Volume 4
Capítulo 30: A Linha Invisível
O estaleiro tinha pouca atividade quando a Alghoryn atracou. Gruas deslizavam sobre trilhos suspensos, levantando placas de casco. Martelos arcanos estalavam com ritmo irregular, e o cheiro de cânhamo quente misturado ao de pedra encantada se espalhava pelo ar.
— No estaleiro? — perguntou Thurstan. Os olhos ainda carregavam o peso do sono.
— Só uma revisão no casco e nas velas — respondeu Garwin, observando os mecânicos prenderem ganchos na borda da Alghoryn para aproximá-la do atracadouro.
— Muito bom. Aproveita e fala com a Arastine — disse Thurstan, sentando na cadeira da ponte. — Ouvi a Shern dizer que ela tinha uma balista meio ruim.
Garwin franziu o cenho.
— Sério? Fiquei sabendo sobre isso agora. Por você.
— Ela anda estranha — completou Thurstan.
— Qual delas?
— Qual delas? — Thurstan abriu os braços. — As duas.
Garwin apenas assentiu. O casco tocou leve no encaixe de pouso.
Lá embaixo, um homem acenava para eles. Alto, barba mal aparada, uniforme manchado de fuligem.
— Olha o Giezer ali — disse Thurstan, apontando.
— Sim. Quanto à Arastine, deve ser por causa dessa revolução — disse Garwin. — Chame elas. Vamos descer. E não conte nada disso que conversamos pra ninguém.
Garwin desceu pela rampa. Cailynm veio atrás, e Shern caminhava ao lado de Arastine — ombro com ombro, observando uma grande peça metálica sendo empurrada por mecânicos.
Giezer se aproximou.
— Vocês sumiram por meses — disse ele. — Garwin! Por todos os deuses, você não vai acreditar onde eu fui parar.
— Não imagino mesmo — respondeu Garwin, aproximando-se do grupo de mecânicos em volta do aeroplano dele.
A nave era pouco maior que a Alghoryn. O casco prateado tinha uma crosta escura agarrada às placas como ferrugem viva.
— Caramba, Giezer. Agora eu fiquei curioso. Por onde você conseguiu essa ferida? — perguntou Thurstan.
— Portal selvagem — disse ele. — Um atalho que virou inferno. Literalmente. Caí num plano inferior… areia preta por todo lado e diabo saindo de tudo que é buraco. Aí essa crosta grudou quando voltei. — Ele bateu no casco; uma lasca caiu, soltando cheiro sulfuroso. — Tão tentando raspar isso desde cedo.
Dois mecânicos se aproximaram com ferramentas longas. A primeira batida arrancou um pedaço maior. A segunda abriu uma rachadura.
Algo se mexeu por dentro.
— Opa, opa… — murmurou um dos mecânicos, recuando.
A rachadura estourou.
Cinco diabretes saltaram para fora — pequenos, de pele avermelhada, com asas curtas, com garras afiadas, com olhos brilhando de amarelo.
— Demônio! — gritou um mecânico.
— É diabrete, seu burro! — o segundo berrou, tentando se defender com a ferramenta.
Os diabretes avançaram.
Um mordeu a panturrilha de um mecânico, derrubando-o. Outro subiu no ombro do colega e arranhou o rosto dele, abrindo três linhas de sangue. Os demais se espalharam no estaleiro, derrubando caixas e atacando qualquer coisa que se movesse.
— Paus de fogo primo! Vai, pega os paus de fogo! — gritou Giezer.
Os mecânicos correram até o armário de emergência. Três deles voltaram com bastões de madeira antiga entalhada, cuspindo tiros arcanos instáveis. As rajadas explodiram em faíscas, errando mais do que acertavam.
— Passa um pra mim! — gritou Thurstan, tomando o bastão das mãos trêmulas de um mecânico ferido.
O disparo acertou um diabrete em cheio. A criatura retorceu metade do corpo antes de cair morta.
A crosta estourou mais uma vez.
Dessa vez, mais de vinte diabretes saltaram.
