Volume 3
Capítulo 21: Vozes na Multidão
O céu se abria em tons de cobre, e a bruma da cachoeira subia como fumaça dourada. A Alghoryn rompeu as nuvens, as velas abertas refletindo a luz do meio-dia.
Abaixo, o rio se espalhava em um leito largo e vivo, dividindo a cidade em duas. No centro, uma rocha colossal sustentava torres e cúpulas antigas, ligadas à margem sul por uma ponte de pedra tão larga que abrigava ruas, lojas e casas empilhadas umas sobre as outras.
Mais adiante, o ancoradouro de Azlude se projetava sobre a queda d’água — três braços de metal e runa avançando sobre o abismo, tremendo sob o vento que vinha do mar.
A Alghoryn desceu em curva suave, o som das velas misturando-se ao rugido da cachoeira. O ar estava tomado por movimento: centenas de aeroplanos cruzavam o céu em todas as direções — cargueiros, planadores, embarcações de luxo e naves mercantes. O som era uma cacofonia de motores, vozes e sinos de ancoragem.
— À direita, segura a linha! — gritou um piloto pelo comunicador, passando perto demais.
— Feriado dos Santos! — respondeu outro, rindo. — É sempre assim!
— Cuidado com a sua retaguarda. — disse Thurstan, em tom jocoso, pelo comunicador.
— Você ainda se diverte, né? — brincou Cailynm com o garoto.
— Pilotar já é a minha diversão.
Do alto, a cidade parecia viva — mercados flutuantes, bandeiras coloridas, torres inclinadas e portais girando como anéis de luz, abrindo e fechando para destinos desconhecidos.
Shern se apertou contra o vidro, o rosto iluminado pelo reflexo da cidade.
— Pai, olha! — disse, quase sem fôlego. — Tem muita gente lá embaixo!
Garwin desviou-se de sua tarefa para acompanhar a garota, sem disfarçar o cansaço.
— E o barulho também.
Thurstan girou o timão devagar, o sorriso cortando a barba rala.
— Sim, Shern. E como o tio sempre diz: onde tem bastante gente, tem bastante dinheiro.
Vendeler inclinou-se sobre o painel, acompanhando o trânsito intenso de aeroplanos.
— Ali tem uma vaga, Thurstan. Nem dá pra saber quem é quem nesse caos.
Thurstan arqueou a sobrancelha.
— Nem acredito. Finalmente vamos vender o purgeno.
O vento soprou mais forte; as velas rangeram, recolhendo-se com precisão.
— Daqui a pouco vamos ter que vender em outro lugar — disse Cailynm, ajeitando as roupas de Shern. — Senão vão começar a suspeitar da procedência.
— E você acha que quem compra vai querer saber de onde veio? — Thurstan manobrou com destreza.
— Se soubessem que esse condutor é da muralha de Sam Brehim, talvez até pagassem melhor. — disse Arastine, enquanto terminava de trançar o cabelo.
A Alghoryn pousou sobre o ancoradouro. O som das amarras travando cortou o ar — seco, metálico, definitivo.
— E tem mais — disse Vendeler, ajustando o traje. — O comprador oferece doze mil, em vez dos habituais dez.
— Se vai pagar tudo isso — comentou Arastine, prendendo a espada na cintura — é porque deve haver algo suspeito.
Thurstan ergueu o olhar, com um sorriso travesso.
— E essa espada aí, Arastine? Vai pra uma negociação ou pra um acerto de contas?
— Que tem? — respondeu ela, seca.
Os outros pararam o que faziam, atentos à discussão.
— Azlude é a cidade mais pacífica de todas — disse Thurstan.
— E daí? — retrucou Arastine. — É melhor eu estar com ela e não precisar, do que o contrário.
Garwin riu, balançando a cabeça.
— Dessa vez ela te pegou, Thurstan. Vamos descer.
As ruas de Azlude ferviam como um mercado vivo de mil mundos. O ancoradouro era um caos ordenado — aeroplanos chegando e partindo a todo instante, o som das velas misturando-se ao rugido distante da cachoeira. As casas se empilhavam sobre pontes e varandas; bandeiras coloridas flutuavam sobre o rio; e os portais domésticos giravam ao longe em arcos de luz, abrindo brechas para outros céus. Cada esquina tinha um som próprio.
