Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 4

Capítulo 29: A Noite no Orvalume

A Alghoryn se direcionou para à abertura do hangar.

A porta da ponte abriu-se.

Shern entrou.

O vestido azul-marinho balançou com a corrente de ar do hangar, e a luz alaranjada que entrava pela escotilha recortou seu cabelo violeta. Cailynm, encostada no console, levantou uma sobrancelha.

— Mas olha só quem veio elegante — disse ela, cruzando os braços.

Garwin virou o rosto devagar, analisando de cima a baixo.

— Eu sabia que você tava se arrumando. Mas assim? — perguntou, apontando para o vestido.

Shern ajeitou a barra do tecido.

— É só roupa — respondeu, tentando manter a compostura.

Thurstan riu curto.

— Não é “só roupa”. Tá querendo impressionar alguém. Tô errado?

Shern baixou os olhos, mas o canto da boca dela tremeu.

Garwin aproximou-se, colocando as mãos no ombro dela.

— Tá linda. — Ele soltou um pequeno tapinha, leve. — Mas não precisa ficar tensa. Vai dar tudo certo.

Do lado de fora, um estrondo seco atravessou o hangar.

As portas colossais do Titã Orvalume abriram-se em três seções, revelando uma cidade inteira de metal suspenso por colunas vivas. Trilhos arcanos se estendiam como veias brilhantes, guiando dezenas de aeronaves que pousavam em sincronia.

— Como é grande — disse Cailynm, olhando pelo vidro quando a Alghoryn passou pelo hangar.

— Sabia que no mundo inteiro existem só sete aeroplanos titãs? — comentou Thurstan. — E pensar que quatro são do Reino do Dragão.

— Se não me engano, Jillar tem dois e Trinn tem só esse: a Orvalume. — completou Garwin. — Thurstan, o construto sinaleiro… tá te mandando pra lá.

Quando Thurstan começou a manobrar o aeroplano, outro passou à frente com um zumbido agudo — pequeno, veloz, com casco curvado e antenas que lembravam mandíbulas.

— Ele pegou tua frente, tio Thurstan — disse Shern ao ver o aeroplano.

— Ah. Só podia ser — disse ele, com um suspiro que virou gargalhada.

— O Chacal tá sempre aprontando das suas — disse Cailynm, preparando-se para descer.

O aeroplano pousou como quem faz de propósito errado: escorregando, derrapando, levantando faíscas. O chifre frontal quase raspou no chão antes de estabilizar.

A porta lateral abriu-se com um solavanco, quase saltando do trilho.

O Chacal desceu ajeitando o casaco que não combinava com nada: preto, estampado com flores douradas. A mecha branca no cabelo caiu sobre os olhos.

A Alghoryn pousou ao lado, e o grupo desceu junto.

Thurstan bufou.

— Dirige essa porcaria há mais de quinze anos e ainda não aprendeu a pousar direito?

Chacal levantou a mão.

— Pousei perfeito. O chão que tava torto.

Garwin riu e caminhou até ele. Enquanto isso, os últimos aeroplanos chegavam; as tripulações desciam e seguiam para a escada.

— Continue acreditando nisso — disse Garwin, enquanto Chacal estendia a mão para cumprimentá-lo, olhando Shern de cima a baixo. — Olha, carne nova no pedaço?

— Tem certeza que vai olhar assim? — riu Thurstan. — Ela pode te fazer em pedaços.

— Deixa quieto, deixa quieto… — disse Chacal. — Esses descendentes dos féericos são sinistros.

— Você não imagina o quanto — respondeu Garwin.

Shern ficou vermelha na hora.

Thurstan aproximou-se.

— Se ela te matar um dia, cê que vai ter que consertar essa nave pra deixar no meu nome, tá ouvindo?

— Eu só conserto coisas que valem a pena — respondeu Chacal.

Garwin ergueu a mão.

— Chega, vocês dois. Vamos subir. O duque convocou.

Eles seguiram até os elevadores circulares. O piso subiu em espiral até o nível superior, onde o salão comunal se abriu como um grande átrio iluminado por luz quente. Mesas longas ocupavam o centro, com bandejas de comida fumegante e barris encaixados em suportes de ferro.

Shern parou logo na entrada.

Uma família acenava da mesa à direita.

O patriarca — um homem largo, de ombros e barriga, barba farta, olhos azuis quase brilhantes — levantou os braços.

— Garwin! — berrou. — Venha aqui, homem! Tragam a sobrinha!

Garwin sorriu.

