Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 3

Capítulo 21: Vozes na Multidão

O céu se abria em tons de cobre, e a bruma da cachoeira subia como fumaça dourada. A Alghoryn rompeu as nuvens, as velas abertas refletindo a luz do meio-dia.

Abaixo, o rio se espalhava em um leito largo e vivo, dividindo a cidade em duas. No centro, uma rocha colossal sustentava torres e cúpulas antigas, ligadas à margem sul por uma ponte de pedra tão larga que abrigava ruas, lojas e casas empilhadas umas sobre as outras.

Mais adiante, o ancoradouro de Azlude se projetava sobre a queda d’água — três braços de metal e runa avançando sobre o abismo, tremendo sob o vento que vinha do mar.

A Alghoryn desceu em curva suave, o som das velas misturando-se ao rugido da cachoeira. O ar estava tomado por movimento: centenas de aeroplanos cruzavam o céu em todas as direções — cargueiros, planadores, embarcações de luxo e naves mercantes. O som era uma cacofonia de motores, vozes e sinos de ancoragem.

— À direita, segura a linha! — gritou um piloto pelo comunicador, passando perto demais.

— Feriado dos Santos! — respondeu outro, rindo. — É sempre assim!

— Cuidado com a sua retaguarda. — disse Thurstan, em tom jocoso, pelo comunicador.

— Você ainda se diverte, né? — brincou Cailynm com o garoto.

— Pilotar já é a minha diversão.

Do alto, a cidade parecia viva — mercados flutuantes, bandeiras coloridas, torres inclinadas e portais girando como anéis de luz, abrindo e fechando para destinos desconhecidos.

Shern se apertou contra o vidro, o rosto iluminado pelo reflexo da cidade.

— Pai, olha! — disse, quase sem fôlego. — Tem muita gente lá embaixo!

Garwin desviou-se de sua tarefa para acompanhar a garota, sem disfarçar o cansaço.

— E o barulho também.

Thurstan girou o timão devagar, o sorriso cortando a barba rala.

— Sim, Shern. E como o tio sempre diz: onde tem bastante gente, tem bastante dinheiro.

Vendeler inclinou-se sobre o painel, acompanhando o trânsito intenso de aeroplanos.

— Ali tem uma vaga, Thurstan. Nem dá pra saber quem é quem nesse caos.

Thurstan arqueou a sobrancelha.

— Nem acredito. Finalmente vamos vender o purgeno.

O vento soprou mais forte; as velas rangeram, recolhendo-se com precisão.

— Daqui a pouco vamos ter que vender em outro lugar — disse Cailynm, ajeitando as roupas de Shern. — Senão vão começar a suspeitar da procedência.

— E você acha que quem compra vai querer saber de onde veio? — Thurstan manobrou com destreza.

— Se soubessem que esse condutor é da muralha de Sam Brehim, talvez até pagassem melhor. — disse Arastine, enquanto terminava de trançar o cabelo.

A Alghoryn pousou sobre o ancoradouro. O som das amarras travando cortou o ar — seco, metálico, definitivo.

— E tem mais — disse Vendeler, ajustando o traje. — O comprador oferece doze mil, em vez dos habituais dez.

— Se vai pagar tudo isso — comentou Arastine, prendendo a espada na cintura — é porque deve haver algo suspeito.

Thurstan ergueu o olhar, com um sorriso travesso.

— E essa espada aí, Arastine? Vai pra uma negociação ou pra um acerto de contas?

— Que tem? — respondeu ela, seca.

Os outros pararam o que faziam, atentos à discussão.

— Azlude é a cidade mais pacífica de todas — disse Thurstan.

— E daí? — retrucou Arastine. — É melhor eu estar com ela e não precisar, do que o contrário.

Garwin riu, balançando a cabeça.

— Dessa vez ela te pegou, Thurstan. Vamos descer.

As ruas de Azlude ferviam como um mercado vivo de mil mundos. O ancoradouro era um caos ordenado — aeroplanos chegando e partindo a todo instante, o som das velas misturando-se ao rugido distante da cachoeira. As casas se empilhavam sobre pontes e varandas; bandeiras coloridas flutuavam sobre o rio; e os portais domésticos giravam ao longe em arcos de luz, abrindo brechas para outros céus. Cada esquina tinha um som próprio.

