Volume 3
Capítulo 27: Toda Rota Tem um Fim
O leito seco do lago estava silencioso, como se ainda respirasse o calor do que havia desaparecido. A fogueira improvisada crepitava perto da rampa da Alghoryn, jogando sombras longas sobre todos.
Cailynm estava sentada com as pernas recolhidas, roupas limpas, a cabeça apoiada no ombro de Garwin. Shern dormia no colo dele, enroscada em um cobertor.
Cailynm levantou o olhar e respirou fundo.
— Eu… eu vou contar tudo — disse, com a voz baixa, rouca. — Eu prometi que ia contar.
Garwin segurou a mão dela, em silêncio. Encostou a testa na dela por um instante.
Vendeler atiçou a fogueira com um graveto.
— Vai no seu tempo — murmurou.
Cailynm engoliu seco.
— Eu não fui capturada… eu me ofereci. Por causa da Shern. Achei que… que aquela bruxa faria alguma coisa com ela. — A voz falhou. — Eu fiz tudo que ele mandou porquê… eu achei que era a única forma de mantê-los longe dela.
Thurstan sentou mais perto, devagar.
— Cailynm… ninguém aqui culpa você.
Ela riu. Um riso curto, quebrado.
— Como não? Olhem o que eu fiz. — Tocou o próprio braço com repulsa. — Eu fiquei lá… esperando… obedecendo… usando aquela roupa… Eu não conseguia pensar direito. Eu só sentia que, se eu irritasse aquele monstro, ele ia vir atrás dela.
Garwin fechou os punhos.
— Ele tocou em você?
Ela balançou a cabeça rapidamente.
— Não. Mas… ele ia. Eu senti. E quando eu vi a Shern… eu entrei em pânico. Pensei: “Se ele olhar pra ela, se ele olhar…” — Um soluço escapou. — Eu tentei começar o ritual à força, só pra distrair ele. Pra proteger ela…
Vendeler respirou fundo.
— E a Quindia? Ele a matou?
Cailynm assentiu, tremendo.
— Eu senti o sangue dela no meu rosto… achei que eu seria a próxima. E… e então ela entrou. A minha menina. Como se estivesse entrando numa sala de jantar.
Thurstan limpou as próprias mãos na calça, nervoso.
— E ela viu o demônio matar a bruxa?
Cailynm olhou para Shern dormindo.
— Viu. Ela não estava com raiva. Não estava assustada. Só… desapontada. — Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Como se estivesse brigando com alguém que derrubou um brinquedo.
Garwin olhou para a filha com amor e inquietação misturados.
Vendeler cruzou os braços.
— O maior mistério foi a magia: sumiu. Da Quindia, dele… desfez a dimensão inteira.
Thurstan franziu a testa.
— Foi isso mesmo que ela disse pra você? Que “roubou”?
Cailynm pensou um instante.
— Ela disse: “Eu tirei a sua magia”. Assim. Como se fosse simples. Como se fosse pegar um doce da mão de alguém.
Vendeler bufou, incrédulo.
— Mas isso não existe. Não existe magia que drene energia arcana dessa forma. Não nessa escala. Não em criança. Não sem contração. Não sem preço. — Passou a mão pelo rosto. — O que será que ela é?
Garwin suspirou.
— Se você não sabe dizer…
Vendeler encarou o fogo.
— Não sei, Garwin. O que eu contei dela, quando salvou a minha vida, é tudo o que sei também. Tudo nela é um mistério.
Thurstan coçou a nuca, hesitante.
— E… se ela não sabe o que faz? E se um dia ela faz isso com alguém sem querer?
O silêncio caiu pesado.
Cailynm apertou Shern com mais força.
— Eu vou ensinar ela — sussurrou. — Eu prometo. Eu vou ficar do lado dela. Vou cuidar dela. Vou proteger ela de tudo — a voz tremeu — inclusive dela mesma, se precisar.
Garwin a abraçou pelos ombros.
— Nós vamos.
Vendeler soltou um suspiro cansado.
— Depois do que ela fez hoje… isso mostra que a Shern não é só nossa. É do mundo.
Garwin virou o rosto para ele, firme.
— O que você quer dizer com isso?
Thurstan interveio, com tom conciliador:
— Acho que ele quis dizer que um dia o interior da Alghoryn vai ser pequeno demais pra ela. Que o mundo vai oferecer oportunidades que nós não seremos capazes de conter.
Cailynm ergueu o olhar, preocupada.
— E a Arastine? Nem lembrei de ir ver ela na enfermaria. Ela… está bem?
