Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 18: Obliterado

O mar fervia em silêncio. A chuva caía em gotas largas, e o vento rodava em redemoinhos invisíveis. O barco deslizava devagar, sem rumo, entre relâmpagos que rasgavam o céu.

O convés tremia a cada trovão. O leme girava em falso, rangendo. Thurstan segurava a base de ferro com os dois braços, os músculos tensos.

Garwin apoiou o pé sobre a trave partida, os olhos fixos nas paredes tempestuosas — um horizonte que já não existia mais. Arastine prendia as cordas com força, tentando evitar que os mantimentos caíssem na água.

Cailynm se inclinava sobre a caçamba rachada. As vasilhas vibravam com o balanço, e os peixes-inseto se agitavam, emitindo lampejos breves.

— A gente tá indo pra onde? — perguntou ela.

— Lugar nenhum — respondeu Thurstan, sem olhar.

Garwin manteve o tom seco.

— Vamos ficar aqui por enquanto.

Um tiro ribombou distante. A explosão levantou um jato de água que despencou sobre o convés, encharcando todos. O impacto fez a estrutura ranger.

Dos escombros da casaria destruída, um ruído rompeu o som da chuva. O comunicador faiscou em azul. A voz de Korr surgiu entre chiados e relâmpagos:

— Podem se esconder. Eu ainda os vejo.

Garwin se virou, o rosto contorcido. Pisou no dispositivo até ele silenciar. Nenhum dos outros falou.

Outro disparo. O projétil, desta vez, atingiu a lateral, arrancando estilhaços e faíscas. Arastine se jogou para amarrar a corda que segurava, mas a água da caçamba vazava toda pelo buraco.

Thurstan escorregou, e Garwin o segurou pelo casaco antes que ele fosse jogado pela borda. O barco inclinou. A água invadia a caçamba.

— Tudo bem? — perguntou Garwin.

O garoto só acenou e se ajoelhou — a cabeça baixa, as mãos juntas. O som da oração se perdeu entre o vento.

— Você ainda acredita nisso? — perguntou Arastine, a voz rouca.

— Deixa ele — disse Cailynm. — Pelo menos ele ainda tem fé. É uma forma de aliviar a dor.

O trovão respondeu logo depois, tão perto que fez as cordas vibrarem.

A chuva engrossou. O ar começou a cheirar a ferro. As correntes na caçamba brilharam por instantes, refletindo o azul dos relâmpagos.

Garwin ergueu o rosto. Raios atravessavam a névoa em ângulos, revelando o casco quebrado, as vasilhas rolando, o grupo ensopado e imóvel.

Outro clarão. O raio atingiu o mar tão perto que a vibração fez o convés dobrar. As luzes das carapaças brilharam com força.

Um novo lampejo. Depois, mais um.

As gaiolas começaram a brilhar em uníssono — o azul e o lilás se misturando como fogo sob a água. Os peixes-inseto pulsavam num mesmo ritmo, e o reflexo fosforescente se espalhou pelo convés.

O barco inteiro acendeu em luz.

O rosto de cada um foi tomado por aquela luz — bela, fria, terrível. As sombras dançavam sobre o metal e o sangue seco das tábuas. Arastine foi a primeira a perceber.

— Garwin... — disse ela, baixo, os olhos fixos na caçamba.

Thurstan seguiu o olhar.

— Que isso...? — perguntou, dando um passo à frente.

Garwin não respondeu. O brilho aumentava, atravessando a chuva. Cada relâmpago tornava o azul mais vivo. O mar começou a borbulhar devagar, refletindo a cor do convés.

— Eles estão nos denunciando — disse Garwin, a voz tensa.

— O quê? — perguntou Cailynm.

— Os peixes. A luz... eles estão nos entregando.

Thurstan correu até a caçamba, tentando cobrir as gaiolas com a lona. A luz atravessou o tecido, viva como fogo sob um véu. Arastine segurou junto, o vento chicoteando o rosto dos dois.

— Não adianta! — gritou ela.

Cailynm deu um passo para trás.

— Amor! Lá em cima! — murmurou, o olhar subindo devagar.

Um estampido seco cortou o ar.

O primeiro tiro passou rente à borda, acertando uma gaiola em pleno ar. Estilhaços e faíscas caíram sobre o convés; o cheiro de metal queimado se misturou à chuva.

O som do canhão ecoou.

Um trovão respondeu logo depois.

O clarão iluminou o céu.

E, por um instante, o aeroplano estava lá — enorme, suspenso nas nuvens, cercado por milhares de peixes luminosos.

— Droga! — gritou Thurstan, olhando para cima. — Agora ele tá nos enxergando!

