Volume 3
Capítulo 26: Atrás da Mãe
O convés da Alghoryn estava quieto. Nenhum vento, nenhum barulho além do bater leve das velas ecoando no casco de madeira e metal. Vendeler caminhava em círculos curtos, o olhar fixo no horizonte, o rosto duro demais para parecer calmo.
Thurstan subiu as escadas, arrastando os pés.
— Eu… eu revirei a nave inteira — disse, exausto. — Não tem mais nenhum lugar pra procurar.
Vendeler não tirou os olhos do céu.
— Então ela não está aqui.
— Vendeler… isso não faz sentido. — Thurstan apoiou as mãos no corrimão. — Ninguém falou nada pra ela. Ela não tinha por que sair. Não tinha como também.
— Crianças sempre têm meios. — Vendeler girou o rosto devagar. — Elas escutam o que não deviam. Entendem o que não falamos. — Um silêncio breve. — Ela pode ter ouvido sobre a cabana.
Thurstan fechou os olhos, frustrado.
— Mas ninguém mencionou a cabana perto dela…
— A gente não teria percebido mesmo que tivesse mencionado isso.
Os passos de alguém ecoaram atrás deles.
Garwin surgiu pela escada inferior — andando firme, mas com os olhos confusos, como se ainda estivesse acordando. Parou no convés e piscou algumas vezes, encarando os dois.
— Onde… onde eu tô? — perguntou, a voz arranhada. — O que aconteceu?
Vendeler o encarou por um instante.
— Você estava sob um feitiço — respondeu, seco. — A gente te trouxe de volta à força.
— Feitiço? — Garwin tocou o próprio peito, como se buscasse equilíbrio. — Eu lembro de… Cailynm. E da cabana. Depois, nada. — Ele ergueu o rosto, inquieto. — O que aconteceu com a Arastine?
Thurstan respirou fundo.
— Ela… — engoliu seco. — A bruxa quase matou ela. Se não fosse o Vendeler... Ela tá na enfermaria, dormindo.
Garwin ficou rígido.
— E a Shern? — perguntou, de repente.
Thurstan abaixou a cabeça.
— Pois é: ela sumiu. Procuramos em todos os setores. Ela não tá na nave.
Garwin ficou pálido.
— Sumiu? Como assim sumiu?
Vendeler se virou por completo.
— Garwin… — a voz dele ficou baixa. — Achamos que ela pode ter voltado pra cabana. Atrás da mãe dela.
Garwin fechou os punhos com força.
— Então eu vou voltar lá.
Thurstan arregalou os olhos.
— Garwin, espera, lá embaixo tem—
— Eu vou. — Garwin cortou, firme. — É minha filha. E ela tá sozinha.
Vendeler baixou o olhar, os ombros pesados.
— A gente não tem outra escolha. — Ele respirou fundo. — Se ela tiver lá mesmo, cada momento conta.
Thurstan limpou a testa com a manga, tentando controlar o tremor.
— Então… — murmurou — Vamos nos preparar.
Garwin virou o rosto para os dois, o olhar decidido.
— Vamos para a armoria.
E saiu andando — rápido — enquanto os outros dois o acompanharam, o silêncio pesado demais para caber dentro da nave.
O corredor estreito levou os três até a porta reforçada na lateral da nave. Garwin a empurrou com força; a armoria se abriu como um baú abarrotado.
Prateleiras metálicas lotadas de itens de expedições antigas: poções etiquetadas às pressas, varinhas de madeira escurecida, pergaminhos enrolados, lâminas empoeiradas, e fileiras de paus de fogo primo — bastões longos, cada um com um anel de metal indicando o disparo único.
Garwin entrou sem hesitar. Pegou uma varinha, testou o peso, depois três poções. Os dedos tremiam, mas o olhar estava firme.
Thurstan ficou na porta, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse fazer tudo desmoronar.
Vendeler cruzou os braços.
— Garwin… — disse, com a voz baixa e honesta. — Eu tô com medo. Muito. E se a gente voltar pra lá… um de nós pode morrer.
Garwin continuou enchendo a mochila.
— Eu sei. — O tom dele era calmo demais. — Mas a Shern tá lá. E eu vou buscá-la.
