Volume 2
Capítulo 19: Shern
O clarão dos destroços ainda pairava sobre o mar quando o som das velas de propulsão rompeu o silêncio.
Grave, profundo, ritmado — como o bater de um coração voltando à vida. A Alghoryn desceu das nuvens, limpa e intacta, o casco reluzindo sob a chuva que cessava.
— Não pode ser... — murmurou Thurstan. — Ela tá... inteira.
Garwin deu um passo à frente, a voz presa.
— Inteira e melhorada. Olha aquela proa.
Cailynm apertou o braço dele, o olhar fixo na luz que vinha de dentro.
— E quem... quem será que tá pilotando?
A rampa se abriu com suavidade perfeita — sem cabos, sem engrenagens, só o deslizar da magia.
Um sopro de luz escapou, tocando o convés molhado. O grupo recuou instintivamente.
— Isso é real? — perguntou Cailynm, baixo.
— Pode não ser... — respondeu Garwin, sem tirar os olhos da nave. — Quem sabe fomos atingidos e já morremos?
O primeiro movimento veio em silêncio — alguém saía da nave. Mas quando a sombra surgiu no topo da rampa, o ar se prendeu no peito de todos.
Arastine foi a primeira a reconhecer.
— Vendeler...? — a voz dela falhou, quebrando no meio.
O homem parou, olhou para eles e sorriu.
— Demorei um pouco, né?
— Não... — Thurstan balançou a cabeça. — Eu vi você cair! Eu vi!
— Pois é — disse Vendeler, descendo devagar. — E eu jurava que nunca mais ia ver vocês. Aliás, vocês são bem difíceis de achar.
Arastine correu antes de pensar. As botas bateram na madeira, e o som ecoou entre as paredes de metal.
Ela o abraçou com força, o corpo trêmulo.
— Eu achei que você tinha morrido... — disse, chorando. — Me disseram que você caiu no mar!
— Cair, eu caí mesmo. — ele respondeu, rindo baixo. — Morri, não. Ainda não consegui.
Garwin piscou, incrédulo.
— Como... como é possível?
Vendeler abriu um meio sorriso.
— Essa parte é complicada. Mas é claro que vocês merecem ouvir.
Cailynm levou a mão à boca, os olhos marejados.
— Você voltou...
— Voltei. — respondeu ele, calmo. — E trouxe nossa casa comigo.
O riso nervoso do grupo se misturou à chuva fina que voltava a cair. Garwin deu um passo à frente e pousou a mão no ombro dele.
— Bom te ver de novo, irmão.
Vendeler assentiu.
— Então subam. — disse, apontando a rampa. — Vocês precisam ver o que fiz com ela.
Eles se entreolharam, ainda imóveis.
Thurstan quebrou o silêncio:
— Isso tá mesmo acontecendo...?
Cailynm respirou fundo.
— Se for um sonho, eu não quero acordar.
Garwin assentiu e, sem dizer mais nada, deu o primeiro passo em direção à rampa.
A rampa da Alghoryn se recolheu suavemente atrás deles. O interior respirava calor — luz dourada nas lâminas do piso, madeira encerada, runas fracas pulsando sob as paredes.
O ar cheirava a resina e metal limpo.
Vendeler caminhava à frente, as mãos cruzadas nas costas.
— Nada mal, né? — disse, com um sorriso leve. — Instalei propulsores independentes nas laterais e runas de estabilização angular. Agora ela mantém o curso mesmo sem vento.
Garwin tocou o painel de comando.
— E responde ao toque… isso nunca funcionou direito antes.
— Pois é, mas funciona no comando de voz também. A interface agora tem um autômato incorpóreo que interpreta as intenções do operador pelas falas. — respondeu Vendeler. — Tive ajuda de um velho mago no estaleiro. E um bom investimento.
As luzes da ponte piscavam em sequência.
O painel principal se moveu sozinho, ativando o modo de voo automático.
A Alghoryn começou a ganhar altitude, e a vista pela janela revelou o mar abrindo-se em prata.
Cailynm olhava em volta, maravilhada.
— Ela parece viva...
— De certo modo, está. — respondeu ele. — O sistema lê a corrente mágica do ambiente e ajusta as velas conforme o fluxo.
Thurstan observou as engrenagens girando.
— Então ela pensa?
— Pensa melhor do que muita gente que conheço. — riu Vendeler.
Eles cruzaram um corredor estreito, as luzes acendendo à medida que passavam. O brasão antigo da nave — o símbolo dourado em forma de asa dupla — brilhava limpo, protegido por uma fina camada de verniz mágico.
Arastine tocou o emblema, sorrindo.
— Você transformou ela.
— A gente só melhora o que ama. — respondeu Vendeler.
Na sala seguinte, ele parou diante de uma janela reforçada.
— Aqui era seu posto, lembra? — disse para Arastine.
Ela assentiu.
