Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 3

Capítulo 25: Não Havia Outra Escolha

Os três cães negros avançaram primeiro, arrastando as garras pelo chão de pedra. Dois permaneceram atrás, imóveis ao lado de Quindia, com as bocas exalando fumaça quente.

— Mais essa ainda. — disse Arastine ao se lançar à frente, o braço esquerdo tremulando quando os frascos presos ali se esvaziaram em jatos curtos.

O brilho correu sob a pele dela. Vendeler avançou junto, o traje metálico rugindo como um segundo corpo.

O primeiro cão saltou sobre Arastine com a boca aberta. Ela escorregou por baixo dele, passando entre as patas dianteiras e traseiras. A lâmina riscou as costelas de baixo para cima. Num giro, trocou a empunhadura e cravou a espada na garganta. O passo seguinte completou o movimento: a cabeça caiu antes do corpo.

— Belo golpe. — disse Vendeler quando recebeu o segundo cão de peito aberto.

O animal tentou morder. As mãos metálicas do traje o agarraram pela mandíbula — uma no focinho, outra no queixo.

— Péssima escolha, amigo.

O metal brilhou azul. O choque percorreu o corpo do cão e o maxilar cedeu com um estalo seco.

O terceiro correu pelo flanco, tentando pegar Vendeler por trás. Mas, no meio do salto, o traje ergueu um escudo de energia instantâneo que repeliu o impacto com um estampido.

Garwin surgiu ao fundo, continuava limpando, como se nada estivesse acontecendo.

— Arastine! Esquerda! — gritou Vendeler.

— Eu vi.

A guerreira avançou sobre o terceiro antes que ele se levantasse. A espada atravessou o flanco do animal, e Vendeler completou conjurando uma rajada de setas mágicas que perfurou o corpo do cão infernal.

O do maxilar quebrado tentou voltar a ficar de pé. Arastine ergueu o queixo, avaliando.

— Esse ainda tá vivo?

Vendeler avançou um passo, ergueu o corpo do cão quebrado e o arremessou. O animal caiu aos pés de Quindia.

A bruxa não se moveu. Os olhos apenas acompanharam os dois combatentes como quem observa um experimento.

— Ela está estudando a gente. — disse Arastine, seca.

— Matamos a maioria. E mesmo assim, não interfere. — respondeu Vendeler. — O que está esperando…?

O cão infernal ferido se retorcia aos pés dela, rangendo o resto de mandíbula solta.

Quindia inclinou a cabeça para o lado, como se finalmente tivesse despertado de um transe.

Ela ergueu dois dedos.

Os dois cães restantes se abaixaram — preparando-se.

O corredor se encheu do som abafado de fogo sendo sugado para dentro das gargantas.

O cão de mandíbula quebrada tentou se erguer, gemendo baixo. O sangue negro escorria pela língua pendurada, mas os olhos ainda tinham o fogo infernal que o mantinha vivo.

Quindia caminhou até ele.

Cada passo era lento, calculado — como alguém atravessando um altar sagrado. A pedra sob seus pés escurecia, primeiro perdendo cor, depois marcando-se com contornos queimados, como se sua presença drenasse luz e vida do chão.

Vendeler ergueu o braço diante de Arastine num gesto automático.

— Olha aquilo.

Ela apenas apertou o cabo da espada.

— Vendeler, essa luta vai ser difícil.

Quindia parou diante da criatura caída. O cão negro tentou levantar uma última vez, arfando, o corpo tremendo sem força.

Ela o observou como quem avalia um objeto defeituoso.

Ergueu dois dedos.

A fumaça negra explodiu de dentro do corpo do cão — rápida, silenciosa, total.

A criatura nem chegou a gritar. Simplesmente deixou de existir.

O ar ficou seco, vazio, como se algo tivesse sido arrancado do espaço.

Arastine respirou fundo, a voz baixa:

— Ela apagou como se fosse nada…

— Temos que tomar cuidado — disse Vendeler. — Se a gente perder a luta…

Quindia, ainda com a mão erguida, virou o rosto na direção deles.

— Onde estávamos?

Os dois seres infernais restantes avançaram um passo, rosnando em uníssono — resposta direta ao gesto da mestra.