Vendeler soltou um suspiro longo, quase cansado.
— Você entende que Quindia quase matou nós dois? Eu não consegui nem manter o campo de magia ativo. Se ela virar pra cima de você…
Garwin pegou dois paus de fogo primo, guardando-os com cuidado.
— Ela é minha filha.
Só isso.
Thurstan se aproximou, trêmulo.
— Garwin… eu vou com você. — engoliu seco. — Eu tô morrendo de medo. Mas vou.
Garwin fez um aceno curto, sem perder tempo.
— Então pega o que conseguir carregar.
Vendeler observou os dois, o rosto rígido. Depois pegou ele mesmo uma varinha de descarga rápida, testando a ignição com um clique seco.
— Certo. — murmurou. — Se vamos fazer isso, vamos fazer direito.
Garwin fechou a mochila, amarrou a tira no ombro e passou por eles.
A nave deu um leve balanço — quase imperceptível. A descida começara.
No convés, o aeroplano tocou o solo com suavidade; nenhum vento, nenhuma vibração. Somente o peso do silêncio caindo sobre os três.
Garwin desceu primeiro.
Thurstan veio logo atrás, engolindo o medo.
Vendeler parou um instante na borda da rampa, respirou fundo e encarou a floresta que os aguardava.
— Vamos.
***
Quindia recuou um passo. Depois outro. O rosto estava branco demais, o suor escorrendo pela têmpora. Os dedos dela puxavam o ar como quem tenta agarrar magia invisível — mas nada respondia.
— Onde está a minha mãe? — perguntou Shern novamente.
A voz soava calma, curiosa, quase distraída, mas estava se tornando séria. A menina caminhava devagar, tocando a parede com a ponta dos dedos, como se aquele corredor antigo fosse só um quarto amplo demais.
Quindia abriu a boca, tentando segurar alguma dignidade.
— A sua… sua mãe… — Ela deu mais um passo para trás, o salto raspando na pedra. — Ela está mais adiante. No santuário. Eu posso te mostrar. Só… não chega mais perto.
Shern inclinou a cabeça, lenta e infantil.
— Se a senhora sabe onde ela tá, por que não me mostrou antes?
A bruxa engoliu em seco.
— Eu posso mostrar. Claro que posso. Só mantenha distância.
Ela começou a subir a grande escadaria de mármore de costas, um pé tateando o degrau. O segundo passo falhou; o salto deslizou. Quindia caiu sentada no degrau, soltando um som curto de susto. Em seguida, tentou subir o degrau seguinte ainda sentada, arrastando o corpo com pressa. As colunas refletiam a luz pálida dos chafarizes no alto.
A cada novo degrau, ela lançava olhares rápidos por cima do ombro.
Shern subia atrás.
Pequena. Passos leves. Os sapatinhos batendo de forma tranquila e ritmada no mármore.
— Você é uma mulher malvada — disse a garota, como quem comenta o tempo. — Uma gorda malvada. Minha mãe não gosta de pessoas malvadas.
Quindia tropeçou no próprio manto ao tentar se erguer. O corpo inteiro dela se tensionou.
— Menina… eu posso explicar tudo…
— Eu tirei a sua magia. — Shern falava como se revelasse um segredo para um brinquedo. — A senhora não devia ter tentado machucar as pessoas.
Quindia se virou bruscamente, a respiração falhando.
— O que você é?!
Shern piscou devagar.
— Eu sou a Shern.
E sorriu — um sorriso pequeno e satisfeito, o tipo que uma criança dá quando resolve um problema que os adultos deixaram cair no chão.
Quindia empalideceu ainda mais.
— Não chega perto de mim — sibilou, arrastando o corpo para trás, sentada no degrau. — Eu posso ajudar. Eu posso te dar qualquer coisa. Qualquer coisa! Só fica longe!
Shern deu mais um passo, tranquila.
— Eu só quero ver minha mãe. Você não machucou ela, né?
A bruxa recuou tanto que quase tombou do último degrau. O corpo inteiro dela tremia.
— Você não entende! — gritou, a voz quebrada. — Você não sabe o que tem aí dentro! Você não sabe o que é!
