — Acaba com ele!

Outra criatura saltou.

Shern explodiu o crânio dela no ar, mas o corpo ainda avançou dois passos antes de se desfazer em partes.

— Não — Shern disse, sem tirar os olhos do inimigo. — Ainda não.

— Ainda não? — Arastine retrucou, cuspindo sangue ao se apoiar na espada. — Qual é o seu problema?

— Esse cara não é o vilão final. — Shern manteve a mão erguida. — Preciso me resguardar, como você me ensinou.

O homem abriu os braços.

Os ossos responderam.

— Ela está certa, e você sabe disso — disse ele. — Por trás de mim há todo um secto. Magias. Poderes. Apoio constante. Sou praticamente indestrutível.

Ele encarou Shern.

— E você também sabe.

O brilho ao redor dos dedos dela oscilou.

— Eu sei — respondeu.

Outra criatura avançou.

Ela a despedaçou no ar.

— Por isso — completou — eu tô guardando a magia mais forte…

O homem sorriu.

— …pra mim?

O chão tremeu.

Mais ossos começaram a se mover.

Shern não respondeu.

Arastine apertou o punho da espada, mesmo sem força.

— Então anda logo — murmurou. — Porque eu não aguento muito mais.

***

Colunas negras subiam além do alcance das tochas, desaparecendo na escuridão superior como raízes invertidas.

Tapeçarias enormes pendiam entre elas, tão altas que as figuras bordadas se perdiam antes de alcançar o topo.

Correntes grossas cruzavam o espaço em arcos lentos, rangendo baixo, sustentando sinos imóveis.

A iluminação vinha das chamas rituais espalhadas pelo salão. A fumaça densa se acumulava no alto, ocultando o teto e tornando a altura impossível de medir.

No centro da nave, um círculo de pedra ocupava o chão inteiro.

E acima dele — muito acima — uma passarela estreita recortava o vazio.

O homem observava dali.

O manto escuro caía reto, imóvel, apesar do vento que subia do salão como um fôlego antigo. A luz das chamas lá embaixo mal tocava seu rosto — apenas o suficiente para revelar o brilho constante nos olhos.

Abaixo, onze figuras permaneciam ajoelhadas.

Cada uma vestia o mesmo tipo de manto.
As mesmas luvas vivas.
As mesmas bocas costuradas à carne escurecida.

Nenhuma falava.

Não precisavam.

Fios de energia escura se estendiam dos círculos sob seus pés, subindo em espirais lentas até se encontrarem acima, convergindo no corpo do homem na passarela.

Pulsavam.

Recuavam.

Voltavam a pulsar.

Como um coração coletivo.

Uma das figuras ergueu a cabeça um pouco além do permitido.

A energia vacilou por um instante.

— Mantenha o ritmo — disse a voz do alto.

Não houve resposta verbal.

O fluxo se estabilizou.

O homem deu alguns passos à frente. Os ecos demoraram a morrer no espaço imenso.

Lá embaixo, o círculo de pedra estava manchado por marcas antigas: símbolos apagados, sulcos profundos, restos de rituais anteriores.

— Um caiu — disse ele, sem elevar o tom. — Morgrath cumpriu seu papel.

As bocas nas luvas de dois dos sectários se abriram ao mesmo tempo, exalando vapor escuro.

— Chegou uma conjuradora — continuou. — É uma descendente dos féericos.

Ele parou no limite da passarela.

Do alto, o salão parecia um abismo invertido. As tochas eram pontos frágeis de luz. Os corpos ajoelhados, insignificantes diante da estrutura que os engolia.

— A revolução sempre chama os mesmos tipos — disse. — Heróis cansados. Crianças com poder demais. Mulheres que acreditam que ainda podem escolher.

Uma pausa.

— Todos fúteis.

Os fios de energia se intensificaram, engrossando, quase sólidos agora.

O ar vibrou.

Um dos sinos distantes balançou sozinho, emitindo um som grave e profundo que percorreu a catedral inteira.

— Continuem — ordenou. — Alimentem o seu companheiro.

Os onze baixaram ainda mais as cabeças.

A energia subiu.

O homem abriu os braços.

E, por um instante, pareceu grande demais para o espaço que ocupava.

Lá fora, muito distante, algo explodiu em chamas verdes.

Ele sorriu.

— Vamos ver até onde ela consegue ir.

***

— Toma essa!

A ossada avançou de uma vez.

