Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 3

Capítulo 24: A Cabana

O sol descia devagar, e a luz amarela tingia o casco da Alghoryn. As velas batiam em ritmo estável, lançando faixas de sombra pelo interior da nave.

Vendeler ajustava o traje dentro do pequeno compartimento lateral — um construto de metal escuro que se moldava ao corpo. As placas se uniam sobre os ombros e o peito com um clique abafado.

— Espero que isso aguente o que jogarem contra nós. — murmurou, testando o movimento das mãos.

— Se não aguentar, a gente improvisa. — respondeu Arastine, sem erguer o olhar.

Ela vestia as botas e prendia as tiras de couro no braço e na coxa. Os frascos de poções tilintaram.

— Thurstan, calibra o sensor de novo. Quero certeza antes de descer.

— Já tô nisso. — disse ele, debruçado sobre o painel. — Mas você sabe… não sou tão bom quanto a Cailynm nessas coisas.

Arastine levantou o olhar por um instante.

— Vai ser só dessa vez. Em breve será ela operando esses construtos de novo.

O mapa flutuante projetava reflexos azulados no rosto de Thurstan. Ele digitou uma sequência rápida.

— Nada de assinatura mágica. Apagaram os rastros direitinho.

— Por que não muda o foco? — sugeriu Vendeler, aproximando-se. — Procura o tecido fraco entre dimensões. Portais sempre abrem onde o espaço cede.

— Já pensei nisso. — respondeu Thurstan, girando um disco no painel. — Tô ajustando o campo pra ressonância difusa.

O som das velas propulsoras diminuiu por um instante, e a luz do cristal central oscilou. Um ruído fino percorreu o convés.

— Achei uma coisa. — murmurou Thurstan. — Assinatura dimensional instável... lá embaixo.

— Onde exatamente? — perguntou Arastine.

— Centro do vilarejo. — respondeu ele. — Bem no meio do lago.

Vendeler prendeu o cinto, o olhar fixo na projeção.

— Faz sentido. Se fosse esconder um portal, esconderia num reflexo.

Arastine terminou de trançar o cabelo e colocou uma pequena medalha de prata no pescoço.

— Thurstan, mantém altitude e cobre a área. A gente desce.

— Vendeler, como funcionam as defesas automáticas? — perguntou Thurstan, meio sorrindo.

— Aqui você aciona os escudos. E aqui a balista. — respondeu Vendeler, ajustando uma grande manopla no braço.

— Tá. Se aparecer algo ao ar livre, eu dou suporte com a Alghoryn.

Vendeler deu um leve tapinha no ombro dele ao passar.

— Fica tranquilo. Vamos primeiro ver o que há. Depois agimos.

A escotilha se abriu com um estalo metálico. O vento quente entrou, levantando o cabelo de Arastine.

— Pronta? — perguntou Vendeler.

— Sempre. — ela respondeu, saltando primeiro.

O lago os recebeu com uma inversão de reflexos. Vendeler veio logo atrás.

Thurstan observou, respirando fundo.

— Agora é a minha vez. — murmurou. — Mergulha, Alghoryn.

A Alghoryn desceu num arco suave e mergulhou no lago.

Vendeler e Arastine emergiram na margem, caminhando pela relva alta, o vento quente empurrando o cheiro da água.

O céu se tingiu de laranja.

E o horizonte permaneceu calmo quando a nave desapareceu na dimensão.

***

O ar do jardim pesava como incenso queimado. A luz não vinha de sol algum — apenas pulsava, lenta, como sangue que respirasse.

No centro, sobre um pedestal de pedra viva, repousava uma vasilha grotesca, escavada na matéria de algum ser antigo. O líquido dentro era espesso e escuro, e em sua superfície reflexos vivos se agitavam como olhos abrindo e fechando.

O demônio estava de pé, imóvel, o corpo esguio coberto por um véu que oscilava como fumaça. As sombras ao redor se moviam com vontade própria — por vezes multiplicavam seus olhos, outras se dissolviam no chão, como se a forma humana não bastasse para contê-lo.

Abaixo, em degraus de pedra, Quindia observava o reflexo na vasilha, o rosto banhado pela luz viscosa.

— Eles adentraram o domínio — disse ele, a voz vibrando mais do que ecoando.

— Eu sei quem são — respondeu Quindia, sem se curvar. — Os companheiros do receptáculo. A mulher da espada e o homem do traje. Vieram buscá-la.

O líquido tremeu, e por um instante uma sombra prateada cruzou a superfície — a imagem distante da Alghoryn recortando o céu.

O demônio inclinou o rosto, e o ar pareceu se retrair ao redor.

— O véu entre os mundos se parte — murmurou. — Os mortais rasgam o tecido e chamam de bravura.

Quindia riu, um som baixo e áspero.

— Deixa que entrem. A cabana é uma dobra perfeita. Assim que pisarem lá, as portas se fecham. E o ar que entra… nunca mais sai.

— Não posso lutar agora — disse ele, lentamente. — Este é o meu plano de origem. Se eu me mover demais, posso atrair a cobiça de outros demônios. Eles espreitam qualquer fraqueza.

