Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 4

Capítulo 28: Rachaduras Silenciosas

A lama úmida cobria os corpos metálicos espalhados pelo chão irregular. As carcaças, sem rosto nem contornos reconhecíveis, tinham superfícies lisas demais para parecerem obra de qualquer artífice humano. Vapor subia em filetes entre os membros retorcidos, ondulando no ar pesado.

— Confirmando… mais três abatidos na ravina norte.

A voz saiu clara pelo comunicador, cortando o silêncio abafado do vale. Acima das árvores densas, as velas de um aeroplano pequeno apareceram devagar, ajustando ângulo entre pedra e folhagem. A luz verde-dourada do céu refletiu na fuselagem enquanto ele fazia uma varredura baixa sobre o solo encharcado.

— Setor limpo até aqui.

— Copiado. Ajustando rota.

O som das velas propulsoras reverberou pelos penhascos estreitos. Outro aeroplano surgiu por trás de uma coluna de rocha coberta de musgo luminoso, o casco irregular — meio madeira, meio metal — voando com uma precisão que desmentia a aparência rústica.

— Cuidado com a turbulência à direita.

— Visual. Aquela fenda tá abrindo mais.

As encostas íngremes subiam em paredes quase verticais. Raízes grossas pendiam como cabos, balançando com a passagem das naves. Nenhum aeroplano grande se arriscaria a entrar ali.

— Pra fazer esse serviço tinha que ser a gente mesmo. As naves maiores nem passam.

Acima dos penhascos, algo cortou o céu.

Primeiro, uma sombra reta.

Depois, a superfície translúcida — um cilindro colossal suspenso no ar, luzes internas fluindo como fogo líquido por dentro de uma estrutura segmentada que parecia se mover e não se mover ao mesmo tempo.

— Alguém confirma movimento no artefato?

— Negativo. Estrutura continua estável… até onde posso ver.

Os aeroplanos menores reduziam velocidade conforme se aproximavam. Um deles passou perto o bastante para que as luzes do cilindro refletissem sobre seu casco.

— Região sul concluída.

— Oeste encerrado.

— Nenhum sentinela ativo detectado.

Um terceiro aeroplano fez uma curva larga sobre a ravina. Um jorro de vapor explodiu do chão, cruzando sua rota.

— Atenção no bolsão térreo!

— Aviso atrasado! — o casco vibrou quando a nave atravessou a onda de calor. — Tudo sob controle.

As vozes se sobrepunham em ritmo constante, rápidas e treinadas.

— Grupo três, liberado.

— Grupo oito, mantenham altitude.

— Sem leitura mágica instável.

A sombra do cilindro se estendia sobre os penhascos. As nuvens cinzentas, riscadas pelo brilho verde-dourado típico dos limites planares, envolviam o topo da estrutura como um véu sem origem clara.

— Alguém tem visual da Alghoryn? — perguntou uma voz firme no canal. — Preciso da posição dela.

A Alghoryn pairava acima das ravinas profundas.

A ponte permanecia silenciosa, exceto pelo som leve das telas translúcidas girando no ar. As runas flutuavam, alternando mapas tridimensionais com leituras arcanas pulsantes.

— Setor três confirmado — disse Thurstan, ajustando o visor lateral com um toque rápido. O sorriso vinha fácil. — Se alguém disser que isso não foi bonito… tá mentindo.

— Foi bonito sim — murmurou Cailynm, apoiando os braços na mesa central. A luz azul das telas escorria pelo rosto dela. — Apesar das ravinas, todos os sentinelas foram destruídos.

Garwin seguia com o olhar fixo na projeção do cilindro colossal. A estrutura girava devagar, e as correntes internas de luz mudavam de direção como caminhos vivos.

— Ainda não entendi como isso ficou parado aqui por… seja lá quanto tempo — disse ele. — Os sensores não batem com nada conhecido.

— Isso aí não é coisa do nosso plano — comentou Thurstan, ampliando o holograma. — Vê como curva a luz? Parece portal, mas não é.

— Na verdade, parece um elevador — disse Cailynm. — Mas um elevador pra onde?

