Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 9: Gás de Trovão

O casebre ficou em silêncio. Do lado de fora, o porto seguia barulhento — marteladas, risadas, passos pesados sobre madeira molhada — mas ali dentro o ar parecia mais fechado.

Cailynm foi a primeira a reagir. Arqueou a sobrancelha, inclinando levemente a cabeça para Thurstan. O gesto bastava para mostrar a dúvida.

— Repete devagar, garoto… — disse Garwin, a voz carregada de ironia. — Acho que não entendi.

Thurstan abriu a boca, fechou em seguida e endireitou as costas. O sorriso que tentou sustentar não se firmou.

Arastine, encostada na parede, observava com os braços cruzados.

— Vai, explica direito.

O loiro ajeitou o colarinho amarrotado, mexeu nas próprias mãos, respirou fundo.

— Gás de trovão… — repetiu Cailynm, baixo, como quem testava o som das palavras. — Nunca ouvi falar disso.

Garwin manteve-se sentado na beira da cama, a marmita apoiada no joelho. O olhar fixo não desviava de Thurstan.

O silêncio se estendeu. O fogareiro soltava um fio de fumaça, o cheiro de caldo se espalhava pelo espaço.

— Então vou explicar.

Thurstan ergueu o queixo, e se endireitou na beira da cama, apoiando as mãos nos joelhos. O loiro respirou fundo, como se precisasse organizar as ideias, mas a pressa já estava no brilho dos olhos.

— Tá, vamos lá — começou tentando soar didático. — Existe uma criatura… um tipo de peixe, mas que também tem asas finas, quase como um inseto. Ela vive só na Baía do Relâmpago, na verdade dentro daquelas tempestades sem fim. Esse bicho… ele solta uma substância na água.

Ele gesticulou com as mãos, como se segurasse algo invisível.

— Espera aí... — Cailynm interrompeu. — Existe coisa do tipo por lá?

— Eu falo com muitos navegadores e nunca ouvi falar disso. — disse Garwin. — Nem mesmo naquele antro que é a Baía do Relâmpago.

— Ele tá falando de um portal que tem lá perto, que dá para uma zona tempestuosa. — completou Arastine.

— Zona tempestuosa? Que tipo de porcaria é isso?

— Tudo bem. — disse Cailynm. — Vamos deixar o Thurstan explicar primeiro.

— Esse peixe-inseto faz a água ao redor ficar azulada, de um jeito que não é natural. É esse resíduo que chamam de gás de trovão.

Garwin ergueu o queixo, cético.

— E quem garante que isso presta?

O loiro piscou, já pronto para rebater, mas Cailynm ergueu a mão devagar, sem erguer a voz:

— Garwin. Deixa ele terminar.

Garwin recostou um pouco, mas o peso no olhar continuou.

Thurstan retomou, agora mais rápido, atropelando palavras:

— Essa água, quando coletada e guardada em candeias, funciona como repelente. Monstros marinhos… aqueles que impedem os navios de navegar no mar… não chegam perto. É como se o cheiro, ou sei lá o quê, afastasse eles. — Ele deu uma risada nervosa. — Navio com esse gás no porão atravessa águas infestadas sem levar nem um arranhão no casco.

Ele se inclinou à frente, os braços abertos, quase pedindo que acreditassem.

Garwin franziu o cenho.

— Parece história de taverna.

— Não é! — o loiro rebateu de pronto, a voz um pouco alta demais. — Eu… eu vi relatos, mapas. Meu pai…

A pausa o entregou. Arastine cruzou os braços, olhando firme.

— O que ele quis dizer é que o pai dele contou tudo isso. — cortou, sem rodeios. — E que a fonte é confiável o bastante para não ser só boato.

Thurstan suspirou, mas assentiu.

— É. Foi com ele. Ele conhece gente que já tá nesse ramo.

Cailynm inclinou a cabeça.

— Se isso vem de outro mundo… o que acontece se o portal fechar?

O loiro abriu a boca, mas a resposta não veio de imediato. Ele coçou a nuca, sem jeito.

— Bom… aí complica. Mas o nome do lugar não é Baía do Relâmpago à toa. Já existe aquele portal há anos. Se ele ainda não fechou, ninguém sabe quando vai fechar.

Ela não recuou.

— E quem compra esse gás? Como ter certeza que ele vai chegar até aqui sem perder o efeito? E quem garante que mesmo que o barco não seja atacado por monstros ainda não vá ser atacado por gente?

Thurstan tentou juntar as respostas todas de uma vez, gesticulando demais.