Mais adiante, o rio reluzia como uma lâmina viva. Sobre ele, dezenas de aeroplanos subiam e desciam num balé desordenado, enquanto as ruas fervilhavam com vendedores, transeuntes, ladrões de bolsa e mascates de todos os tipos e raças.

— Fica perto da mãe. — disse Cailynm, firme, apertando a mão de Shern.

Arastine ia à frente, abrindo caminho com o olhar. Thurstan e Garwin caminhavam recuados, lado a lado com Cailynm, sempre que a multidão permitia. Vendeler vinha por último, mãos nos bolsos, distraído.

— Mãe, me compra um doce? — pediu Shern, esticando o braço.

— Na volta, filha. — respondeu Cailynm, com um sorriso breve.

— Mãe, olha! — Shern apontou para uma tenda onde pequenas criaturas de luz dançavam sobre um espelho d’água.

— São salamandras de brilho. — disse Cailynm, abaixando-se até a altura dela. — Não toca, tá? Elas se apagam quando ficam com medo.

Shern assentiu, os olhos fixos na dança das luzes.

— E esse negociante, Vendeler? — perguntou Garwin, lançando um olhar por cima do ombro. — Não ficou fazendo perguntas como aquele das Terras Combatentes?

Vendeler não respondeu de imediato; o olhar perdido entre os mastros.

— A cidade é linda. — murmurou Shern, quase sem fôlego. — Nunca vi tanta gente junta.

— É, e é por isso que a gente tem que ficar de olho. — disse Cailynm, ajustando a gola da roupa da filha com um gesto automático. — Azlude é bonita, Mas cuidado.

— Cara, como o Vendeler é desligadão. — riu Thurstan, cutucando Garwin de leve.
— Por isso todo mundo gosta dele. — respondeu Cailynm, ainda olhando as vitrines.

Garwin apenas assentiu, o semblante impassível.

O grupo passou do ancoradouro e entrou na parte da cidade erguida sobre a enorme rocha no meio do rio.

— Reza a lenda que os Santos começaram a jornada deles aqui. — disse Arastine, apontando para uma mansão no topo da colina.

— Por acaso lá não é a mansão da família Genette? — perguntou Garwin, arqueando a sobrancelha.

— Mãe, o que são os Santos? — perguntou Shern, puxando-lhe a roupa.

— Pergunta pro seu pai, ele sabe melhor essas coisas de história.

— Pai, me conta a história dos Santos?

— Sim, Shern. Mas depois que a gente sair da cidade. — respondeu Garwin, o tom paciente, mas o olhar ainda à frente. — Agora o pai tá ocupado com os negócios.

Cailynm sorriu de leve, tocando o braço dele.

— Amor, acho melhor eu dar uma volta com a Shern. Assim compro roupas e outras coisas que estão faltando. Você já sabe o que fazer com a minha parte.

— Tudo bem, então. — disse Garwin, beijando-a no rosto, num gesto automático.

Ele ergueu Shern no colo, o peso da menina fazendo o casaco ranger.

— Cuida da sua mãe. — murmurou, beijando-lhe a testa.

Cailynm acenou.

Ela deu meio passo à frente — e parou.

Virou o rosto, abriu a boca por um instante…

Depois fechou-a, ajustou o capuz e se afastou com a filha, desaparecendo na maré humana.

Garwin, Vendeler e Thurstan seguiram pela rua principal.

— Não sei como você consegue — disse Thurstan, desviando de um mascate —, deixar sua mulher sozinha no meio desse movimento.

— Ela não tem muito dinheiro. — respondeu Garwin, com a voz seca, quase zombeteira.

Vendeler mantinha o passo calmo, o olhar distante.

— Thurstan, vê se não vai falar demais lá dentro. — advertiu Garwin.

— Nem se preocupe. — respondeu Vendeler. — Eles não tiveram interesse em nada sobre a procedência, nem barganharam. Só pediram discrição.

— Ouviu isso, Thurstan? — disse Arastine, lançando-lhe um olhar de canto.

— É sempre eu o espalhafatoso, né? Sempre eu. — resmungou ele.

— Mas você acha que esse comprador é confiável? — perguntou Garwin.