— É a família Brannvek — murmurou para Cailynm. — Do jeito de sempre.

A mulher ao lado do patriarca também acenou, igualmente barulhenta. As duas filhas mais velhas discutiam sobre quem ia pegar o último pão. E o garoto — moreno, magro, cabelo curto — levantou os olhos apenas por um instante ao ver Shern.

Rapidamente desviou.

Shern percebeu.

Garwin inclinou-se até ela.

— É ele então. — Ele olhou para o garoto de canto de olho. — Garoto tímido, de boa família. Parabéns, filha. Sabia que não me envergonharia.

Shern apertou os dedos uns nos outros, sem responder.

Garwin fez um gesto sutil para o patriarca, abrindo espaço para que o garoto levantasse.

O pai entendeu na hora.

— Menino! — berrou, empurrando o filho com o antebraço. — Levanta e cumprimenta a moça!

O garoto levantou tão rápido que quase derrubou o banco.

Shern quase riu — quase.

Mas antes que ele pudesse chegar até ela, duas figuras atravessaram o salão.

O Duque Durehn e seu assessor.

— Capitão Garwin — disse o duque, com um leve toque de cabeça. — Precisamos de você para o relatório.

Garwin assentiu e virou-se para Shern.

— Vai ficar bem?

Ela respirou fundo e confirmou com a cabeça.

— Vou.

Garwin tocou de leve o braço dela — gesto rápido, firme.

— Qualquer coisa, a gente não tá longe.

Shern ficou parada enquanto ele se afastava, seguindo o duque. A conversa dos Brannvek recomeçou atrás dela: vozes fortes, risadas, pratos batendo.

O garoto ainda estava ali, inseguro, olhando para os próprios sapatos.

Shern respirou, ergueu o queixo e deu um passo na direção dele.

A movimentação do salão seguia intensa em direção à escada da sala de reuniões. Garwin caminhava quando uma mão pesada prendeu seu antebraço.

Brannvek.

O patriarca lançou um olhar rápido ao redor, atento a qualquer ouvido indiscreto. O rosto avermelhado brilhava de suor, mas os olhos — sempre expressivos — estavam baixos demais.

— Garwin… — disse ele, num tom incomum. — Preciso falar contigo. Agora.

Garwin assentiu. Os dois se deslocaram para a lateral do salão, onde a luz enfraquecia e o burburinho geral se tornava um som distante. A entrada da escada estava logo ali.

Brannvek segurou o cinto com ambas as mãos, apertando o couro até fazê-lo estalar.

— O meu garoto… — começou, com a voz arranhada. — O Elroy. É o único filho homem que eu tenho. Você sabe como é.

Garwin manteve a postura firme.

— Ele é um bom garoto.

Brannvek respirou fundo. O peito largo subiu e desceu num movimento tenso.

— É sim. Por isso… — Ele engoliu seco. — Por isso eu te peço pra não deixar ele… se aproximar dela.

Garwin não respondeu de imediato.

— Por quê?

O patriarca lançou um olhar na direção das mesas, onde Shern conversava com as irmãs mais velhas da família Brannvek. Depois encarou Garwin outra vez.

— Você sabe. — Ele ergueu o queixo, firme. — Ela é descendente dos féericos.

O silêncio entre os dois se adensou.

Brannvek continuou, num murmúrio grave:

— Eles não dão filhos, Garwin. Não deixam linhagem. Isso despedaça um jovem. Uma família inteira. E o meu menino já… — A testa dele se estreitou. — Já não é muito normal. E quando eles ficarem mais velhos, como ele vai lidar com isso?

Garwin permaneceu imóvel.

Brannvek prosseguiu:

— E tem mais. — Ele apontou discretamente para Shern. — Ela vai continuar com essa cara por décadas. Talvez séculos. Quando o meu menino tiver sessenta… ela ainda vai parecer ter vinte. É isso que você quer pra ela?

A voz dele ficou presa na garganta por um instante.

Brannvek mexeu na gola da camisa, desconfortável.

— Não tô falando mal da menina. É o contrário. Ela é boa. É linda. É especial. Mas é aí que mora o perigo. Especial demais pra ele. Não combina com a vida que a gente tenta construir.

O patriarca inclinou a cabeça, num pedido sem soberba, sem bravata:

— Fala com ela. Não deixa esperança crescer onde não tem chão.

Garwin olhou em direção à escada, onde os outros capitães aguardavam. O salão, atrás deles, continuava cheio e barulhento.

A voz dele saiu firme:

— Eu vou conversar com ela.