— Tem comerciantes já pagando, famílias ricas de olho nisso, porque os mares ficam seguros, imagine quantas rotas podem ser criadas com isso… e claro que ainda há riscos, mas o produto vale ouro…

Arastine interrompeu, seca:

— O que ele quis dizer é que o gás é valioso justamente porque ninguém ainda tem grandes conhecimentos desse meio. Mas, se a gente for primeiro, por conta da raridade do produto, podemos fazer um bom dinheiro.

Ela se endireitou, o olhar firme sobre Garwin e Cailynm.

— Se esse repelente realmente funcionar, é uma oportunidade de lucros. Arriscada, sim. Mas real.

O silêncio voltou por um instante. O cheiro do caldo de peixe ainda pairava, abafado no casebre. Do lado de fora, o eco do porto se misturava ao peso da explicação.

Thurstan se inclinou para a frente, cotovelos nos joelhos, como se prestes a abrir um mapa invisível sobre o chão. A empolgação voltava ao tom da voz, apesar do nervosismo.

— Pensa comigo. — disse, os olhos acesos. — Se esse gás repele monstros, qualquer navio pode cruzar o mar em segurança. Rotas que hoje são impossíveis se abrem de repente. O comércio ia mudar completamente, ia ter gente viajando sem medo.

As palavras saíam rápidas, mas ele se esforçava para articular, como se fosse uma apresentação ensaiada.

— Mas os aeroplanos já permitem isso de forma mais rápida e segura, não? — disse Garwin.

— É, mas já tem famílias ricas até em Jillar que só falam nisso. — completou Thurstan, a mão se movendo como quem segura moedas. — Já tem mercadores juntando ouro, esperando alguém que consiga trazer esse negócio em grande quantidade. Eu ouvi falar de gente comprando barcos só pra se arriscar na Baía do Relâmpago.

Ele parou um instante, procurando os olhos dos outros.

Garwin permanecia sentado na beira da cama, garfo suspenso, sem levar à boca. Os ombros pesados e a mão imóvel falavam por si.

Cailynm ajeitou o pano no colo, as sobrancelhas levemente franzidas.

— Tudo bem, mas temos um problema: se o negócio é tão bom, por que ninguém explora? E se ninguém explora, como convencer navegadores a comprar? — murmurou, baixa, mas o suficiente para ecoar no espaço abafado do casebre.

Thurstan abriu a boca, rápido demais:

— Funciona! Eu já disse…

Arastine ergueu a mão, cortando a pressa dele. A voz saiu seca, clara:

— O que ele quer dizer é que a utilidade se prova por si só. Se a gente sair agora, juntar, e ninguém comprar, em algum momento isso vai se popularizar. Então teremos bastante gás guardado. Não será um investimento perdido.

Thurstan voltou a falar, o corpo se inclinando para frente:

— É! E quem chegar primeiro controla esse mercado.

Arastine cruzou os braços, firme, os olhos sobre Garwin e Cailynm.

— Sim. É um ramo pioneiro. Perigoso, instável, mas com potencial para mudar vidas. Se ficarmos de fora, vamos assistir outros ficarem ricos no nosso lugar.

O silêncio voltou. Do lado de fora, cordas guincharam, madeira rangeu nos trapiches, vozes distantes discutiram preços.

Garwin inspirou fundo. O garfo repousou sobre a tigela, ainda cheio. O olhar dele desceu para as rachaduras da madeira do chão.

Cailynm ergueu os olhos para Thurstan:

— A Melinda me contou uma história que o marido dela ouviu de um navegador no porto. Rumores de piratas atacando em Mihandu. — a voz firme, mas baixa. — Ninguém entende como eles chegam lá e voltam vivos.

Garwin completou sem levantar o rosto:

— Todo mundo no porto fala disso. Dizem que atravessam monstros como se nada houvesse no mar. — O ar saiu pesado dos pulmões. — Se tiver algum fundo de verdade… talvez não seja só história de taverna.

Thurstan se mexeu no lugar, inquieto. Arastine manteve a firmeza, sustentando as palavras no ar para que não desabassem.

— Se esse gás já está sendo usado por piratas, então o valor dele é ainda maior. Prova, mesmo que indiretamente, que funciona. A diferença é que eles usam para saquear. Nós podemos usar para construir.

O olhar dela percorreu um a um, fixando-se em Garwin e Cailynm no fim.

O silêncio voltou mais denso. O cheiro do caldo de peixe ainda pairava no ar, misturado ao rumor do cais. As paredes estreitas pareciam ceder ao peso do assunto.

Cailynm alisou o pano no colo. Garwin permaneceu imóvel, a mão fechada sobre o joelho.

