Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 10: A Prova do Capitão

Cailynm ajeitou o pano no colo, os olhos firmes sobre Thurstan e Arastine. A fala saiu limpa, sem rodeios:

— Nós aceitamos.

O silêncio que seguiu foi breve, mas cheio. Thurstan piscou, como se precisasse de um instante para acreditar no que ouvira, e então se inclinou para frente, quase caindo da beira da cama. Um riso escapou alto, a mão batendo na coxa.

— Eu sabia! Eu sabia que vocês iam topar!

Garwin não acompanhou a explosão. Limitou-se a inclinar a cabeça, assentindo devagar. Os ombros ainda pesavam, mas o gesto bastou.

— Era isso que você estava pensando, Garwin? — perguntou Cailynm, sem desviar os olhos dele.

Ele respirou fundo e respondeu, simples:

— Era.

Thurstan ergueu os braços como se brindasse sozinho, girando o olhar de um para outro, procurando cumplicidade. O brilho nos olhos era de menino, mas a voz já carregava a pressa de adulto:

— Então pronto! Isso é o começo. A gente vai mudar de vida, vocês vão ver!

Arastine apenas arqueou o canto dos lábios. Um sorriso pequeno, quase invisível, mas suficiente para marcar presença.

O peso da cena anterior se dissolveu aos poucos. O cheiro do caldo de peixe ainda impregnava o casebre, mas agora se misturava ao ritmo novo das vozes e ao rumor do porto lá fora. As cordas que guinchavam, a madeira que rangia, as vozes que discutiam valores — tudo parecia anunciar a iminência da partida.

Thurstan levantou-se de súbito, como se não coubesse mais na cadeira. Bateu palmas uma vez, impaciente.

— Certo, não temos tempo a perder. Cailynm, Arastine… vocês duas cuidam das coisas aqui, arrumam o que for preciso pra viagem. — Depois voltou-se para Garwin, o dedo já apontado como um convite. — Você vem comigo. Preciso te mostrar uma coisa.

Garwin ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

— E que coisa seria essa?

O loiro abriu um sorriso largo, cheio de segredo.

— Uma surpresa.

Sem esperar resposta, já caminhava para a porta, o corpo todo pedindo pressa. Garwin lançou um último olhar a Cailynm; ela respondeu com um leve aceno, sem palavra alguma, como quem dizia para ele ir.

— Vamos, Garwin. Prometo que você não vai se arrepender.

Garwin soltou um suspiro pesado, empurrou-se da cadeira e caminhou até ele. O contraste entre a pressa do loiro e a firmeza contida do outro se estampava em cada passo.

Quando a porta se fechou atrás dos dois, restou apenas o silêncio no casebre. Arastine já recolhia as tigelas, prática, enquanto Cailynm alisava o pano no colo mais uma vez, os olhos fixos na madeira da mesa.

O bar estava mais vazio do que de costume, cheirando a madeira úmida e bebida derramada. Encostadas num canto, repousavam as duas libélulas autômatas, metálicas e imponentes.

Thurstan abriu um sorriso largo, quase teatral.

— Essa aqui é a minha, branca com laranja. — bateu de leve na carcaça. — Mais leve, mais rápida. — Virou-se para a outra, mais sombria. — Já a da Arastine… preta com vermelho. Essa sim, nasceu pra intimidar.

Garwin observou em silêncio por um instante, o olhar correndo pelos detalhes: corpo alongado, placas metálicas lembrando o abdômen de um inseto, olhos de cristal facetado refletindo a luz da taverna, quatro asas translúcidas dobradas rentes ao corpo.

— São bonitas. — disse, enfim. — E parecem resistentes.

O loiro ajeitou os cabelos para trás, os olhos brilhando.

— Vou te mostrar como funcionam.

Ajoelhou-se ao lado da própria moto e bateu na lateral.

— Aqui dentro tem um cristal de Etherdoorium. Ele gera a energia. Diferente dos foles e engrenagens normais, esse cristal alimenta direto a hélice mágica nas costas. E as asas, é claro.

Girou uma válvula circular, e o som baixo de ar se misturou ao zumbido crescente das asas.

