Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 19: Shern

O clarão dos destroços ainda pairava sobre o mar quando o som das velas de propulsão rompeu o silêncio.

Grave, profundo, ritmado — como o bater de um coração voltando à vida. A Alghoryn desceu das nuvens, limpa e intacta, o casco reluzindo sob a chuva que cessava.

— Não pode ser... — murmurou Thurstan. — Ela tá... inteira.

Garwin deu um passo à frente, a voz presa.

— Inteira e melhorada. Olha aquela proa.

Cailynm apertou o braço dele, o olhar fixo na luz que vinha de dentro.

— E quem... quem será que tá pilotando?

A rampa se abriu com suavidade perfeita — sem cabos, sem engrenagens, só o deslizar da magia.

Um sopro de luz escapou, tocando o convés molhado. O grupo recuou instintivamente.

— Isso é real? — perguntou Cailynm, baixo.

— Pode não ser... — respondeu Garwin, sem tirar os olhos da nave. — Quem sabe fomos atingidos e já morremos?

O primeiro movimento veio em silêncio — alguém saía da nave. Mas quando a sombra surgiu no topo da rampa, o ar se prendeu no peito de todos.

Arastine foi a primeira a reconhecer.

— Vendeler...? — a voz dela falhou, quebrando no meio.

O homem parou, olhou para eles e sorriu.

— Demorei um pouco, né?

— Não... — Thurstan balançou a cabeça. — Eu vi você cair! Eu vi!

— Pois é — disse Vendeler, descendo devagar. — E eu jurava que nunca mais ia ver vocês. Aliás, vocês são bem difíceis de achar.

Arastine correu antes de pensar. As botas bateram na madeira, e o som ecoou entre as paredes de metal.

Ela o abraçou com força, o corpo trêmulo.

— Eu achei que você tinha morrido... — disse, chorando. — Me disseram que você caiu no mar!

— Cair, eu caí mesmo. — ele respondeu, rindo baixo. — Morri, não. Ainda não consegui.

Garwin piscou, incrédulo.

— Como... como é possível?

Vendeler abriu um meio sorriso.

— Essa parte é complicada. Mas é claro que vocês merecem ouvir.

Cailynm levou a mão à boca, os olhos marejados.

— Você voltou...

— Voltei. — respondeu ele, calmo. — E trouxe nossa casa comigo.

O riso nervoso do grupo se misturou à chuva fina que voltava a cair. Garwin deu um passo à frente e pousou a mão no ombro dele.

— Bom te ver de novo, irmão.

Vendeler assentiu.

— Então subam. — disse, apontando a rampa. — Vocês precisam ver o que fiz com ela.

Eles se entreolharam, ainda imóveis.

Thurstan quebrou o silêncio:

— Isso tá mesmo acontecendo...?

Cailynm respirou fundo.

— Se for um sonho, eu não quero acordar.

Garwin assentiu e, sem dizer mais nada, deu o primeiro passo em direção à rampa.

A rampa da Alghoryn se recolheu suavemente atrás deles. O interior respirava calor — luz dourada nas lâminas do piso, madeira encerada, runas fracas pulsando sob as paredes.

O ar cheirava a resina e metal limpo.

Vendeler caminhava à frente, as mãos cruzadas nas costas.

— Nada mal, né? — disse, com um sorriso leve. — Instalei propulsores independentes nas laterais e runas de estabilização angular. Agora ela mantém o curso mesmo sem vento.

Garwin tocou o painel de comando.

— E responde ao toque… isso nunca funcionou direito antes.

— Pois é, mas funciona no comando de voz também. A interface agora tem um autômato incorpóreo que interpreta as intenções do operador pelas falas. — respondeu Vendeler. — Tive ajuda de um velho mago no estaleiro. E um bom investimento.

As luzes da ponte piscavam em sequência.

O painel principal se moveu sozinho, ativando o modo de voo automático.

A Alghoryn começou a ganhar altitude, e a vista pela janela revelou o mar abrindo-se em prata.

Cailynm olhava em volta, maravilhada.

— Ela parece viva...

— De certo modo, está. — respondeu ele. — O sistema lê a corrente mágica do ambiente e ajusta as velas conforme o fluxo.

Thurstan observou as engrenagens girando.

— Então ela pensa?

— Pensa melhor do que muita gente que conheço. — riu Vendeler.

Eles cruzaram um corredor estreito, as luzes acendendo à medida que passavam. O brasão antigo da nave — o símbolo dourado em forma de asa dupla — brilhava limpo, protegido por uma fina camada de verniz mágico.

Arastine tocou o emblema, sorrindo.

— Você transformou ela.

— A gente só melhora o que ama. — respondeu Vendeler.

Na sala seguinte, ele parou diante de uma janela reforçada.

— Aqui era seu posto, lembra? — disse para Arastine.

Ela assentiu.

— Claro que lembro. A balista ficava bem aqui.