— Ah não… — disse Garwin. — Giezer, Thurstan, pra dentro! Arastine, Shern, prepara as balistas!
A confusão se espalhou pelo estaleiro.
Cailynm puxou Shern por reflexo — mas Shern se desvencilhou.
Arastine não se moveu.
Os diabretes encurralaram um mecânico no canto do convés. O homem ergueu o pau de fogo com as mãos tremendo; o tiro atingiu uma caixa atrás dele, fazendo runas se acenderem.
O diabrete abriu as asas e avançou.
— Shern! — gritou Cailynm, estendendo o braço.
Shern ergueu a mão.
A luz ao redor dos dedos dela se dobrou em um tom azul-violeta-prateado. O ar ondulou, como se o espaço recolhesse fôlego.
A onda cresceu.
Silenciosa.
Depois brutal.
A energia se expandiu num arco com força cortante. Os diabretes foram atingidos em cheio — jogados contra o casco do aeroplano, corpos pequenos esmagados com estrondos secos.
O grupo de cinco se desfez em massa rubra.
Shern virou o rosto para o restante.
— Agora é a vez de vocês.
A onda seguinte implodiu os diabretes que restavam. O líquido de seus corpos espirrou contra o chão enquanto os ossos viravam pó comprimido, caindo em pedacinhos minúsculos.
O estaleiro congelou.
Os mecânicos ficaram imóveis. Alguns levaram a mão à boca; outros cambalearam para trás. Giezer olhou para Shern sem piscar, como quem tentava entender o que estava diante dele.
Garwin e Cailynm permaneceram parados por um instante. Thurstan deixou o pau de fogo cair; o artefato tilintou no chão.
Arastine foi a única que manteve o rosto neutro.
Ela colocou a mão no ombro de Shern.
— Bom trabalho — disse, baixo.
Shern apenas piscou.
— Eu só ajudei.
Os sussurros começaram:
— O que ela é?
— Isso não é magia humana.
— Descendente dos féericos… mas desse jeito?
O dono do estaleiro atravessou a multidão apoiado em uma muleta metálica. A barba branca e curta tremia levemente com a respiração acelerada. Ele parou diante de Shern, depois virou para Garwin.
— Garwin… — disse, ainda olhando para os restos dos diabretes. — Eu não sabia que a tua menina tinha poderes desse tamanho.
Garwin manteve o olhar firme.
— Nem eu — respondeu. — E depois disso tudo, vou ter que conversar com ela.
O velho respirou fundo e assentiu. Ajustou a postura e limpou a poeira do uniforme com a palma da mão, como se tentasse retomar a normalidade.
— E então… o que veio fazer no estaleiro?
— Troca de velas e cabos. Revisão no casco. Só isso.
O dono do estaleiro observou a crosta escura grudada na nave de Giezer. Depois olhou para Shern mais uma vez antes de falar:
— Quer fazer uma troca? Eu acelero tua revisão. Em troca… — apontou para a crosta — se sair mais algum diabrete desses, queria a ajuda dela.
Cailynm fechou o rosto na hora. Cruzou os braços e desviou para o lado, com a respiração curta.
Garwin olhou para ela.
Antes que ele respondesse, Shern deu um passo à frente.
— Pai… — disse, a voz baixa. — Eu posso ajudar. Deixa eu ajudar.
Garwin passou a mão na testa. Ficou alguns segundos parado, olhando para a crosta e para os mecânicos feridos.
— Tá — disse enfim. — Dessa vez eu deixo. Mas depois… nós vamos conversar.
Shern assentiu rápido.
Cailynm virou de costas sem dizer nada e subiu a rampa da Alghoryn com passos duros.
Garwin começou a segui-la, mas parou no meio do caminho. Virou o rosto para Arastine.
Ela estava parada, observando Shern. Nenhum músculo do rosto dela se moveu.
Garwin falou sem levantar a voz:
— Você e eu temos muito a conversar.
Arastine apenas inclinou o queixo, mínima e lentamente.