— Olha, ele ofereceu doze mil em vez de dez. — respondeu Vendeler, neutro. — Pra mim, isso já é confiança o bastante.

O grupo ficou em silêncio por um instante.

— É... bom. — disse Garwin, curto.

Depois de algum tempo caminhando, entraram num prédio baixo e largo, coberto de bandeiras e tubulações. No interior, o som era abafado e o ar cheirava a metal quente.

Atrás de um balcão de madeira nobre, um homem gordo, coberto de colares e anéis, observava o purgeno como quem encara um altar.

O líquido púrpuro tremulava dentro do frasco selado por inscrições mágicas. A luz refletia no rosto suado do comprador.

— O comprador disse que pagava doze mil peças, se o condutor fosse legítimo. — disse ele, por fim. — Nem mais, nem menos.

Thurstan assobiou, impressionado.

— E olha que o preço de mercado era dez.

Garwin e Arastine lançaram-lhe um olhar rápido — o tipo de aviso que dispensa palavras.

Vendeler apenas riu, baixo.

— É. — a voz de Garwin aumentou de repente. — Pela escassez, ele paga doze.

Vendeler inclinou o frasco, observando o brilho púrpura que se movia sob as inscrições mágicas.

— Então é melhor aceitar antes que ele mude de ideia.

O homem abriu um sorriso breve — dentes dourados reluzindo sob a luz das lâmpadas rúnicas.

— Eu sabia que vocês eram práticos. Venham comigo.

Ele atravessou um conjunto de cortinas pesadas e abriu uma porta lateral. O grupo o seguiu por um corredor estreito até uma sala menor, abafada e cheirando a óleo e poeira.

O comprador trouxe uma maleta de madeira escura e a colocou sobre a mesa com cuidado cerimonial. Quando abriu, o interior cintilou — doze lingotes de ouro repousavam lado a lado, marcados com o selo da Guilda.

— É isso? — perguntou o homem, erguendo as sobrancelhas.

— Sim. — respondeu Garwin, firme. — Mas precisamos trocar dois lingotes em moedas, pra divisão correta.

O homem não disse nada. Apenas assentiu, recolheu as barras e saiu. O som dos passos dele ecoou no corredor até sumir. Pouco depois, voltou trazendo duas bolsas de couro, pesadas.

Garwin conferiu uma delas, separou uma pequena quantia e empurrou o restante para Vendeler.

— Aqui está a nossa parte: minha e de Cailynm. — disse, com um leve sorriso. — Com isso, todos os débitos da Alghoryn estão pagos. Sete anos de dívida. Mais do que suficiente pra brindar.

Vendeler olhou o ouro por um instante, sem tocar.

— Sabe que nada disso é necessário. — respondeu, com a voz calma, quase cansada. — Eu nunca quis nem uma moeda de cobre em troca disso, certo?

Garwin deu de ombros, mas o olhar era grato.

— Eu sei. Mas é necessário, sim. Tanto eu quanto Cailynm fazemos questão.

Vendeler suspirou e pegou o saco de moedas.

— Tudo bem. — cedeu, com um meio sorriso. — Vou aceitar só por educação.

O som das moedas caindo sobre a mesa ecoou como música — um fim e um recomeço.

***

— Mãe, depois você me compra um doce? — perguntou Shern, ao ver um ambulante passar equilibrando bandejas coloridas.

— Mais tarde, Shern. Temos que comprar roupas pro seu pai. E pra você também. — disse Cailynm, puxando-a de volta pro caminho.

Enquanto seguiam pela rua principal, uma mulher encapuzada passou por elas — baixa e gorda, vestida de cinza, o rosto coberto por um véu escuro.

Por um instante, Shern olhou para trás, sem entender por que aquela figura lhe parecia familiar. A mulher não parou. Apenas virou o rosto, e o reflexo do véu captou o brilho violeta do cabelo da garota.

Cailynm se abaixou para falar com a filha, distraída.

— O que foi, amor?

— Nada… — respondeu Shern, ainda olhando para trás. — Achei que aquela mulher ali me chamou.

Cailynm endireitou-se, rindo — mas o sorriso sumiu assim que viu a mulher.

— Voz de Azlude. — murmurou Cailynm. — A cidade fala até com quem não quer ouvir. Vamos embora daqui Shern.