— Esse acelerador aqui controla os dutos. — mostrou o punho no guidão. — Quanto mais abre, mais energia passa. Isso vai pras asas e pro sistema de flutuação. Sobe até um metro e meio do chão, nada além disso. Mas corre tão rápido quanto um cavalo.

Garwin se inclinou levemente, avaliando.

— Então não serve pra atravessar muralhas ou voar longe. É mais como… correr rente ao chão.

— Isso! — Thurstan apontou, animado. — E atravessa água também. Mas só meia milha. Passou disso, cai. Não dá pra confundir com navio.

— Meio cavalo-marinho, meio inseto. — comentou Garwin, sério, mas com um brilho contido nos olhos.

O loiro riu, levantando-se.

— Tem outra coisa: pode saltar de qualquer altura. A queda sempre é suavizada.

Garwin cruzou os braços, avaliando de novo.

— Você aprendeu bastante sobre elas. — disse, em tom grave. — Deve ter pesquisado muito antes de comprar.

— Claro! — Thurstan inflou o peito. — Mas a da Arastine ainda é melhor, mesmo sendo igual. Deve ter alguma coisa, uma magia, não sei, talvez no cristal dela, só pode.

Garwin ergueu uma sobrancelha, mas não comentou. Montou na garupa da branca e laranja, deixando que o garoto conduzisse. A libélula deslizou para fora do bar, atravessando a rua poeirenta até alcançar a margem de um rio largo que cortava o deserto.

O cenário se abriu diante deles: dunas ondulando sob o sol, vento seco chicoteando, a água brilhando como vidro líquido em contraste com a areia.

— Segura firme. — avisou Thurstan, girando o acelerador.

A montaria de metal avançou com velocidade, asas vibrando em zumbido metálico. Garwin manteve-se firme, o corpo acompanhando cada sacolejo. O garoto, animado, arriscou uma curva brusca, o construto deslizando rente à água.

Depois de um tempo, parou e virou-se.

— Quer tentar?

Garwin desceu com calma, ajeitou as mãos no guidão e ligou o cristal. Fingiu desequilíbrio, deixando a frente oscilar.

— Mais devagar, senão vai tombar. — alertou Thurstan, a voz aflita.

Mas então, sem aviso, Garwin inclinou o corpo e acelerou. A libélula disparou pela beira do rio, contornando dunas como se já conhecesse o terreno. Fez uma curva fechada sobre a água, voltou ao seco e freou com precisão diante do loiro.

Thurstan ficou boquiaberto.

— Você… você já sabia!

Garwin desmontou, sério.

— Não. Só aprendi rápido.

O silêncio se instalou, quebrado apenas pelo vento no deserto. Thurstan mordeu o lábio, mas o sorriso não cedeu. Garwin passou a mão pela lateral daquele construto, avaliando o metal.

— Isso vai servir. — concluiu, por fim.

Passaram a tarde no deserto, à beira do rio largo que cortava as dunas como uma lâmina azul. A libélula autômata rodava de um lado a outro, levantando areia e água conforme deslizava. Thurstan parecia um garoto em feira, rindo cada vez que arriscava uma curva fechada ou um salto curto; Garwin, ao contrário, mantinha a seriedade, os olhos atentos em cada detalhe do construto.

— E se quebrar uma asa? — perguntou Garwin, enquanto desmontava depois de mais uma volta.

— Não quebra fácil. — respondeu Thurstan, um tanto ofendido. — São placas tratadas com Albastrógeno, encantadas com salto e queda suave. Se lascar, dá pra trocar. Mas custa caro.

Garwin passou a mão pelo metal, avaliando o peso.

— E quanto dura esse cristal?

— Cara, é Etherdoorium. Dura pra sempre. — o loiro ajeitou os cabelos, ansioso para impressionar. — Só não pode sobrecarregar. Se puxar energia demais, esquenta, racha… e aí já era.

Garwin apenas assentiu, atento à explicação.

Voltaram pelo deserto até o porto. Quando chegaram à margem, o céu já se tingia de laranja. Arastine e Cailynm os esperavam, bolsas arrumadas e mantos leves para a viagem. O vento trazia o cheiro seco do deserto e a promessa de noite fria.

— Prontos? — perguntou Thurstan, a empolgação no brilho dos olhos.

— É nisso que nós vamos? — questionou Cailynm, lançando um olhar desconfiado para as montarias.