Quindia ergueu os olhos para ele.

— Não podemos perder essa oportunidade. Essa humana tem o sangue certo, o ano certo, as luas certas. Tudo alinhado.

— Exato — respondeu o demônio. — O tempo e a carne se encontraram como números em uma cabala antiga.

— Então deixa comigo — disse ela, sorrindo. — Se a cabana falhar, eu garanto atrasá-los até a meia-noite.

O demônio manteve o olhar sobre a vasilha, o reflexo distorcido dançando como um pesadelo contido. As sombras ao redor cresceram, tocando o chão e as paredes, e até que todo o jardim pareceu curvar-se para escutá-lo.

Ele ergueu a mão e recitou em voz quase sagrada:

“Quando o sangue tocar a noite,

e a carne abrir seu portão,

nascerá o som sem nome,

no ventre que rompe o chão.”

A vasilha tremeu. O líquido se abriu em círculos concêntricos — e por um instante, o reflexo da Alghoryn pareceu olhar de volta.

***

O ar parecia suspenso. Nenhum som de insetos, nenhum movimento no horizonte. O crepúsculo tingia o vale de cobre, e a relva, imóvel, refletia o brilho do lago ao longe.

Arastine e Vendeler avançavam lado a lado. As botas afundavam devagar na terra seca.

— É menor do que eu esperava — disse ela, o olhar fixo na cabana adiante.

— É o que todo bom esconderijo faz — respondeu ele. — Aposto que essa dimensão é intermediária. E a cabana é a porta para onde eles possam estar.

A construção se erguia isolada, feita de troncos bem encaixados, as janelas lacradas por tábuas. Nenhum sinal de fumaça, nenhum som vindo de dentro.

— Thurstan disse que o ponto está bem aqui? — perguntou Arastine.

— No centro exato. — Vendeler parou por um instante, examinando o chão. — Mas não há marca alguma.

— Nem precisa. — ela respondeu. — Se fosse simples, Cailynm já teria saído.

O vento soprou uma única vez, leve, e a vegetação ao redor se inclinou como se respirasse. Vendeler soltou um som baixo, quase um riso.

— Esse lugar parece limpo demais.

— É porque está esperando. — Arastine passou a mão no cabo da espada, o polegar roçando o metal. — Já sabem que nós estamos aqui.

Eles se entreolharam. Nenhum dos dois sorriu.

Mais um passo, e a sombra da cabana cobriu seus pés.

— Se der errado, você puxa recuo — disse Vendeler.

— Não vai dar errado. — respondeu ela. — Eu entro primeiro.

O silêncio voltou a cair, denso. A madeira parecia respirar com eles.

Arastine pousou a mão na maçaneta. Vendeler apenas assentiu.

O ar dentro da cabana era espesso, abafado, como se há muito tempo ninguém respirasse ali.
Vendeler abriu caminho primeiro. A madeira rangeu sob as botas, e o cheiro de terra molhada e ferrugem tomou o ar.

Atrás dele, Arastine moveu-se em silêncio — o olhar percorrendo as tábuas quebradas, as janelas tapadas, os vasos caídos com a terra negra escorrendo pelo chão.

Um som leve veio do fundo. O atrito repetitivo de algo sendo arrastado.

Garwin estava ali. De costas. Movia um galho como se fosse uma vassoura, varrendo o que restava de uma mesa destruída. Os cabelos desgrenhados, o rosto imóvel, os gestos lentos demais para um homem desperto.

— Garwin… — chamou Vendeler, baixo, sem abaixar a arma.

O homem não reagiu. Pegou uma cadeira caída, endireitou-a, e no mesmo instante uma prateleira tombou atrás dele, espalhando fragmentos pelo chão.

Ele virou-se, calmamente, e recomeçou o trabalho.

— Garwin, sou eu. Vendeler. — insistiu. — Está me ouvindo?

Garwin levantou o rosto. Os olhos não tinham foco. Só refletiam a claridade tímida das janelas.

— Não precisam limpar. — disse, a voz mansa, quase um sussurro. — Eu mesmo cuido disso.

Arastine se aproximou um passo.

— O que aconteceu aqui? — perguntou. — Cadê a Cailynm?

Ele respirou fundo, sem pressa.

— Ela… está onde deve estar. — respondeu. — Cumprindo o que prometeu.

O silêncio durou. Só o som leve da vassoura riscando o chão.

Vendeler se abaixou, a voz mais firme:

— Prometeu o quê?

Garwin hesitou. Um músculo contraiu-se no rosto.

Depois falou, ainda tranquilo:

— Um filho.

Arastine piscou, sem entender.

— Como assim?

— Tentamos por anos. — continuou ele, o olhar fixo num ponto vazio. — Os clérigos, com suas magias cada vez mais fracas... as ervas, as bênçãos… nada. Ela chorava todas as noites.

Soltou o galho e passou a mão pela testa suja.

— Um dia… ela foi para sua terra. Disse que queria visitar a família. Lá, conheceu uma mulher. A mulher prometeu ajudá-la — só precisava de uma promessa.

