Volume 4
Capítulo 33: Trouxeram a Guerra até nós
— Esse aqui não — disse Shern, já devolvendo o vestido à arara. — Parece aqueles vestidos que as mulheres... bom, você sabe.
Cailynm curvou levemente a boca, avaliando o tecido à distância.
— Verdade. Eu também não gostei — passou os dedos pela costura de outro modelo. — Faltam só alguns meses.
— Ainda assim.
Shern apanhou outro vestido e girou o tecido entre os dedos, testando o acabamento.
— Esse é bem pesado.
A vendedora observava à distância, postura correta demais para parecer casual.
— O provador fica ali — informou, apontando com dois dedos. — Pode levar quantos quiser.
Shern juntou três vestidos contra o peito.
— Já volto.
Ela desapareceu atrás da cortina estreita.
Cailynm permaneceu onde estava, inclinando o vestido azul sob a luz, distraída pelo reflexo no vidro interno da vitrine.
— Shern? — chamou, ainda sem urgência. — Esse azul não vai—
O silêncio respondeu.
— Shern? — repetiu, agora virando o corpo.
Ela se aproximou do provador e puxou a cortina com cuidado.
— Ei. Já escolheu algum?
Nada.
Cailynm afastou a cortina de uma vez.
O espaço estava vazio.
— Shern? — a voz subiu, cortando o ar contido da loja.
A vendedora se aproximou, franzindo o cenho ao espiar o interior do provador.
— A moça saiu?
— Não — respondeu Cailynm, sem virar o rosto. — Ela entrou aqui. Você mesma viu.
A vendedora percorreu o ambiente com o olhar e parou na arara.
— Está faltando um vestido.
Cailynm virou-se devagar.
— Como é?
— O verde escuro. — a mulher soltou o ar pelos lábios. — Acontece às vezes.
— A Shern não fugiu — disse Cailynm, o tom curto, fechado.
— Senhora, eu—
Cailynm já abria a bolsa.
— Quanto.
A vendedora hesitou, depois citou o valor.
As moedas bateram no balcão com um som seco.
— Se ela voltar — disse Cailynm, já se afastando —, diga que eu paguei.
Ela saiu da loja.
— Shern! — chamou na rua, girando sobre si mesma. — Shern!
Algumas cabeças se viraram. Nenhuma resposta.
Ela puxou o ar com força e correu.
— Garwin! — Cailynm chegou à barraca quase sem fôlego. — Thurstan!
Garwin ergueu a cabeça no mesmo instante.
— O que foi?
— A Shern sumiu.
Thurstan largou o talher, o prato ainda soltando vapor.
— Como assim, sumiu?
— Entrou no provador — disse Cailynm, as mãos descrevendo o espaço vazio. — Quando eu fui ver… não estava mais lá.
Garwin já se levantava.
— Será que ela foi atrás da Arastine?
— Impossível — disse Thurstan, falando rápido enquanto mastigava. — Ela bota o pé em Sam Brehim e— ah! — levou a mão à boca. — Queimei a língua.
— Foi a primeira coisa que eu pensei — disse Cailynm. — Mas como?
— Azlude fica longe daquele portal selvagem — murmurou Garwin. — Levamos a manhã inteira pra chegar aqui. E ela não tem—
Thurstan congelou no meio do movimento, copo suspenso a meio caminho da boca.
— Espera.
Garwin e Cailynm olharam para ele.
— Ela não teria como ir sozinha — disse Thurstan, mais lento agora. — A menos que…
— Que o quê? — Cailynm pressionou, um passo à frente.
Thurstan já estava de pé.
— A libélula.
Uma pausa curta e pesada se formou entre eles.
— Ela sabe onde fica — continuou ele. — Sabe pilotar. Quantas vezes ela voou com a Arastine?
Garwin fechou a mão ao lado do corpo.
— Droga.
— Só tem um jeito de saber — disse Thurstan, já se afastando da barraca. — Ir até a nave e ver se a minha libélula ainda tá lá.
Cailynm saiu correndo antes do fim da frase.
— Então para de falar e vem!
