Volume 3
Capítulo 20: Rumo a Azlude
O som das velas de propulsão rompeu o silêncio do céu.
A Alghoryn surgiu das nuvens, cortando o ar limpo e frio como uma lâmina viva.
Runas e inscrições mágicas brilharam sob os panos das velas, pulsando em intervalos regulares — um coração de tecido e Etherdoorium.
Dentro da ponte, o ar era estável, o zumbido dos condutores constante. Garwin inclinou-se sobre o painel, os olhos fixos nas projeções rúnicas. Thurstan mantinha o timão firme, observando os indicadores de pressão mágica.
— Setor três estabilizado — disse Garwin.
— Velas limpas. Corrente alinhada — respondeu Thurstan, quase automático.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Tá fácil demais... isso sempre me preocupa.
Garwin soltou o ar pelo nariz, sem levantar o olhar.
— Espera as puritânias verem o portal abrir. Aí vai ser legal.
As luzes do painel oscilaram, e linhas douradas se desenharam sobre o mapa etéreo.
— As torres de Sam Brehim... — murmurou ele. — Todas ativas.
Thurstan girou o timão, ajustando o ângulo da nave.
— Drones varredores já cruzaram a fenda. Daqui a pouco mandam o retorno.
— Vendeler vai gostar. — comentou Garwin, seco. — É a primeira vez que a gente manda os construtos pelo portal doméstico antes da nave.
— Também... com o dinheiro que gastamos nesses construtos...
— Painel secundário pronto. Leituras estáveis. Corrente de entrada confirmada — A voz de Cailynm soou calma. Ela estava ao lado deles, mas a concentração era tanta que por um instante pareceu um fantasma na ponte de comando.
Garwin assentiu, mexendo nas runas de controle.
— Thurstan, segura. Assim que os drones voltarem, a gente entra.
Thurstan girou o timão e olhou pela janela.
— Céu limpo, sem interceptadores. Nem parece que o portal vai se abrir bem na nossa frente.
— É, deixa eles verem que a gente entrou no quintal deles. — disse Garwin, com meio sorriso.
As velas se expandiram; o som subiu de tom.
A Alghoryn inclinou-se suavemente, pronta para mergulhar no portal selvagem.
O som do comunicador preencheu o corredor inferior. Vendeler ajustava o traje, as placas metálicas se encaixando com estalos curtos. A luz azul dos condutores percorreu o torso e subiu até o elmo.
— Teste de vedação completo — disse, a voz abafada dentro do capacete. — Pressão mágica estável.
Arastine surgiu na porta, cruzando os braços.
— Tá bonito. Só promete não cair no mar dessa vez.
Vendeler soltou um meio sorriso.
— Dessa vez eu vou cair em terra firme.
O som das runas ativas ecoou pelo compartimento. Ele fechou o visor e tocou o comunicador no pulso.
— Ponte, aqui é Vendeler. Escuta limpa?
A voz de Garwin veio metálica, com um leve chiado.
— Clara e alta. Os construtos já estão espalhados no perímetro.
Cailynm completou:
— Dados chegando... — As inscrições do painel piscavam no fundo da ponte. — Torre quarenta e sete-L. Campo puro, nenhuma interferência de energia.
— Torre quarenta e sete-L — repetiu Vendeler. — É pra lá que eu vou.
Ele olhou para Arastine.
— Me ajuda a ir até o compartimento de lançamento.
A guerreira assentiu e puxou a alavanca lateral. A passagem se abriu, revelando o corredor. Ela o ajudou a caminhar até o tubo de ejeção, iluminado por lanternas mágicas.
Thurstan girou o timão, realinhando o curso.
— Trajetória confirmada. Entrando no portal selvagem.
— Mantém o eixo. — ordenou Garwin. — Quando entrar, temos que ser rápidos e precisos.
Vendeler posicionou-se sobre o círculo de lançamento.
— Pronto pra soltar.
Garwin ergueu o olhar para Cailynm.
— Alinha o salto.
