Volume 4
Capítulo 31: A Cobertura Negra
As ruínas flutuavam abaixo como ossos antigos arrancados do chão do mundo. Blocos de pedra cobertos por musgo seco pairavam no ar, imóveis, enquanto raízes petrificadas se projetavam de estruturas quebradas, suspensas sobre o vazio. Nenhuma muralha completa, nenhuma torre inteira — apenas fragmentos de um passado que não caíra, apenas se recusara a tocar o solo novamente.
Acima delas, os aeroplanos se alinhavam.
Trinta cascos de formatos distintos ocupavam o espaço aéreo com precisão contida. Alguns brilhavam demais para aquele cenário, outros exibiam remendos grosseiros, placas substituídas e inscrições rúnicas feitas às pressas. Cordames rangiam sob a pressão do vento irregular. Velas mágicas ondulavam sem ruído. Não havia gritos nem celebrações — apenas sinais manuais, ordens curtas transmitidas por comunicadores e olhares trocados entre pessoas que sabiam que nem todos voltariam.
À frente da formação, a Alghoryn pairava firme, imóvel, servindo de eixo. Uma após a outra, as naves menores ajustavam posição atrás dela, mantendo distância calculada, como se precisassem daquele ponto fixo para não se dispersarem.
À frente das ruínas, o ar estava… errado.
A luz não se comportava como deveria. Ondulava, falhava, desaparecia em trechos irregulares. A fenda aberta no espaço não tinha contorno definido; expandia e contraía em pulsos lentos, como algo respirando do outro lado.
— Não tem anel nenhum — resmungou uma voz pelo comunicador aberto. — Não passa de um portal selvagem num setor de segurança nula.
— Setor sem ancoragem — confirmou um capitão, passando por Garwin. — Se isso colapsar, a gente vai ter que refazer a rota em vinte portais.
Arastine estava alguns passos à frente, na ponte de comando improvisada, coordenando os últimos ajustes. Falava pouco. Apontava. Assentia. Corrigia o alinhamento de uma nave com um gesto seco da mão. O corpo permanecia tenso, rígido, como se cada movimento estivesse sendo segurado à força no lugar certo.
Garwin, Cailynm e Thurstan observavam em silêncio, lado a lado. Como testemunhas de um ato final.
Thurstan foi o primeiro a se aproximar.
— Não era assim que eu imaginava o fim das nossas grandes aventuras — disse, tentando sorrir. — Normalmente envolviam vinho ruim… e uma aposentadoria branda.
Arastine virou o rosto para ele.
— Crescemos — respondeu.
O canto da boca se moveu, um quase-sorriso que não chegou aos olhos.
Thurstan inclinou a cabeça.
— Volta viva.
Ela assentiu uma única vez. Nada mais.
Cailynm aproximou-se em seguida. Parou diante de Arastine com postura impecável, mãos unidas à frente do corpo.
— Boa sorte — disse.
A voz era correta demais. Educada demais. Distante.
Arastine sustentou o olhar por um segundo além do necessário.
— Obrigada.
Garwin foi o último.
Ficaram frente a frente por um tempo longo demais para ser apenas uma despedida. O ruído baixo dos instrumentos da nave preenchia o espaço entre eles. Ao fundo, um aeroplano soltou os cabos de ancoragem com um estalo seco, metálico.
— Que isso acabe rápido — disse Garwin.
— Rápido — concordou Arastine. — E do jeito certo.
O silêncio que se seguiu foi denso, pesado, quase físico.
Ela desviou o olhar primeiro.
— Posso me despedir da Shern.
Garwin arqueou uma sobrancelha.
— Já não fez isso antes?
— A última vez. Antes de ir.
Ele hesitou apenas o tempo de uma respiração.
— Tudo bem. — Fez um gesto curto com a mão. — Mas rápido.
Cailynm mudou o peso do corpo de um pé para o outro. Os ombros estavam rígidos. Não disse nada.
***
O quarto de Shern estava silencioso demais para aquele momento.
Ela estava sentada diante do pequeno espelho metálico, penteando o próprio cabelo com movimentos repetidos, concentrados. O reflexo devolvia um rosto sério demais para alguém da sua idade.
— Posso entrar? — perguntou Arastine, da porta.
Shern virou o rosto.
— Pode.
Arastine fechou a porta atrás de si. Aproximou-se sem pressa. Observou o movimento do pente por um instante antes de falar:
— Ficou melhor na cor original. Por que trocou?
— Era para outra pessoa — respondeu Shern. — Mas não deu certo.
— Ah é?
Shern assentiu.
Arastine levou a mão ao bolso interno do casaco e retirou uma pulseira. O metal dourado captou a luz fraca do quarto. Entre os elos grossos, a pedra negra parecia absorver o brilho ao redor, recusando qualquer reflexo.
