Volume 3
Capítulo 23: A Promessa Antiga
— Olha como as luas se deitam no lago. — disse Cailynm, voz baixa, quase um canto.
— Elas esperam com paciência. — respondeu ele, as palavras saindo sem pressa, como se tivessem atravessado muitas eras.
As mãos deles tocaram-se primeiro nas pontas dos dedos. A pele dela era quente; a dele tinha a frieza de um mármore recém-saído do gelo. O toque durou um tempo que não tinha medida.
— Quando tudo nascer, será mais do que uma promessa. — Cailynm sorriu, os olhos pegando o brilho do lago. — Será o sangue que fará os portais cantarem de novo.
— Cantam porque têm porto dentro. — retrucou ele, com voz grave, uma melodia que não era inteiramente humana. — O que nasce aqui atravessa o véu com reverência e fome.
Ela aproximou o rosto do dele; o lábio tocou a mandíbula como quem procura certeza. A roupa moldava-se ao corpo em dobras translúcidas. Apenas um fio de prata atravessava o colo como um segredo final.
— Eu vou dar a ele um lar no meu ventre. — A frase saiu mansa, entregue. O sorriso dela foi tão florido que parecia natural.
— Você dará mais que um lar. — disse ele. — Você será o primeiro lugar de um novo canto.
A voz dele não tinha pressa; havia nela a calma de quem mede os séculos com respiração. Falava como quem não sabia mentir nem compreender o que é esperança.
Ela inclinou a cabeça, cerrando os dedos contra a mão dele. Por um momento, o ar pareceu suspenso. As árvores de cristal não tremiam; o lago devolvia uma imagem perfeita — duas figuras recortadas em prata.
— Eu não tenho medo. — sussurrou Cailynm. — Só… vontade de cumprir o que nos foi dito.
— Medo é verbo humano. Aqui, temos outra gramática. — Ele tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, o gesto lento, íntimo e incorpóreo.
As roupas dele eram cortes simples, quase rituais; o corpo, esguio, parecia feito para recordações de frio. O rosto mantinha traços humanos, mas os olhos — metálicos, sem pupilas — não refletiam nada além de si mesmos.
— Então venha. — murmurou ela, puxando-o para mais perto. — Conte para mim como será. Diga o que eu devo cantar.
— Cante o que o mundo esqueceu. — respondeu ele, voz baixa e inumana ao mesmo tempo. — Cante em nome de quem volta.
Cailynm começou a repetir as palavras dele, arrastando-as como notas em círculo. A cada sílaba que escapava, a pele tremia numa calma que não parecia sua. Ele inclinou-se, encostando a testa na dela, mantendo o tom quase amoroso.
— Quando a terceira lua abrir o olho, a carne aceitará o sinal. — disse ele. — Não haverá recuo.
Ela mordeu o lábio, e um movimento mínimo percorreu seus ombros — não resistência, mas o reconhecimento físico do inevitável.
— Prometa que vai cuidar. — pediu ela, voz quase implorante. — Prometa que, se eu fizer isso, haverá algo que valha a pena.
— Prometo ver o que nasce. — respondeu ele, a voz imensa e calma. — Prometo que o verás com os olhos do mundo.
Um som como um sopro de folhas rasgadas percorreu o ar — quase uma nota, quase um presságio. Cailynm abriu a boca para completar uma frase, as palavras já na língua:
— Não se preocu—
Um ruído úmido interrompeu a sílaba, arrastando-se pelo chão. O ar pareceu engrossar, pesado demais para respirar. Passos curtos e um chiado rouco vieram de entre as árvores de cristal, antecedendo a forma que atravessou o brilho.
Uma mulher surgiu, pequena e larga como uma bolsa cheia de segredos. O vestido negro grudava ao corpo com dobras suadas; as unhas manchadas brilhavam como pequenas lâminas. Os olhos eram enormes, molhados, e a boca formava um sorriso largo demais para um rosto tão apertado.
O ar pareceu rasgar quando ela surgiu. O som era de vidro sendo dobrado.
As árvores de cristal se curvaram, e a superfície do lago tremeu como se uma respiração houvesse se instalado dentro da água.
A mulher avançou. Cada passo fazia o chão ranger, não por peso, mas por presença. O cheiro que a seguia era doce e azedo, como fruta passada.
— Está bem bonita para quase trinta — disse, a voz arranhada, sem tom de elogio. — Sabe que havia jovens mais belas, não?
Cailynm recuou meio passo, mas a mulher já estava próxima o bastante para tocar-lhe o rosto.
Os dedos de Quindia tinham anéis grossos, e as unhas, pequenas crostas escuras. Ela ergueu o queixo da moça com um gesto técnico, quase médico, e passou os olhos por cada parte do corpo — o pescoço, os ombros, a curva da cintura.