Vendeler respondeu:
— Dormindo. O corpo vai se recuperar. Foi só dano físico. Ela é forte.
Cailynm respirou, aliviada, quando passos leves vieram da rampa. Arastine apareceu: roupas limpas, cabelo preso às pressas, o braço enfaixado. Mas de pé.
Ela viu Cailynm.
E correu sem dizer nada.
As duas se abraçaram. Um abraço longo, desesperado, finalmente seguro.
Cailynm chorou no ombro dela.
Arastine sorriu fraco.
— Eu sabia que ia dar certo — murmurou. — Eu sabia.
Cailynm riu entre lágrimas.
— Você não faz ideia de como você tá errada… O que fizeram com você?
— Vendeler — respondeu Arastine, com uma risada curta.
Vendeler ergueu as mãos, culpado.
— Mais uma vez… me desculpe.
Arastine balançou a cabeça.
— De jeito nenhum. Você salvou minha vida. Ou era isso, ou morrer. Era o que ia acontecer.
A fogueira estalou.
Garwin aproximou a mão das chamas, pensativo. Vendeler ajeitou o sobretudo sobre as costas. Thurstan suspirou, olhando o céu estrelado. Shern dormia, tranquila, respirando como se nada tivesse acontecido.
Por um instante, todos olharam para ela ao mesmo tempo.
Garwin se levantou.
— Vamos embora?
Thurstan assentiu e o acompanhou.
Vendeler foi último a ficar de pé, pedindo silêncio.
— Só um momento. — Ele respirou fundo. — Eu quero comunicar algo pra vocês.
leito seco do lago parecia escutar. A frase atravessou o ar como um peso.
Garwin se sentou outra vez, ajeitando melhor Shern no colo. Cailynm ergueu os olhos, ainda com o choro recente marcando as pálpebras. Thurstan também se sentou, o corpo meio desabado.
Apenas Arastine permaneceu de pé, alguns passos atrás, como se não confiasse nas próprias pernas para se aproximar.
O crepitar da fogueira pareceu diminuir.
Vendeler inclinou a cabeça, observando cada um deles, não com distanciamento, mas com aquele cuidado silencioso que ele sempre demonstrava antes de dizer algo difícil.
— Essa foi a minha última aventura com vocês.
Garwin não reagiu de imediato. A frase demorou a alcançar o entendimento dele, como se tivesse que atravessar uma parede interna antes de se instalar.
— Como assim? — Thurstan endireitou as costas de repente.
Arastine franziu o cenho, o rosto endurecendo. Cailynm soltou um pequeno ar, quase um engasgo.
Vendeler continuou, calmo:
— Não é impulsivo. Não é só por causa de hoje. — Ele enfiou as mãos nos bolsos, postura simples, mas pesada. — A verdade é que… eu cheguei no meu limite.
Ninguém falou. Ele seguiu.
— Tenho trinta e quatro anos. — Um sorriso breve, sem humor. — O que, pra esse tipo de vida, já é quase aposentadoria. Eu sinto no corpo. Sinto nos ossos. Sinto… aqui. — Ele tocou a própria têmpora. — A adrenalina começa a cobrar seu preço.
Thurstan tentou:
— Vendeler, quem sabe você só precisa de umas semanas…
— Não. — A resposta veio gentil, mas firme. — Não é isso. Já faz tempo que venho pensando nisso.
Ele olhou para a fogueira por alguns segundos, como se buscasse ali a coragem para continuar.
— Eu tenho dinheiro o bastante pra viver bem até a minha velhice. Mais do que imaginei um dia. Sete anos roubando condutores das muralhas de Sam Brehim me deixaram rico.
Ele soltou um suspiro leve.
— Essa parte da minha vida… eu já fechei. Esse capítulo acabou.
Cailynm levou a mão à boca, sentindo o impacto.
Vendeler continuou:
— E tem outra coisa. — A voz baixou, tornando-se íntima. — Eu quero uma vida calma. Sabe? Uma casa. Silêncio. Talvez uma família. Um filho… se eu ainda não tiver passado da hora.
Ele fez um gesto leve com a mão.
— Tenho pensado nisso há muito tempo. Mas sempre adiava porquê… vocês precisavam de mim.
Garwin finalmente falou, devagar:
— Você fez mais do que qualquer um podia ter feito. — Ele engoliu seco. — Mais do que eu merecia.
O olhar de Vendeler suavizou, quente.
— Garwin… você é meu irmão. Eu não fiz nada que você não fizesse por mim.