— E se for uma catapulta interplanar? Tipo um caminho dos deuses? — disse Thurstan, com a mão ainda no timão.

— Se for isso, deve ter sido por aí que eles foram embora desse mundo — respondeu Garwin, soltando um riso cansado.

O comunicador cortou a fala seguinte:

— Alghoryn, posição confirmada? Precisamos encerrar a varredura do setor oeste.

Garwin apertou o transmissor.

— Posição estável. Setor norte também concluído. Sem movimento adicional.

— Copiado.

Outra voz veio logo em seguida, sobreposta:

— Vocês estão com o artefato em visual? Temos pulsação arcana aqui embaixo.

Thurstan respondeu:

— Estável. Nada mudando na superfície. Se tiver mexendo algo, é por dentro.

— Entendido. Últimas detecções do dia. Boa caça aí em cima.

— A caça já acabou, amigo — disse Thurstan. — Agora é só esperar o contratante chegar.

As comunicações continuaram, cola­das umas às outras.

Cailynm ajustou uma luz no painel.

— Eles estão animados demais. Parecem achar que encontraram um tesouro.

— Pelo preço… talvez tenham mesmo — disse Garwin. — Talvez todo mundo tenha.

O anúncio geral cruzou o canal:

— Atenção, todos os aeroplanos do setor. Frota de Trinn chegando para assumir a custódia do artefato. Preparem relatórios.

Thurstan ergueu uma sobrancelha.

— Já? Mas nem esfriou o corpo dos bichos.

— Desde quando construto de metal tem corpo quente? — provocou alguém no canal.

— Aquece sim — retrucou Thurstan. — É só jogar uma bola de fogo.

Garwin endireitou a postura.

— Eles vieram rápido. Um artefato desse tamanho… mesmo sem saber o que é, vão querer colocar bandeira. Que isso seja bom e não ruim.

As primeiras naves de Trinn romperam as nuvens. Um destroyer avançava devagar, seguido de outros vinte. Depois, cruzadores. Aeroplanos logísticos. Dois encouraçados. E, por fim, o Titã — que apagou parte do céu com a própria sombra.

As luzes deles refletiam nos penhascos úmidos.

O comunicador da Alghoryn vibrou.

— Aqui é o Capitão Durehn, da frota de Trinn. Alghoryn, me escutam?

— Claro que tinham que mandar o Durehn — disse Thurstan, inclinando-se na cadeira. — Ele nunca esquece nada…

Garwin abriu o canal.

— Aqui é a Alghoryn. Recebendo, capitão.

Um riso breve veio pela estática.

— Faz quinze anos, mas lembro bem do dia que recusaram nosso reboque em Mihandu. Uma situação… curiosa.

— Temos nossas excentricidades — disse Garwin. — E dessa vez, uma proa. E pensar que naquele dia, o Chacal vinha atrás da gente.

— Sim, lembro. Curioso dizer isso… ele está aqui hoje. Setor sul. Surpreendentemente útil em manobras rápidas.

Thurstan soltou um riso curto.

— Aí, Garwin. A chance de dizer pra ele largar a pirataria e trabalhar honesto.

— Fala você — respondeu Garwin.

Durehn retomou o tom formal:

— Precisamos do relatório preliminar. Movimento dos construtos, estabilidade do artefato e navegação nas ravinas.

Garwin assentiu.

— Tudo bem. Já estamos partindo para o encontro.

Cailynm passou a runa flutuante pelo painel enquanto os construtos espalhados pelo setor eram recolhidos de volta para o aeroplano.

— Recebido — disse Durehn. — Bom trabalho. A Frota assume a partir daqui.

Outra pausa.

— Ainda estão com a mesma tripulação?

Thurstan deu uma risada.

— Quase. Faltou perguntar se nossa proa ainda cai.

— Ia deixar isso pro final — disse Durehn. — Mas já que tocou no assunto… vocês hoje são referência nas orlas internas.

Garwin respondeu com leveza:

— Agradecemos, capitão. A Alghoryn permanece à disposição.

— Como sempre. Encerrando. — O canal fechou.