As velas começaram a brilhar. Uma aura dourada tomou o casco; o ar ao redor cintilou.
— Pronto. — avisou Thurstan.
A luz se abriu à frente — uma fenda límpida, dobrando o céu em espiral. A Alghoryn mergulhou com precisão. Nenhum tremor. Nenhum ruído além do som das velas rasgando o vento.
Dentro, as luzes piscaram uma vez. A voz da própria nave ecoou pelo intercomunicador:
— Intrusão detectada. Sam Brehim em alerta. Dez caçadoras puritânias despachadas.
Garwin soltou um breve suspiro.
— E começou a festa.
Vendeler foi arremessado como um tiro de canhão. As formas ao redor se distorciam sob a velocidade.
— Essa é a parte mais legal de todas — disse, enquanto um pequeno ponto à frente crescia rápido, tomando forma.
A torre de Sam Brehim ergueu-se diante dele — uma agulha metálica mergulhada em névoa azul.
Os propulsores do traje reduziram o impulso. Ele girou o corpo, estendeu as garras magnéticas e pousou na parede da torre sem som. O impacto foi seco, preciso — a estrutura tremeu, mas não cedeu.
— Ancoragem feita — murmurou. — Campo estável, pressão uniforme.
A viseira refletia a superfície translúcida, pulsando energia azul sob o metal.
Vendeler passou os dedos pelas inscrições.
— Blindagem dupla… camada de contenção arcana. — avaliou, em voz baixa. — Cortador três, modo fino.
As lâminas do traje acenderam. Um feixe dourado percorreu o contorno do selo e começou a se abrir num traço regular.
Faíscas douradas se desprendiam e sumiam antes de tocar o chão.
O corte se completou. A placa cedeu e flutuou por um instante antes de ser puxada de lado pelo campo magnético.
— Entrada feita — disse ele.
Vendeler se esgueirou pela abertura. Dentro, a torre era um poço de luz fria — paredes lisas, cristais suspensos, cabos vibrando em ondas rítmicas.
Nenhum som humano, apenas o pulso constante da energia.
Ele avançou por uma passarela estreita, cada passo calculado.
— Leituras limpas. Temperatura estável. — anunciou para si mesmo. — Descendo.
O chão desapareceu abaixo dele. O traje detectou o espaço e acionou o campo gravitacional. Vendeler flutuou em queda controlada, a luz azul subindo pelas paredes.
No fundo, o brilho do núcleo tremeluzia. Ele pousou junto à câmara central.
— Núcleo visual. — murmurou. — Purgeno identificado.
As runas do traje responderam com um pulso de luz. Vendeler estendeu a mão.
— Entrada completa. Núcleo localizado.
O som das velas aumentou num crescendo. A Alghoryn cortava o céu de Sam Brehim, o casco riscando a névoa em linhas douradas. Atrás, dez puritânias se aproximavam — velas largas, cascos pesados, propulsores roncando como trovões.
Dentro da ponte, o ar vibrava. Thurstan girava o timão com firmeza, os olhos atentos ao painel de voo.
— Quatro à retaguarda, duas pela esquerda. — disse, sem alterar o tom.
Cailynm respondeu sem olhar — as mãos sobre as runas, controlando os construtos.
— Interferência nas redes mágicas deles… pronto. — A luz diante dela mudou de cor. — Sensores cegos o suficiente pra Arastine acabar com todos.
Garwin se apoiou na base do painel, a voz firme.
— Mantém o curso. Nada de confronto. Nosso trabalho é só distrair.
As puritânias abriram fogo — lanças de energia cruzaram o ar. A Alghoryn inclinou-se num ângulo impossível. O casco vibrou, mas não cedeu. O som se dissolveu em vento. As velas se recolheram e voltaram a abrir num movimento calculado.
Arastine segurava a alavanca da balista, observando pelo visor óptico.
— Estão tentando travar mira. — avisou.