Ela colocou o objeto na palma da mão de Shern.
— Estou indo. Isso é um presente de despedida.
Shern franziu o cenho.
— Uma pulseira de ouro? — ergueu um pouco a mão. — É… pesada.
Arastine inclinou levemente a cabeça.
— Sim. Como o peso de algumas escolhas.
Shern passou o dedo pela pedra. Por um instante, o ar ao redor pareceu se fechar sobre si mesmo. Nenhuma vibração mágica. Nenhum eco. Um silêncio estranho.
— O que ela faz? — perguntou.
Arastine sorriu. Pequeno. Enigmático.
— Ela te dá uma chance.
— Chance de quê?
— De decidir quando entrar… e quando ficar de fora.
Ela fechou a mão de Shern em torno da pulseira.
— Nem toda porta precisa ser atravessada quando está aberta.
Shern não respondeu.
Arastine se afastou e abriu a porta.
— Cuide-se, pequena.
***
No convés, outro aeroplano já se aproximava da Alghoryn. O capitão gritou da ponte:
— Vocês não vêm?
Garwin respondeu sem elevar a voz:
— Não. Do outro lado já é Sam Brehim. Estamos com a Shern.
O capitão assentiu.
— Boa sorte, então.
Um a um, os aeroplanos começaram a passar pela Alghoryn, cruzando a fenda no ar. Cada casco desaparecia com uma distorção breve, como se o mundo piscasse ao engoli-los.
Garwin observava em silêncio.
Alguns passos atrás, Shern chegou, com a pulseira ainda em mãos.
Arastine os cumprimentou com a cabeça uma última vez. Depois saltou a curta distância entre o convés da Alghoryn e o da nave alinhada. Não olhou para trás.
O silêncio se estendeu depois que o último aeroplano desapareceu.
Garwin continuava apoiado no corrimão do convés, o olhar preso ao vazio onde Arastine sumira. Thurstan soltou o ar devagar, cruzando os braços. Cailynm ajeitou a manga da blusa — um gesto automático, quase defensivo.
Shern ficou ali por alguns segundos, observando os três.
— Por que a gente não foi? — perguntou.
A pergunta saiu simples, sem acusação. Crua.
Cailynm foi a primeira a responder, sem olhar para ninguém em particular.
— Porque seu aniversário está chegando.
Shern franziu a testa.
— E…?
— Quinze anos — continuou Cailynm. — É uma das datas mais importantes na vida de uma mulher.
Thurstan inclinou a cabeça.
— Não era o casamento?
Garwin e Cailynm viraram o rosto para ele ao mesmo tempo.
— Não — disseram, em uníssono.
Thurstan ergueu as mãos, rendido.
— Certo. Só conferindo.
O silêncio voltou a se acomodar entre eles. Shern deu alguns passos à frente, parando ao lado do pai.
— Mas… — disse, ainda olhando para o lugar onde o portal estivera — por que vocês não foram ajudar a tia Arastine?
Garwin demorou a responder.
— Porque é perigoso — disse, por fim. — E porque essa luta é dela.
Shern virou-se para ele.
— Mas vocês ajudaram antes.
— Ajudamos — confirmou Garwin. — Com dinheiro. Bastante. E com contatos. Pilotos, mercenários, informações.
— Mesmo assim — insistiu Shern. — Ela vai enfrentar um secto inteiro.
Garwin apoiou os dois antebraços no corrimão.
— E é por isso mesmo.
Ela inclinou a cabeça, confusa.
— Eu não entendo.
Garwin respirou fundo.
— Sam Brehim não é como os outros lugares.
Cailynm permaneceu em silêncio, o olhar atento.
— O reino tem uma barreira — continuou Garwin. — Não é física. É… outra coisa. Ela reage quando alguém que não é daquele mundo entra nos limites.
Shern piscou.
— Reage como?
— Avisa o governo.
Thurstan completou, sério:
— E quem é detectado… é caçado.
Shern engoliu em seco.
— Caçado?
— Até morrer — disse Garwin, sem suavizar.
Ela olhou ao redor do convés.
— Mas… — apontou vagamente — tem um monte de gente aqui que não é de Sam Brehim.
Garwin virou o rosto para ela.
— Filha, o problema não é ser de Jillar, Trinn ou até mesmo do Reino do Dragão — corrigiu. — O problema é não ser deste mundo.
Shern percorreu os rostos, um a um.
Garwin.
Cailynm.
Thurstan.
Depois, baixou o olhar para as próprias mãos.
— Então… — começou, mas a frase morreu antes de existir.
Cailynm tocou o ombro dela, firme.
— Esquece isso, minha filha.
Garwin se afastou do corrimão e começou a descer para a ponte.