As vozes dos demais aeroplanos continuaram, agora mais esparsas.

Cailynm apoiou-se no painel.

— E Arastine? Alguém viu ela hoje?

Thurstan ajustou o visor na testa.

— Não depois da manhã. Ela agora não sai da sala das balistas.

Garwin olhou o assento vazio ao lado do leme.

— Mas por que será isso? As balistas são quase automáticas agora.

— Vai ver ela tá com dificuldade de ressignificar o posto — disse Cailynm.

— Ela não respondeu ao canal interno? — perguntou Garwin.

Cailynm acionou o comunicador.

— Arastine? Ponte de comando. Última verificação. — Pausa. — Nada.

Thurstan meneou a cabeça devagar.

— Estranho demais pra ser ela.

Garwin encarou o corredor que levava ao interior da nave. A luz azulada oscilava no chão.

— Vou ver onde está.

Ele ajeitou o casaco, atravessou a porta automática e entrou no corredor silencioso.

Atrás dele, a ponte ficou apenas com o som baixo dos motores e as vozes distantes que ainda cruzavam o canal aberto.

A porta da cabine de Shern estava entreaberta. Uma luz suave, fria e difusa escapava pela fresta — o reflexo do céu nublado filtrado pelas superfícies metálicas da sala.

— Shern? Posso?

A garota ergueu o rosto do espelho. Estava sentada num banco estreito, penteando o próprio cabelo… agora de um azul acinzentado. A cor absorvia a luz, sem o brilho metálico que costumava refletir nas luzes internas da nave.

— Ah, pai… claro — disse ela, serena.

Garwin entrou devagar, encostando no batente. O pente deslizava pelos fios novos com movimentos lentos.

Ele olhou o reflexo dela por cima do ombro.

— O que você fez com o cabelo?

Shern manteve o gesto calmo.

— Enjoei da cor original. Quis mudar um pouco.

Garwin se aproximou um passo, inclinando a cabeça. A mão dele tocou de leve uma mecha caída sobre o ombro dela — o fio apagado não reagiu à luz como antes.

— A cor original chamava mais atenção — disse, num tom leve.

Shern sorriu sem virar o rosto.

— Eu sei. Queria algo diferente hoje.

Ele olhou o penteado com estranheza evidente.

— Hoje? Você tá se arrumando desde quando?

Ela abaixou o olhar para o pente.

— Desde cedo. O Titã chegou. Vai ter reunião com todo mundo. E…

A frase morreu ali. Shern apenas ajeitou o cabelo atrás da orelha, tentando ocupar as mãos.

Garwin soltou uma risada curta.

— E qual garoto das tripulações você quer impressionar?

As bochechas dela coraram de imediato. O pente parou no ar; ela ficou imóvel, como se qualquer movimento entregasse mais do que queria.

Garwin foi até o espelho, ficando ao lado dela. Passou a mão pelos próprios cabelos — os fios grisalhos se destacaram no reflexo azul da cabine.

Shern ergueu o olhar.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele abriu um sorriso rápido, pequeno, que desapareceu quase no mesmo instante.

— Não. Nada.

Ela inclinou a cabeça, desconfiada, mas ele já recuava.

— Continua se arrumando. — Ele tocou o ombro dela com a ponta dos dedos, num gesto curto. — Tá ficando bem.

Shern retribuiu o sorriso, discreto.

Garwin saiu da cabine. A porta se fechou suave atrás dele. No corredor, ele parou um instante. A mão apoiou-se no batente; o corpo todo parecia perder um pouco da tensão dos ombros. O rosto dele caiu para baixo por um segundo, antes que ele endireitasse a postura de volta.

O corredor azul-esverdeado parecia mais longo do que antes. As luzes internas tremulavam levemente. Garwin caminhou, sem pressa.

Ao final, a porta da sala das balistas estava fechada, mas uma luz vermelha escapava pela fresta. Um brilho intermitente, pulsando em ritmo irregular.

Ele se aproximou.

As vozes começaram a surgir — fragmentadas, distorcidas, quebradas em códigos, misturando sussurros e pulsos rúnicos.