***
As dez naves sobreviventes mantinham distância curta umas das outras, alinhadas em níveis irregulares. Cascos marcados, velas rasgadas, cristais de sustentação trabalhando além do limite. A cidade abaixo estava totalmente visível — e o vazio onde a catedral deveria estar puxava os olhos como uma ferida aberta.
— Isso não faz sentido — disse um capitão no canal comum, a voz tensa. — A catedral era o eixo. Sem ela—
— Sem ela, nada do que estamos vendo se sustenta — cortou outro. — Essa cidade não devia estar… inteira.
O Brzeg avançava entre as demais. No convés, Marek permanecia encostado numa caixa de carga, engolindo uma poção espessa. A respiração ainda irregular. As mãos firmes à força.
— Depois — disse Arastine, seca. — A catedral vem depois.
Alguns protestos começaram ao mesmo tempo.
— Comandante—
— Se o secto moveu a catedral, precisamos—
— Depois! — repetiu ela, elevando a voz. — Agora temos necromantes, vampiros, e um dragão zumbi sobre nós. Pensar no secto não serve de nada se a gente cair antes.
Um rugido distante atravessou os canais. Não estava perto, mas era suficiente para apertar estômagos.
— Concordo com a comandante — disse uma voz grave. — Se não limparmos os conveses, a próxima queda vai ser em cadeia.
Pouco acima do Brzeg, a nave larga e pesada dos Branvek mergulhou para manter formação. O casco baixo era reforçado, cheio de remendos antigos.
No convés, três figuras se moviam em coordenação áspera: duas mulheres jovens seguravam a lateral de bombordo, alternando disparos, enquanto um rapaz cobria o centro do convés, girando a balista improvisada sob pressão constante.
— Mantenham a linha! — a voz de Branvek soou no canal, tensa demais para ser neutra.
— Linha mantida — respondeu uma das mulheres, sem esconder o esforço. — Mas eles tão vindo em bloco.
Um vampiro cravou-se na amurada, a prata atravessando o peito sem fazê-lo parar.
— Não avança sozinho — disse Branvek rápido demais.
Houve um segundo de silêncio.
— Tô no centro, pai — respondeu o rapaz.
Vampiros cravados de hastes de prata ainda tentavam avançar, presos às amuradas como parasitas.
— Eu não vou discutir isso no ar! — berrou Branvek no canal, a voz rouca. — Minhas filhas tão segurando vampiro no braço enquanto vocês filosofam! Decide logo!
— Então fala o que você tem! — retrucou outro capitão.
— Precisamos achar a catedral — insistiu alguém.
— E vamos — respondeu Arastine. — Depois de sobreviver.
Um impacto sacudiu uma das naves menores. Gritos atravessaram o canal e foram cortados de forma abrupta.
— Escuta — disse um capitão que ainda não tinha falado, escolhendo as palavras com cuidado. — Se tivéssemos um cilindro de pó sagrado… um só. Aglomerávamos as naves, alguém despejava de cima e limpava todos os necromantes e vampiros de uma vez.
O canal ficou silencioso por um instante curto.
— O pó os aniquilaria — concordou outra voz. — A ideia é boa. O problema é que todos os cilindros já foram usados.
— Todos, não — respondeu Branvek, ofegante. — O meu travou. A porcaria do compartimento não abriu durante o ataque. Tá inteiro.
As vozes se sobrepuseram.
— Tem certeza disso?
— Isso muda tudo.
— Dá pra liberar no ar?
— Dá — respondeu Branvek. — Mas alguém tem que vir aqui destravar. Meu pessoal tá ocupado demais pra largar o convés agora.
Outro rugido atravessou os canais. Ao fundo, a Avan’Devor cruzou o céu em alta velocidade, velas fechando e abrindo enquanto o dragão zumbi riscava o espaço acima dela, fora de alcance por enquanto.
Arastine já se movia.
— Preciso de dois voluntários no convés do Brzeg — disse ela. — Agora.
Uma nave menor respondeu primeiro.
— Aqui é o Corvo de Sal — disse uma voz jovem, firme demais para o cenário. — Enviando um espadachim e uma conjuradora. Alinhem o convés.