— Claro que lembro. A balista ficava bem aqui.
— Pois é. Agora tá otimizado — ele mostrou a nova estrutura: uma balista magnética de dupla cadência, ligada a uma mira automática de precisão. — Travamento por calor e descarga mágica direta.
Thurstan assobiou.
— Isso atravessa até aqueles cascos dos encouraçados do Reino do Dragão.
— Thurstan. Quem me vendeu disse que essas balistas de trilho atravessaram o casco de um aeroplano titã. — disse Vendeler, orgulhoso.
Arastine moveu o braço com cuidado, o ferimento latejando.
Vendeler notou.
— Você tá ferida.
— Nada demais. — respondeu ela.
— Mesmo assim. — disse ele, firme. — Vem comigo.
Eles seguiram para a enfermaria.
O espaço era pequeno, mas impecável: poções de cura nos muros e, no centro, um conjunto de braços metálicos flutuava suspenso.
— Viu? Um autômato curandeiro. — disse ele satisfeito. — Comprei usado. Lá em Jillar.
Vendeler encostou um botão.
As runas se acenderam em azul suave.
O construto girou o braço superior e pousou uma esfera de luz sobre o ferimento de Arastine. A pele se fechou devagar, o sangue sumindo sob o brilho.
Ela o encarou, surpresa.
— Como você conseguiu isso?
— Paguei caro. — respondeu ele, sorrindo. — Mas valeu a pena.
Cailynm passou a mão pela parede.
— É incrível a forma, o carinho que você colocou para reconstruir tudo.
Vendeler deu de ombros.
— A Alghoryn merecia uma segunda chance.
Garwin observava em silêncio. A alegria diminuía aos poucos, como se o ar se tornasse mais denso.
Ele respirou fundo.
— Vendeler… eu sei que tá tudo muito lindo e funcional. É uma pena que isso não seja real.
— E por que tá falando isso? — perguntou Vendeler, o rosto inalterado.
— Eu vi você morrer.
O som das velas diminuiu, deixando a nave deslizar em voo constante.
Vendeler não respondeu de imediato.
Apenas olhou para eles e fez sinal para seguirem.
— Venham. — disse, com voz calma. — Fiquei tão feliz de encontrar vocês que até esqueci de contar a história. Talvez assim possam perceber que isso não é um sonho ou algo do tipo, como vida após a morte.
Eles cruzaram o corredor. As portas se abriram à frente, revelando o dormitório. Vendeler parou à entrada, a luz das runas refletindo no olhar cansado.
***
O impacto o arrancou do ar. O corpo atingiu a água como um bloco, e o traje metálico o arrastou fundo demais, rápido demais.
Bolhas subiam em turbilhões. Destroços giravam em volta — pedaços de madeira, ferro e tecido em chamas.
O mar era um azul-escuro profundo, quase negro. Cada explosão acima o empurrava mais fundo.
O traje vibrava. As runas que deviam sustentá-lo piscavam fracas, sugando o resto da energia mágica.
Vendeler moveu os braços com esforço; o metal rangeu.
— Vamos… — murmurou, o som abafado dentro do capacete. — Só mais um impulso... uma fagulha!
Nada.
O peso constringia os gestos.
O ar dentro do traje rareava.
— Não posso dormir agora... — disse, a voz arrastada. — Não aqui.
A respiração virou um chiado curto.
— Alguém… vai me achar... — completou, e o som morreu antes da última palavra.
O traje metálico descia.
As luzes acima se afastavam, virando manchas distantes. Cada nova explosão tremia no escuro, iluminando pedaços de casco que afundavam ao lado dele.
— Se o ar acabar... tanto faz. — O som ecoou fraco, sem emoção. — Só não quero ser devorado primeiro.
Entre os destroços, uma claridade pulsou. Uma luz dourada, firme, diferente das outras. Vendeler inclinou o corpo, as funções mágicas do traje se apagando uma a uma.
— Mas o que é isso? — murmurou, a voz já sem fôlego.
A luz vinha de um corpo — uma mulher morta. Os cabelos flutuavam ao redor, presos em fios prateados. Nos braços dela, um bebê envolto numa aura dourada, pulsando em intervalos lentos.
Vendeler estendeu o braço. O traje travou, afundando com ele, incapaz de avançar.
— Vamos, anda... — sussurrou. — Só preciso de um passo.
O contato veio num lampejo. O escudo reagiu, expandindo-se por um instante. O toque reacendeu as runas.
O som do ar voltou num estalo.
Vendeler arfou — um sopro pesado, o ruído de um pulmão voltando a funcionar. O traje brilhou, retomando força.
— Minha energia arcana. Você... você a recuperou. — disse ele enquanto puxava o bebê e o guardava no compartimento das costas — uma cavidade blindada, selada por placas rúnicas, como uma mochila integrada ao torso do traje. — Você salvou minha vida.