— Então… com base nisso tudo que você falou, creio que essa ideia é do seu pai, certo?

O loiro piscou, surpreso pela pergunta direta. Endireitou-se devagar, passando a mão na nuca.

— É… eu fui ver meu pai. — disse, com uma risada curta, quase sem humor. — Depois de tanto tempo.

As palavras vinham meio presas, mas logo ganharam corpo, como se ele não conseguisse segurar a lembrança.

— Foi estranho. Ele tá com a base de operações lá na Baía do Relâmpago. Custei a descobrir. — Thurstan ergueu os olhos, mas não encontrou ninguém, encarando só o espaço. — A gente mal falou de nós dois. Mas ele comentou desse negócio, mostrou mapas rabiscados, falou de um amigo que já tá investindo nisso. Disse que era o futuro.

Ele riu de novo, sem graça, e apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Se não fosse ele, eu nem teria ouvido falar.

Arastine manteve o silêncio, só ajeitou os braços cruzados como se confirmasse a fala dele sem precisar de palavra.

Garwin ficou imóvel, o maxilar travado. A mão que descansava sobre o joelho apertou contra o tecido da calça, deixando o punho marcado.

— Eu entendo o seu ponto, Thurstan. Mas seu pai é um pirata. Quem garante que ele não quer roubar a gente? Roubar você?

Cailynm o olhou de lado, como quem lia o gesto, e falou baixo:

— Garwin…

Ele balançou a cabeça, a voz ainda pesada:

— Eu não quero magoar você com isso, Thurstan. Você sabe bem da relação que eu tive com o meu pai. E do quanto o envergonhei… quando perdi a Alghoryn.

O silêncio pareceu prender a respiração no espaço estreito.

— É, mas se tudo der certo, dá pra reconstruir uma Alghoryn do zero. — disse Thurstan.

Garwin bateu com o garfo na beira da tigela. A mão permaneceu ali por um instante, firme, antes que a voz saísse:

— Pra fazer isso, temos que ver quanto cada um ainda tem do dinheiro do penhor da Alghoryn.

O silêncio se instalou de imediato. Cailynm ajeitou o pano no colo, desviando os olhos.

— Eu guardei a minha parte, você sabe… mas não acredito que seja muito para o tamanho da tarefa.

Garwin assentiu, sem surpresa.

— Eu gastei mais foi com a viagem. Mas ainda tenho alguma coisa guardada.

Arastine endireitou-se, cruzando e descruzando os braços.

— Eu gastei com equipamento quando trabalhei como aventureira: armadura leve, espada, esse colar. Fiz algum dinheiro também. Até mais do que vocês, pelo visto.

Thurstan se apressou, gesticulando com energia.

— Então já temos uma base! O barco pode ser nosso, se a gente não perder tempo.

Garwin o encarou, o peso no olhar substituindo qualquer pressa.

— E quanto tempo faz que você prometeu isso com o tal amigo do seu pai?

Thurstan hesitou. O brilho empolgado dos olhos vacilou. Ele não respondeu.

— Ele já me achou faz um tempo. — disse Arastine. — Some isso com o tempo que ele demorou procurando...

Garwin inclinou-se para trás, a voz mais seca:

— É o mesmo que eu tava pensando. Talvez já nem exista mais barco nenhum.

Cailynm ergueu os olhos, o cenho contraído, a fala firme mesmo sem elevar a voz:

— E mesmo que exista… vocês sabem navegar na água? Eu não sei. Isso pode acabar sendo muito arriscado.

Thurstan se endireitou, tentando rebater. A voz subiu sem que ele controlasse:

— Mas se a gente demorar, alguém compra antes!

Arastine cortou, firme, a clareza substituindo a pressa dele:

— Escuta. Nós dois poderíamos arriscar e comprar, pagar depois. Mas não quisemos dever nada a ninguém. Com vocês, podemos dividir o risco, entrar de forma mais segura. Sem depender de piratas. Sem contratar escória. Só nós.

O casebre pareceu menor de repente. O cheiro do caldo de peixe ainda pairava no ar, abafado, enquanto os sons do porto chegavam como um eco distante.

Garwin permaneceu imóvel, o olhar preso em Cailynm. O gesto era silencioso, mas carregava uma pergunta.

Ela o encarou de volta, breve aceno de cabeça, como quem reconhece sem precisar de palavra.

O silêncio se estendeu. Até que Cailynm quebrou:

— Eu já sei o que você tá pensando, Garwin.

Os olhos dela passaram para Thurstan e Arastine. Nenhum som veio dos dois.

A fala saiu clara, sem urgência:

— Nós já decidimos.

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