— Radan — chamou Arastine, sem tirar os olhos do entorno.
As naves se ajustaram com esforço.
— Lethan Var — anunciou o primeiro ao saltar.
Era alto, magro, pele escura marcada pelo sol, cabelos brancos presos num nó curto. Vestia couro leve reforçado nos ombros e empunhava uma espada curta de lâmina larga, já manchada.
Os olhos varriam o convés com atenção constante.
— Mira Tessel — disse a segunda voz ao tocar o piso logo depois.
Baixa, cabelos ruivos presos em tranças curtas, símbolos queimados ao longo dos antebraços. Um foco de cristal pendia no pescoço, já pulsando com calor contido.
— Vamos limpar isso rápido.
— Vocês ajudam o Marek a segurar o convés do Brzeg — disse Arastine. — Eu vou até os Branvek destravar o cilindro.
— Entendido.
Os dois rolaram pelo convés quase ao mesmo tempo quando as naves alinharam por um instante. Marek ergueu o machado num cumprimento breve, ainda pálido.
— Não morram — disse ele. — Vai me dar trabalho desnecessário.
Arastine desceu para a ponte. O capitão do Brzeg já girava o timão, ajustando a aproximação.
— Alinha com os Branvek — ordenou.
— Isso vai nos tirar mobilidade.
— Eu sei.
Ela se agachou, retirou as botas e puxou da bolsa um par de sandálias delicadas, ajustando as presilhas com rapidez mecânica. Da bolsa interna, separou dois frascos de pó de prata e os prendeu ao antebraço.
— Capitão Branvek — disse no canal. — Assim que eu pular, arremeta acima da formação. Pede pros seus filhos cessarem os tiros. Tenho uma surpresa pros necromantes e vampiros do convés.
— Comandante—
— Mantém curso.
O Brzeg começou a se aproximar da nave dos Branvek.
Do ponto onde Arastine corria pela amurada, o convés dos Branvek se abria abaixo, ainda tomado por vampiros.
As naves alinharam.
O Brzeg manteve o curso.
O vento cortava entre as naves alinhadas, fazendo velas rasgadas tremularem sem ritmo. A distância entre os cascos se fechava e se abria num intervalo perigoso.
— Segura! — gritou Radan da ponte.
Arastine deu dois passos para trás.
No convés do Brzeg, Marek desceu o machado num arco curto, abrindo a clavícula de um vampiro.
— Lethan, esquerda! — berrou. — Mira, segura esse!
— Já vi! — respondeu Mira, recuando um passo enquanto a magia em sua mão explodia em faíscas claras. — Não aguento dois ao mesmo tempo!
Um vampiro saltou da amurada.
— Atrás! — gritou Lethan.
A criatura caiu antes de completar o movimento, o corpo atravessado pela espada curta.
— Ainda vem! — Lethan recuou. — Isso não é normal!
— Se a Arastine soltar o cilindro, acaba tudo de uma vez! — rosnou Marek. — Continua lutando!
— Agora, comandante! — alguém gritou no canal comum.
Arastine correu.
— Mantém alinhado! — ordenou, passando pela amurada. — Não corrige!
— Isso vai dar problema! — respondeu Radan.
Ela saltou.
O convés do Brzeg desapareceu sob seus pés, substituído por vento e vazio.
— Arastine! — alguém gritou atrás.
As sandálias reagiram no meio da queda.
— Vai!
O estalo seco ecoou quando o impulso mágico a lançou para cima outra vez, arrancando exclamações dos conveses próximos.
— Ela pulou de novo? — alguém gritou, incrédulo. — No ar!
A nave dos Branvek veio ao encontro dela.
— Atenção no convés! — berrou Branvek, a voz estourando no canal. — Cabeças baixas!
Arastine caiu rolando entre os vampiros e as balistas.
— É ela! — gritou uma das filhas de Branvek. — Ela chegou!
Um necromante flutuava próximo à popa, mantos ondulando lentamente, símbolos girando ao redor do corpo.
— Não deixa conjurar! — gritou Branvek.