Cailynm, com a voz falhando:
— Eu fui parte disso… desse cansaço… me desculpa…
— Cailynm. — Ele sacudiu a cabeça, firme. — A culpa não é sua. Não é de ninguém aqui. Essa decisão é minha. Só minha. Eu só preciso… parar antes que algo ruim aconteça de verdade.
Thurstan se inclinou para frente.
— Você está falando como se… estivesse desistindo da gente.
Vendeler sorriu de canto.
— Jamais desistiria. Se vocês precisarem de mim, eu venho. Mas… — respirou fundo — eu não consigo mais viver isso todos os dias. Não depois de quase perder vocês tantas vezes. Não depois de ver Arastine daquele jeito. Não depois de hoje.
Ele então olhou para Shern dormindo.
Ficou ali um instante, apenas olhando — e aquele olhar dizia mais do que qualquer palavra.
— E vendo essa garotinha… vendo o que ela faz, o que ela é… — a voz se tornou ainda mais calma — eu entendi que o futuro não está comigo. Está com vocês. Vocês quatro. Vocês cinco. Eu só atrapalharia. Ou pior… seria o motivo de tudo dar errado um dia.
Garwin se levantou, passou Shern para o colo de Cailynm com cuidado.
Chegou até Vendeler.
E o abraçou.
Foi um abraço firme, pesado, um abraço que carregava agradecimento, perda e reconhecimento.
Vendeler levantou uma mão e devolveu o gesto, contido, como sempre fora.
Atrás deles, a voz de Arastine explodiu:
— Isso é uma estupidez — disse, a voz trincada de raiva e dor. — Você não pode simplesmente abandonar—
— Arastine. — Vendeler interrompeu, suave, sem brigar. — Você sabe que eu posso. E sabe… que eu preciso.
Ela ficou imóvel.
A respiração curta. O único olho marejado apesar de todo esforço para manter o rosto firme.
Sem dizer mais nada, virou as costas e subiu a rampa da Alghoryn.
Thurstan abaixou a cabeça, como alguém que perde um alicerce. Garwin voltou para junto da fogueira, dando um último aperto no ombro de Vendeler antes de soltá-lo.
Vendeler olhou para todos.
— Toda rota tem um fim — disse, num tom simples, quase sereno. — Essa é a minha.
Cailynm deixou cair uma lágrima silenciosa.
Garwin pousou a mão no ombro dela.
Thurstan apertou as tiras das luvas sem conseguir formar palavras.
Vendeler voltou a encarar o fogo.
Por alguns segundos, ninguém teve fôlego para quebrar o silêncio.
A chama estalou.
O vento passou.
***
O portal abriu-se no alto do salão principal do castelo como uma fenda irregular, cuspindo luz pálida entre as nuvens metálicas que rolavam do lado de fora. O clarão percorreu as colunas vivas — espirais de metal pulsante que respiravam com o castelo — e o piso negro refletiu o brilho por um instante.
Um demônio caiu do portal com um tropeço pesado. As asas, uma mistura disforme de couro e penas escuras, se abriram no reflexo do instinto, mas falharam em sustentá-lo. Ele recuperou o equilíbrio no último instante, apenas as pontas dos dedos tocando o chão.
Um dos servos ergueu a cabeça o suficiente para vê-lo oscilar.
— Lorde Jftal’rûhm retorna… — murmurou, a voz úmida e esmagada.
Outra criatura, prostrada, sibilou com bajulação trêmula:
— Majestade firme… majestade eterno… nós vimos sua força rasgar o véu…
Jftal’rûhm respondeu sem olhar para eles.
— Cale-se, Esmagado. Você só existe para rastejar.
O servo bateu a testa no chão com força, como se agradecesse a reprimenda.
Os Esmagados — criaturas de carne pálida, retorcida, membros dobrados em ângulos impossíveis — se prostraram de vez. O movimento ondulou pelo salão como uma massa subserviente. Nenhum levantou o olhar. Nenhum respirou mais alto do que deveria.
Jftal’rûhm endireitou o corpo. O peito subia e descia em ciclos curtos, rígidos. Fumaça negra escapava das fissuras da pele albina, dissolvendo-se no ar antes de tocar o chão.
Ele deu dois passos. O eco ascendeu pelas paredes amplas e verticais até as janelas altas, onde a tempestade tóxica ruía do lado de fora. O trovão verde iluminou seu perfil magro e tensionado.
Um Esmagado deixou escapar um soluço involuntário.
Jftal’rûhm virou levemente a cabeça — apenas um ângulo mínimo, suficiente para fazer o salão inteiro encolher ainda mais.