— Pois é. Agora tá otimizado — ele mostrou a nova estrutura: uma balista magnética de dupla cadência, ligada a uma mira automática de precisão. — Travamento por calor e descarga mágica direta.

Thurstan assobiou.

— Isso atravessa até aqueles cascos dos encouraçados do Reino do Dragão.

— Thurstan. Quem me vendeu disse que essas balistas de trilho atravessaram o casco de um aeroplano titã. — disse Vendeler, orgulhoso.

Arastine moveu o braço com cuidado, o ferimento latejando.

Vendeler notou.

— Você tá ferida.

— Nada demais. — respondeu ela.

— Mesmo assim. — disse ele, firme. — Vem comigo.

Eles seguiram para a enfermaria.

O espaço era pequeno, mas impecável: poções de cura nos muros e, no centro, um conjunto de braços metálicos flutuava suspenso.

— Viu? Um autômato curandeiro. — disse ele satisfeito. — Comprei usado. Lá em Jillar.

Vendeler encostou um botão.

As runas se acenderam em azul suave.

O construto girou o braço superior e pousou uma esfera de luz sobre o ferimento de Arastine. A pele se fechou devagar, o sangue sumindo sob o brilho.

Ela o encarou, surpresa.

— Como você conseguiu isso?

— Paguei caro. — respondeu ele, sorrindo. — Mas valeu a pena.

Cailynm passou a mão pela parede.

— É incrível a forma, o carinho que você colocou para reconstruir tudo.

Vendeler deu de ombros.

— A Alghoryn merecia uma segunda chance.

Garwin observava em silêncio. A alegria diminuía aos poucos, como se o ar se tornasse mais denso.

Ele respirou fundo.

— Vendeler… eu sei que tá tudo muito lindo e funcional. É uma pena que isso não seja real.

— E por que tá falando isso? — perguntou Vendeler, o rosto inalterado.

— Eu vi você morrer.

O som das velas diminuiu, deixando a nave deslizar em voo constante.

Vendeler não respondeu de imediato.

Apenas olhou para eles e fez sinal para seguirem.

— Venham. — disse, com voz calma. — Fiquei tão feliz de encontrar vocês que até esqueci de contar a história. Talvez assim possam perceber que isso não é um sonho ou algo do tipo, como vida após a morte.

Eles cruzaram o corredor. As portas se abriram à frente, revelando o dormitório. Vendeler parou à entrada, a luz das runas refletindo no olhar cansado.

***

O impacto o arrancou do ar. O corpo atingiu a água como um bloco, e o traje metálico o arrastou fundo demais, rápido demais.

Bolhas subiam em turbilhões. Destroços giravam em volta — pedaços de madeira, ferro e tecido em chamas.

O mar era um azul-escuro profundo, quase negro. Cada explosão acima o empurrava mais fundo.

O traje vibrava. As runas que deviam sustentá-lo piscavam fracas, sugando o resto da energia mágica.

Vendeler moveu os braços com esforço; o metal rangeu.

— Vamos… — murmurou, o som abafado dentro do capacete. — Só mais um impulso... uma fagulha!

Nada.

O peso constringia os gestos.

O ar dentro do traje rareava.

— Não posso dormir agora... — disse, a voz arrastada. — Não aqui.

A respiração virou um chiado curto.

— Alguém… vai me achar... — completou, e o som morreu antes da última palavra.

O traje metálico descia.

As luzes acima se afastavam, virando manchas distantes. Cada nova explosão tremia no escuro, iluminando pedaços de casco que afundavam ao lado dele.

— Se o ar acabar... tanto faz. — O som ecoou fraco, sem emoção. — Só não quero ser devorado primeiro.

Entre os destroços, uma claridade pulsou. Uma luz dourada, firme, diferente das outras. Vendeler inclinou o corpo, as funções mágicas do traje se apagando uma a uma.

— Mas o que é isso? — murmurou, a voz já sem fôlego.

A luz vinha de um corpo — uma mulher morta. Os cabelos flutuavam ao redor, presos em fios prateados. Nos braços dela, um bebê envolto numa aura dourada, pulsando em intervalos lentos.

Vendeler estendeu o braço. O traje travou, afundando com ele, incapaz de avançar.

— Vamos, anda... — sussurrou. — Só preciso de um passo.

O contato veio num lampejo. O escudo reagiu, expandindo-se por um instante. O toque reacendeu as runas.

O som do ar voltou num estalo.

Vendeler arfou — um sopro pesado, o ruído de um pulmão voltando a funcionar. O traje brilhou, retomando força.

— Minha energia arcana. Você... você a recuperou. — disse ele enquanto puxava o bebê e o guardava no compartimento das costas — uma cavidade blindada, selada por placas rúnicas, como uma mochila integrada ao torso do traje. — Você salvou minha vida.

A criança ficou protegida ali, envolta pelo campo mágico reativado.