— Vamos para Jillar — disse. — Lá deve haver um vestido que combine com o seu cabelo.
Shern não respondeu.
A pulseira pesava em suas mãos delicadas.
***
A nuvem negra não tinha borda.
Espessa demais para ser neblina, densa demais para ser natural. O aeroplano avançava po dentro dela como um corpo estranho, o casco rangendo baixo, os símbolos de sustentação pulsando em intervalos irregulares.
— Mantém o Brzeg estável — disse uma voz no comunicador. — Essa coisa não dá referência nenhuma.
A visibilidade não ia além de algumas dezenas de metros. Acima, sombra. Abaixo, sombra. O mundo parecia reduzido àquele espaço estreito ao redor da nave.
— Não é uma nave feita pra liderar formação — respondeu outra voz. — Mas é o que temos mais próximo da Alghoryn aqui na frente.
O nome Brzeg aparecia pintado de forma simples na lateral do casco, já desgastado pelo tempo. Sem estandartes. Sem cores chamativas. Um aeroplano de suporte — menor, menos imponente, mas sólido o suficiente para estar ali.
Na ponte, Arastine permanecia de pé, mãos apoiadas na borda metálica da mesa de navegação. O olhar não se fixava em ponto algum — acompanhava o movimento da nuvem, os instrumentos, os sinais intermitentes das outras naves surgindo e desaparecendo no véu escuro.
— Mantém curso, capitão Radan — disse ela, sem elevar a voz.
O capitão respondeu de imediato.
Radan, de barba curta já grisalha, tinha o corpo inclinado para a frente, como se o aeroplano fosse uma extensão direta dos seus braços. Os olhos não largavam o horizonte opaco à frente.
— Curso mantido, Comandante. — Ajustou os controles com precisão. — Se essas nuvens engrossarem mais um pouco, vamos começar a perder referência.
— Então solte os construtos — respondeu Arastine. — Quero leitura da área encoberta. Eles podem nos dar sustentação visual.
Radan franziu levemente o cenho.
— Comandante… nossos construtos não são como os da Alghoryn — disse, sem desviar o olhar da cortina negra. — E eu não sou o Garwin.
— Tudo bem, capitão. — Arastine se afastou um passo, enquanto o comunicador começava a encher de vozes sobrepostas. — Iseya. Verifique a estabilidade desse campo sombrio.
Atrás deles, junto ao painel de leitura arcana, Iseya acompanhava os fluxos mágicos em silêncio concentrado. Jovem, magra, cabelos presos de forma descuidada. Os dedos se moviam rápidos entre cristais e runas, anotando variações quase imperceptíveis.
— Campo sombrio estável — disse ela, por fim. — Uniforme em todas as direções. Não parece… natural.
Arastine não respondeu de imediato.
— Não é — disse depois. — Consegue mapear a cidade?
Iseya balançou a cabeça.
— Não, senhora. Temos trinta aeroplanos no setor… — hesitou — mas, com essa cobertura, a dispersão vai ficar irregular.
— Justamente por isso.
A frase veio do outro lado da ponte.
O homem estava encostado perto da escotilha lateral. O rosto marcado por cicatrizes antigas, a armadura leve claramente adaptada e remendada mais de uma vez.
— Se a cidade é dominada pelos mortos — comentou Marek — qual a chance de ainda ter gente viva lá embaixo?
— Eles precisam das pessoas — respondeu Arastine. — Para sustentar o culto ao arcebispo. — Fez uma pausa curta. — E para alimentar os vampiros.
Ninguém respondeu. O comentário ficou suspenso no ar, pesado.
Um sinal luminoso piscou no painel central: outra nave surgia pelo flanco direito, quase invisível dentro da névoa.
— Brzeg, aqui Andorinha Rubra — disse uma voz firme no canal lateral. — Estamos mantendo altitude, mas essa cobertura está nos empurrando para cima. Sensores instáveis, nada visual ainda.
Arastine ativou o comunicador central. O estalo mágico percorreu a ponte.
— Atenção, esquadrão — disse, a voz firme, alcançando todas as naves. — A cobertura está mais densa do que o previsto. Se mantivermos formação fechada, o pó não vai cobrir área suficiente.
Respostas surgiram no canal, sobrepostas. Confirmações curtas. Tensões mal disfarçadas.
— Abrir formação — continuou Arastine. — Aumentem o espaçamento. Quanto mais área purificada, melhor a chance de empurrar o que estiver lá embaixo para dentro da catedral.
Radan virou o rosto por um instante.
— Aumentar o espaçamento aqui vai nos deixar expostos, Comandante.
— Eu sei.
— E se eles reagirem—
— Se eles reagirem — cortou Arastine — qual vai ser a diferença de estarmos juntos ou separados?