A voz dele veio baixa, firme:
— Levantem-se. Tripliquem os tributos.
Os servos estremeceram. Alguns arrastaram-se para longe imediatamente, arranhando o piso com as mãos deformadas, sem ousar levantar o rosto.
Jftal’rûhm não esperou reação alguma. Virou o rosto para a escadaria interna. A luz das lâmpadas tóxicas vibrava com sua passagem, como se a própria estrutura do castelo hesitasse diante dele.
Ele subiu sem pressa, cada passo pesado demais para um lorde tentar esconder. A fumaça continuava a vazar das rachaduras.
No último lance de escadas, sua mão fechou-se brevemente contra o próprio torso — um gesto pequeno, rápido, quase invisível — antes dele desaparecer no corredor.
***
O corredor abaixo do salão principal fervilhava — não com barulho, mas com movimento contido. No domínio de Jftal’rûhm, silêncio constante significava obediência. As paredes de metal úmido refletiam a luz verde das lâmpadas tóxicas, e as sombras se mexiam como se respirassem.
Dois Esmagados rastejavam pelos corredores. As mãos deformadas tremiam; a pele pálida cintilava sob o brilho instável. Um deles murmurou, num fio de voz:
— Triplicou… triplicou… tributo…
O capataz — um demônio menor de chifres curtos e olhos como poças de alcatrão — puxou os dois pelo pescoço ao mesmo tempo.
— Quem disse isso?
Os Esmagados se encolheram, sem levantar o rosto.
— O lorde… o lorde disse, mestre…
O capataz largou-os devagar.
— Triplicar…? Então o rumor é real.
Um sorriso lento abriu-se no rosto dele.
Mais adiante, os contadores de essência — criaturas magras, de cabeças alongadas e pergaminhos presos ao corpo — receberam o boato com inquietação. Um deles pousou a pena, hesitante.
— Triplicar tributos… isso é sinal de expansão de domínio. Ou queda de poder.
Outro inclinou o rosto, avaliando.
— Ou ascensão forçada.
— Não. Ascensão se anuncia. Fraqueza se oculta. Ele triplicou — logo, tombou.
Trocaram olhares rápidos, calculados.
— Devemos enviar relatório?
— Já está sendo enviado por si mesmo. Metade do castelo já cochicha.
Nos castelos adjacentes, os cobradores — criaturas altas como lanças, capazes de drenar energia com um toque — ajustavam seus bastões. Um deles afiava a ponta metálica enquanto perguntava:
— Confirmado? Triplicou mesmo?
— Confirmado. O lorde Jftal’rûhm está tentando tampar rachaduras no próprio poder.
— Patético — rosnou outro. — Quando um lorde força tributo, todos sentimos o cheiro.
— Qual cheiro?
O cobrador mais velho ergueu o rosto para a tempestade roxa.
— Cheiro de sangue novo.
O rumor continuou subindo pelos corredores até alcançar os soldados. Ali, o tom já vinha deformado e venenoso.
— Ele voltou mancando.
— Tropeçando.
— Eu ouvi que caiu de joelhos.
— Eu ouvi que sangrou luz.
Cada frase exagerava a anterior. Cada palavra cavava um pouco mais o túmulo do lorde.
Um soldado veterano concluiu:
— Se foi visto fraco por um servo… ele está perdido.
Por fim, o boato alcançou o registro central da partição — uma sala de arquivos vivos, onde pergaminhos rastejavam entre as prateleiras. Um demônio de categoria alta revia relatórios; tinha três olhos, e nenhum deles piscava.
Um subordinado se curvou.
— Senhor… o tributo foi oficializado. Três vezes mais.
O demônio maior não ergueu a cabeça.
— Então é verdade.
— O lorde Jftal’rûhm… enfraqueceu.
O demônio puxou o pergaminho da partição dele. As bordas vibravam com instabilidade.
— E os vizinhos? Já se moveram?
— Ainda não. Estão observando. Esperando instruções.
O demônio maior fechou o pergaminho.
— Se Jftal’rûhm declarou tributo triplo, então declarou a própria morte. Triplicar tributo vai triplicar a drenagem de energia dos dominados, ou seja, perda de poder para o sustento da estrutura.
O subordinado permaneceu imóvel.
— Vai se levantar contra ele, senhor?
— Não. — Um sorriso fino abriu-se como um corte. — Quero viver. Deixarei que os famintos se devorem entre si. Assim, a partição sobrará… e eu a recolherei intacta.