Costelas bateram umas nas outras enquanto o corpo incompleto se arrastava pelo chão, ganhando massa a cada metro. Um braço extra se encaixou no ombro torto. Mandíbulas se fecharam num estalo seco.

— Shern! — Arastine gritou. — Decide agora!

Shern não respondeu de imediato.

Observava o conjurador ao fundo da praça, imóvel entre os círculos de ossos, as mãos erguidas, puxando fios invisíveis como quem rege uma orquestra.

— Eu já sei o que vou fazer — disse, por fim.

Outra criatura se ergueu do chão, arrancando um crânio preso à armadura de um aventureiro morto.

— Então faz! — Arastine cuspiu sangue ao puxar a espada com o braço bom. — Isso aqui vai acabar com a gente!

Shern virou o rosto para ela.

— Vai acabar com eles — corrigiu. — Mas eu preciso de um toque.

O conjurador inclinou a cabeça, como se escutasse melhor.

— Bonito discurso — disse, a voz ecoando entre os ossos. — Mas acho que esses lábios ficam melhor num corpo sem vida.

Três criaturas avançaram juntas.

— Arastine… — Shern falou, firme. — Abre caminho pra mim.

A guerreira de um olho só sorriu torto.

— Se é pra ser assim…

Ela avançou.

A primeira criatura saltou.

Arastine se jogou contra ela antes que Shern pudesse reagir. A lâmina cortou vértebras, mas não foi o suficiente. Um segundo esqueleto surgiu por baixo, agarrando seu braço esquerdo.

— Não!

O braço cedeu na altura do cotovelo. Ossos rasgaram carne. A espada caiu no chão com um som metálico curto.

Arastine gritou, agarrando a criatura.

Não de dor.

De raiva.

— Agora, Shern!

O conjurador abriu um sorriso.

— Viu? — disse. — Todos vocês—

Shern não ouviu o resto.

Ela correu.

Pisou em ossos, saltou sobre um crânio rachado, desviou de uma lança óssea que passou zunindo ao lado do rosto. Uma criatura tentou agarrá-la pelas pernas.

Ela desviou com leveza.

— Peguem ela! — o conjurador ordenou.

Os ossos obedeceram.

Arastine, de joelhos, pressionava o braço destruído contra o corpo, respirando em solavancos.

— Anda… — murmurou. — Anda logo…

Uma criatura se lançou contra Shern por trás.

Arastine se atirou contra ela com o ombro.

— Não toca nela!

Os dentes rasgaram a armadura de couro pela lateral. Ela caiu, mas manteve aquele esqueleto preso tempo suficiente.

Shern saltou.

O mundo pareceu encolher quando ela atravessou o último círculo de ossos.

Ela pousou diante do conjurador.

Os fios de energia estremeceram.

— O quê…? — ele começou.

Shern estendeu a mão.

Tocou o peito dele.

— O que você—

Shern ergueu o rosto.

— Deixa que eu te mostro.

***

— Excelente controle — disse o homem de capuz, na passarela.

Ele desceu um degrau. O eco demorou a morrer.

— Mantenha assim.

Ele pousou a mão no ombro de um dos canalizadores.

O sectário não reagiu.

— Excelente controle.

O homem franziu o cenho e retirou a mão num reflexo brusco.

— O que foi isso?

A primeira explosão lavou o chão de vísceras.

Depois outra.

E outra.

— Impossível!

As cabeças dos onze explodiram quase juntas.

Não houve grito.

Apenas o som de ossos cedendo, carne se abrindo, algo pesado batendo no chão em sequência.

Sangue e fragmentos se espalharam pelo círculo de pedra.

O homem deu um passo para trás.

— Não…

Olhou ao redor, como se aquilo estivesse fora de qualquer possibilidade.

— Isso não… isso não…

Baixou o olhar.

Onde antes estava sua mão direita, havia apenas um vazio irregular.

O braço terminava antes do cotovelo.

O sangue escorria em pulsos curtos.

— Eu também estava ligado a eles.

Ergueu o braço restante, a voz finalmente falhando.

— Quem fez isso… consegue exceder o limite entre os planos.

O silêncio da catedral respondeu.

Os fios de energia haviam sumido.

O homem permaneceu imóvel.

Perplexo.

— O que… você fez comigo?

O sino mais alto soou sozinho.

— Preciso estar preparado para isso.

***

O grito do conjurador rasgou a praça.