Arastine já tinha o frasco na mão, a boca cheia do pó de prata.
Ela saltou alto, passando por cima dos vampiros, ficando frente a frente com o necromante.
Soprou.
— Agora—
A nuvem prateada atingiu o necromante em cheio.
O grito veio imediato, atravessado por dor e surpresa. Os símbolos falharam em sequência.
— Tá caindo! — gritou uma das filhas de Branvek.
— Ele tá caindo!
O corpo despencou, batendo pesado no convés.
— Continua! — berrou Branvek. — Ainda tem mais!
Arastine girou o corpo, cuspindo o conteúdo do segundo frasco sobre os neófitos remanescentes.
A prata varreu o convés em arco baixo. Vampiros recuaram tropeçando, a pele borbulhando, asas dobrando em ângulos errados.
— Pela amurada! — gritou uma das filhas, avançando.
— Joga pra fora!
Um corpo foi empurrado além da borda.
— Caiu! — alguém confirmou. — Sumiu!
— Ainda tem dois! — gritou o filho de Branvek, disparando a balista. — À direita!
Arastine puxou a espada.
— Não cheguem perto!
Ela avançou num giro horizontal. Por um instante, o convés ficou limpo.
— Funcionou… — alguém arfou.
Arastine deu um passo à frente.
— Não acabou — disse. — Ainda precisamos nos posicionar.
A nave começou a ganhar altitude. O vento engrossou à medida que se aproximavam da nuvem negra.
— Branvek — chamou Arastine, sem tirar os olhos do céu. — Onde fica o cilindro?
— Popa! Compartimento no casco! — respondeu ele. — Vou mandar o meu garoto com você!
O dragão passou próximo, cortando o ar acima deles — mas não atacou.
O porão da nave dos Branvek vibrava a cada ajuste brusco de rota. O casco rangia, placas de metal gemendo sob esforço excessivo.
— É aqui — disse o rapaz, erguendo a lanterna trêmula. A voz era baixa demais para o espaço. — O compartimento do lançador.
Arastine ajoelhou diante do painel deformado. As travas estavam tortas, presas por um impacto antigo.
— Tá tudo destruído — comentou ela, avaliando rápido.
— Meu pai disse que—
— Fica atrás de mim.
O tom não deixou espaço.
Ela forçou a primeira alavanca. Nada.
No canal comum, vozes se atropelavam.
— Alinhando agora!
— Espera a ordem da comandante!
— Segura essa altitude!
O garoto segurava a grade lateral, os nós dos dedos brancos.
— As naves estão quase prontas — disse, engolindo seco. — Se isso soltar—
Um impacto brutal sacudiu tudo.
O chão subiu. Depois caiu.
— Dragão! Nos Branvek! — alguém gritou no canal.
O casco estalou. Uma placa cedeu parcialmente, arrancando a grade onde o garoto se apoiava.
— Não! — ele gritou.
O corpo foi puxado para fora do eixo do porão, metade suspensa no vazio, as pernas batendo contra o metal.
— Segura! — Arastine largou o painel por um instante, estendendo o braço.
Não alcançou.
O garoto pendia agora só pelas mãos. O vento arrancava o ar de seus pulmões.
— Comandante! — a voz de Branvek explodiu no canal. — O que tá acontecendo aí?
Outro impacto distante. Pela abertura no casco, as naves abaixo começavam a se alinhar, pequenas e próximas demais.
— Comandante Arastine! — gritou o garoto agarrado no cilindro, a voz falhando. — Eu não consigo—
Ela olhou para o painel.
As travas estavam quase livres.
Olhou para fora.
O aglomerado de naves se formava abaixo, conveses infestados, necromantes ainda flutuando entre elas.
— Agora ou nunca! — berrou Branvek no canal.
O garoto escorregou mais um palmo.
— Por favor—
Arastine puxou a última trava.
O mecanismo respondeu com um estalo pesado.
— Eu esperei tempo demais pra fingir que dava pra salvar todo mundo — disse ela, sem elevar a voz.
O garoto ergueu o rosto. Entendeu.
— Não—
Ela empurrou o cilindro.