O boato percorreu toda a cadeia de poder: dos Esmagados aos capatazes; dos capatazes aos contadores; dos contadores aos cobradores; dos cobradores aos soldados; dos soldados aos oficiais; e, por fim, aos quatro lordes rivais.
Quando chegou até eles, já havia virado sentença:
— Jftal’rûhm sangrou poder diante dos servos.
— Ouvi rumores de que ele esteve entre os humanos. A terra dos Onze. Lugar proibido.
— Sim. Ele triplicou os tributos. Não deve nem ter mais energia para sustentar o próprio castelo.
— É uma oportunidade única neste ciclo cósmico. Um lorde vai cair.
Os quatro rivais abriram as asas e ergueram voo de suas fortalezas flutuantes.
E partiram rumo ao castelo dele.
***
O aposento de Jftal’rûhm era uma torre suspensa acima das nuvens metálicas. As paredes latejavam em luz fraca, abrindo e fechando ranhuras como se respirassem. O trono de ossos no centro projetava sombra demais para o espaço disponível.
O demônio permanecia sentado, a respiração curta e rápida. Fendas pela pele liberavam filetes de fumaça escura que morriam no ar. Ele ergueu a mão, desenhando um gesto circular. Nada aconteceu. Repetiu o movimento, mais brusco; o ar permaneceu liso.
A mandíbula travou. As narinas se abriram com força. Ele afastou a mão devagar, como quem abandona um esforço inútil, e apoiou a palma no braço do trono.
O piso vibrou. As luzes das paredes oscilaram.
Uma sombra cruzou o nevoeiro violeta lá fora, seguida por outra, e outra. Fortalezas flutuantes emergiam da tempestade com correntes de energia já acesas, prontas para serem lançadas.
Um músculo saltou no canto da boca dele.
— Quindia. — A voz saiu baixa, arranhada. — Você foi a culpada disso: bruxa imprestável.
Ele apoiou as duas mãos no trono e ficou de pé. O corpo balançou para a frente, mas ele firmou as asas nas costas, tentando endireitar-se. Cada membrana tremeu sozinha, sem coordenação. As rachaduras da pele soltaram mais fumaça.
— E a criança… — A palavra saiu dura. — A pequena maldita.
Atrás dele, um estalo percorreu o chão. A torre inclinou alguns centímetros, suficiente para fazer poeira ácida escorrer de uma das vigas vivas. O movimento arrancou um ruído gutural de Jftal’rûhm, um som breve, fechado, que ele engoliu de imediato.
Do lado de fora, as quatro fortalezas rivalizadas aproximaram-se até que suas muralhas ocupassem quase toda a vista. As correntes foram lançadas. As pontas cravaram na base do castelo dele com um baque seco, e a superfície respondeu com um ondular do metal — lento, irregular, falho.
As paredes internas abriram rachaduras largas. Gases tóxicos escaparam em jatos finos. O trono partiu-se ao meio. O aposento inteiro afundou um pouco, como se a base tivesse perdido sustentação.
Nos níveis inferiores, criaturas fugiam pelas passarelas externas. Esmagados saltavam das bordas e agarravam plataformas das fortalezas rivais; capatazes batiam nas portas internas, forçando rotas de fuga; alguns soldados cruzaram corredores correndo, empurrando quem estivesse na frente. As próprias vigas do castelo cediam sob seus pés.
Jftal’rûhm caminhou até a janela. A asa direita arrastou no chão antes de subir. O castelo perdeu mais um pedaço de estrutura, e uma parede inteira despencou para fora, dissolvendo-se assim que tocou a tempestade.
As fortalezas rivais pairavam adiante, imóveis. Nenhum dos lordes avançava. Permaneciam à distância, observando.
A torre inclinou mais um pouco. O piso abriu uma linha torta entre os pés de Jftal’rûhm. Ele segurou a borda da janela com força, as garras rangendo no metal. Quando olhou para a tempestade abaixo, o rosto ficou imóvel, completamente rígido. As asas abaixaram devagar, sem resistência.
A última rachadura cruzou o chão com um estalo seco. A torre se soltou da base.
Jftal’rûhm caiu junto com ela.
A nuvem tóxica recebeu o corpo com violência. As asas rasgaram como pano molhado. A pele borbulhou. A fumaça saiu em jatos descontrolados. O turbilhão o engoliu, triturando o que restava do castelo ao redor.
Nas fortalezas distantes, os lordes continuaram imóveis, alinhados no ar corrosivo.
Nenhum deles desviou o olhar quando a torre desapareceu por completo no caos da tempestade.
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