— Pode tirar o cavalinho da chuva. — respondeu Thurstan, sorrindo. — Esses cruzadores têm curva de baleia. E o capitão disse pra não bater, só correr.
Cailynm lançou duas esferas luminosas. Elas se dividiram no ar, espalhando ondas arcanas que se fixaram na retaguarda da nave. As puritânias passaram direto pelo campo falso — uma imagem duplicada da Alghoryn continuou adiante.
— Ilusão em três… dois… — Cailynm levantou o olhar. — Pegou.
Pelas janelas, as puritânias disparavam contra o eco luminoso, acreditando que a nave fugia em outra direção.
Thurstan riu baixo.
— Ficam mais burros a cada ano.
Garwin manteve o olhar fixo no radar.
— Continua o curso oeste. Nada de heroísmo.
O vento diminuiu. O casco estabilizou. O céu se abriu em azul frio, e por um momento só o som das velas permaneceu.
Thurstan girou o timão devagar, exalando o ar preso.
— Tá feito. Nenhum contato no radar.
Cailynm assentiu.
— Drones em recolhimento. Voo limpo, sem rastros.
Garwin, no entanto, não respondeu. Ficou parado, olhando o painel. A luz das runas tremeluzia sobre o rosto dele.
O silêncio se alongou.
— …Tem alguma coisa errada. — disse, por fim.
Thurstan ergueu os olhos.
— Errada como?
Garwin franziu o cenho.
— Uma das leituras internas sumiu.
Ele se virou de súbito.
— Cadê a Shern?
Cailynm o olhou, surpresa.
— Ué? Você não tinha deixado ela no quarto?
— Não. Pensei que você tivesse deixado.
O zumbido da nave pareceu mais alto. Garwin apontou para o painel.
— Cuidem de tudo aqui. Já volto.
Saiu da ponte a passos largos. O som das botas ecoou pelo corredor metálico, desaparecendo no fundo do casco. Garwin avançava pelos corredores, os passos ecoando no metal. As portas se abriam uma após a outra — dormitórios, sala de máquinas, refeitório vazio. Nada.
Ele acionou o comunicador na parede.
— Arastine. — a voz saiu seca. — Tá na sala de armas?
— Tô. — respondeu ela, entre ruídos de metal. — Aconteceu alguma coi—
Garwin já virava o corredor. A porta se abriu com um estalo, e ele entrou, o olhar varrendo o ambiente. Arastine ergueu os olhos da mira da balista.
— Procurando a Shern?
— Não tá em lugar nenhum. — disse, curto. — Achou que tava comigo?
— Achei que estivesse no quarto.
Garwin não respondeu. Deu meia-volta e saiu.
O corredor seguinte levava ao convés superior. O ar ficou mais frio, e o som do vento começou a preencher o espaço. Quando a porta se abriu, a claridade o cegou por um instante.
Shern estava ali — escorada na borda metálica, o cabelo violeta agitado pelo vento.
As puritânias brilhavam ao longe, cruzando o céu como lanças.
— Shern. — A voz de Garwin soou firme, sem grito, mas cortante.
A menina virou-se, sorrindo.
— Pai! Olha, dá pra ver elas! Tão atirando!
Garwin atravessou o convés em passos largos. Segurou-a pelos ombros, puxando-a para longe da borda.
— Você tá maluca? — a voz dele tremia de raiva contida. — Quer cair daqui? Quer levar um tiro?
Ela baixou o olhar, sem entender o tamanho do perigo.
— Eu só queria ver...
O som da palmada ecoou, seco. Shern levou a mão ao local, os olhos marejando. Garwin respirou fundo, mantendo o olhar firme.
— Pra dentro. Agora.
Ela hesitou, e ele a segurou pela mão, guiando-a com passos duros até a porta. O vento ainda os cercava quando a luz do convés se apagou atrás deles.
O som das velas era um rumor grave, contínuo. Garwin entrou na ponte puxando Shern pela mão. Mal colocou os pés no piso metálico, o comunicador chiou.