Garwin parou. A mão ficou suspensa ao lado da porta.

— código trinta e dois… assembleia inferior segura…

— avanço pelas galerias internas confirmado…

— retaguarda aguarda sinal da líder…

As pedras sobre a escrivaninha piscavam, vermelho-branco-vermelho-branco, respondendo às vozes.

Garwin inclinou a cabeça, tentando enxergar melhor.

— Que tipo de maluquice essa mulher tá fazendo? — murmurou.

Abriu a porta devagar.

O interior estava diferente.

Uma cama estreita encostada à parede. Cobertor dobrado. Uma mochila largada perto do canto. Ferramentas deslocadas para as prateleiras superiores. E a mesa — antes usada para manutenção — estava coberta de peças metálicas, fragmentos de armaduras e três cristais pulsando.

Arastine estava inclinada sobre eles. Os ombros rígidos, a postura tensa. A luz vermelha refletia nos olhos, marcando uma linha fina de brilho.

As vozes continuavam:

— líder solicita confirmação…

Arastine finalmente respondeu.

A voz era baixa e firme, carregada de fervor contido.

— Agora não. Retaguarda mantém posição. Subgrupo três, preparar dispersão soturna. Sem confronto até meu sinal.

Outra voz respondeu:

— afirmativo… aguardando…

Arastine manteve os olhos nos cristais.

Garwin, parado ao lado da porta, deu dois passos lentos.

— Arastine?

Ela não se virou. Apenas ergueu dois dedos e disse:

— Codificar silêncio nível dez.

Os cristais apagaram no mesmo instante.

O silêncio caiu espesso.

Arastine girou o corpo devagar. O rosto marcado por cansaço. O olhar intenso demais.

Garwin observou a cama improvisada. Depois a mesa. Depois ela.

— Você… — disse, baixo — transformou isso aqui num quarto? Parece desconfortável.

Arastine ficou firme, sem desviar o olhar.

Garwin completou:

— A gente chamou você. Várias vezes. Não respondeu. Pensei que tinha acontecido alguma coisa.

Arastine continuou diante da mesa, inclinada sobre peças, engrenagens e três cristais escurecidos.

— Você não respondeu ninguém — disse ele, tentando soar leve. — A gente ficou preocupado.

Ela arrumou uma lâmina já alinhada, como se o gesto tivesse sentido funcional.

— Eu ouvi — respondeu sem olhar para ele. — Estava ocupada.

Garwin olhou a cama estreita no canto, o cobertor dobrado, a mochila jogada ao lado.

— Desde quando você dorme aqui? — perguntou.

— É mais prático. Não acordo ninguém. Não atrapalho ninguém.

— A sua cabine é três vezes mais confortável — disse ele. — E essas balistas trabalham sozinhas desde que o Vendeler instalou o novo sistema. Não tem necessidade de você ficar velando elas assim.

Arastine mudou a ferramenta de lugar, sem propósito claro.

— É suficiente.

Garwin aproximou um passo lento.

— E… a missão deu certo — disse, num tom que buscava normalidade. — O pessoal vai subir pro Titã daqui a pouco pegar a recompensa. Se você quiser ir junto, dá tempo.

Ela respondeu com a mesma postura rígida:

— Bom pra eles.

A superfície dos cristais refletiu o rosto dela por um instante. O olho visível piscou devagar.

Garwin inclinou a cabeça.

— Você tá distante — disse. — Mais do que o normal. Mais do que antes.

— Estou normal.

— Não está.

Ela mexeu nos cristais desligados. O gesto saiu seco demais, urgente demais.

Ele tocou levemente a borda da mesa.

— Arastine… o que você tá fazendo?

A resposta veio rápido:

— Assuntos meus.

O tom deixou uma marca no ar.

Garwin não levantou a voz.

— Eu não tô perguntando pra te cobrar nada. Tô perguntando porque parece que você tá… separada de todo mundo. Até da gente.

O ombro dela enrijeceu. Ela girou outra engrenagem — limpa, já encaixada — só para evitar o contato dos olhos.

— Eu estou lidando com algo importante.