A porta do alojamento fechou, abafando o som distante dos mecânicos no estaleiro. O quarto estava em meia penumbra; a luz azulada do cristal de leitura se refletia nas paredes metálicas, fria e imóvel.
Cailynm entrou primeiro. Os ombros estavam tensos, e o passo firme marcava o chão com raiva contida.
Garwin veio logo atrás.
Ela parou no centro do quarto, sem olhar para ele.
— Você me desautorizou — disse, a voz baixa e firme. — Na frente de todo mundo.
Garwin inspirou devagar, escolhendo o ritmo mais que as palavras.
— Eu não podia negar ajuda aos mecânicos. Eles estavam feridos, assustados. Nós tínhamos como ajudar.
— Podia negar, sim. — Ela virou o rosto; a luz desenhou a linha rígida da mandíbula. — Podia ter dito “não” como pai. Como mãe. Como família.
— Se mais diabretes saíssem e alguém morresse enquanto eu dizia “não”, o que você ia fazer?
Cailynm deu um passo para ele.
— Isso não é sobre mecânicos. — Tocou o próprio peito. — É sobre a nossa filha.
Garwin apoiou a mão no encosto da cadeira, firme, mantendo a postura.
— Eu vou conversar com ela. Vou conversar com a Arastine. Eu sei que—
— Sabe? — Ela cortou, rápida. — Então me explica. Me explica por que essa mulher entra e sai da nossa nave quando quer. Por que decidiu treinar a nossa filha sem falar comigo. Por que tudo que eu digo é atropelado quando Arastine dá um sorriso e passa a mão no ombro da Shern.
O silêncio que se seguiu pareceu ocupar todo o quarto.
Garwin se aproximou um passo.
— Cailynm… lembra da vez da Quindia? Você agiu sozinha porque estava com medo. Fez tudo para proteger a gente. E ninguém te culpou. Nem eu.
O corpo dela ficou rígido ao ouvir o nome.
Garwin continuou, sem levantar a voz:
— O que aconteceu com a cidade da Arastine também quebrou ela. Ela perdeu um olho, quase morreu, lutou por nós, lutou por você. E nunca cobrou nada. Nunca jogou nada na cara de ninguém.
— A mártir perfeita — ela soltou, num sopro áspero.
Garwin respirou fundo; o ar do quarto pareceu mais pesado.
— Ela não é mártir. Mas está ferida. E pessoas feridas fazem coisas confusas. Você sabe disso melhor do que ninguém. Isso não quer dizer que eu esteja escolhendo ela ao invés de você. Eu só estou tentando entender o que está acontecendo antes de sair acusando.
Cailynm aproximou o rosto do dele, sem encostar.
— Enquanto você “entende”, ela está pegando a nossa filha pra si. Está ocupando o meu espaço.
A voz dela vacilou por um instante.
— E eu não tenho mais tanto espaço assim, Garwin. Você sabe.
Garwin ergueu as mãos e tocou os braços dela de leve.
Ela não recuou, mas o corpo ficou tenso.
— Eu não quero que ela tome o seu lugar — disse ele. — Nem que use a Shern pra nada. Mas eu preciso saber se ela está fazendo isso de propósito ou não. Não posso chegar acusando sem saber.
Cailynm afastou as mãos dele.
— Você vai conversar com ela. — Os olhos dela estavam firmes, brilhando nos cantos. — Mas olha pra mim: você quer ver a nossa filha morta? Ensanguentada? Por causa de uma guerra que nunca foi dela?
— Arastine jamais—
— Não fala isso. — A frase dela veio afiada. — Você não sabe. Não sabe mais do que ela é capaz. Nem do que pode convencer uma criança a fazer.
Garwin abriu a boca, mas ela ergueu a mão, encerrando tudo.
— Eu não estou pedindo pra você escolher entre nós duas. — Ela respirou fundo. — Estou pedindo pra você proteger a nossa filha.
Ela passou por ele, abriu a porta e, antes de sair, completou sem olhar para trás:
— Essa situação não pode continuar assim. Coloque essa mulher no lugar dela.
A porta fechou devagar atrás dela.