Mais adiante, o rio reluzia como uma lâmina viva. Sobre ele, dezenas de aeroplanos subiam e desciam num balé desordenado, enquanto as ruas fervilhavam com vendedores, transeuntes, ladrões de bolsa e mascates de todos os tipos e raças.
— Fica perto da mãe. — disse Cailynm, firme, apertando a mão de Shern.
Arastine ia à frente, abrindo caminho com o olhar. Thurstan e Garwin caminhavam recuados, lado a lado com Cailynm, sempre que a multidão permitia. Vendeler vinha por último, mãos nos bolsos, distraído.
— Mãe, me compra um doce? — pediu Shern, esticando o braço.
— Na volta, filha. — respondeu Cailynm, com um sorriso breve.
— Mãe, olha! — Shern apontou para uma tenda onde pequenas criaturas de luz dançavam sobre um espelho d’água.
— São salamandras de brilho. — disse Cailynm, abaixando-se até a altura dela. — Não toca, tá? Elas se apagam quando ficam com medo.
Shern assentiu, os olhos fixos na dança das luzes.
— E esse negociante, Vendeler? — perguntou Garwin, lançando um olhar por cima do ombro. — Não ficou fazendo perguntas como aquele das Terras Combatentes?
Vendeler não respondeu de imediato; o olhar perdido entre os mastros.
— A cidade é linda. — murmurou Shern, quase sem fôlego. — Nunca vi tanta gente junta.
— É, e é por isso que a gente tem que ficar de olho. — disse Cailynm, ajustando a gola da roupa da filha com um gesto automático. — Azlude é bonita, Mas cuidado.
— Cara, como o Vendeler é desligadão. — riu Thurstan, cutucando Garwin de leve.
— Por isso todo mundo gosta dele. — respondeu Cailynm, ainda olhando as vitrines.
Garwin apenas assentiu, o semblante impassível.
O grupo passou do ancoradouro e entrou na parte da cidade erguida sobre a enorme rocha no meio do rio.
— Reza a lenda que os Santos começaram a jornada deles aqui. — disse Arastine, apontando para uma mansão no topo da colina.
— Por acaso lá não é a mansão da família Genette? — perguntou Garwin, arqueando a sobrancelha.
— Mãe, o que são os Santos? — perguntou Shern, puxando-lhe a roupa.
— Pergunta pro seu pai, ele sabe melhor essas coisas de história.
— Pai, me conta a história dos Santos?
— Sim, Shern. Mas depois que a gente sair da cidade. — respondeu Garwin, o tom paciente, mas o olhar ainda à frente. — Agora o pai tá ocupado com os negócios.
Cailynm sorriu de leve, tocando o braço dele.
— Amor, acho melhor eu dar uma volta com a Shern. Assim compro roupas e outras coisas que estão faltando. Você já sabe o que fazer com a minha parte.
— Tudo bem, então. — disse Garwin, beijando-a no rosto, num gesto automático.
Ele ergueu Shern no colo, o peso da menina fazendo o casaco ranger.
— Cuida da sua mãe. — murmurou, beijando-lhe a testa.
Cailynm acenou.
Ela deu meio passo à frente — e parou.
Virou o rosto, abriu a boca por um instante…
Depois fechou-a, ajustou o capuz e se afastou com a filha, desaparecendo na maré humana.
Garwin, Vendeler e Thurstan seguiram pela rua principal.
— Não sei como você consegue — disse Thurstan, desviando de um mascate —, deixar sua mulher sozinha no meio desse movimento.
— Ela não tem muito dinheiro. — respondeu Garwin, com a voz seca, quase zombeteira.
Vendeler mantinha o passo calmo, o olhar distante.
— Thurstan, vê se não vai falar demais lá dentro. — advertiu Garwin.
— Nem se preocupe. — respondeu Vendeler. — Eles não tiveram interesse em nada sobre a procedência, nem barganharam. Só pediram discrição.
— Ouviu isso, Thurstan? — disse Arastine, lançando-lhe um olhar de canto.
— É sempre eu o espalhafatoso, né? Sempre eu. — resmungou ele.
— Mas você acha que esse comprador é confiável? — perguntou Garwin.