O canhão rugiu acima das nuvens.

O disparo destruiu o resto da casaria — madeira, ferro e fogo caíram sobre o convés.

As chamas se espalharam em linhas curtas, cortadas pela chuva que batia em rajadas.

— Alguém se feriu? — perguntou Garwin, desviando de um destroço. O ar cheirava a pólvora. O barco queimava em chamas, apesar da chuva.

Entre elas, algo deslizou pelo piso molhado — um machado de emergência, o cabo lascado.

— Machuquei o braço — disse Arastine, com uma lasca de madeira cravada no antebraço direito. — Droga... a minha melhor mão.

Cailynm viu o machado parar diante dos próprios pés.

— O quê...? — murmurou, abaixando-se.

Pegou-o antes que o machado escorresse de suas mãos. O metal frio pesava na mão, o punho escorregando.

— Os peixes, Cailynm! — gritou Thurstan, pegando um balde da caçamba e jogando sobre o fogo. — Eles tão nos entregando!

— E o fogo também! — disse Arastine, pegando outro balde.

— Tudo bem, então. — Cailynm ergueu o machado e atacou a corrente mais próxima.

O golpe ecoou surdo na chuva.

De novo.

E de novo.

O elo nem se moveu.

— Vamos, quebra! — gritou, os dentes cerrados. — Anda, quebra!

O brilho azul se refletia nas gotas do cabelo molhado.

Garwin se virou, o rosto em choque.

— Amor, o que você tá fazendo?!

— Salvando a gente! — gritou ela. — Esses malditos peixes tão nos entregando!

O som do vento abafou parte da frase.

Garwin voltou sua atenção para o fogo, que subia pelos restos da casaria, onde Arastine tentava apagar com um balde.

— Me dá isso! — ordenou. — Eu cuido daqui! Vai ajudar ela!

Arastine hesitou.

— Mas o fogo—

— Vai! — rugiu Garwin, e o trovão cobriu o fim da frase.

Ela largou o balde e correu até Cailynm.

A outra ainda golpeava, os braços cansados, o machado batendo em falso.

— Me dá isso — disse Arastine, a voz firme, molhada de chuva.

— Tudo bem, Arastine. Eu consigo! — respondeu Cailynm, quase chorando.

— Eu sei, Cailynm. Agora me dá! — repetiu, mais dura.

Cailynm cedeu.

Arastine tomou o machado, mirou, respirou fundo — e desceu o golpe.

O som foi seco, limpo.

A corrente se partiu num estalo.

A gaiola subiu de repente, o peixe dentro vibrando em azul, e um rastro de luz espiralou até sumir na chuva.

Garwin se virou para o estalo da corrente.

— Funcionou! — gritou, a voz rasgada pelo vento. — Continua, rápido!

Mas o ar vibrou com outro rugido.

O próximo disparo atingiu a proa — madeira voou, e o impacto sacudiu o barco, jogando Thurstan no mar.

— Thurstan! — berrou Cailynm, o corpo indo até a borda.

— Fica aí! — gritou Garwin, tentando alcançar uma corda pra ela. — Cailynm, não tira os olhos dele!

Ela assentiu sem desviar.

— Thurstan! Segura a corda!

Garwin pegou outro machado entre os destroços. O cabo estava rachado, mas firme o bastante. Sem pensar, ele atacou o outro lado.

A lâmina acertou o ferro — uma, duas vezes — até que o elo se rompeu.

Outra gaiola ascendeu, cuspindo luz, e o convés se encheu de reflexos azuis. O mar pareceu respirar junto com eles.

— Garwin! — gritou Arastine, cortando mais duas correntes. — Se a gente soltar esses peixes, nunca mais vamos recuperar nosso dinheiro!

— Não importa! Libera tudo! — respondeu ele. — Agora!

Cailynm recolheu a corda e a jogou mais uma vez.

— Segura! Thurstan, segura!

Um braço surgiu entre as ondas.

Thurstan agarrou a corda.

— Eu tô aqui! — tossiu. — Puxa!

— Segura firme! — gritou Garwin, enquanto deixava o machado e ajudava Cailynm a puxar. — Vai, juntos!

Outro tiro passou rente, explodindo na água, próximo à lateral do barco. A onda os cobriu — água, sal e fumaça.

Eles tombaram, mas não soltaram a corda.

Thurstan subiu, ofegante, tossindo.

Garwin e Cailynm o seguraram pela gola, puxando-o para o convés. O mar agora estava coberto de reflexos azuis.

Cailynm caiu de joelhos, o garoto ainda nos braços.

— Te salvamos — disse ela, a voz entre o choro e o alívio.