Shern abaixou os olhos para o próprio peito, como se tentasse enxergar o que a bruxa apontava.
— Eu sei sim: minha mãe.
Quindia virou o corpo e correu. Não havia elegância nenhuma na fuga — ela tropeçou nos próprios pés, agarrou o corrimão, quase caiu mais duas vezes enquanto disparava para os jardins. O som das saias raspando na grama ecoou como um chocalho abafado.
Shern a observou por um momento.
Depois subiu o primeiro degrau com calma, como quem segue uma trilha conhecida.
Devagar. Sem pressa.
— Eu só quero ver a minha mãe — repetiu, baixinho.
O corredor pareceu ficar frio de repente.
***
O jardim ritualístico tremulava sob a luz azul dos chafarizes — um brilho úmido, silencioso, quase imóvel. O vento mal se atrevia a passar entre as folhas. No centro, sob o dossel de tecido translúcido, a cama ritual esperava.
O demônio estava ali.
Alto. Firme. As sombras grudavam na pele dele como se tivessem nascido ali. Cailynm estava a poucos passos, a respiração pesada de quem tentava não desmoronar. Mantinha o queixo erguido, postura correta — mas os olhos denunciavam a ruína.
— Está na hora — murmurou o demônio, a voz grave como veludo vibrando pelas pedras do jardim.
Cailynm assentiu devagar, mas os dedos tremiam.
Antes que ele desse outro passo, algo explodiu no silêncio.
— Meu senhor! — A voz de Quindia cortou o jardim como uma lâmina. — Meu senhor, me ajude!
Os dois se viraram ao mesmo tempo.
O demônio franziu o cenho.
— O que é esse estado patético? — Ele inclinou a cabeça, irritado. — Por que está tremendo assim, bruxa? Onde está seu poder?
Quindia tentou falar, mas só engasgou no ar.
— Eu… eu… ela… aquela… criança—
O demônio estreitou os olhos.
— Uma criança te deixou assim?
Cailynm encarou Quindia, confusa, e então viu.
Lá no alto da escadaria.
No mesmo ponto de pedra onde a luz azulada tocava o chão.
Shern.
A menina caminhava devagar, segurando o corrimão de mármore como se estivesse explorando uma escada nova. Olhar curioso. Expressão calma. Os olhos brilhando em expectativa.
— Mãe? — chamou, suave, quase sussurrado.
Cailynm congelou. Os lábios se abriram, mas nenhum som saiu.
Então ela se virou de súbito, agarrou o braço do demônio e puxou como se quisesse arrancá-lo dali.
— Agora! — sussurrou, desesperada. — Vamos… vamos começar agora, por favor, não me negue.
O demônio ignorou. Os olhos dele estavam fixos na menina.
Um longo segundo deslizou pela grama.
— Isso. — Ele deu um passo à frente. — É isso que te apavora, Quindia?
A bruxa sacudiu a cabeça, soluçando.
— Meu senhor, ela… ela tirou… ela tirou a minha magia… ela—
O demônio ergueu a mão.
Sem aviso.
Sem esforço.
Sem emoção.
E fechou os dedos no ar.
Quindia explodiu.
Um borrifo violento. Sangue quente respingou no dossel. Pedaços de carne caíram na grama como trapos queimados.
Cailynm deu um salto para trás, o corpo coberto pelo sangue da bruxa.
O jardim ficou mudo.
Shern parou no jardim e observou a cena. Sem susto. Sem pressa.
Depois levantou o rosto. Os olhos dela se abriram, maiores que antes.
— Mãe. — sorriu, pequeno. — Eu te achei.
Cailynm levou a mão à boca.
Um soluço escapou.
O demônio virou lentamente a cabeça na direção da criança — não com desprezo, mas com a sensação irritante de que algo, finalmente, merecia sua atenção.
— Por que fez isso com ela? — perguntou Shern, com a voz calma de sempre. — O senhor é um homem muito mal.
O demônio rosnou baixo, irritado, sem sequer responder. A mão dele se abriu, e um círculo negro começou a se formar — instável, raivoso, pulsando. Ele apontou para a criança.
— Morra.
Mas a magia não o obedeceu.