— Mas mãe, e as roupas do pai?

— Depois vemos isso. Precisamos voltar. — disse ela, apertando com firmeza a mão da menina. — Vem, filha.

***

A noite caiu sobre Azlude como um véu dourado.

Do ancoradouro, via-se a cidade acesa — luzes dançando sobre a bruma da cachoeira, o som dos mercados ainda ecoando à distância.

A Alghoryn balançava levemente nas correntes de atracação, as velas recolhidas, o casco iluminado por lanternas etéreas.

Dentro da nave, o ar era quente e vivo. Garwin ergueu um copo metálico, sorrindo.

— Então é isso. — disse. — A Alghoryn é nossa de novo. Mais uma vez, obrigado por tudo, Vendeler.

Thurstan levantou o dele, rindo alto.

— Agora ele tá com os bolsos cheios! Cuidado pra não gastar tudo em uma noite.

Arastine inclinou-se na cadeira, apoiando o queixo na mão.

— Não é pra tanto. — disse, com um sorriso enviesado. — O Vendeler não é que nem um certo alguém que eu conheço.

Vendeler soltou um riso breve, mexendo na bebida.

— Na verdade, estou pensando em guardar esse dinheiro pra ter uma aposentadoria calma e pacata.

— Eu jamais conseguiria isso. — respondeu Arastine, sem alterar o tom.

Thurstan arqueou a sobrancelha.

— Se aposentar ou ser calma e pacata?

Shern gargalhou, deitada no colo da mãe.

Cailynm sorriu também, mas o olhar dela parecia longe, preso nas janelas laterais, onde o brilho da cidade se refletia nas águas do rio.

Garwin percebeu.

— Tá quieta demais pra uma noite dessas. — comentou, baixando o copo. — Aconteceu alguma coisa?

Ela balançou a cabeça, forçando um sorriso.

— Nada. Só dor de cabeça. Deve ser o barulho.

— Toma uma poção antes de dormir. — disse ele, tocando o ombro dela. — Amanhã partimos cedo.

Cailynm assentiu, o sorriso ainda calmo.

— Eu vou fazer isso.

O riso voltou à mesa. Thurstan contava histórias, Arastine zombava, Vendeler observava em silêncio.

A voz de Shern se misturava ao som metálico dos copos, e por um instante tudo pareceu perfeito.

Mas pouco depois, Cailynm se levantou.

— Vou colocar a Shern pra dormir. — disse, em voz baixa. — Continuem.

Garwin fez um gesto de concordância, e as duas deixaram o ambiente.

***

O quarto era pequeno e claro, iluminado pelo luar que entrava pela escotilha. Cailynm sentou-se à beira da cama e ajeitou o cobertor sobre a filha.

Shern a olhou, já sonolenta.

— Mãe... você acha que o pai vai me deixar pilotar a Alghoryn um dia?

Cailynm sorriu, passando os dedos pelos cabelos violeta da menina.

— Claro que vai. Quando for a hora certa.

Shern bocejou.

— Promete que vai estar comigo quando isso acontecer?

Cailynm hesitou por um instante. Depois, curvou-se e beijou-lhe a testa.

— Eu te amo mais do que tudo nesse mundo, minha filha. Nunca esquece disso.

A menina adormeceu antes de responder.

Cailynm ficou ali por um tempo, olhando pela janela. O reflexo da cachoeira tremeluzia nas paredes do quarto — um rumor distante, constante.

Ela suspirou, fechou a escotilha e apagou a luz.

***

A manhã seguinte nasceu fria, o sol refletindo nas águas de Azlude. Na ponte, o grupo se reunia para a partida.

Thurstan ajustava os painéis; Vendeler o ajudava; Arastine verificava os suprimentos.

Garwin entrou, o semblante tenso.

— Amor. — chamou.

Thurstan olhou de relance.

— Ela não tá aqui.

Garwin franziu o cenho.

— Vocês não viram ela? — perguntou, o olhar passando por Arastine e Vendeler.

— Ela não tá no quarto com a Shern? — perguntou Arastine, baixando o tom.

O silêncio tomou a ponte. Garwin respirou fundo, o olhar firme, mas vazio.

— Não… a Cailynm foi embora.

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