Volume 4
Capítulo 34: O Ponto de Ruptura
O céu ainda fervia.
Fragmentos de pó sagrado desciam em espirais lentas, em meio a cinzas e restos de símbolos arcanos em decaimento. Corpos sem peso despencavam para o vazio abaixo da frota, sumindo na neblina espessa que cobria o litoral distante.
O dragão mergulhou.
A sombra dele cruzou por baixo da formação como um continente em movimento. As asas mortas bateram uma vez — só para manter o eixo — e o corpo apodrecido seguiu adiante, lento, persistente.
O comunicador explodiu.
— Conveses limpos! — gritou alguém.
— Ainda tenho dois feridos!
— Atenção à retaguarda—
— O dragão! Ele tá voltando por baixo!
A Avan’Devor inclinou demais antes de corrigir. Tarde. O casco rangeu quando a nave perdeu alguns metros de altitude.
— …droga… — a voz da piloto veio curta, presa no fundo do peito. — Precisamos resolver esse problema. Não consigo segurar isso por muito tempo.
O corpo morto abriu o tórax.
A chama verde saiu torta, falhada — mas suficiente.
A vela lateral da Avan’Devor foi atingida num rasgo brilhante. O tecido encantado chiou, escureceu, e o fogo se espalhou rápido demais para ser ignorado.
— Fogo na vela! — alguém berrou.
— Já tô vendo! — a piloto respondeu, a respiração irregular no canal. — Segura essa porcaria—
Runas de contenção acenderam enquanto construtos caminhavam até a borda e cuspiam vapor frio. A chama cedeu, engolida à força, mas a nave perdeu mais alguns metros antes que o tecido da vela regenerasse.
— …controle parcial… — ela disse, depois de um segundo longo demais. — Parcial.
O dragão passou de novo, agora mais baixo.
— Então tá — disse Arastine, seca. — Vamos acabar logo com isso.
Arastine correu pela amurada do aeroplano dos Branvek.
O vento agitou o vestido como se quisesse arrancá-la dali. Ela não diminuiu o passo. Saltou.
O vazio mordeu por um instante — depois as sandálias responderam com um estalo seco, arremessando o corpo dela para cima e para o lado.
A Martelo do Sul veio ao encontro dela.
Ela caiu rolando no convés, entre caixas de munição e cordames tensos. Três balistas estavam armadas ali, apontadas para as bordas, todas já carregadas.
— Não é a balista da Alghoryn, mas já dá pro gasto.
— Comandante no convés! — alguém gritou.
Arastine não respondeu. Sentou-se numa das balistas, puxou a alavanca, ajustou o eixo com força bruta.
O comunicador voltou a chiar.
— Agora que limpamos os conveses, alguém tem ideia praquele troço?
— Não dá pra perseguir isso pra sempre!
— Ele não cansa!
A sombra do dragão cobriu metade da frota outra vez.
— Arastine! — a voz de Branvek surgiu, alta demais. — Meu filho tava com você, não tava?
Ela girou o corpo só o suficiente para apertar a mira.
— Tava — respondeu, sem alterar o tom. — Ficou no porão da tua nave. Última vez que vi.
Um silêncio curto demais para virar suspeita.
— …certo… — Branvek disse. — Então foca aí.
A Avan’Devor tremeu de novo.
— Se alguém tiver uma ideia genial, é agora — disse a piloto, já sem tentar esconder o cansaço. — Ou eu não garanto aguentar por mais tempo.
O dragão abriu as asas para virar.
Virou mal.
O corpo enorme escorregou no ar, precisando bater as asas outra vez para corrigir a trajetória. Não subiu. Não ganhou espaço. Apenas seguiu em frente, naquela manobra pesada.
Arastine acompanhou com os olhos.
— Ele não vira bem — murmurou.
— O quê? — alguém perguntou.
Ela apertou o comunicador.
— Escutem. O dragão é ruim com curvas fechadas — a voz dela cortou o canal. — A gente não precisa ser mais rápido. Só precisa escolher um lugar que limite de vez os movimentos dele.
O silêncio durou meio segundo.
— E o que sugere, comandante? — perguntou a capitã da Avan’Devor.
O dragão passou por ela outra vez, agora mais baixo.
— Há uma encosta marítima aqui perto — começou Arastine. — Ela é escarpada.
— Certo — todos responderam quase em uníssono, enquanto manobravam para o sul.
À frente, a neblina começou a se abrir.