Silêncio.
Então, uma voz distante no canal:
— Ordem recebida. Abrindo formação.
Uma a uma, as presenças luminosas começaram a se afastar no painel. O esquadrão se espalhava dentro da nuvem negra, cada aeroplano assumindo sua posição.
Marek descruzou os braços.
— Então é agora.
Arastine assentiu.
— Preparem a carga.
Compartimentos laterais se abriram com barulhos abafados. Cilindros deslizaram para fora, presos apenas pelos mecanismos de liberação. Um brilho pálido escapava das fendas — o pó sagrado pronto para ser lançado.
Arastine observou os indicadores, calculando mentalmente tempo, altura, ausência de vento.
— No meu comando.
O Brzeg avançava cego dentro da noite artificial.
— Três…
A nuvem parecia se fechar um pouco mais ao redor da nave.
— Dois…
Os cilindros vibraram.
— Um.
Ela baixou a mão.
— Liberar.
E o pó sagrado deixou o aeroplano, desaparecendo imediatamente dentro da escuridão.
— Ótimo. Vamos avaliar o efeito do pó. — disse Arastine, caminhando até a janela do aeroplano.
No instante em que falou, as luzes da ponte piscaram junto com os instrumentos.
— O que é isso?
— Comandante… — a voz de Iseya surgiu baixa, tensa demais para ser rotina.
Arastine não se virou.
— Fale.
Os dedos da jovem pararam sobre os cristais de leitura. Um deles havia perdido o brilho. Outro oscilava entre tons que não deveriam coexistir.
— O fluxo não está reagindo ao pó — disse ela. — Não como deveria.
No visor externo, nada mudara. A nuvem negra continuava absoluta. Nenhuma abertura. Nenhum recuo. O brilho pálido que deveria se espalhar pela massa escura simplesmente desaparecera.
— Confirme — pediu Arastine.
Antes que Iseya respondesse, o comunicador estalou.
— Aqui é a Vaga-Lume Destemida — disse uma voz diferente, mais jovem. — Lançamos carga completa. Não houve dispersão luminosa. Repito: nenhuma reação visível.
Outra voz entrou logo depois, sobreposta.
— Lança-Aurora confirmando. O pó… sumiu. Como se tivesse sido engolido.
Arastine fechou os olhos por um instante curto demais para ser hesitação.
— Uma contramedida mágica — concluiu. — Não falha de execução.
Ela endireitou o corpo.
— Todos os conjuradores de vento, agora. Magos e construtos. Concentração máxima. Precisamos abrir essa cobertura.
Radan virou o rosto para ela.
— Isso vai nos deixar expostos.
— Já estamos — respondeu Arastine.
Runas de ativação acenderam ao longo do Brzeg. Em outras naves, pontos de luz surgiram e desapareceram dentro da névoa, marcando o início dos encantamentos. O ar começou a se mover de forma errada — não como vento, mas como pressão sendo empurrada contra si mesma.
Por um instante, nada aconteceu.
Então a nuvem tremeu.
Não se dissipou. Resistiu. Como algo reagindo ao toque.
— Está cedendo — disse Iseya, com esforço. — Pouco, mas—
O comunicador estalou novamente.
— Aqui é a Andorinha Rubra — disse o capitão, a voz subitamente mais rápida. — Comandante… vi alguma coisa passar acima de nós.
Arastine virou o rosto para o painel.
— Descreva.
Houve um chiado.
— Grande. Muito grande. Não foi—
A transmissão se quebrou no meio da frase.
— Andorinha Rubra, responda — disse Radan, já ajustando os controles. — Andorinha Rubra, aqui Brzeg. Confirme status.
Nada.
No painel, um ponto luminoso piscou… e se apagou.
— Perdi o sinal — disse Iseya, a voz quase um sussurro. — Não é interferência comum.
Arastine ativou o canal geral.
— Todos os aeroplanos, atenção. Mantenham altitude. Reforcem os escudos. Algo está se movendo acima da cobertura.
A nuvem, finalmente, começou a se abrir.
Não como um céu se limpando, mas como uma cortina sendo afastada à força.
E então, por um único instante, algo passou sobre o Brzeg.
Não houve rugido. Nenhum impacto.
Apenas uma sombra imensa, vermelha escurecida pela morte, cruzando o pouco espaço aberto entre as nuvens — asas largas demais, corpo impossível de medir, costelas expostas como arcos quebrados.
— …Dragão — murmurou alguém, sem perceber que falava em voz alta.
A sombra desapareceu dentro da neblina do outro lado, como se nunca tivesse estado ali.
Arastine fechou a mão com força.
— Preparem a descida — disse. — Perdemos o céu.
E a nuvem começou a se fechar outra vez.
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