O círculo tremeu, vacilou… e implodiu. O impacto o fez recuar um passo.
— O quê…? — Ele encarou o próprio braço como se estivesse estragado. — Isso não é possível.
O céu azul acima do jardim começou a rachar em linhas retas, silenciosas, cruzando o firmamento de ponta a ponta. Em seguida, as placas começaram a cair. Enormes pedaços azuis despencaram como vidro descascando de uma pintura antiga, revelando o céu negro e estrelado.
O som veio só depois: estalos, estouros, ruídos secos de algo maior que um mundo se quebrando.
Cailynm puxou o tecido do peito, tentando se cobrir. As mãos deslizaram procurando esconder o máximo possível do corpo marcado pelo tecido transparente. Ela encolheu os ombros, tremendo.
— Shern…? — A voz saiu fraca, um fio. — Não… não olha pra mim… por favor…
A grama secou em um único segundo. O chão começou a evaporar, levantando uma névoa quente. A cama com dossel rangeu e inclinou, as colunas perdendo consistência como se derretessem.
Shern avançou três passos sem hesitar, ignorando o ar que ondulava como calor demais.
O demônio abriu a mão de novo. Outra magia tentou nascer ali — uma explosão de fogo negro.
Nada.
Ele ofegou.
— Por que…? — A voz dele ficou grave, distorcida. — Por que eu não consigo?!
Ele fitou Shern com força. O olhar dele mudou. Não havia desprezo.
Havia pavor.
— Você… esgotou… minha energia… — rosnou, cambaleando. — Mas como…? Que tipo de aberração é você…?
O céu restante se rompeu inteiro.
Uma fissura abriu atrás do demônio — um portal irregular, faminto. Ele tentou se firmar no chão, mas o mármore também se partiu. Tentou agarrar o capim, mas este também evaporou, virando uma areia ressecada.
— Maldita…! — Ele rugiu, tentando conjurar alguma coisa enquanto era puxado. — Maldi—
O resto foi engolido. O portal se fechou com violência. A realidade se recompôs num estalo seco.
Nada do jardim restou.
Só o leito seco do lago que ficava ao lado da pequena cidade, rachado, fumegante, com cheiro de pedra queimada.
Cailynm caiu de joelhos, sentando sobre as próprias pernas. As mãos se apertaram no peito, tentando cobrir o corpo vulnerável. O choro sacudia seus ombros.
— Não, filha… não olha pra mãe assim…
Shern correu até ela.
— Mamãe! — Ela a abraçou pelo pescoço, o rosto encostado no dela. — Mamãe, você tá feia com essa roupa! Dá pra ver tudo! — Olhou para trás. — Quem era aquele homem? Você ia casar com ele? Você trocou o papai por aquele homem mal?
Cailynm apenas soluçou, incapaz de responder.
Um som de passos atravessou a neblina.
Quando o vapor subiu, a Alghoryn estava pousada logo adiante, silenciosa, como se tivesse sempre ali. Três figuras caminhavam em direção às duas:
Vendeler na frente, Garwin logo atrás, Thurstan desviando o olhar para não encarar diretamente Cailynm.
Garwin parou de repente.
Vendeler tirou o próprio sobretudo e o estendeu para ele.
— Cobre ela.
Garwin se ajoelhou e envolveu Cailynm com o tecido pesado. Ela o agarrou com força, como alguém que encontra um abrigo no meio de uma tempestade.
Thurstan virou o rosto, envergonhado, abrindo a boca como se fosse falar — nenhuma palavra saiu.
Shern continuou abraçada à mãe, observando os três.
Garwin puxou ambas — esposa e filha — para junto de si. O abraço dos três formou um único nó apertado, urgente, como se qualquer espaço entre eles pudesse deixá-los cair de volta ao pesadelo.
Cailynm chorava contra o ombro dele.
— Me perdoa, amor.
— Não precisa. — disse Garwin. — Não precisa.
Shern esticou a mãozinha e tocou o rosto do pai, sentindo-o tremer.
A Alghoryn permaneceu ao fundo, imóvel. Um vento longo e frio cruzou o leito seco do lago.
A família ficou ali, abraçada, enquanto o resto do mundo parecia distante demais para existir.
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