Um grande penhasco surgiu no horizonte.
Alto.
Vertical.
Irregular.
No mesmo paredão, uma cachoeira marcava o ponto onde o rio que banhava Arastine se encerrava.
As naves mergulharam pela falésia quase juntas, obrigadas a voar mais próximas do paredão de pedra. O ar ali era irregular, puxado para baixo pelas correntes que subiam do mar invisível sob a neblina. Cordames estalaram. Velas gemeram.
O dragão acompanhou.
Não acelerou. Não hesitou. Apenas ajustou o eixo do corpo morto e seguiu, muito pesado para qualquer delicadeza.
— Formação três, segura o flanco — a voz de Arastine soou firme no comunicador. — Revezamento de fogo. Um por vez. Quem atirar vira alvo. Quando prender atenção, o próximo assume.
Uma sequência curta de confirmações respondeu.
— Entendido.
— Copiado.
— Preparando—
A primeira balista disparou. O impacto ecoou seco, atravessando o ar. O projétil perfurante cravou no flanco apodrecido do dragão, arrancando fragmentos escuros que caíram girando no vazio.
O dragão virou.
Lento. Instável.
Seguiu o aeroplano que havia atirado.
— Troca! — alguém gritou.
Outra balista rugiu. Depois outra. O foco mudou. O dragão oscilou no ar, como se cada decisão fosse vista através daquele corpo morto.
— Funciona… — murmurou alguém, incrédulo.
— Continua — Arastine respondeu. — Sem heroísmo.
A voz de Branvek entrou no canal.
— Arastine. Confirma uma coisa pra mim.
Ela puxou a alavanca da balista e acompanhou o alvo sem responder.
— Confirma — ele insistiu, mais baixo. — Meu filho tava mesmo no porão?
O disparo saiu. O dragão desviou por pouco. A criatura virou de novo, atraída por outro aeroplano que abrira fogo.
— Já te respondi — disse Arastine. — Fica no padrão.
Um segundo se passou.
— Arastine. Mandei a Liria descer lá — Branvek continuou. — Ela disse que não encontrou ninguém.
O vento bateu forte contra a Martelo do Sul. A escarpa agora ocupava quase todo o horizonte lateral. Pedra crua. Sem margem.
— Branvek, mantém tua posição — Arastine respondeu, mais seca. — Segura até a troca.
— Eu só quero—
— Mantém a posição.
Outra nave disparou. O dragão virou mais uma vez, as asas mortas batendo forte demais para corrigir bem. O corpo perdeu alguns metros de altitude antes de estabilizar.
— Agora é você — alguém disse no canal. — Ponto três, prepara.
O aeroplano de Branvek avançou um pouco mais que os outros, abrindo ângulo para tiro. As balistas giraram no convés dele.
— Arastine — a voz voltou, mais tensa. — Se aconteceu alguma coisa com ele, me diz agora.
Ela ajustou a mira. Não respondeu.
— Arastine?
O disparo veio da nave de Branvek.
O impacto foi bom.
O dragão reagiu instantaneamente.
Virou todo o corpo de uma vez, ignorando o resto da frota. As asas bateram com força bruta, empurrando ar e neblina. A criatura desceu.
— Troca! — alguém gritou. — Troca agora!
Nenhuma balista respondeu.
— É a vez da Martelo do Sul — disse uma voz no comunicador.
O dragão abriu a mandíbula.
— Arastine, atira! — Branvek disse, rápido demais. — Atira agora!
A Martelo do Sul permaneceu muda.
O dragão colidiu com o aeroplano de lado.
A força da pancada fez com que a nave grande e pesada se chocasse contra o paredão escarpado. Pedaços de vela, metal e madeira se espalharam por todo lado.
— Arast—
O canal cortou.
Uma explosão rosada tomou conta de tudo. Depois silêncio.
— …Branvek? — uma voz perguntou, baixa demais.
Nenhuma resposta.
O dragão subiu devagar, como se o esforço tivesse sido excessivo. Fragmentos do casco ainda escorriam de seu flanco decrépito antes de se soltarem e caírem no vazio.
A frota manteve a formação.
Ninguém atirou.
— Mantém o padrão — disse Arastine, por fim. — Próximo no revezamento.
A escarpa continuava ali.
O dragão passou onde antes havia uma nave.
Ninguém atirou.