— Que coisa? — perguntou ele, calmo.

— Importante.

Garwin respirou devagar.

— Isso tem a ver com a sua cidade?

Arastine parou por menos de um segundo. Um piscar curto. A engrenagem escorregou dos dedos e bateu na mesa.

Ela recolocou no lugar sem comentar.

— Não é o momento — disse.

O silêncio ficou pesado.

Garwin observou a forma como ela mantinha o corpo inteiro rígido, como se estivesse segurando ela mesma com força demais. Mãos tensas. Queixo alinhado. Costas travadas.

Ele recuou um passo.

— Boa sorte com… o que quer que esteja fazendo.

Garwin abriu a porta devagar. Não olhou para trás.

Arastine permaneceu imóvel por alguns segundos. Os dedos ficaram suspensos sobre os cristais apagados. Depois ela ergueu o rosto na direção da porta já fechada — um movimento breve, contraído, como se algo puxasse sua atenção para fora por reflexo.

A luz vermelha voltou a pulsar.

Os cristais responderam:

— Subgrupo três… aguardando sinal…

Arastine manteve a mão sobre eles, mas não respondeu.

Ela soltou o ar pela boca, fechou os cristais com um toque rápido e caminhou até a porta. Abriu-a num gesto curto e saiu pelo corredor.

— Garwin!

Ele virou.

Arastine atravessava a porta ainda meio aberta. A respiração dela veio intensa, os ombros subindo e descendo com tensão comprimida. O tapa-olho escurecia metade do rosto; o cabelo cinzento caía em fios desalinhados.

Ela parou a poucos passos dele. As mãos estavam fechadas em punhos leves, relaxando e apertando sem ritmo.

— Me desculpa — disse, num tom firme, ainda sob controle. — Aquilo… saiu errado.

Garwin afastou o cinturão do quadril, ajustando a fivela. O gesto era simples, mas deu a ela espaço para continuar.

— Tá tudo bem — respondeu, com voz neutra.

Arastine assentiu uma vez, curto. O maxilar moveu-se num aperto rápido. Ela respirou fundo, enchendo o peito até os ombros se erguerem.

— Eu devia ter falado — disse. — Eu… tô liderando um grupo. Remanescentes. Gente da minha cidade.

Garwin ficou onde estava, escutando.

— A gente tá organizando a retomada — completou ela. — A cidade. A minha cidade.

O corredor segurou o silêncio por alguns segundos. Só o som distante dos motores do Titã preencheu o ar.

Garwin deu um passo à frente. O impacto leve da bota contra o metal marcou o momento.

— Todo mundo aqui sabe o quanto isso significa pra você — disse, baixo. — E se eu soubesse disso antes, tinha tentado ajudar. Era só isso.

Arastine desviou o olhar por um instante. O ombro perdeu um pouco da rigidez — um relaxamento mínimo, mas perceptível.

— Eu não queria envolver ninguém — disse. — Nem atrapalhar. Isso é um problema meu.

— Somos um grupo — ele respondeu. — Você não precisa carregar nada sozinha.

Ela passou a mão pelo cabelo grisalho, puxando uma mecha para trás. O gesto expôs o cansaço acumulado nas pálpebras e na tensão do pescoço.

— Eu vou ter que sair — disse. — Vou pegar a Libélula. Vou esperar vocês me buscarem na cidade dos Ambleriddle. Volto em alguns dias.

Garwin assentiu de imediato.

— Você é livre. Não precisa pedir nada. Só… — a voz dele diminuiu — só avisa antes. Pra não acontecer o que aconteceu com a Cailynm. Aquilo foi… pesado.

Arastine ergueu o rosto rápido. O olho visível suavizou por um instante, quebrando o endurecimento que o tapa-olho criava.

Ela se aproximou e tocou o ombro dele com firmeza. Não era um empurrão, nem um gesto leve demais — era preciso, seguro, direto.

— Obrigada — disse.

Garwin respondeu com um sorriso curto.

— A gente se encontra em Ambleriddle.