— Aguenta firme, pequenina... — disse, a voz reverberando no metal. — A gente vai subir.

O traje respondeu.

As runas brilharam em sequência, impulsionando-o pra cima. Destroços e faíscas ficaram para trás, dissolvendo-se em azul.

O mar se abriu em claridade.

E antes que o som voltasse, o mundo virou luz.

***

— …e foi assim que cheguei até Mihandu. — concluiu Vendeler, empurrando a porta da cabine.

O ar lá dentro era quente e suave, dourado pela luz do cristal suspenso no teto. O som distante das velas misturava-se ao farfalhar discreto de mecanismos.

No canto, um pequeno berço metálico reluzia sob a janela. Um autômato cuidador movia-se em silêncio, ajustando a manta.

O grupo entrou devagar. Garwin parou ao lado de Vendeler.

— Conta desde o começo. — disse, sério. — Tudo.

Vendeler respirou fundo e assentiu.

— Depois da queda… eu só tinha o traje. — começou. — O condutor que carregava ainda estava intacto, então fui até uma vila costeira e terminei de extrair. Trabalhei um pouco lá usando minha magia, até comprar uma passagem de aeroplano e segui pra Jillar. Lá encontrei um mercador disposto a pagar bem.

Fez uma pausa, o olhar distante.

— Com o dinheiro, deixei o bebê aos cuidados de uma mulher local. Não podia trabalhar com uma criança nos braços.

Arastine o observava em silêncio, as mãos unidas. Thurstan cruzou os braços, a expressão tensa.

— E depois disso?

— Antes de tudo, eu tinha ouvido, pelo comunicador, que vocês iam levar a Alghoryn pro estaleiro em Mihandu. — continuou Vendeler. — Quando consegui juntar mais recursos, fui até lá. Encontrei a nave ainda com a proa destruída no ancoradouro e comprei de volta o que restava. Usei o traje pra explorar o fundo do mar, onde caíram as Puritânias e aquela nave de onde veio o bebê.

Garwin arqueou as sobrancelhas.

— Você mergulhou lá embaixo de novo?

— Mergulhei. — respondeu ele, com um sorriso cansado. — Extraí albastrógenos e um purgeno inteiro. Só isso já me deu dinheiro pra comprar tudo o que precisava. Usei pra reconstruir a Alghoryn — e deixá-la melhor do que nunca.

Cailynm olhou ao redor, passando os dedos pela moldura da porta.

— E o bebê?

— Quando terminei, voltei a Jillar pra buscá-la. Agora só faltava encontrar vocês. Mas tinha passado muito tempo, e vocês já tinham sumido do mapa. — disse Vendeler. — Até que ouvi numa estalagem sobre um grupo que tinha passado por ali comentando que ia para a Baía do Relâmpago. E lembrei que o Thurstan é filho de pirata. Aí eu soube pra onde ir.

Ele olhou para o berço e sorriu de leve.

— E cheguei na hora certa, parece.

O bebê dormia no berço, envolto na manta. O cabelo violeta reluzia com a luz quente, e a respiração era leve, quase inaudível.

Garwin se aproximou.

— Então é ela…

Vendeler assentiu.

— Mesmo não sendo deste mundo. É uma descendente dos féericos. São raros, podem viver milhares de anos… e com certeza ela vai nos ver morrer de velho ainda com a aparência de vinte anos.

O silêncio se espalhou.

Arastine desviou o olhar, comovida. Thurstan respirou fundo.

Garwin cruzou os braços.

— Então por que voltou, Vendeler? — perguntou em voz firme. — Você não devia nada pra gente.

Vendeler sustentou o olhar e respondeu, calmo:

— Porque vocês me trataram como família. Quando eu não era nada. E isso… eu não esqueço.

Cailynm deu um passo à frente, encarando o bebê.

Vendeler continuou:

— Eu pensei muito. Ela precisa de alguém… e não podia ser eu. Eu só consegui trazê-la até aqui porque imaginei que vocês dois fossem cuidar dela. Não tô pedindo nada. Só pensei em vocês. Por isso nem dei nome.

Thurstan e Arastine se entreolharam em silêncio. Cailynm estendeu os braços, pegou o bebê com cuidado. A criança se aninhou no colo dela, o corpo pequeno e quente.

Uma lágrima desceu pelo rosto de Cailynm.

Garwin pousou a mão no ombro de Vendeler.

— Você já sabe a resposta.

Eles se abraçaram. Nenhum dos dois disse mais nada.

Thurstan olhou para o bebê e perguntou, com voz leve:

— E qual vai ser o nome dela?

Vendeler sorriu.

— Não dei nenhum. Achei que vocês iriam querer escolher.

Cailynm olhou para a menina, a luz do pôr do sol acima das nuvens refletindo no rosto adormecido.

Ela sorriu.

— O nome dela será Shern.

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