Brannvek soltou os ombros, aliviado e envergonhado ao mesmo tempo.

— Obrigado, Garwin. Não é contra você. Nem contra ela.

Garwin confirmou com um único gesto leve.

— Eu sei.

Brannvek recuou dois passos, engoliu uma desculpa que quase escapou e subiu a escada chamando outro chefe de tripulação com um assobio exagerado — um retorno teatral à própria persona barulhenta.

— Vamos, Garwin — chamou um dos capitães lá do topo.

Garwin ficou imóvel por alguns segundos na base da escada. O salão continuava atrás dele, cheio de risadas e conversas. O duque aguardava acima.

Ele ajeitou o casaco, endireitou o ombro e subiu os degraus em silêncio.

A sala de reuniões era circular, forrada de metal polido e runas de projeção. O Duque Durehn permanecia no centro, as mãos apoiadas sobre o mapeador tridimensional que ainda cintilava com o registro dos últimos sobrevoos.

Os líderes de tripulação foram entrando aos poucos. Garwin veio por último, fechando a porta atrás de si. O duque ergueu os olhos.

— Vamos ser breves — disse ele, com a voz clara. — A missão correu como esperado. Com esse setor estabilizado, poderá ser integrado às orlas intermediárias. Rotas mais curtas, produtos mais baratos. Excelentes resultados.

Alguns capitães murmuraram aprovação.

O duque tocou o cristal central. Uma imagem ascendeu — a estrutura encontrada pelos aeroplanos: enorme, vertical, como um obelisco partido, com anéis arcanos suspensos ao redor.

— Quanto ao artefato… — continuou. — Aparentemente, um elevador-catapulta dimensional. Se estivermos certos, tecnologia para alcançar os mundos superiores.

Um burburinho correu entre os presentes.

— Ainda é preliminar — disse Durehn, erguendo a mão. — Mas significativo.

Ele virou-se para Garwin.

— Capitão. O detalhamento de consciência situacional de sua nave foi o mais preciso de toda a operação. Valeu cada moeda de cobre colocar a Alghoryn na liderança. Parabéns.

Garwin inclinou a cabeça em reconhecimento.

— Foi você quem operou os construtos? — perguntou o duque.

Garwin negou com a cabeça.

— Minha esposa. Ela controla os sistemas mágicos. Eu só direciono.

Durehn fez um leve gesto, em respeito.

— Excelentes respostas dos construtos.

Garwin apenas confirmou.

— Dispensados, todos — concluiu o duque. — O artefato fica agora sob a responsabilidade de Trinn. O pagamento já está sendo organizado.

Os presentes começaram a se dispersar. O duque saiu pela porta superior, seguido de dois assessores, a capa oscilando até desaparecer.

A sala esvaziou-se. Garwin foi o último a deixar. Ao pisar na escada circular, o som do salão comunal subiu para encontrá-lo — vozes, talheres, risadas. Ele apoiou o antebraço no corrimão metálico.

O movimento abaixo era intenso, com grupos espalhados pelas mesas. Entre eles, um ponto específico se destacava.

Shern.

Estava próxima da primeira mesa à direita, conversando com Elroy Brannvek. Ele mexia no próprio pé, inquieto, enquanto tentava manter os olhos nela. Shern desviava o olhar, mas sorria de canto quando ele arriscava um comentário. A voz dela, baixa, mal atravessava o burburinho.

Shern soltou um riso curto.

Garwin parou no último degrau. A luz quente dos lampiões batia no vestido azul-marinho dela e fazia o cabelo violeta cintilar.

Elroy falou algo. Ela inclinou-se para ouvi-lo.

Garwin soltou, num resmungo baixo:

— Como se ela precisasse.

Lá embaixo, Elroy coçou a nuca, o rosto avermelhado. Shern entrelaçou as mãos atrás do corpo, tentando decidir o que fazer com elas. Os dois pareciam presos ao mesmo pequeno campo de hesitação.

Garwin respirou fundo. O ar saiu pesado.

Ao descer o degrau, encontrou Cailynm no salão, terminando uma conversa rápida com uma capitã. Ela virou o rosto quando o viu.

— O que foi isso? — perguntou ela, baixinho, olhando o rosto dele. — Parece que desceu essa escada carregando chumbo.

Garwin encostou no corrimão. O olhar dele foi em direção a Shern e Elroy.

Cailynm acompanhou o movimento. O gesto dela diminuiu, o tom afrouxou:

— Ah… entendi.

Garwin não respondeu. Apenas ajeitou o casaco.