Garwin ergueu o rosto enquanto se aproximava de Arastine. Os peixes subiam devagar, como uma aurora viva em meio à chuva.

— Antes eles do que a gente — disse baixo, colocando a mão no ombro dela.

Ninguém respondeu.

As luzes se afastaram, até que o azul se dissolveu na tempestade.

O convés escureceu de novo.

O som dos canhões cessou, deixando apenas o respirar pesado do grupo — e o trovão distante, rodando no céu.

— Vamos continuar na escuridão enquanto pudermos — disse Garwin, olhando para o escuro das nuvens. — Depois a gente dá um jeito.

Outro disparo. A onda que se formou fez o barco se mover.

A chuva cessou por um instante, como se o mundo tivesse prendido a respiração.

O vento parou.

O barco, antes sacudido, agora flutuava num mar espelhado — liso, branco, frio. A água refletia as nuvens distantes, que formavam um anel ao redor do vazio.

— Acho que não era o nosso dia de sorte mesmo — disse Thurstan, a voz rouca.

Garwin olhou pra cima.

— Sim. Fizemos de tudo, mas no fim não adiantou. É só uma questão de tempo até ele achar a gente.

O grupo estava espalhado pelo convés, as roupas coladas ao corpo, o sal ardendo nas feridas. Cailynm começou a tremer de frio, segurando a corda como se ainda fosse útil. Arastine respirava com dificuldade, os olhos fixos no céu que clareava. O sangue ainda escorria do braço.

A luz filtrada pelas nuvens era branca, quase metálica. Nenhum som além do pingar da água pelas frestas. Por um instante, parecia que o resto do mundo tinha desaparecido.

Então a sombra passou.

Lenta. Imensa.

O aeroplano cruzou o alto das nuvens, as velas negras abertas como asas de uma criatura antiga. Não havia ruído — só o ranger do metal e o bater pesado das velas contra o vento.

— Agora sim — disse Arastine, o machado ainda em mãos. — Poupem energia. Eles podem querer nos sequestrar pra algo pior do que a morte.

As comportas laterais se abriram. Engrenagens giraram, cuspindo vapor. As torres de canhão se moveram em uníssono, apontando pra baixo.

Garwin segurou o leme. Cailynm o abraçou, como se fosse a última vez. Os dedos escorriam de água.

— Fiquem parados — murmurou. — Se eles atirarem, a gente salta na água.

Ninguém respondeu.

Ele fechou os olhos.

O som das torres continuou girando.

E o silêncio cedeu ao ronco das armas que se alinhavam.

Garwin ergueu o rosto.

— Ele vai atirar — murmurou.

Thurstan engoliu seco.

— Então vai ser assim que acaba. Me desculpa por tudo, Garwin.

— Você não teve culpa de nada.

Cailynm tentou falar, mas a voz se perdeu no ar.

— A gente devia... — Ela não terminou.

Arastine respondeu por ela, firme, o olhar preso no alto.

— Não se mexe. Fica mais difícil pra eles mirarem.

Quando os canhões terminaram de se alinhar, um ponto escuro cruzou as nuvens. Rápido demais pra ser uma ave, grande demais pra ser um fragmento.

— O que é aquilo? — perguntou Thurstan, apertando os olhos.

Garwin manteve o olhar tenso.

— Não...

A sombra desceu — reta, silenciosa.

O impacto veio antes do som.

O aeroplano inimigo se partiu em dois, rasgado por um casco mais denso e intacto. O aço se abriu em sequência, os canhões voaram junto com corpos, e o fogo brotou pelas frestas. As explosões vieram logo depois, em ondas que sacudiram o mar.

Thurstan deu um passo à frente, as mãos erguidas pra proteger o rosto.

— Eu não acredito que seja ela... — murmurou.

Arastine levantou o braço, o clarão refletido nos olhos.

— Como? Isso... isso não é possível!

Cailynm recuou, o coração disparado.

— Quem... quem fez isso?

O mar respondeu com ondas que ergueram o barco. Fragmentos em chamas caíram na água, e o som dos estilhaços se perdeu na chuva.

Garwin apontou.

— Olhem!

Do alto, entre fumaça e vapor, o aeroplano que atravessara o inferno surgiu intacto. A proa de metal negro refletiu o clarão distante, e as velas de direção e propulsão se abriram devagar, como asas voltando à vida.

Arastine deu um passo à frente, sem fôlego.

— Não tem como...

Thurstan ergueu o rosto, o brilho do raio cortando o olhar.

— É ela... É ela!

Cailynm agarrou a borda do convés, os lábios entreabertos.

— A Alghoryn...

O trovão cobriu o som da voz dela, mas o nome permaneceu no ar.

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