As balistas permaneceram armadas, cordas esticadas, virotes encaixados — imóveis. As bocas de fogo ficaram mudas. Nenhum disparo cortou o céu.
Abriu as asas para virar.
Subiu um pouco.
Pouco. Mas subiu.
— Ordem de tiro no alvo — confirmou Arastine. A voz veio firme, técnica demais para admitir falha. — Mantém rotação. Um de cada vez.
Silêncio.
A Avan’Devor corrigiu a própria altitude, rangendo como se cada ajuste custasse mais do que deveria.
— Confirma disparo, ala leste — Arastine chamou.
Nada.
— Ala norte, responde.
O comunicador devolveu apenas estática e respirações contidas. Alguém pigarreou no canal — depois desistiu de falar.
O dragão virou devagar, descrevendo um arco preguiçoso no ar. A cauda passou perto demais de uma das naves menores, que recuou por reflexo, quebrando a linha da formação.
— Mantém posição — Arastine disse. — Não abre—
A nave já estava fora.
Outra se afastou alguns metros. Depois outra. Pequenos desvios, quase justificáveis. O suficiente para criar vazios.
— …ele muda de foco quando alguém atira — murmurou uma voz, baixa demais para ser comando. — Foi assim com os Branvek…
— Cala a boca — alguém respondeu, tenso. — Cala a boca—
O dragão percebeu.
As asas bateram com mais força. O corpo morto ganhou impulso, atravessando o espaço aberto pela formação frouxa. O sopro verde não veio — não foi necessário.
— Atira agora! — Arastine cortou o canal. — Qualquer um. Agora!
Uma balista disparou.
O virote passou longe, rasgando o ar sem sequer tocar as escamas enegrecidas. O dragão virou a cabeça na direção da nave que atirara.
A nave tentou recuar.
Tarde demais.
— Não fui eu... — a voz começou, fina, quebrada.
O dragão avançou apenas o suficiente para forçar uma manobra desesperada. A nave despencou vários metros antes de recuperar altitude, escapando por pouco, deixando o céu escancarado atrás de si.
O rugido veio depois.
O som saiu oco, morto — mas forte o bastante para fazer as estruturas da frota inteira vibrarem.
— Formação tá quebrando — disse alguém, baixo. — Assim a gente não segura.
— Então obedece ao meu comando! — Arastine respondeu. — Ou vai todo mundo cair!
— E quem garante que o próximo não vai ser sacrificado como os Branvek? — a pergunta veio hesitante. — Quem garante que não é a nossa vez?
Ninguém respondeu.
O dragão subiu mais alguns metros, aproveitando a hesitação, o espaço, o medo suspenso entre as naves.
Pela primeira vez desde o início do confronto, ele parecia confortável no ar.
O rugido do dragão se afastou um pouco.
Não porque ele tivesse desistido — mas porque não havia mais nada pressionando. O céu, antes cruzado por virotes e traços de fogo, agora parecia grande demais para aquelas naves espalhadas.
O comunicador chiava sem ritmo.
Respirações. Um soluço contido. O estalo seco de alguém ajustando uma alavanca sem necessidade real.
— …se continuarmos assim, ele vai ganhar altura demais — disse alguém, sem convicção. — Vai escapar.
Arastine manteve a mão na balista.
O olhar dela acompanhava o dragão, calculando ângulos e posições que ninguém mais parecia disposto a ocupar.
— A formação ainda é viável — ela disse. — Se retomarmos—
— Comandante.
A voz veio firme, mas baixa. Não cortou Arastine. Não disputou o canal. Apenas entrou.
A capitã da Avan’Devor respirou uma vez antes de continuar.
— O plano é bom. Nós vamos seguir com ele.
Algumas cabeças se ergueram nos conveses próximos.
— Mas do jeito que tá, ninguém vai puxar o gatilho — ela continuou. — E sem tiro, esse bicho não desce.
Silêncio.
O dragão descreveu outro arco largo, testando o espaço recém-aberto.
— Se querem tomar essa cidade — a capitã disse — esse dragão não pode continuar voando.
Uma pausa curta. O suficiente para ninguém interromper.
— Restam quantos aeroplanos operacionais? — ela disse então. — Contando o meu?
As respostas vieram aos poucos.
— Aqui… ainda voando.
— …balista funcional.
— Motor instável, mas responde.
— …confirmo.
Nove vozes.
— Então vamos simplificar — ela continuou. — Um tiro por vez.
O dragão bateu as asas, virando o corpo na direção da frota dispersa.