O ar do corredor se apertou de repente, como se uma mão invisível o comprimisse por todos os lados. O chão vibrou sob os pés deles. As paredes de pedra começaram a se mover para dentro — lentas, constantes — estreitando o espaço.

— Tá vindo, Vendeler. — disse Arastine, imóvel, os dentes cerrados.

— Se quisermos salvar eles, temos que vencer essa desgraçada. — respondeu ele.

Quindia não avançou. Apenas ergueu a mão, traçando um círculo no ar com um único dedo.

O espaço dobrou.

Um estalido seco percorreu o chão. Linhas sinuosas correram pelas pedras, como rachaduras que se curvavam ao contrário.

Arastine recuou — e o próprio chão se moveu com ela, empurrando-a de volta.

— Não… — murmurou, testando o apoio. — Ela está fechando o espaço.

Vendeler ergueu as mãos, tentando conjurar. O gesto se formou, brilhou — e desapareceu antes de ganhar corpo.

Ele tentou de novo. A magia sumiu como fumaça soprada.

— Minha magia! — rosnou. — Ela está anulando o campo arcano!

— Vendeler… — chamou Arastine, recuando mais um passo involuntário. — Acho que não vamos conseguir!

O ar ao redor deles ficou pesado, letárgico, enquanto os cães avançavam.

Quindia finalmente quebrou o silêncio, com um sorriso calmo e cruel:

— Cailynm não tem salvação se depender dos seus esforços, guerreira. Hoje você entenderá o porquê.

Arastine arregalou os olhos.

— O que você fez com ela?!

— Nada que ela não tenha pedido. — respondeu Quindia, sem emoção. — Mas você não sobreviverá para ver.

Ela estendeu a mão.

O cão à esquerda arqueou o corpo. Veias sob a pele negra brilharam em vermelho vivo. As mandíbulas se abriram num estalo, e o corpo dobrou de tamanho — músculos deslocando-se como cordas tensionadas.

Vendeler praguejou:

— Droga… ela o transformou num alfa!

O cão avançou num salto.

Arastine tentou girar o corpo — mas o chão sob seus pés inclinou-se, dobrando o espaço ao redor. A perna direita afundou, como se o terreno tivesse cedido apenas ali, obedecendo à vontade de Quindia.

O impacto a atingiu no peito.

Ela foi lançada ao chão. O ar escapou dos pulmões. Tentou rolar para longe — mas o espaço à frente se contraiu como uma parede invisível, bloqueando a fuga.

— Arastine! — gritou Vendeler, mas a própria voz foi distorcida pelo ar denso.

Ela ergueu o antebraço para bloquear. O peso do animal esmagou a defesa improvisada. A espada escapou da mão.

O cão a prendeu ao chão, as patas firmes, a boca aberta sobre o rosto dela — dentes como facas prestes a descer.

Vendeler viu.

Viu a mandíbula descendo.

— Desculpa, Arastine. — disse ele, o tom quebrado. — Mas eu não tenho escolha.

Os dedos dele se crisparam — e os raios explodiram.

O corredor foi engolido por luz branca e azul.

O ataque atravessou o enorme cão infernal como uma lança eletrizada, faíscas ricocheteando pelas pedras. O animal deteve a mordida, ainda sobre Arastine, retorcendo-se enquanto uivava, com tufos de pelo queimado pendendo do corpo. O outro cão recuou no mesmo instante, instintivamente evitando o campo elétrico.

— Só mais um pouco… — rosnou Vendeler entre os dentes.

A descarga continuou.

A eletricidade percorreu Arastine inteira.

O corpo dela arqueou violentamente. O grito que saiu não foi de dor — foi de força, como alguém tentando resistir à própria morte. O lado direito do rosto se abriu em linhas de luz. O tecido da roupa se queimou e se despedaçou. O calor foi tão intenso que o olho direito colapsou, retraindo enquanto escorria um filete escuro.

— Droga! Ele não sai de cima!

Os frascos no braço esquerdo dela dispararam sozinhos, injetando doses frenéticas na carne numa tentativa desesperada de mantê-la viva. Logo depois, o choque descontrolado fez os frascos restantes explodirem, espalhando vidro e líquido pela pele já carbonizada.

Quando o brilho se dissipou, o cão recuou, atordoado.

Arastine caiu.

O ombro direito pulsava em carne aberta. O rosto estava destruído. O olho restante fixo em algo que ela mal conseguia enxergar. A respiração vinha em convulsões.