Arastine manteve o olhar nele por alguns segundos. Depois virou o corpo com decisão. O ritmo das botas contra o metal voltou a marcar o corredor. As lâmpadas mágicas acendiam e apagavam conforme ela passava, deixando o cabelo cinzento alternar entre brilho e sombra.

Garwin permaneceu parado até que o eco dos passos de Arastine se perdeu na curva. Ele ajeitou o cinturão, olhou para o corredor vazio e murmurou para si mesmo:

— Espero que saiba bem o que tá fazendo.

Então caminhou.

O corredor metálico o recebeu com o brilho frio das janelas lineares. O som da libélula de Arastine — um jato agudo, veloz — atravessou a estrutura por alguns segundos. A vibração correu pelas paredes enquanto ele subia as escadas que levavam à ponte.

A porta da ponte abriu-se num deslize suave.

A sala se revelou em luz azulada: projeções arcanas girando em órbitas lentas ao redor de cristais suspensos. No centro, um painel circular mostrava uma silhueta gigantesca encostando plataformas móveis — mais sombra do que forma, grande o suficiente para ocupar a tela inteira. Não precisava de números: o Titã falava por si no silêncio pesado das engrenagens colossais.

Cailynm estava junto à mesa, uma das mãos apoiada na borda. Thurstan analisava as projeções, o rosto iluminado por runas flutuantes.

Os dois ergueram o olhar quando Garwin entrou.

— Arastine foi embora — disse ele, sem rodeios. — Agora há pouco. Pegou a libélula vermelha.

Cailynm descruzou os braços no mesmo instante.

— Como assim “foi embora”? — A voz dela tentou firmeza, mas saiu curta.

— Disse que precisava sair. Que volta daqui a uns dias — respondeu Garwin.

Thurstan endireitou a postura.

— Estranho. Faz dias que ela quase não aparece.

Garwin chegou perto do painel. As naves menores formavam fileiras de luz, entrando no Titã como insetos retornando ao casulo.

— Ela tá liderando um grupo — disse. — Uma operação pra retomar a cidade dela.

Cailynm apoiou as duas mãos na mesa. Os dedos ficaram imóveis.

— Isso é coisa grande.

Thurstan aproximou-se da projeção.

— Cidade tomada por necromantes… Ela deve estar montando exército. Contratando aventureiros. Reagindo com força. — Ele olhou para Garwin. — Vamos juntos nessa?

Uma luz vermelha piscou no canto da projeção. Do lado de fora, atrás do vidro, a libélula de Arastine rompeu o horizonte em um arco rápido. O rastro mágico se apagou aos poucos até sobrar só o céu cinza.

Garwin observou até o último brilho sumir.

— Ela não quis envolver ninguém — disse. — Por isso não queria falar. Mas a gente sabe que é importante pra ela. Faz vinte anos.

Cailynm passou o polegar no canto da mesa, sem tirar os olhos da tela.

— E agora?

— Sinceramente eu não sei — respondeu Garwin. — E a gente… precisa decidir o que fazer com as balistas.

Thurstan soltou um som breve, quase irritado.

— As balistas? O que tem elas? — perguntou Cailynm.

— Não podem ser totalmente automatizadas — disse Thurstan. — Vendeler tentou. Nós tentamos. Não rola.

Garwin cruzou os braços, ainda olhando o vidro.

— Então sobram duas escolhas: trocar as armas por algum outro sistema similar… ou preparar alguém pra assumir.

Thurstan ergueu as sobrancelhas.

— A Shern?

Cailynm virou-se um pouco.

— A Shern? Na balista?

— Sim, amor. — disse Garwin. — A nave um dia vai ser dela. E nós não estamos ficando mais jovens.

Cailynm soltou um suspiro curto, olhando para baixo.

— Tem razão.

Garwin tocou no painel, ampliando a projeção do Titã. A estrutura flutuante abria o hangar maior, engolindo as naves menores com uma boca imensa.

— E tem outra coisa — disse ele, baixo.

Thurstan aproximou-se até ficar ao lado dele.

— O quê?

Garwin continuou olhando para o horizonte, onde Arastine desaparecera.

— Eu acho que ela vai deixar a gente. Em breve.

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