A criança ficou protegida ali, envolta pelo campo mágico reativado.
— Aguenta firme, pequenina... — disse, a voz reverberando no metal. — A gente vai subir.
O traje respondeu.
As runas brilharam em sequência, impulsionando-o pra cima. Destroços e faíscas ficaram para trás, dissolvendo-se em azul.
O mar se abriu em claridade.
E antes que o som voltasse, o mundo virou luz.
***
— …e foi assim que cheguei até Mihandu. — concluiu Vendeler, empurrando a porta da cabine.
O ar lá dentro era quente e suave, dourado pela luz do cristal suspenso no teto. O som distante das velas misturava-se ao farfalhar discreto de mecanismos.
No canto, um pequeno berço metálico reluzia sob a janela. Um autômato cuidador movia-se em silêncio, ajustando a manta.
O grupo entrou devagar. Garwin parou ao lado de Vendeler.
— Conta desde o começo. — disse, sério. — Tudo.
Vendeler respirou fundo e assentiu.
— Depois da queda… eu só tinha o traje. — começou. — O condutor que carregava ainda estava intacto, então fui até uma vila costeira e terminei de extrair. Trabalhei um pouco lá usando minha magia, até comprar uma passagem de aeroplano e segui pra Jillar. Lá encontrei um mercador disposto a pagar bem.
Fez uma pausa, o olhar distante.
— Com o dinheiro, deixei o bebê aos cuidados de uma mulher local. Não podia trabalhar com uma criança nos braços.
Arastine o observava em silêncio, as mãos unidas. Thurstan cruzou os braços, a expressão tensa.
— E depois disso?
— Antes de tudo, eu tinha ouvido, pelo comunicador, que vocês iam levar a Alghoryn pro estaleiro em Mihandu. — continuou Vendeler. — Quando consegui juntar mais recursos, fui até lá. Encontrei a nave ainda com a proa destruída no ancoradouro e comprei de volta o que restava. Usei o traje pra explorar o fundo do mar, onde caíram as Puritânias e aquela nave de onde veio o bebê.
Garwin arqueou as sobrancelhas.
— Você mergulhou lá embaixo de novo?
— Mergulhei. — respondeu ele, com um sorriso cansado. — Extraí albastrógenos e um purgeno inteiro. Só isso já me deu dinheiro pra comprar tudo o que precisava. Usei pra reconstruir a Alghoryn — e deixá-la melhor do que nunca.
Cailynm olhou ao redor, passando os dedos pela moldura da porta.
— E o bebê?
— Quando terminei, voltei a Jillar pra buscá-la. Agora só faltava encontrar vocês. Mas tinha passado muito tempo, e vocês já tinham sumido do mapa. — disse Vendeler. — Até que ouvi numa estalagem sobre um grupo que tinha passado por ali comentando que ia para a Baía do Relâmpago. E lembrei que o Thurstan é filho de pirata. Aí eu soube pra onde ir.
Ele olhou para o berço e sorriu de leve.
— E cheguei na hora certa, parece.
O bebê dormia no berço, envolto na manta. O cabelo violeta reluzia com a luz quente, e a respiração era leve, quase inaudível.
Garwin se aproximou.
— Então é ela…
Vendeler assentiu.
— Mesmo não sendo deste mundo. É uma descendente dos féericos. São raros, podem viver milhares de anos… e com certeza ela vai nos ver morrer de velho ainda com a aparência de vinte anos.
O silêncio se espalhou.
Arastine desviou o olhar, comovida. Thurstan respirou fundo.
Garwin cruzou os braços.
— Então por que voltou, Vendeler? — perguntou em voz firme. — Você não devia nada pra gente.
Vendeler sustentou o olhar e respondeu, calmo:
— Porque vocês me trataram como família. Quando eu não era nada. E isso… eu não esqueço.
Cailynm deu um passo à frente, encarando o bebê.
Vendeler continuou:
— Eu pensei muito. Ela precisa de alguém… e não podia ser eu. Eu só consegui trazê-la até aqui porque imaginei que vocês dois fossem cuidar dela. Não tô pedindo nada. Só pensei em vocês. Por isso nem dei nome.
Thurstan e Arastine se entreolharam em silêncio. Cailynm estendeu os braços, pegou o bebê com cuidado. A criança se aninhou no colo dela, o corpo pequeno e quente.
Uma lágrima desceu pelo rosto de Cailynm.
Garwin pousou a mão no ombro de Vendeler.
— Você já sabe a resposta.
Eles se abraçaram. Nenhum dos dois disse mais nada.
Thurstan olhou para o bebê e perguntou, com voz leve:
— E qual vai ser o nome dela?
Vendeler sorriu.
— Não dei nenhum. Achei que vocês iriam querer escolher.
Cailynm olhou para a menina, a luz do pôr do sol acima das nuvens refletindo no rosto adormecido.
Ela sorriu.
— O nome dela será Shern.
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