Vendeler congelou por meio segundo.

— Eu não tinha escolha… — murmurou, num fio de voz que mal parecia dele. — Agora tenho que tirar a gente daqui.

Então se moveu.

Ele se posicionou entre a guerreira e os inimigos, mantendo o próprio corpo metálico de costas para eles. Quindia observava em silêncio, a mão esquerda traçando runas no ar que giravam como espirais negras.

— Pronto. Já me aborreci com vocês. Sou uma serva ocupada. — disse ela, num gesto leve. — Agora morram.

— Ela vai atacar de novo! — gritou Vendeler, engolindo o pânico.

Ele avançou um passo, abriu a comporta frontal do traje e saltou para fora, erguendo Arastine antes que ela tombasse completamente. A cabeça dela pendeu, sem controle.

— Fica comigo. Me escuta. Fica comigo.

A pele dela queimava contra os braços dele.

O traje metálico girou sozinho, as lentes vermelhas acendendo enquanto encarava os inimigos.

— Vai, então! — rosnou Vendeler para o construto. — Faz o resto!

Os cães avançaram.

Quindia concluiu a última runa.

O ar dobrou ao redor da bruxa.

Vendeler já corria para o fim do corredor com Arastine nos braços.

Garwin, ao fundo, finalmente ergueu a cabeça.

— O que? Tenho que limpar ali também!

O traje investiu contra Quindia. Os cães saltaram sobre o construto, mas o impacto da investida os derrubou com violência.

Quindia ergueu as duas mãos para completar o feitiço.

O traje explodiu.

Luz.

Um clarão seco, absoluto.

A bruxa precisou erguer uma barreira às pressas. O rosto dela se retorceu de esforço. Os cães foram arremessados para trás, engolidos pelos fragmentos de luz.

Quando o clarão se dissipou…

— Onde foram parar? — perguntou ela, vasculhando o ar silencioso.

Seus cães ainda atordoados se levantavam com dificuldade.

— Malditos… era só uma distração. Tudo bem. Não terão poder para desfazer o ritual a tempo mesmo.

***

O teleporte terminou com um estrondo, e o chão metálico do aeroplano absorveu o impacto dos três corpos que surgiram na ponte de comando.

Arastine caiu primeiro.

O corpo dela se curvou para o lado, a respiração irregular, os músculos tremendo por reflexo. A queimadura corria do rosto à coxa, uma trilha escura e pulsante. O único olho se movia sem foco.

Garwin surgiu logo atrás — e, sem sequer olhar para ela, curvou-se para pegar uma bola de papel inexistente do chão.

— Preciso limpar… muita bagunça… muita bagunça… — murmurou, varrendo o ar com a mão.

Vendeler tomou Arastine nos braços, o rosto tenso de pânico e culpa.

— Thurstan! — gritou enquanto corria. — Thurstan, tira a nave daqui agora!

Thurstan apareceu do corredor oposto, pálido.

— Vendeler— o rosto dela— o que aconteceu?

— Depressa! — Ele apertou Arastine contra o peito. — Precisamos da enfermaria!

Thurstan virou-se imediatamente.

— Aqui! Vem! Vem! Ela tá… caramba, ela tá…

— Abre a porta! — rosnou Vendeler.

A enfermaria se abriu com um rangido, e Thurstan correu até a mesa de suporte.

— Coloca ela aqui! Rápido!

Vendeler a deitou. A luz branca acendeu, iluminando a queimadura que dominava metade do corpo dela.

— Arastine… fica comigo. — A voz dele falhou. — Fica comigo, você consegue?

Ela emitiu um som baixo, tentando falar. Depois virou o rosto em direção a ele, como se tentasse reconhecê-lo.

Thurstan prendeu o ar.

— O que aconteceu lá embaixo? Isso não é queimadura comum! Isso não é fogo, Vendeler!

Vendeler passou a mão pelo rosto, manchando-a com a fuligem dela.

— Eu não tinha escolha. — Ele respirou de forma curta e irregular. — O cão ia esmagar a cabeça dela. Tive que impedir. O choque atravessou o bicho… e atravessou ela também.

— Você… acertou ela? — A voz de Thurstan vacilou.

— Eu fiz o que pude! — explodiu Vendeler. — E mesmo assim… olha pra ela!