Cailynm tocou o cotovelo dele, firme.

— Depois a gente fala disso.

Ele assentiu.

O salão continuou vivo ao redor, com o calor das lamparinas e o cheiro de comida recém-trazida das cozinhas. Garwin caminhou entre as mesas, passando por grupos que ainda comemoravam a missão.

Quando se aproximou, Shern percebeu a presença dele e virou o rosto. Sorriu no mesmo instante — um sorriso leve, automático, sem sombra de preocupação.

Garwin devolveu o sorriso. Pequeno. Controlado.

O suficiente.

O salão comunal do Orvalume foi esvaziando aos poucos. As mesas agora tinham só pratos empilhados, barris vazios e uma ou outra vela quase apagada. A Família Brannvek saiu primeiro: o patriarca empurrou o filho pelos ombros, chamou as filhas com estalos de língua e agradeceu a todos com um aceno largo antes de sumir pelo corredor.

Outras tripulações saíram logo depois. O Chacal passou ao lado de Garwin, pegou uma uva de um prato abandonado e girou o fruto entre os dedos.

— Se seu ouro sumir amanhã, já sabe — disse ele.

Thurstan jogou um pedaço de pão contra ele.

— Some daqui.

O Chacal saiu rindo enquanto colhia outra uva.

Shern bocejou, levando a mão rápido à boca. O cabelo roxo caiu para a frente, e ela empurrou a mecha para trás com um gesto automático. Conversava com Cailynm numa voz baixa demais para o tamanho do salão.

Garwin tocou o ombro dela.

— E aí? Como é que foi?

Shern assentiu devagar. A cor subiu no rosto, discreta. Ela se afastou junto de Cailynm até o corredor que levava ao hangar.

A Alghoryn aguardava num dos braços metálicos. Outras naves iam desacoplando, cada uma seguindo seu próprio rumo.

Thurstan estalou o pescoço.

— Essa noite é turno meu. — Ele puxou a ferramenta presa ao cinto e balançou. — Se der pane, eu grito.

Cailynm sorriu.

— Se gritar, eu finjo que não ouvi.

— Justo.

Ele desviou para a ponte de comando. Garwin indicou a saída com um movimento de cabeça.

— Vamos pra Amberridle. Arastine encontra a gente lá.

Cailynm prendeu o cabelo atrás da orelha e seguiu com ele pelo corredor. Andavam próximos; Garwin passou o braço pela cintura dela, e ela encostou a cabeça no ombro dele enquanto a porta do alojamento se abria.

Entraram juntos.

A porta fechou.

***

O quarto estava escuro, iluminado apenas pela lamparina etérea presa à parede. A claridade quente desenhava curvas suaves nos lençóis amarrotados. Os dois corpos repousavam sob o cobertor, descobertos até a cintura; a pele ainda rubra em alguns pontos, marcada por toques recentes.

Cailynm estava deitada de lado, a perna por cima da dele. O cabelo caía pelo ombro, espalhado sobre o peito de Garwin. O suor secava devagar entre as clavículas dele. A mão dele deslizava pelas costas dela. O quarto permanecia quieto — um silêncio de quem conhece o espaço do outro há anos.

Cailynm passou os dedos pela costela dele e encostou o rosto no pescoço dele.

— Você ficou diferente depois que falou com o Brannvek — disse ela, sem erguer os olhos.

Garwin deslizou a mão até a cintura dela e a puxou devagar, aproximando-a.

— É que ele me pediu uma coisa — disse ele.

Cailynm levantou o rosto o suficiente para encará-lo. A luz destacava as linhas maduras do rosto dela e a cicatriz fina deixada por Quindia anos antes.

— Pediu o quê?

Garwin tocou a têmpora dela com o polegar, num gesto lento.

— Que eu não deixasse o filho dele se aproximar da Shern.

— E você? — perguntou ela.

Garwin passou a palma pela nuca dela e a trouxe um pouco mais para perto. As testas quase se tocaram.

— Eu vi ela conversando com o menino — disse ele, baixo. — Tão simples. Tão… natural.

O silêncio que se seguiu pesou no ar. Cailynm deixou a mão escorregar pelo peito dele até pousar sobre as costelas, firme.

— Ele explicou o motivo? — perguntou ela.

Garwin assentiu lentamente.

— Explicou. Ele falou do que ela é, e de tudo que vem junto com isso. Você sabe.

Cailynm fechou os olhos por um instante e encostou a testa no queixo dele. O cobertor deslizou um pouco, revelando o braço dela na penumbra.