— Minha nave vai puxar — disse a capitã. — Eu já tava fazendo isso antes. Continuo.
A Avan’Devor avançou alguns metros, isolando-se do resto.
— Duas naves comigo, só pra marcar presença. Não atirem até eu mandar.
Duas confirmações secas.
— Três ficam em cobertura. Qualquer abertura, vocês fecham. Sem heroísmo.
— Entendido.
— As outras três… fogo pesado. Esperam eu travar o movimento dele.
Um segundo de hesitação.
— …se ele virar pra vocês, eu puxo de volta — ela completou. — Mas alguém vai ter que atirar.
Dessa vez, ninguém respondeu com dúvida.
— Confirmado.
— Copiado.
— Entendido.
A formação começou a se redesenhar.
Arastine observou em silêncio.
Não interferiu. Não corrigiu. Apenas ajustou a balista, recalculando o ângulo para o novo desenho do céu.
A Avan’Devor avançou mais um pouco.
O dragão percebeu.
A cabeça morta girou lentamente, as órbitas vazias se alinhando com a nave isolada. As asas se abriram, largas, pesadas, preparando o corpo para a mudança de foco.
— Tô puxando — disse a capitã, calma demais para quem estava na frente. — Agora é comigo.
Um disparo explodiu na cabeça. O dragão virou inteiro na direção dela.
***
A Libélula de Thurstan pairava diante do portal.
A fenda instável flutuava a alguns palmos do chão, envolta por uma pulsação irregular que girava devagar, como se respirasse. A luz do outro lado não era clara nem escura — apenas diferente, espessa, dobrando o ar ao redor e distorcendo as bordas do mundo.
Shern parou diante dela.
O vestido de debutante verde parecia deslocado naquele cenário. O tecido leve contrastava com o cheiro de metal e poeira da libélula. A saia ondulava com o vento, escurecendo em tons variados conforme a luz do portal a tocava.
No braço, a pulseira grossa permanecia opaca. Nenhum brilho. Nenhuma reação visível.
Ela flexionou os dedos uma vez. Depois outra.
Recuou a libélula alguns metros, ajustando o ângulo de salto. O motor mágico respondeu com um zumbido grave, constante.
— Tio Thurstan vai me matar quando eu voltar… — murmurou, mais para si mesma.
Shern respirou fundo.
— Me aguarde, tia Arastine.
O portal não respondeu.
Ela acelerou.
A libélula avançou e atravessou a fenda.
A luz se fechou sobre si mesma, e o ar puxou com força suficiente para arrancar o som do mundo. Por um instante, não houve cima nem baixo — apenas a sensação de ser arrancada do lugar onde estava.
Então, nada.
***
A Avan’Devor avançou sozinha.
O aeroplano cortou o vento rente à escarpa. A pedra subia à esquerda como uma muralha irregular, rasgada por fendas e saliências que arrancavam ecos do ar. O mar, lá embaixo, era apenas uma superfície cinza em movimento lento.
O dragão virou.
O corpo morto reagiu ao estímulo como sempre fazia — sombra seguindo presa, instinto sem cálculo. As asas bateram pesadas, empurrando massa demais para um espaço cada vez menor.
— Mantém — disse a capitã da Avan’Devor, a voz firme apesar do cansaço. — Não atira ainda.
Atrás dela, outras naves surgiram no flanco, depois acima, depois mais afastadas. Cada uma ocupando um ponto claro, definido. Ninguém falava sem necessidade.
— Isca confirmada — alguém disse.
— Cobertura pronta.
— Fogo pesado, aguardando.
O dragão ganhou velocidade.
As asas bateram mais forte, mas o ar já não ajudava. A escarpa roubava espaço, distorcia correntes, empurrava o corpo morto para fora do eixo ideal. O dragão tentou subir.
Subiu pouco.
A Avan’Devor mergulhou de repente, raspando pedra. Fragmentos de rocha se soltaram quando o casco passou rente a elas.
— Agora.
A primeira balista disparou.
O virote atravessou a asa esquerda do dragão, abrindo um rasgo irregular que não sangrou — apenas cedeu. O impacto fez o corpo girar um grau errado.
Outro disparo.
Depois mais dois.
Virotes perfurantes cravaram o torso, explodindo escamas antigas, arrancando placas mortas. Um projétil de impacto atingiu a articulação da asa direita, fazendo o membro travar num ângulo impossível.