— Os fios invisíveis! — a voz saiu rouca. — Como fez isso?

As ossadas ao redor estalaram juntas, como vidro sob pressão.

E viraram pó.

Costelas, crânios, colunas inteiras se desfizeram no ar, caindo como cinza espessa sobre os corpos dos aventureiros mortos.

O conjurador caiu de joelhos.

— Agora será a sua vez.

Arastine se apoiou na espada e puxou uma poção do cinto com a mão que ainda restava inteira. Mordeu o lacre com os dentes e bebeu de uma vez.

O líquido brilhou ao tocar a pele.

O ferimento do braço esquerdo fechou com um ruído úmido. Carne se refez. Osso, não. O braço caiu inerte ao lado do corpo.

Ela respirou fundo.

— Hah… — um riso curto escapou. — Isso vai cobrar depois. Um preço pequeno, considerando os fins.

O conjurador levantou o rosto.

Os olhos estavam arregalados demais.

— Vocês… vocês não entendem o que acabou de acontecer.

Ele ergueu as mãos devagar, vazias.

— Trégua. Eu me rendo.

— E agora, tia Arastine? — perguntou Shern, a mão ainda erguida.

Arastine inclinou a cabeça.

— Desistiu fácil pra quem se declarava invencível há um momento atrás.

Ele engoliu em seco.

— É isso que vocês não entendem. Eu era.

O olhar dele deslizou até Shern.

Ela permanecia parada, a mão estendida, o brilho ao redor dos dedos fraco, instável.

— Aquilo… — ele apontou para ela, sem se aproximar. — Aquilo não foi magia comum.

Arastine deu um passo à frente, encostando a lâmina no pescoço dele.

— Explica direito.

O conjurador respirou fundo, como alguém escolhendo palavras para não morrer.

— Nós somos lichs — disse. — Não dependemos deste corpo. Quando ele cai, retornamos pelo filactério. Em outro ponto. Em outro plano, se for preciso.

Ele riu, nervoso.

— Foi por isso que eu estava confiante.

Silêncio.

— Estava — Arastine repetiu.

— Até agora.

Ele ergueu o olhar novamente para Shern.

— O que ela fez não atingiu meu corpo. Atingiu o vínculo.

Shern não reagiu.

— Não só aqui — ele continuou, rápido, atropelando as palavras. — Mas em todos os lugares onde ele existia. Todas as âncoras. Todos os reflexos.

A voz falhou.

— Minha alma. Meu espírito. O que eu fui. O que poderia vir a ser.

Ele balançou a cabeça.

— Não sobrou nada para retornar ao filactério.

Arastine sentiu o peso daquilo.

— Então você não morria.

— Não — ele respondeu. — Mas agora, se eu for atingido pela magia dela, eu deixo de existir.

O silêncio caiu pesado entre eles.

Shern abaixou lentamente a mão.

Arastine olhou para ela de lado.

— Você sabia disso?

Shern demorou um segundo.

— Você já sabe a resposta.

— Como você é estranha — resmungou Arastine.

O conjurador soltou uma risada fraca.

— O que ela fez foi praticamente impossível — disse.

Arastine bufou.

— Ótimo. E como isso resolve os meus problemas?

Ela se virou para ele.

— Por que não te apagamos agora?

O conjurador endireitou a postura, ainda ajoelhado.

— Porque eu sei coisas — falou rápido. — Sobre o secto. Sobre o mestre. Sobre o que vem depois.

Arastine não respondeu.

Ele continuou:

— Eu entrego tudo. Nomes, rotas, rituais, pontos fracos. Tudo.

Deu um passo cauteloso à frente.

— Em troca… vocês me deixam ir.

Arastine bebeu o resto da poção e jogou o frasco fora.

— Você acha mesmo que está em posição de negociar?

— Não — ele respondeu. — Acho que estou vivo por escolha dela.

Olhou para Shern outra vez.

— Você matou onze iguais a mim… e arrancou o braço do meu mestre.

Shern permaneceu em silêncio.

O vento passou pela praça, levantando o pó dos ossos.

Arastine respirou fundo.

— A gente ainda vai decidir isso.

Ela virou as costas.

— É bom que decidam logo — ele disse. — Sei que tenho mais valor vivo do que morto. Meu mestre tem poder. Não vai ser só com isso que vocês o enfrentarão. Precisam de mim.

— Entendo.

Shern ficou olhando para ele por mais um instante.

Depois se virou também.

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