— Eles têm medo — disse ela. — Muita gente tem.

O quarto ficou mais quente quando ela passou o polegar pelo maxilar dele, trazendo o rosto dele contra o dela. O lençol se moveu com o deslocar leve dos corpos.

— Os descendentes dos féericos são lindos, são bons presságios, são abençoados. É o que todo mundo diz. Mas… quando crescem, quando viram adultos… a verdade aparece.

O maxilar de Garwin endureceu. Ele respirou mais fundo quando a mão dela passou pelo rosto dele.

— Vai ser um momento difícil pra ela quando todo mundo envelhecer e ela não — disse ela.

— Eu sei — respondeu ele.

Cailynm ergueu o rosto. Os olhos dela estavam firmes.

— A pergunta é: você vai impedir ela de sentir algo por alguém?

O peito de Garwin subiu e desceu num ritmo contido. Ele deslizou as mãos pela cintura dela e puxou o corpo dela contra o seu, com cuidado, como quem segura algo precioso.

— Eu não quero impedir nada — disse ele, baixo. — Só não quero que ela sofra.

Cailynm sorriu de canto — pequeno, triste, íntimo.

— Ela vai sofrer. Vai amar coisas que o tempo vai levar. Vai perder gente que não vai conseguir esquecer. Vai ver o mundo mudar enquanto ela permanece quase igual. É o que ela é.

A respiração dos dois se misturou. O peito dele se ergueu sob o dela.

— E o que a gente faz? — perguntou ele.

Cailynm passou a mão pela nuca dele e subiu até segurar o rosto dele entre as duas mãos.

— A gente cria ela. E, quando o mundo cobrar o preço dela ser o que é… a gente vai estar lá.

Garwin encostou a boca no ombro dela — um toque demorado e quente. Cailynm deslizou um pouco mais para cima dele, unindo seus corpos sob o cobertor. A pele dela roçou a dele, lenta, natural — intimidade moldada por anos.

A lamparina oscilou.

— Vem cá — murmurou ela.

Garwin a envolveu com os braços.

Os dois se afundaram no calor um do outro até adormecerem, e o quarto mergulhar em silêncio.

***

O ancoradouro de Amberridle estava cheio quando a Alghoryn atracou. Dois funcionários empurravam a pequena libélula metálica de Arastine para dentro do hangar lateral, guiando o veículo pelos trilhos com cuidado para não arranhar as asas dobráveis.

O sol da tarde batia oblíquo, deixando reflexos alaranjados no casco das naves.

Garwin desceu primeiro, seguido pelos outros. Arastine já estava ali, ao lado da plataforma, as mãos apoiadas no parapeito enquanto acompanhava o transporte da libélula com um meio-sorriso.

— Jantar hoje é pela conta da Arastine, que nos fez vir até aqui. — disse Thurstan, rindo.

— Sem problemas — respondeu ela. — Escolham o melhor.

Garwin parou ao lado dela. Ambos olharam para a libélula sendo puxada para dentro do hangar.

— Duas semanas desde a última missão — disse Arastine. — E vocês ainda parecem mais cansados agora do que quando voltaram.

Garwin soltou um sopro breve, quase riso.

— Não foi exatamente descanso.

Arastine virou o rosto na direção dele. O olhar dela passou pela passarela onde Shern caminhava com Cailynm, carregando duas bolsas pequenas. Depois, voltou-se para Garwin.

Ele cruzou os braços.

— A situação mudou desde a nossa conversa — disse ele. — E vai mudar mais. Em algum momento… creio que você vai precisar ficar em terra firme por mais tempo. E quando isso acontecer, ficaremos sem atirador.

Arastine manteve os olhos nele. A brisa deslocou uma mecha do cabelo branco para o lado.

— E por que está me dizendo isso?

Garwin inclinou a cabeça discretamente na direção da passarela, onde Shern e Cailynm já se afastavam.

— Porque eu quero que você treine ela.

O silêncio que seguiu foi breve, mas firme. Arastine ergueu uma sobrancelha, devagar, enquanto olhava novamente para o hangar.

A libélula deu um estalo metálico quando um dos funcionários travou a plataforma, o som ricocheteando pelo compartimento de carga.

Arastine voltou os olhos para Shern ao longe. O rosto dela não exibiu surpresa, apenas uma atenção mais estreita, os lábios formando uma linha pensativa. Quando virou novamente para Garwin, a expressão tinha mudado de forma quase imperceptível — algo mais ativo, mais desperto.

Ela sorriu.

— Vai ser um prazer fazer isso.

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