— Senta aí. — disse, firme, apontando o banco lateral.
A menina obedeceu, os olhos baixos.
— Aqui é Vendeler. — A voz veio entre ruídos de estática. — Tudo certo por aqui.
— Ouviu, Garwin? — perguntou Thurstan. — Tudo pronto lá. E melhor: a Arastine não tá aqui pra nos convencer a abalroar contra as naves deles.
— Eu ouvi isso. — respondeu Arastine pelo comunicador, seca.
Garwin manteve a postura, o olhar fixo no painel.
— Atordoador e salto direto. Sem hesitar.
Cailynm operou os comandos. Os construtos se destacaram do casco e dispararam na direção das puritânias.
Do lado de fora, as esferas douradas se espalharam no ar, deixando rastros de luz antes de explodirem em silêncio. Ondas mágicas se expandiram, engolindo as naves inimigas.
As velas das puritânias pararam, e os cruzadores ficaram inertes no ar. Tudo mergulhou em escuridão.
A Alghoryn atravessou o campo morto como uma flecha viva, cortando entre as sombras sem ruído.
Na ponte, Cailynm observava as leituras.
— Interferência completa. Todas cegas.
Thurstan sorriu, girando o timão.
— O caminho tá limpo.
Garwin assentiu, sem desviar o olhar das runas.
— Vai até a torre. Arastine fica na rampa.
A nave reduziu a velocidade, o casco refletindo o brilho das torres de Sam Brehim.
A rampa de carga se abriu. O vento entrou, frio.
Vendeler surgiu do alto, o traje emitindo luz azulada. Pousou com precisão e retirou o elmo.
Arastine o esperava, de braços cruzados.
— Tudo certo?
— Sim. — respondeu ele, com um meio sorriso, estendendo uma caixa preta. — Aqui está.
O fechamento da rampa soou como o fim de um ciclo. Cailynm confirmou pelo comunicador da parede:
— Tripulação completa.
Garwin levantou a mão.
— Então é isso. Vamos!
As velas da Alghoryn se expandiram, inundadas de energia. Um brilho dourado tomou o céu, e o ar se dobrou à frente. A nave mergulhou no portal selvagem, desaparecendo sem deixar rastros.
O céu do outro lado era limpo e claro, a luz fria refletindo no casco. Thurstan soltou um suspiro, mexendo no timão.
— Céu limpo. Sem rastros.
Pelas janelas, o horizonte se abriu — montanhas distantes, brumas leves. No alto de uma delas, o aeroplano do Chacal pairava imóvel. O brilho metálico denunciava sua presença.
Thurstan inclinou a cabeça, meio divertido.
— Segunda vez que pegamos o Chacal cagando. — comentou.
Cailynm riu por baixo do fôlego.
Garwin estava junto de Shern. A menina mantinha o olhar no chão.
— Me desculpa, pai. — disse, com voz pequena. — Eu não vou mais fazer isso.
Ele se ajoelhou diante dela, a expressão serena.
— Eu sei. — respondeu, baixo. — Mas é meu dever te ensinar o que é certo. Mesmo que doa.
Shern assentiu. Ele a beijou na testa.
— Isso é pro seu bem.
Cailynm virou-se no assento, com um sorriso cansado.
— Então… o que aconteceu?
— Tava no convés na hora da perseguição. — respondeu Garwin.
Cailynm fez um gesto para que Shern se aproximasse. A garota levantou e sentou no colo da mãe, que acariciou seus cabelos metálicos.
— Não pode, filha. É perigoso ficar lá fora nessas horas.
— Eu sei, mãe. Eu sei.
Vendeler entrou na ponte, pousando o condutor púrpura sobre a mesa de comando. O cristal pulsou, emitindo uma luz suave.
Ele olhou em volta, o sorriso contido no canto da boca.
— Concluída.
Thurstan já ajustava o curso.
Garwin deu a ordem final:
— Rumo a Azlude.
As velas se abriram como asas, o som das correntes e do vento preenchendo o ar.
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