***
O ar do estaleiro estava pesado com cheiro de magia residual. Faíscas saltavam do casco de Giezer enquanto mecânicos raspavam o que restara da crosta infernal.
Thurstan apoiou-se na grade lateral, comendo uma fruta. Arastine estava a alguns passos, observando Shern ajudar os mecânicos, enquanto eles empurravam restos de metal contaminado para dentro de um contêiner de descarte.
— Tá treinando ela em segredo — disse Thurstan, sem encará-la.
Arastine permaneceu olhando Shern.
Thurstan deu outra mordida lenta na fruta.
— Eu conheço esse silêncio. — Ele fez um gesto com a mão. — É o mesmo que você fazia antes de dar aquele blefe no carteado.
Arastine soltou um riso curto, sem alegria.
— A menina é talentosa.
— Talento eu também tenho — disse ele. — Mas não consigo pulverizar vinte diabretes com uma mãozinha levantada.
Arastine virou o rosto na direção dele.
— Ela nasceu assim. Você conhece a origem dela. Não fui eu que fez aquilo.
Thurstan ergueu as sobrancelhas.
— Mas é você que está afiando a lâmina. Já pensou que ela pode cortar gente errada?
Arastine apertou o corrimão.
— Alguém precisa preparar essa menina. Olha o mundo. — Ela indicou o estaleiro com o queixo. — Quem vai proteger essas pessoas quando o próximo portal selvagem abrir? Você?
— Eu? — Thurstan bateu no próprio peito, rindo. — Eu mal protejo minhas botas. Mas ela tem pai e mãe, sabia? Eles deveriam decidir isso.
Arastine desviou o olhar.
— A mãe… — Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha. — Desde que não conseguiu ir pra cama com aquele demônio, nunca mais ficou certa da cabeça. A menina sente isso. Eu também sinto.
Thurstan parou de mastigar.
— Arastine… isso foi baixo.
Ela não respondeu.
Apenas observou Shern de novo — os olhos estreitos, medindo movimento, potência, controle.
Thurstan cruzou os braços.
— Se isso der errado, vai ser algo feio.
Arastine curvou um sorriso pequeno.
— Acha que eu estou criando um monstro?
— Eu acho que você não tá nem aí. Desde que ela esteja na sua revolução — disse ele.
Arastine não respondeu.
Um mecânico derrubou uma peça, o barulho ecoou pelo estaleiro.
O sorriso dela voltou, fino.
— Ela vai ter um papel importante no que está por vir.
Thurstan engoliu em seco. O humor leve sumiu do rosto dele.
— Arastine… você tá cruzando uma linha perigosa. Podia ser mais honesta com eles.
— Garwin vai entender. — disse ela.
— É… — Thurstan soltou uma risada curta, vazia. — Nem meu pai aceitaria uma traição assim.
— Seu pai nos vendeu por poucas moedas. Ou esqueceu?
— Nunca esqueci quem é o meu pai. Nem esqueço quem é você.
Arastine voltou a olhar Shern — o brilho nos olhos não era afeto, nem orgulho. Era cálculo.
Thurstan observou também.
Desta vez, não disse mais nada.
***
Garwin surgiu na rampa da Alghoryn com passos longos e o rosto fechado. Abaixo, mecânicos recolhiam pedaços de diabretes espalhados pelo chão. Shern permanecia próxima de Giezer, observando enquanto ele apontava para o casco do próprio aeroplano.
Na rampa, Thurstan e Arastine estavam encostados no corrimão. Ambos olharam quando viram Garwin se aproximar.
Arastine descruzou os braços apenas para cruzá-los de novo.
— Se é pra brigar, fala logo. — disse ela. — Eu já sei o que você vai dizer.
Garwin parou diante dela, sem responder.
— Vamos conversar em outro lugar.
Arastine inclinou a cabeça de leve, o olhar estreito.
— Aqui serve.
Garwin fez um gesto convidando-a a seguir. Sem acrescentar nada, virou-se e começou a descer a rampa.