— Essa mulher… — disse Vendeler, com cautela. — Quem era ela?

Garwin assentiu lentamente.

— Quindia. Uma bruxa. Serva de um demônio terrível. Disse que o preço seria pago quando as luas se alinhassem. Eu achei que fosse baboseira. — Olhou para o chão. — Eu quis acreditar que fosse.

Arastine levou a mão à boca.

— Então ela vendeu a própria alma…

— Pela chance de ser mãe. — completou ele, com doçura triste. — E agora vieram cobrar.

Ele pegou uma tábua quebrada, encaixou no canto da mesa, e no mesmo instante o vaso mais próximo caiu, espalhando terra.

Ele não reagiu. Apenas voltou a limpar.

— Garwin. — disse Vendeler, firme. — Onde ela está agora?

Garwin olhou para cima, como se ouvisse algo que mais ninguém ouvia.

— Aqui em cima. — respondeu. — Em lua de mel. Com ele.

O timbre dele oscilou por um instante.

— Vai ser hoje. À meia-noite. Quando as luas abrirem os olhos.

A luz da cabana mudou. O tom quente do entardecer desapareceu, e um brilho azulado começou a se infiltrar pelas frestas.

Arastine deu um passo atrás, a voz trêmula:

— Ele… quem é “ele”, Garwin?

— O senhor dela. — respondeu, sereno. — O que veio fecundar o ventre escolhido.

O silêncio caiu como um peso. Vendeler apertou o punho, o rosto tenso.

— Arastine, temos de tirá-los daqui. E rápido.

Garwin sorriu, pequeno e triste.

— A cabana não tem portas pra fora. — murmurou. — Só por ali. Mas ela não deixa.

Ele abaixou-se, recolheu outro caco, e o ciclo recomeçou.

Vendeler e Arastine trocaram um olhar — e, sem mais palavras, seguiram em direção ao corredor no fundo. O som das vassouradas ficou para trás, repetido, interminável. E o ar parecia cada vez mais frio.

O corredor à frente era estreito, feito de pedra lisa e paredes cobertas de vasos idênticos — centenas deles, alinhados como sentinelas. A terra dentro era escura e úmida, e o ar tinha um leve gosto de ferro.

Arastine seguiu na frente. O brilho azul que vinha do fim do corredor refletia no metal de suas botas.

— Isso não é natural — murmurou. — Nenhuma construção humana reflete luz assim.

Vendeler andava logo atrás, o olhar firme, estudando o espaço.

— Talvez seja por causa daquilo que eu disse sobre o plano — respondeu. — A cabana pode ser a dimensão intermediária entre o nosso mundo e o deles.

Ela tocou a parede. Fria, lisa, viva.

— Consegue quebrar essa barreira? — perguntou.

— Posso tentar, mas... — ele moveu a mão, traçando um símbolo no ar. O gesto se desfez antes de tomar forma. — Ela rejeita tudo.

— E o que isso significa? — perguntou Arastine.

— Duas opções — disse Vendeler. — Ou é um encantamento em dupla camada, feito pra impedir desencantos, ou...

— Ou?

— Quem conjurou é muito mais poderoso do que eu.

Arastine empurrou com força a barreira invisível.

— Então vamos torcer pra que seja a primeira.

O corredor se abriu num espaço quadrado e alto — um santuário. A claridade azul subia pelas frestas do piso, tremulando como se respirasse. No centro, uma película transparente oscilava, um véu suspenso no ar. Arastine ergueu a mão e encostou os dedos.

A superfície cedeu — depois recuou, esticando o espaço à frente como se o próprio ar se afastasse.

— Está vendo isso? — ela disse.

— É uma fronteira dimensional — respondeu Vendeler, observando. — Quanto mais tentamos avançar, mais longe ela se estende.

Arastine puxou o cristal do comunicador.

— Thurstan, estamos vendo uma barreira. Consegue ler algo daqui?

O cristal piscou uma única vez e morreu. Nenhum som.

— Droga! — rosnou. — Não responde!

O silêncio era absoluto. Vendeler respirou fundo.

— Isso não é só uma prisão pra eles. É uma dobra. Manipula o espaço.

Então o corredor tremeu.

O ar se contraiu, e a barreira recuou de súbito — abrindo um espaço maior, um vazio sem fim. E lá, no novo limite do olhar, ela estava.

Quindia.

Alta, imóvel, coberta por um vestido negro que parecia beber a luz. O rosto pálido era fino, quase esculpido; os olhos, fundos e duros, tinham o mesmo brilho das runas que pulsavam sob o chão. Os cabelos, presos em linhas rígidas, se moviam sozinhos — como se respirassem com o ambiente.

— Olha ali, Vendeler — disse Arastine, sacando a espada.

— Só pode ser ela. — respondeu ele, erguendo a mão. Faíscas azuis dançaram entre os dedos.

Atrás da mulher, cinco cães imensos emergiram da sombra — peles negras, olhos de brasa, respiração quente de enxofre.

A bruxa ergueu o braço, o olhar fixo nos dois.

— Matem-nos. — disse.

O ar vibrou. Os cães avançaram.

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