— O cabelo ficou mal preso — comentou. — E tem um pelo a mais aqui. — Tocou a virilha de Cailynm e sorriu torto. — Não podemos entregar nada imperfeito.
O homem alto permaneceu imóvel. Só os olhos, metálicos, a seguiam.
Quando falou, a voz soou firme e antiga:
— Quindia.
Ela ergueu o olhar, o sorriso intacto.
— Eu sei o que estou fazendo — respondeu, sem se curvar.
— O que quer? — perguntou ele, frio.
— Ver se o corpo dela está pronto — disse, dando mais uma volta em torno de Cailynm. — E avisar que ainda não é hora.
Cailynm respirava curto, a pele arrepiada sob o toque. Os olhos dela procuraram os da figura humanoide — um pedido silencioso.
— Vá — disse ele. — Espera-me com as uvas.
Ela se afastou sem palavra, o tecido claro das roupas se dissolvendo na luz do jardim. O silêncio que ficou parecia grosso.
Quindia girou os pulsos, estalando os dedos.
— Você ainda não veio pessoalmente — disse, seca. — Vai continuar se escondendo atrás de véus, meu senhor?
O ser inclinou o rosto, o brilho dos olhos cortando o ar.
— Só virei no dia do ato. É perigoso.
— Perigoso? — ela repetiu, com um riso pequeno. — Pra quem? O senhor é um demônio das mais altas castas do submundo.
— Para mim — respondeu ele, voz grave e distante. — Os Onze ainda espreitam quem adentra o mundo protegido. Mataram meu senhor. Mataram até Loosner, uma entidade que roubou toda a fé deste mundo com o seu dogma.
Quindia encolheu o pescoço, o riso sumindo, mas a língua ainda ferina.
— E então o senhor quer o quê? Parir um substituto e o deixar sozinho aqui?
— Um começo — respondeu ele. — Uma semente.
O silêncio entre eles se estendeu até que o lago, ao fundo, voltou a parecer calmo. Quindia respirou fundo, limpou o suor do rosto com o dorso da mão e olhou para o vazio.
— As luas ainda não se alinharam — disse, por fim. — Quando chegar a hora, eu aviso.
O demônio não respondeu. Apenas se voltou para o lago.
A superfície devolveu-lhe o reflexo de ambos — ele e a mulher deformada ao lado, fundidos na mesma luz impossível.
O sorriso de Quindia abriu-se devagar, largo demais para caber no rosto.
O demônio ergueu o rosto, os olhos metálicos estreitando-se.
— Temos companhia. — disse, baixo.
O ar vibrou como uma corda partida. O jardim brilhou, e o espaço atrás deles se dobrou, abrindo-se em um rasgo de luz pálida.
Garwin surgiu de joelhos, a respiração presa no peito. O corpo estava coberto de poeira; uma das alças do macacão, rasgada. O rosto endurecido pelo frio e pela viagem. Os olhos varreram o cenário e, quando encontraram Cailynm, pararam — mistura de espanto e dor.
— Quer que eu o mate? — perguntou Quindia.
— Não. Vamos observar.
— Cailynm... — murmurou, a voz trêmula. — O que é isso? Onde você está?
Ela deu um passo à frente, o corpo rígido, o olhar controlado demais para ser natural. As dobras translúcidas da roupa deixavam o ar imóvel em volta.
— Vá embora, Garwin. — disse, sem hesitar. — Cuida da tua filha. Eu não pertenço mais a vocês.
O som das palavras se quebrou entre eles. O vento não se moveu. Garwin estendeu a mão, mas a distância parecia crescer a cada passo.
— Como assim “tua filha”? — disse, a voz falhando. — Eu vim por você. Como veio parar aqui?
A figura alta do demônio observava em silêncio. As sombras o contornavam, imóveis, como se o próprio ar o obedecesse.
— Ela já escolheu a cama em que vai dormir. — disse, enfim. — Você é só um humano sujo. Não pode possuir algo quando um ser superior reclama para si.
Garwin tentou avançar, mas a superfície do lago se ergueu — sólida, transparente — impedindo o movimento. A imagem dela tremia na luz.
Quindia surgiu logo atrás dele, a sombra recortando o chão como uma mancha viva.
— O amor é um bicho que não aprende, não é? — disse, rindo curto. — Sempre volta pro lugar onde vai morrer.
Garwin girou o corpo, o punho cerrado.
— O que você fez com ela?
— Eu? Nada. — respondeu Quindia, divertida. — Ela mesma se ofereceu. A própria alma, por uma cria. O meu senhor só, aceitou o presente.
Ela se aproximou, os pés deixando marcas úmidas no chão de cristal.
— Agora, fique quieto. Ou eu mesma acabo com você.
Garwin deu um passo atrás, mas a luz já o envolvia. As veias pulsaram nas têmporas, e o ar ao redor se dobrou como água quente. O corpo dele ficou rígido, depois relaxou.
— Deixe-o vivo. — disse o demônio. — Quero que assista o momento em que eu fecundar sua esposa.
— O ciclo começa agora. — respondeu Quindia, girando os dedos no ar.
O cenário à volta se transformou — a luz fechou-se num tom ocre, e as formas do jardim se dissolveram numa pequena cabana de madeira. Garwin estava de pé, as mãos calejadas, diante de uma mesa quebrada.
— Meu senhor é de uma misericórdia infinita. — disse Quindia. — Conserte tudo antes do tempo, e poderá ver, uma última vez, a sua amada.
Ele começou a arrumar. Recolheu as tábuas, endireitou as cadeiras, limpou o chão.
Por um instante, o lugar pareceu inteiro.
Depois, tudo quebrou de novo.
O som do estilhaço se repetiu, e ele recomeçou o trabalho. Cada vez com o mesmo cuidado, o mesmo gesto.
A cada ciclo, os olhos dele se tornavam mais vazios, e o silêncio mais fundo.
Do lado de fora, Quindia observava, encostada à moldura da realidade, o sorriso largo demais para um rosto humano.
— Isso é uma armadilha perfeita... — murmurou. — Se alguém mais vier em busca deles, vai cair aqui. E quando verem será tarde demais.
O riso dela se espalhou como fumaça. E o som da madeira se quebrando voltou a encher o mundo.
***
O sol caía forte sobre a planície. O calor fazia o ar tremular acima da relva seca, e o rio, raso e claro, serpenteava pela paisagem como uma lâmina de vidro. As montanhas ao fundo brilhavam azuladas, cobertas de neve distante, silenciosas como se vigiassem o mundo.
A libélula cortava o céu baixo, o som metálico das asas ecoando entre as colinas. Vendeler a pilotava com firmeza, o rosto coberto de poeira e o olhar preso no reflexo do rio.
Um ruído grave começou a crescer. A sombra da Alghoryn cruzou o solo, cobrindo o campo inteiro num instante.
O vento das velas varreu a relva e levantou espirais de poeira. Vendeler pousou a libélula na margem, protegendo o rosto com o braço. A nave desceu logo atrás — as velas propulsoras batendo com força, enquanto a fumaça rosada era expelida do cristal central.
A escotilha se abriu com um estalo de metal. Thurstan desceu primeiro, ajeitando o colete. Arastine o seguiu, o capuz abaixado para o sol não cegá-la.
— Achei que fosse um sonho ouvir esse barulho de novo. — disse Thurstan, sorrindo de leve.
— E eu quero passar o resto do ano sem ouvir ele. — respondeu Vendeler, descendo da libélula.
Arastine parou entre os dois, os olhos voltados para o horizonte.
— E então? Conseguiu encontrá-lo?
— Não o mesmo mago. — respondeu Vendeler. — Mas um sucessor. Disse que rastreou o eco da energia de Garwin. Fica perto da cidade natal de Cailynm.
Thurstan coçou o queixo, pensativo.
— Então é o mesmo ponto que achamos. Um trabalhador, amigo deles, disse que ela viajou uma vez pra cidade da família, pouco antes de mim e Arastine encontrarmos Garwin.
— Coincidência demais. — comentou Arastine. — Se as duas trilhas levam pra lá, é pra lá que vamos.
O som do rio correu entre as palavras, calmo e transparente. Vendeler olhou para o céu por um momento, como quem mede o tempo pelo vento.
— Quantos dias até chegarmos? — perguntou.
— Dois, com essas velas novas. — respondeu Thurstan. — É só ajustar o curso e partir.
Arastine assentiu.
— Façam isso. Não quero arriscar nada.
Shern desceu pela escotilha, os pés descalços batendo na grama. Carregava uma pequena boneca de madeira e parou ao lado do rio.
— Eu sei onde eles estão. — disse, olhando para a água. — Juntos.
Thurstan trocou um olhar rápido com Arastine. Nenhum dos dois respondeu.
Vendeler se virou devagar, a expressão calma, mas o olhar fundo demais.
— Então é isso. — disse. — Hora de seguir.
Arastine levou Shern de volta à nave. As velas se abriram, captando o vento quente do vale.
O cristal central reacendeu, derramando luz sobre o campo. E quando a Alghoryn subiu, o vento soprou forte, fazendo o rio tremer em ondas de prata.
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