— Olha, ele ofereceu doze mil em vez de dez. — respondeu Vendeler, neutro. — Pra mim, isso já é confiança o bastante.
O grupo ficou em silêncio por um instante.
— É... bom. — disse Garwin, curto.
Depois de algum tempo caminhando, entraram num prédio baixo e largo, coberto de bandeiras e tubulações. No interior, o som era abafado e o ar cheirava a metal quente.
Atrás de um balcão de madeira nobre, um homem gordo, coberto de colares e anéis, observava o purgeno como quem encara um altar.
O líquido púrpuro tremulava dentro do frasco selado por inscrições mágicas. A luz refletia no rosto suado do comprador.
— O comprador disse que pagava doze mil peças, se o condutor fosse legítimo. — disse ele, por fim. — Nem mais, nem menos.
Thurstan assobiou, impressionado.
— E olha que o preço de mercado era dez.
Garwin e Arastine lançaram-lhe um olhar rápido — o tipo de aviso que dispensa palavras.
Vendeler apenas riu, baixo.
— É. — a voz de Garwin aumentou de repente. — Pela escassez, ele paga doze.
Vendeler inclinou o frasco, observando o brilho púrpura que se movia sob as inscrições mágicas.
— Então é melhor aceitar antes que ele mude de ideia.
O homem abriu um sorriso breve — dentes dourados reluzindo sob a luz das lâmpadas rúnicas.
— Eu sabia que vocês eram práticos. Venham comigo.
Ele atravessou um conjunto de cortinas pesadas e abriu uma porta lateral. O grupo o seguiu por um corredor estreito até uma sala menor, abafada e cheirando a óleo e poeira.
O comprador trouxe uma maleta de madeira escura e a colocou sobre a mesa com cuidado cerimonial. Quando abriu, o interior cintilou — doze lingotes de ouro repousavam lado a lado, marcados com o selo da Guilda.
— É isso? — perguntou o homem, erguendo as sobrancelhas.
— Sim. — respondeu Garwin, firme. — Mas precisamos trocar dois lingotes em moedas, pra divisão correta.
O homem não disse nada. Apenas assentiu, recolheu as barras e saiu. O som dos passos dele ecoou no corredor até sumir. Pouco depois, voltou trazendo duas bolsas de couro, pesadas.
Garwin conferiu uma delas, separou uma pequena quantia e empurrou o restante para Vendeler.
— Aqui está a nossa parte: minha e de Cailynm. — disse, com um leve sorriso. — Com isso, todos os débitos da Alghoryn estão pagos. Sete anos de dívida. Mais do que suficiente pra brindar.
Vendeler olhou o ouro por um instante, sem tocar.
— Sabe que nada disso é necessário. — respondeu, com a voz calma, quase cansada. — Eu nunca quis nem uma moeda de cobre em troca disso, certo?
Garwin deu de ombros, mas o olhar era grato.
— Eu sei. Mas é necessário, sim. Tanto eu quanto Cailynm fazemos questão.
Vendeler suspirou e pegou o saco de moedas.
— Tudo bem. — cedeu, com um meio sorriso. — Vou aceitar só por educação.
O som das moedas caindo sobre a mesa ecoou como música — um fim e um recomeço.
***
— Mãe, depois você me compra um doce? — perguntou Shern, ao ver um ambulante passar equilibrando bandejas coloridas.
— Mais tarde, Shern. Temos que comprar roupas pro seu pai. E pra você também. — disse Cailynm, puxando-a de volta pro caminho.
Enquanto seguiam pela rua principal, uma mulher encapuzada passou por elas — baixa e gorda, vestida de cinza, o rosto coberto por um véu escuro.
Por um instante, Shern olhou para trás, sem entender por que aquela figura lhe parecia familiar. A mulher não parou. Apenas virou o rosto, e o reflexo do véu captou o brilho violeta do cabelo da garota.
Cailynm se abaixou para falar com a filha, distraída.
— O que foi, amor?
— Nada… — respondeu Shern, ainda olhando para trás. — Achei que aquela mulher ali me chamou.
Cailynm endireitou-se, rindo — mas o sorriso sumiu assim que viu a mulher.
— Voz de Azlude. — murmurou Cailynm. — A cidade fala até com quem não quer ouvir. Vamos embora daqui Shern.