O compartimento se abriu num solavanco violento.
O cilindro deslizou, ficou preso por um segundo… e então se soltou.
O garoto caiu junto.
— Conseguiu? — a voz de Branvek surgiu, urgente, no comunicador.
— Conseguimos — respondeu Arastine, firme demais para a situação.
— Isso! — o grito atravessou o canal.
O cilindro despencou.
No ar, sob a formação alinhada, ele se rompeu.
Uma explosão branca e silenciosa se espalhou como névoa sólida.
O pó sagrado caiu em cascata.
Necromantes gritaram primeiro. Vampiros depois. Corpos se desfizeram, asas se dobraram em ângulos errados, símbolos ruíram em sequência.
Estilhaços do cilindro cruzaram o ar junto com a luz.
O corpo do garoto foi atingido antes de desaparecer nas nuvens.
Silêncio.
No porão, Arastine permaneceu imóvel por um segundo.
Depois se virou.
— Pronto — disse no canal. — Agora só falta o dragão.
***
A ponte suspensa de Azlude se estendia larga sobre a queda d’água interminável. A névoa subia em colunas lentas, abafando sons e deixando o ar úmido. A Alghoryn estava ancorada ali, casco quieto, velas recolhidas.
O compartimento de carga estava aberto.
— …Garwin, ali — disse Thurstan, diminuindo o passo, a voz já carregada de suspeita. — Pra nossa ideia não se confirmar, só se tiver sido ladrão.
Garwin seguiu o olhar dele.
— Tá escancarado — respondeu, seco.
Cailynm parou de vez.
A boca do compartimento se abria para a rua como uma ferida mal fechada. Correntes soltas pendiam de um dos lados. Não havia movimento lá dentro.
— Não faz sentido — murmurou Thurstan, passando a mão pela testa. — Eu tranquei antes de sair.
— Alguém mexeu — disse Garwin, já se aproximando, o olhar varrendo o interior. — Ou—
— Ou ela mexeu — completou Cailynm, firme demais para quem ainda tentava manter o controle.
Um homem do ancoradouro se aproximou, enxugando as mãos num pano sujo.
— Vocês são os donos da nave?
— Somos — respondeu Garwin, sem rodeios. — O que houve?
— Uma garota saiu daí agora há pouco — disse o homem, apontando com o queixo. — Pegou um veículo pequeno. Rápida. Quase derrubou um carregador.
Cailynm puxou o ar devagar.
— Ela machucou alguém? — perguntou, contida.
— Não. — O homem balançou a cabeça. — Assustada, mas sabia o que tava fazendo.
Thurstan passou a mão pelo rosto, os dedos afundando nos cabelos.
— Libélula… — disse, baixo demais. — Era a minha.
— Então não tem mais dúvida — concluiu Garwin.
Eles entraram na Alghoryn sem dizer mais nada. O interior estava exatamente como antes. Nada revirado. Nada quebrado. Apenas o vazio onde algo não deveria faltar.
Thurstan puxou a alavanca manual. O compartimento de carga começou a se fechar, rangendo até selar por completo.
O som ecoou mais do que deveria.
— Ela foi atrás daquela mulher — disse Cailynm, sem levantar o olhar.
Ninguém respondeu.
Garwin ficou parado por um instante, encarando a porta fechada, como se ainda esperasse que algo mudasse.
— Maldita Arastine — disse por fim, sem elevar a voz.
— Pois é — murmurou Thurstan, amargo. — Ela deu um jeito de puxar a gente pra guerra dela.
Cailynm cruzou os braços, o olhar fixo no chão da nave.
— Eu tô mais preocupada com a Shern — disse, a tensão finalmente aparecendo. — Ela não tinha nada. Nenhum recurso. Nenhuma proteção.
— Então não é escolha — concluiu Garwin. — Se ela entrou na guerra da Arastine…
Fez uma pausa curta.
— …Thurstan, você pilota. Eu vou ficar na balista.
— Tem certeza? — perguntou o homem loiro, já caminhando para a ponte.
— Não temos escolha — respondeu Garwin. — Vamos ter que entrar nessa guerra também.
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