Thurstan olhou para o corpo destruído, para os frascos partidos no chão, o líquido derramado misturado ao sangue enquanto o construto curandeiro fazia o seu trabalho.

— Vendeler… o que tá acontecendo?

Ele apoiou as mãos na maca, tentando recuperar o ar.

— Quindia, a bruxa que sequestrou Cailynm, está conduzindo um ritual. Um demônio vai fecundar Cailynm essa noite. — Ele engoliu seco. — E não existe ninguém que chegue lá a tempo.

Thurstan ficou em silêncio. O choque tomou o rosto dele.

— Então… a Cailynm… — a voz fraquejou. — Ela vai…

— Vai. — Vendeler fechou os olhos. — Não tem como impedir.

Thurstan levou a mão ao peito.

— Não. Não. A gente não pode deixar isso acontecer! — Ele ergueu a voz, tomada de emoção. — Eu vou tirar ela de lá, nem que eu morra!

No canto, agachado, Garwin passava a mão na parede metálica como se polisse madeira antiga.

— Precisa ficar limpo… ela gosta limpo… tudo limpo…

Vendeler olhou para ele, a expressão vazia.

— Ele ainda tá preso na magia deles… — murmurou.

Thurstan limpou o rosto com o antebraço.

— Vamos agora. Antes que fique pior.

Vendeler se endireitou com dificuldade.

— Antes preciso saber… — Ele parou e olhou ao redor. — Thurstan.

— O que foi?

— Onde está a Shern?

O silêncio caiu pesado.

Thurstan arregalou os olhos.

— Agora que você falou…

— Quanto tempo faz que você não a vê? — Vendeler já estava no corredor. — Shern! Shern!

Thurstan correu atrás dele.

— Shern, responde! — A voz ecoou pela nave.

Portas abriram. Cabines vazias. Porões silenciosos. Nada.

Nenhum som. Nenhum vestígio da garota.

Vendeler apertou o comunicador.

— Shern! Atende! Agora!

Nada.

Thurstan correu até a escotilha lateral.

— Ela não tá aqui… — disse, ofegante. — Vendeler, ela não tá em lugar nenhum!

Vendeler parou, o rosto endurecendo.

— Thurstan… — a voz saiu baixa, estremecida. — Pra onde será que ela foi?

Os dois saíram correndo outra vez, cada vez mais rápido, como se o aeroplano estivesse ficando pequeno demais para o desespero que começava a tomar forma.

***

A fumaça do traje ainda pairava pelo corredor. Quindia empurrou um fragmento de metal com o pé, o maxilar travado de irritação.

— Me fizeram perder tempo demais… — disse, seca. — Idiotas.

Os dois cães se aproximaram, rosnando baixo. A bruxa girou o braço no ar, recolhendo as runas dispersas em movimentos curtos e impacientes.

Foi então que uma voz infantil soou atrás dela:

— Tia… você não viu a minha mãe?

Quindia se virou.

A criança estava de pé exatamente onde Vendeler e Arastine haviam desaparecido. Cabelos soltos, olhos curiosos, as mãos cruzadas atrás das costas.

— Disseram que ela estava aqui.

A bruxa sorriu — um sorriso lento, reptiliano.

— Sim. Você a verá em breve, menininha. — Ela estalou os dedos. — Peguem.

Os seres infernais saltaram.

O rugido deles cortou o ar — e sumiu na metade. Nada completou o salto. Nada aterrissou. Nada sequer tocou o chão.

Quindia arregalou os olhos.

— O quê? Onde eles estão?!

Ela ergueu o braço.

Manifesto canis inferna—

Nenhuma luz. Nenhuma runa. Nenhum som.

Tentou de novo, mais rápido:

Umbrae radix! Aperio! Invoco—

Nada.

O ar permaneceu estático.

Quindia recuou um passo.

— Não. Não pode ser. — Bateu o punho na palma. — Respondam!

O silêncio continuou.

A cor do rosto dela se esvaneceu até um branco doentio.

— Minha magia…? Cadê a minha magia?!

A menina inclinou a cabeça, sem expressão, observando como quem assiste algo estranho acontecer com um inseto.

— Tia, você ainda não respondeu… onde ela tá?

O corredor inteiro permaneceu imóvel.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora