Volume 3
Capítulo 22: Entre Portais e Ausências
O silêncio se espalhou pela ponte como uma sombra. Lá fora, a cidade despertava — sinos, motores, o cheiro metálico da névoa.
Dentro da Alghoryn, só o som das velas de propulsão preenchia o ar, pulsando em intervalos lentos.
Thurstan foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Ela pode ter descido pra comprar alguma coisa — disse, mexendo nos botões do painel sem olhar pra ninguém. — Cailynm é prática. Vai ver foi pegar uma roupa pra Shern.
Garwin não respondeu. Continuava parado, as mãos sobre o mapa aberto.
Arastine cruzou os braços.
— Pois é, Garwin. Acho que ele tem razão — disse, num tom controlado. — Ontem ela comentou que ia comprar coisas pra Shern e não trouxe nada. Não precisa imaginar o pior.
— E se ela tivesse deixado um recado, tudo bem — retrucou Garwin, o olhar fixo no vazio. — Mas a cama estava arrumada. As roupas, as botas, tudo no lugar.
Vendeler, que observava em silêncio, desviou o olhar.
— Você procurou direito? — perguntou. — Talvez ela esteja no nível inferior, conferindo as condições das naves construtos.
— Eu procurei — respondeu Garwin. A voz saiu baixa, mas carregada. — Ela não está em lugar nenhum da nave.
Thurstan suspirou, tentando aliviar a tensão.
— Então espera até a hora do almoço — disse, com um meio sorriso que não convenceu nem a ele mesmo. — Se ela não voltar até lá, a gente começa a procurar.
Garwin ergueu o olhar devagar.
— Você acha mesmo que ela ia sair sem avisar? — perguntou. — Nem pra Shern?
Thurstan desviou o olhar.
— Eu… não sei.
Arastine deu um passo à frente, firme.
— Garwin, eu entendo. Mas agora não adianta agir como se o mundo tivesse acabado. Espera um pouco. Às vezes as respostas vêm quando a gente para de procurar.
O capitão respirou fundo.
— Tudo bem — disse por fim. — Esperamos até o meio-dia.
O painel central projetava um mapa aéreo sobre a mesa da ponte — linhas de luz cruzando-se em padrões geométricos, rotas comerciais piscando em tons de azul. Pequenas runas flutuavam sobre as superfícies, indicando distâncias, altitudes e taxas de fluxo.
Thurstan girava um disco de comando com a ponta dos dedos.
— O contato de Orlen confirmou a compra do anel — disse, satisfeito. — Pagamento completo se entregarmos antes da próxima semana.
Arastine traçou uma rota com o dedo sobre a projeção.
— Acho que não há problema nisso.
— É, mas vamos ter que passar pela orla dos Triomas — disse Thurstan, coçando a barba no queixo. — E pior, uma boa parte da rota atravessa as orlas extraplanares.
Vendeler ampliou o trecho do mapa com um gesto.
— Isso precisa ser visto com calma. Temos um caminho curto e rápido, com boa recompensa, e outro por portais instáveis, praticamente sem segurança.
— E você, Garwin? — perguntou Thurstan, virando-se.
Ele ficou calado. Continuava olhando pela janela, o rosto iluminado pelo reflexo das runas.
Vendeler apontou para o mapa.
— E tem mais: dá pra combinar a rota com um desvio aqui — o dedo dele destacou uma área no centro do Reino do Dragão. — Um aeroplano de guerra caiu lá semana passada. Se ninguém o recuperou ainda, dá pra forragear algumas peças boas.
Arastine, de pé ao lado do painel, analisava as projeções mágicas.
— E a joia — o anel — chega hoje. — comentou, sem tirar os olhos do mapa. — Se quisermos ter alguma chance, era bom partir até o fim da tarde.
Thurstan riu, sem levantar a cabeça.
— Ah, ótimo. Mais uma corrida suicida pra ficar ricaço ou virar cinza.
Vendeler sorriu de leve.
— Não vejo por esse lado. Acho que dá pra arriscar. A Alghoryn tem capacidade de sobra pra isso.
O som das velas ecoava ao fundo — um ritmo compassado, como um coração distante. Garwin continuava junto à janela da ponte, observando o tráfego aéreo sobre a cidade. Não dizia nada.
Apenas observava.
Arastine se virou para ele.
— Garwin? Concorda com o plano?
Ele demorou um instante antes de responder.
— Sim. — disse, sem se mover. — Façam o que precisa ser feito.
Thurstan trocou um olhar rápido com Vendeler, mas não insistiu. Voltou a ajustar as coordenadas.
O som das runas se misturava às batidas do cristal propulsor. O trabalho continuava — frio, técnico, quase automático.
Então, a porta se abriu.
Shern entrou correndo, o cabelo violeta preso de qualquer jeito, os pés descalços.
— Pai, a mãe ainda não veio? — perguntou, confusa. — Ela não me deu o beijo quando eu acordei.
O silêncio caiu sobre a ponte, mais pesado que antes.
Thurstan parou de digitar. Arastine desviou o olhar. Vendeler fechou o mapa com um gesto.
Garwin se virou devagar, encarando a filha.
Demorou um instante para conseguir falar.
— Não, Shern. — disse, por fim. — A mãe… ainda não voltou.
O tempo passou, e o sol já repousava acima do aeroplano. Assim que o grupo terminou seus afazeres, foram um a um para a hora de comer.
O cheiro metálico do refeitório se misturava ao das poções aquecidas. O som das máquinas pulsava ao fundo, compassado, como se a própria nave respirasse. Ninguém falava. O tilintar dos talheres quebrava o silêncio de tempos em tempos — breve demais para durar.
Garwin não tocava na comida. O rosto estava tenso, o olhar fixo na mesa.
— Já passou do meio-dia. — disse, baixo. — E nada.
Thurstan engoliu devagar antes de falar.
— Talvez ela tenha ido comprar alguma coisa. — tentou. — Você sabe como a Cailynm é. Pode ter visto algo pra Shern... ou alguma peça pra nave.
Garwin levantou os olhos, duros como pedra.
— Ontem ela disse que não ia sair. — respondeu. — E quando ela promete, ela cumpre.
Vendeler inclinou-se, apoiando os cotovelos na mesa.
— Acho que você tem razão… — disse. — Talvez devêssemos procurar. Eu e Thurstan podemos dar uma volta pela cidade.
Garwin balançou a cabeça.
— Não. — disse. — Ela é minha esposa. Eu vou procurá-la.
Thurstan ergueu o olhar, hesitando.
— E se ela voltar enquanto você estiver fora?
— Ela já sabia a hora da partida. — respondeu Garwin, seco. — Eu vou procurar. Se não voltar a tempo, façam o trabalho. Eu dou um jeito de encontrar vocês depois.
O silêncio retornou por um instante, denso. O som das velas voltou a preencher o ar.
Arastine pousou o garfo devagar, observando-o.
— E a Shern? — perguntou, com voz suave. — Não acha melhor ela ficar aqui?
Garwin respirou fundo, sem encará-la.
— Ela vai comigo.
Arastine manteve o olhar firme, sem elevar o tom.
— Acho que não é uma boa ideia. Ela não entende o que está acontecendo. Pode ser perigoso pra ela.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, os dedos apertando a borda da mesa.
— E o que você sugere? — perguntou, sem disfarçar a aspereza.
— Deixa ela comigo. — disse Arastine. — Só até você voltar.
Garwin ergueu o olhar devagar. Por um instante, o ar pareceu suspenso. Depois, assentiu uma vez.
— Obrigado. — murmurou. — Espero não precisar incomodar por muito tempo.
Thurstan passou a mão pelos cabelos, tentando aliviar o clima.
— Então combinamos assim. — disse. — A gente espera até o fim da tarde. Se você não voltar a tempo, vamos nós. Enquanto isso, cuidamos da carga e preparamos a rota pro deserto do dragão.
Garwin se levantou, empurrando a cadeira para trás.
— Certo. — disse, sem emoção. — Façam o que precisa ser feito.
Ele saiu sem olhar pra trás.
O som dos passos ecoou pelo corredor, e o refeitório voltou a se encher apenas do ruído dos construtos.
***
— Arastine… a mamãe e o papai morreram? — perguntou Shern, abraçada ao travesseiro.
A mulher permaneceu imóvel por um instante. A luz dourada do entardecer entrava pela escotilha, projetando reflexos suaves sobre as paredes do quarto. O ronco dos propulsores soava distante, como a respiração cansada da nave.
— Não, Shern. — respondeu, ajoelhando-se ao lado da cama. — Eles estão vivos. Só… não voltaram ainda.
A menina baixou o olhar, os pés balançando no ar.
— Então por que eles tão demorando tanto pra voltar?
Arastine respirou fundo, procurando as palavras.
— Às vezes, as pessoas se perdem no caminho — disse, com suavidade. — Mas quem se ama sempre tenta voltar.
— Eles me abandonaram porque eu tava no convés? — sussurrou Shern, quase sem voz.
Arastine passou a mão pelos cabelos violeta da menina, afastando uma mecha do rosto.
— Não. A sua mãe daria o próprio coração por você. E seu pai… ele atravessaria toda essa neve pra encontrar vocês duas.
Shern a encarou, os olhos marejados.
— Então por que você não pode ir achar eles?
Arastine assentiu devagar.
— Eu juro pela minha vida, pequena. — disse, a voz firme. — Ninguém vai te fazer mal. E eu vou achar os dois, nem que tenha que virar quantos mundos forem de cabeça pra baixo.
Shern se encolheu contra ela, em silêncio. Arastine ficou ali até que a respiração da menina se acalmasse. Depois, levantou-se devagar e apagou a luz suave do quarto.
O corredor era frio e estreito. Do lado de fora, o crepúsculo tingia a fuselagem da Alghoryn de cobre e violeta. Arastine seguiu até a ponte, onde o restante do grupo a esperava.
O mapa flutuava sobre a mesa, linhas de runas refletindo nas paredes. O mar gelado se estendia adiante, calmo e metálico, misturando neve e neblina sobre o horizonte.
Vendeler falava baixo, concentrado nas coordenadas.
— Falta pouco pra entrega. O comprador vai encontrar a gente no cais do Porto de Sarrum.
Thurstan bufou, sem tirar os olhos do painel.
— E depois? Já são três semanas, e até agora nenhum sinal do Garwin.
Arastine se aproximou, cruzando os braços.
— A Shern já tá perguntando se os pais morreram — disse, firme. — A gente não pode continuar fingindo que isso é normal.
Vendeler fechou o mapa com um gesto lento.
— Garwin não sumiria assim. Nem ele, nem ela. Alguma coisa aconteceu.
Thurstan coçou a barba, inquieto.
— Eu tô achando que tem coisa errada. Das grandes.
Arastine assentiu.
— Assim que entregarmos o anel, a Alghoryn volta pra Azlude. Vamos procurá-los. Todos nós.
Vendeler confirmou com um breve aceno.
— É o certo a fazer.
Thurstan soltou um suspiro cansado, mas determinado.
— Então tá decidido. Entregamos a carga, e depois a busca começa.
Arastine olhou pela escotilha. O mar se estendia até o horizonte, e o reflexo do sol sobre a neve parecia uma trilha de fogo.
— Espera por nós, Garwin. — murmurou. — A gente vai te encontrar.
O som das velas ecoou, e a Alghoryn avançou sobre o brilho do crepúsculo.
A Alghoryn desceu entre flocos lentos de neve. As velas batiam num ritmo abafado, iluminando o convés com reflexos azulados. O vento soprava por entre os cabos, e o som lembrava uma harpa velha sendo tocada pelo frio.
O cais estava quase vazio. Homens empurravam barris cobertos de gelo, e as runas nos guindastes piscavam sob o peso da geada. O ar cheirava a metal e maresia, denso o bastante para gelar os ossos.
O comprador aguardava na beira do cais. Tinha o porte ereto de um nobre e as luvas limpas, o rosto quase sem cor. A roupa era escura, sem brasões, mas o porte denunciava dinheiro e hábito de comando.
Vendeler desceu primeiro. As botas rangiam no gelo enquanto ele atravessava a ponte que ligava o casco à doca. Thurstan o seguiu de perto, carregando o cofre metálico envolto em um pano com inscrições mágicas.
— A carga está aí — disse Vendeler, seco.
— Está — respondeu o homem. A voz saiu firme, sem pressa.
O comprador abriu o cofre, verificou o conteúdo e assentiu com um gesto contido. Entregou em troca um estojo cilíndrico selado por letras azuis brilhantes, repleto de pequenos frascos que faiscavam sob a luz.
Thurstan baixou o olhar e soltou um assobio baixo.
— Erva vampirina. Material muito procurado para a criação de condutores... — murmurou, meio admirado.
Vendeler apenas recolheu o estojo, guardando-o sob o casaco sem mais palavras.
— Negócio concluído.
O homem bem-vestido fez uma curta reverência e se afastou pela passarela congelada. As botas dele deixavam marcas fundas na neve antes de sumirem sob o nevoeiro.
— Ao menos pagaram sem tentar nos atirar — comentou Thurstan, subindo de volta à nave.
Vendeler respondeu apenas com um breve aceno.
A escotilha se fechou com um estalo de metal. As luzes internas reacenderam, e o som das velas propulsoras preencheu o ar.
Vendeler sentou-se diante do painel e tocou uma das runas do comunicador. As vozes distantes de seus contatos ecoaram, misturadas ao chiado mágico. Ele negociou parte da carga ali mesmo, adicionando os respectivos endereços à rota da Alghoryn entre aquele mundo e Azlude.
Thurstan observava, de braços cruzados.
— Por que já não tenta vender tudo?
— Nunca dá de vender tudo — respondeu Vendeler, sem erguer o olhar. — Mas tenho certeza de que, se sobrar alguma coisa, conseguimos vender o resto em Azlude.
A transação terminou com os brilhos no painel piscando em sequência. O eco metálico da confirmação soou curto e limpo.
Arastine apareceu na ponte, o capuz puxado até os olhos.
— Tudo certo?
— Tudo certo — respondeu Vendeler. — Pagamento recebido.
Ela assentiu e girou uma das alavancas. O som das velas reacendeu, e a nave começou a subir lentamente.
As velas da Alghoryn inflaram sob a pressão do vento. O cristal de Etherdoorium brilhou em tons de rosa, reagindo à excitação das velas propulsoras. A luz se espalhou pelos flancos do casco como fogo líquido.
O primeiro portal abriu-se diante deles, uma fenda de vidro e neblina. As bordas pulsavam em silêncio, e o ar ao redor vibrava com o mesmo som que antecede um trovão. A nave inclinou-se levemente antes de atravessar.
Do outro lado, o céu tinha outra cor. O horizonte era lilás, o mar movia-se como mercúrio, e o ar deixava um rastro fosforescente nas velas. O ruído delas se misturava ao estalar lento do gelo se desprendendo do casco.
Vendeler observava o painel, ajustando o fluxo do propulsor principal. Thurstan mantinha os olhos no vidro frontal, a mandíbula cerrada, contando o tempo entre uma passagem e outra.
— Se o próximo portal estiver aberto, chegamos a Azlude antes do fim da semana — disse Vendeler, sem desviar o olhar.
— Tomara. Já tô farto dessa espera — respondeu Thurstan, encostando-se no assento.
O som das velas oscilou, ganhando ritmo. O portal seguinte surgiu como uma auréola dourada no meio das nuvens. A nave mergulhou nele, e por um instante o tempo pareceu se curvar.
O interior da Alghoryn mergulhou em luz. As sombras se dissolveram nas superfícies metálicas, e o casco vibrou sob a força do deslocamento.
Depois, veio o silêncio.
Dias se passaram, mas o tempo ali não parecia ter forma. A luz mudava, o mar mudava, mas o som das velas era sempre o mesmo.
Arastine descia os corredores — às vezes com Shern no colo, outras apenas observando o movimento dos autômatos fazendo seus serviços diários dentro do aeroplano.
Vendeler anotava coordenadas no mapa flutuante, os olhos cansados de vigiar as variações de fluxo. Thurstan alternava entre cochilos curtos e olhares longos para o vidro frontal, como se esperasse ver algo diferente no infinito ciclo de adentrar portal, passar pelo setor, adentrar portal.
A cada travessia, a nave tremia, e as runas queimavam com nova cor. A cada travessia, a mesma sensação de que o tempo se dissolvia.
Até que, por fim, o painel acendeu com uma sequência de sinais dourados.
Vendeler ergueu o olhar.
— Último setor. Azlude adiante.
O som do cristal respondeu, crescendo em tom e brilho.
E o mundo diante da nave se abriu em luz.
O sol batia forte sobre o casco da Alghoryn quando ela se aproximou do ancoradouro. As velas recolhiam o vento devagar, tremulando como panos úmidos sob o calor. O cristal central pulsava num brilho suave, exalando vapor claro.
O porto de Azlude se estendia à frente — plataformas de pedra e metal, pontes flutuantes e pequenas torres rúnicas que emergiam do rio. A água refletia o céu dourado, cortada por embarcações de carga que se moviam em silêncio.
O movimento era menor do que de costume. Grupos de comerciantes desmontavam tendas de pano, e crianças brincavam na beira das passagens suspensas. As bandeiras pendiam sem vento, pesadas pelo calor.
A Alghoryn tocou a doca com um baque leve. O som ecoou entre as colunas metálicas e sumiu nas paredes do cais.
Thurstan foi o primeiro a descer. Passou o pano da camisa na testa, resmungando algo sobre o sol. Vendeler o seguiu, o olhar atento aos carregadores que se aproximavam para amarrar os cabos.
— Faz calor demais pra um lugar desses. — comentou Thurstan.
— E ainda assim o rio não seca. — respondeu Vendeler, observando as correntes de energia sob a ponte. — Nunca vai secar.
Arastine surgiu logo depois, conduzindo Shern pela mão. A menina cobriu os olhos com o braço, piscando diante da claridade.
— Me compra um doce, tia Arastine? — pediu, a voz baixa.
— Claro. — respondeu ela. — Vamos ver o que tem no mercado.
Thurstan as observou se afastando.
— Ela tenta parecer calma, mas dá pra ver que tá preocupada.
Vendeler assentiu sem olhar.
— Na verdade, todos estamos.
A ponte de pedra, apesar de parecer frágil, era como um bastião contra a correnteza. O som da água batendo nas estruturas misturava-se às vozes da cidade, suaves e espaçadas, como se o calor as diluísse.
Arastine e Shern pararam diante de uma banca de doces coloridos. O vendedor abanava as moscas com um galho encantado, e o cheiro de açúcar derretido misturava-se ao perfume de frutas.
Shern apontou um doce em formato de flor. Arastine pagou com uma pequena moeda de prata, e as duas ficaram ali por um instante, observando o rio passar.
Um barco atravessou devagar, e as velas douradas refletiram na superfície da água.
Vendeler e Thurstan caminharam para o outro lado da ponte, o olhar voltado à água que corria diante deles. Ruas de pedra e cúpulas cintilando sob o sol.
— Precisamos de um ponto de partida. — disse Vendeler.
— Quando eu e Arastine fomos convidar Garwin pra coletar gás-trovão, eles moravam perto do porto no deserto. Talvez alguém por lá saiba de algo. — respondeu Thurstan.
Vendeler o encarou por um breve instante.
— Faz sentido. Mesmo que ele e Cailynm tenham pegado aeroplanos, ninguém daqui vai ter visto nada.
Thurstan desviou o olhar, pensativo.
— Então precisamos de alguém que veja o que os olhos não veem.
— Um mago. — completou Vendeler.
Eles pararam na sombra de uma torre. O som distante do mercado ecoava atrás deles, junto com o riso leve de Shern.
— Posso contratar o mesmo mago que paguei pra descobrir onde vocês estavam. — disse Vendeler. — Só não sei se ele ainda está ativo. Sete anos é tempo demais.
— Será que temos outro caminho diferente desse? — retrucou Thurstan.
Vendeler passou a mão pelo rosto barbeado e não respondeu.
A luz do fim da tarde entrava pela escotilha, dourando as paredes metálicas da Alghoryn. O som das velas em repouso soava como uma respiração lenta, distante. O ar dentro da nave estava morno, carregado do cheiro do porto e do calor do dia.
Shern brincava com um pedaço de corda próximo à escada da ponte. As risadas pequenas quebravam o silêncio que pairava entre os adultos. Arastine se abaixou diante dela e tocou-lhe o ombro com leveza.
— Vai pro quarto, pequena. Os adultos precisam conversar um pouco. — disse, num tom calmo.
A menina a olhou com desconfiança, mas obedeceu, arrastando a corda pelo chão e subindo os degraus devagar.
Arastine ficou em silêncio até o som dos passos sumir. Então se virou.
— Precisamos decidir o que fazer a partir daqui. — disse.
Vendeler estava de pé junto ao painel, as mãos apoiadas na borda metálica. Thurstan ocupava o assento do navegador, girando a caneca vazia nas mãos.
— Eu e Thurstan estávamos conversando. Temos duas opções. — começou Vendeler. — Ou usamos um mago pra rastrear Garwin, ou procuramos informações sobre eles no deserto onde viviam.
Thurstan soltou um suspiro curto.
— A minha ideia é eu e Arastine irmos ao deserto, enquanto o Vendeler vai atrás do mago. Depois nos encontramos aqui.
— Eu pensei no contrário. — respondeu Vendeler, sem alterar o tom. — Eu fico com Arastine e Shern, conduzo a Alghoryn até o mago. Você pega uma das libélulas e vai até o porto.
Arastine cruzou os braços.
— Não gosto de nenhuma das opções. Mas dividir é inevitável. — disse, após um instante. — A Shern não pode sair daqui, e alguém tem que pilotar a nave.
Thurstan se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Se eu for sozinho, não garanto nada. O porto é grande, e o pessoal de lá não confia fácil. Se Arastine for junto, fica mais fácil de obter informação.
Vendeler desviou o olhar para a janela.
— Não é uma má ideia, mas acho que comigo indo até o mago com a Alghoryn as coisas andam mais rápido. Ele pode ser mais eficiente.
O silêncio voltou. O som do metal dilatando com o calor encheu o espaço.
Arastine caminhou até o painel e se apoiou ao lado de Vendeler.
— Vendeler, eu detesto admitir... mas não é que, dessa vez, o Thurstan tá certo? — disse, hesitante. — Acho que é mais eficiente irmos nós dois até lá. Até poderíamos ir nas libélulas. Porém...
Vendeler arqueou uma sobrancelha.
— E a Shern?
— Esse é o problema. — respondeu ela, firme. — Mas eu entendo o seu ponto de vista: o mago pode estar em qualquer lugar. O porto, não.
Thurstan a olhou de soslaio.
Vendeler passou a mão pelo rosto, pensativo. O reflexo da luz dourada tremulava em seu rosto.
— Você está dizendo que confia em mim pra sair sozinho com uma libélula.
— Se quiser, pode até ir na minha. — respondeu Arastine.
Thurstan se recostou no acento, sem palavras. Vendeler respirou fundo, e por um instante, o ar pareceu pesar dentro da ponte.
— Então está decidido. — disse ele, por fim. — Eu vou atrás do mago. Vocês dois seguem pro deserto.
Arastine assentiu.
— Combinado. Saímos amanhã, ao amanhecer.
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