O dragão rugiu.
O som ecoou contra a escarpa e voltou quebrado, múltiplo, distorcido. As asas bateram em descompasso agora, uma tentando corrigir o erro da outra.
— Mantém pressão — disse alguém. — Não o deixa abrir.
Balistas dispararam em sequência.
Explosivos primeiro, para quebrar estrutura.
Depois perfurantes, para prender.
Depois projéteis de impacto, mais perto da cabeça.
Assim como ele fez com os Branvek, o corpo do dragão foi empurrado contra a pedra.
Uma asa bateu na escarpa com força suficiente para esmagar ossos mortos. A outra tentou se abrir, mas um virote atravessou o ombro e dilacerou um pedaço de couro pútrido.
— Continua.
O dragão tentou avançar mesmo assim.
O peito se abriu, preparando o sopro verde.
Não houve tempo.
Três disparos sincronizados atingiram o tórax em simultâneo. A explosão jogou mais fragmentos de carne necromântica contra a pedra, espalhando fumaça esverdeada que em seguida se dissipou.
O corpo perdeu sustentação.
Mas não caiu.
Ficou espetado.
Virotes atravessavam asas, torso, pescoço, cravando o dragão na escarpa como um troféu grotesco. A cabeça tombou para o lado, o maxilar aberto num grito que não terminou.
As asas pararam de se mover.
O vento passou por entre os restos, sem resistência.
— …alvo neutralizado — disse alguém, depois de alguns segundos.
Ninguém comemorou.
As balistas permaneceram apontadas por mais um instante, só para garantir. Depois, uma a uma, começaram a baixar.
— Pronto — disse Arastine. — A catedral deve estar acima daquela nuvem negra.
Ela suspirou.
— Preparem-se combatentes. Vamos enfrentar o inimigo no solo agora.
***
— …o vínculo caiu.
O som ecoou pela nave central da catedral.
O homem de manto vermelho mantinha os braços erguidos, as mãos ainda presas às luvas de carne enegrecida. As bocas esculpidas nelas estavam imóveis agora — dentes expostos num riso congelado. O brilho nos olhos apagava aos poucos, como brasas morrendo.
— Repete.
A voz veio do alto, profunda, filtrada por pedra e distância.
O homem respirou fundo. Um filete escuro escorreu de seu nariz e pingou no piso polido.
— O dragão caiu.
Uma pausa curta.
— A âncora se partiu. Não há mais resposta do corpo.
Os sinos menores da catedral balançaram sozinhos, sem badalo.
— Qual deles? — perguntou outra voz, lateral, escondida entre colunas.
— O do litoral. O que guardava a encosta.
Passos começaram a soar acima. Lentos. Pesados. Invisíveis.
— Nome.
O homem engoliu em seco.
— Morgrath.
As bocas nas luvas se abriram por um instante, cuspindo um vapor escuro antes de voltarem ao silêncio.
— Morgrath, o Vigia da névoa obscura.
Um murmúrio percorreu o interior da catedral.
As janelas altas deixavam entrar uma luz fraca, amarelada, cortada por nuvens negras que se acumulavam do lado de fora. Tapeçarias enormes pendiam das paredes, bordadas com cenas de cidades ajoelhadas, dragões presos por correntes de símbolos, multidões olhando para cima.
— E a frota? — perguntou a voz do alto.
— Viva. Coordenada.
O homem baixou lentamente os braços. As luvas bateram uma na outra com um som úmido.
— Eles aprenderam rápido.
Silêncio.
— Preparem os círculos.
A ordem desceu como pedra.
— Se destruíram um de nossos mortos, merecem ser vistos.
Os sinos maiores começaram a tocar.
Não em alarme.
Em convocação.
— Todos os altares ativos.
— Chamem os portadores.
— Fechem os acessos inferiores.
O homem de manto vermelho virou-se, ainda tonto. Caminhou pelo corredor central enquanto as vozes se multiplicavam ao redor, surgindo de sombras, balcões, capelas laterais.
As portas gigantes da catedral se abriram com um gemido longo.
Do lado de fora, a cidade se estendia sob um céu pesado. Nuvens negras se acumulavam acima das torres, enquanto o sol tentava, sem sucesso, romper por entre elas, lançando feixes pálidos sobre as ruas vazias.
Os sinos continuavam.
O homem parou nos degraus.
— Vamos ver como se saem contra o meu ossário.
Ficou ali.
Esperando.
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