Thurstan observou os dois por alguns segundos antes de soltar um suspiro e olhar de volta para o estaleiro.
Arastine desceu atrás de Garwin, os passos curtos e tensos.
No caminho gramado que levava à encosta, ela soltou um resmungo abafado pelo vento. Garwin não respondeu. Continuou subindo em silêncio.
A trilha estreita rangia sob as botas, o mato se dobrava ao toque dos pés, e o vento empurrava o casaco dos dois conforme subiam. O barulho distante das ferramentas do estaleiro chegava como um eco metálico.
No topo da montanha, a luz incidia direto e projetava sombras longas sobre o campo. A grande pedra plana estava ali, intocada pelo tempo. Garwin tocou a superfície com a mão e apontou para que ela se sentasse.
— Senta aqui.
Arastine permaneceu rígida por alguns instantes antes de se sentar. Apoiada nos joelhos, mantinha os ombros tensos.
Garwin sentou-se também, deixando uma distância entre eles. Ficou alguns segundos olhando o horizonte antes de falar:
— Faz quinze anos que eu vim aqui pela última vez. Eu e a Cailynm ficamos exatamente aqui, aquela vez, quando a Alghoryn quebrou. A gente não sabia o que fazer.
Arastine não comentou. O vento levantou uma mecha do cabelo grisalho dela.
Garwin continuou ajeitando as mãos sobre as pernas:
— Quando eu te deixei com a Shern, foi porque eu sabia que você cuidaria dela.
Arastine virou o rosto parcialmente, o maxilar firme, mas permanecendo em silêncio.
Garwin ergueu a mão, pedindo calma.
— Me deixa terminar.
Ela ficou imóvel, observando a paisagem.
— Hoje eu vi a Shern usar uma magia que eu nunca tinha visto. Forte demais. Perigosa demais pra alguém tão nova.
O peito de Arastine subiu e desceu com mais peso, mas ela não falou.
— Eu sei que não foi você quem ensinou aquilo. — disse ele. — Mas me incomodou ninguém ter me contado. Nem ela. Nem você.
Arastine enfim virou totalmente o rosto para ele.
— Eu não devo satisfação pra—
Garwin ergueu a mão de novo, interrompendo-a sem tocar.
— Agora não. Por favor.
O silêncio dela endureceu, e os dedos apertaram a borda da pedra.
Garwin continuou:
— Shern é muito nova. Coisas como aquilo… passam do que ela consegue segurar. Ela pode se machucar. Pode machucar qualquer um. Pode até um dia destruir a Alghoryn.
Arastine soltou o ar pelo nariz.
— Ela precisa estar preparada, Garwin. — disse, a voz baixa porém firme.
— Preparada pra quê? — perguntou Garwin, ainda controlado. — Pra sua revolução?
Arastine virou o corpo inteiro para ele. Os ombros estavam tensos; o olho único brilhava sob a luz direta.
— A cidade era minha. Tomaram tudo. Não vai voltar sozinha.
Garwin sustentou o olhar.
— Eu sei. Eu quero que você tome de volta. Vou ajudar. Vou doar dinheiro. Vou falar com pilotos. O que for preciso.
Arastine piscou devagar, mantendo o rosto impassível.
Garwin se levantou.
— Mas a Shern fica fora disso. De tudo isso. Se você tiver que enfrentar necromantes, matar metade do povo de Sam Brehim, virar o inferno do avesso… faça. Mas deixa ela fora. Promete isso.
O vento passou entre eles. Arastine não respondeu. O silêncio dela ficou reto, inquebrável, sem indicar concordância.
Garwin ajustou a alça do macacão.
— Vou considerar esse silêncio como um “sim”. Eu confio em você.
Ele começou a descer.
Arastine permaneceu sentada, imóvel, o olhar preso em algum ponto distante.
Quando Garwin já estava a vários metros, ela chamou:
— Garwin.
Ele parou e virou o rosto.
Arastine falou sem alterar a postura:
— Eu vou respeitar a sua vontade.
Garwin assentiu uma única vez, breve, e continuou descendo a encosta.
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