— Mas mãe, e as roupas do pai?
— Depois vemos isso. Precisamos voltar. — disse ela, apertando com firmeza a mão da menina. — Vem, filha.
***
A noite caiu sobre Azlude como um véu dourado.
Do ancoradouro, via-se a cidade acesa — luzes dançando sobre a bruma da cachoeira, o som dos mercados ainda ecoando à distância.
A Alghoryn balançava levemente nas correntes de atracação, as velas recolhidas, o casco iluminado por lanternas etéreas.
Dentro da nave, o ar era quente e vivo. Garwin ergueu um copo metálico, sorrindo.
— Então é isso. — disse. — A Alghoryn é nossa de novo. Mais uma vez, obrigado por tudo, Vendeler.
Thurstan levantou o dele, rindo alto.
— Agora ele tá com os bolsos cheios! Cuidado pra não gastar tudo em uma noite.
Arastine inclinou-se na cadeira, apoiando o queixo na mão.
— Não é pra tanto. — disse, com um sorriso enviesado. — O Vendeler não é que nem um certo alguém que eu conheço.
Vendeler soltou um riso breve, mexendo na bebida.
— Na verdade, estou pensando em guardar esse dinheiro pra ter uma aposentadoria calma e pacata.
— Eu jamais conseguiria isso. — respondeu Arastine, sem alterar o tom.
Thurstan arqueou a sobrancelha.
— Se aposentar ou ser calma e pacata?
Shern gargalhou, deitada no colo da mãe.
Cailynm sorriu também, mas o olhar dela parecia longe, preso nas janelas laterais, onde o brilho da cidade se refletia nas águas do rio.
Garwin percebeu.
— Tá quieta demais pra uma noite dessas. — comentou, baixando o copo. — Aconteceu alguma coisa?
Ela balançou a cabeça, forçando um sorriso.
— Nada. Só dor de cabeça. Deve ser o barulho.
— Toma uma poção antes de dormir. — disse ele, tocando o ombro dela. — Amanhã partimos cedo.
Cailynm assentiu, o sorriso ainda calmo.
— Eu vou fazer isso.
O riso voltou à mesa. Thurstan contava histórias, Arastine zombava, Vendeler observava em silêncio.
A voz de Shern se misturava ao som metálico dos copos, e por um instante tudo pareceu perfeito.
Mas pouco depois, Cailynm se levantou.
— Vou colocar a Shern pra dormir. — disse, em voz baixa. — Continuem.
Garwin fez um gesto de concordância, e as duas deixaram o ambiente.
***
O quarto era pequeno e claro, iluminado pelo luar que entrava pela escotilha. Cailynm sentou-se à beira da cama e ajeitou o cobertor sobre a filha.
Shern a olhou, já sonolenta.
— Mãe... você acha que o pai vai me deixar pilotar a Alghoryn um dia?
Cailynm sorriu, passando os dedos pelos cabelos violeta da menina.
— Claro que vai. Quando for a hora certa.
Shern bocejou.
— Promete que vai estar comigo quando isso acontecer?
Cailynm hesitou por um instante. Depois, curvou-se e beijou-lhe a testa.
— Eu te amo mais do que tudo nesse mundo, minha filha. Nunca esquece disso.
A menina adormeceu antes de responder.
Cailynm ficou ali por um tempo, olhando pela janela. O reflexo da cachoeira tremeluzia nas paredes do quarto — um rumor distante, constante.
Ela suspirou, fechou a escotilha e apagou a luz.
***
A manhã seguinte nasceu fria, o sol refletindo nas águas de Azlude. Na ponte, o grupo se reunia para a partida.
Thurstan ajustava os painéis; Vendeler o ajudava; Arastine verificava os suprimentos.
Garwin entrou, o semblante tenso.
— Amor. — chamou.
Thurstan olhou de relance.
— Ela não tá aqui.
Garwin franziu o cenho.
— Vocês não viram ela? — perguntou, o olhar passando por Arastine e Vendeler.
— Ela não tá no quarto com a Shern? — perguntou Arastine, baixando o tom.
O silêncio tomou a ponte. Garwin respirou fundo, o olhar firme, mas vazio.
— Não… a Cailynm foi embora.
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