— Amor, você tem que ver. São muito boas de andar. — disse Garwin.

— É verdade. — comentou Arastine. — Garwin, se quiser, podemos ir eu e a Cailynm, e você vai com o Thurstan, já que ficaram juntos o dia inteiro.

Garwin e Thurstan se entreolharam, mas Arastine continuou:

— Ou, se preferir, pode ir na minha libélula. Eu vou de carona com o Thurstan. Que tal?

— Pode ser…, mas não sei se vou saber pilotar a sua. O Thurstan disse que ela é… diferenciada. — respondeu Garwin.

Arastine sorriu de leve, balançando a cabeça.

— Ah, o Thurstan agora pegou essa mania.

Enquanto acomodavam a bagagem mínima no bagageiro, Garwin sugeriu:

— Vamos fazer assim: eu vou na do Thurstan com a Cailynm, e vocês dois vão na sua. Assim ele mata o desejo de pilotar.

Arastine suspirou, resignada.

— Tá bom, pode ser.

— Então vamos. — disse Thurstan, um sorriso largo iluminando o rosto.

Depois de arrumarem as bagagens, o grupo montou e partiu pelas dunas. O deserto se estendia além do porto ribeirinho em faixas douradas e longas sombras, enquanto o rio refletia o céu avermelhado como uma lâmina líquida. As asas metálicas vibravam num zumbido constante, cortando o ar quente.

Thurstan seguia à frente, com Arastine na garupa. Garwin e Cailynm vinham logo atrás, a poucos metros, enquanto a poeira seca subia em redemoinhos entre eles.

— Então são duas passagens de portal, não é? — confirmou Garwin, sem erguer muito a voz.

— É! — a voz de Thurstan veio de longe. — Um leva até a praia pedregosa, o outro sai quase na hospedaria. Aí é só descansar, comer alguma coisa e amanhã seguimos pra Baía do Relâmpago.

— Se tudo for tão tranquilo quanto o que você tá dizendo… — murmurou Cailynm.

Thurstan riu, empolgado.

— Vai ver! Ainda mais viajando nessas belezinhas. Essas libélulas são melhores do que parecem.

Arastine inclinou o rosto por trás dele, o vento bagunçando os cabelos.

— São boas, mas vê se não cai um tombo.

— Pode deixar, milady.

Thurstan acelerou; a libélula negra respondeu com um rugido agudo, as asas vibrando até o ar parecer tremer. Dois redemoinhos de areia se ergueram atrás deles quando o construto ganhou velocidade, subiu uma duna e saltou do topo.

— Thurstan! — gritou Arastine, agarrando-se à cintura dele. — Eu disse pra não fazer isso...!

Ele riu alto, a voz cortada pelo vento.

— Relaxa! Ela nasceu pra isso!

Eles tocaram o solo com suavidade, amortecidos pela suspensão encantada, e logo subiu outra duna, saltando de novo. O zumbido metálico das asas ecoou entre as colinas douradas.

— Juro que se a gente capotar eu te mato antes da queda! — a voz de Arastine era uma mistura de pânico e raiva.

Thurstan lançou um olhar rápido por cima do ombro, sorriso aberto.

— Vai se apaixonar por ela ainda, você vai ver.

Atrás deles, Garwin manteve a postura contida. O vento agitava seu manto; Cailynm inclinou-se, esticando o pescoço para enxergar.

— O Thurstan só pode estar louco — disse ela, rindo e preocupada ao mesmo tempo.

— Louco e barulhento — respondeu Garwin, ajustando as mãos no guidão. — Segura firme.

Ele girou o acelerador. A libélula branca e laranja respondeu com um zumbido grave e deslizou pela areia. Garwin seguiu por uma faixa mais plana entre as dunas, encurtando a distância.

— Cuidado pra não tentar imitar e cair — advertiu Cailynm, com um sorriso de canto.

Garwin não respondeu. Mantinha os olhos à frente, corpo inclinado, guiando com calma calculada. Aos poucos, a distância entre as duas duplas diminuiu. O vento trazia as risadas de Thurstan e os protestos de Arastine.

Quando chegaram próximos, Arastine virou a cabeça e gritou contra o vento:

— Tá feliz agora?! Quer quebrar o pescoço logo de uma vez?!

Thurstan bateu de leve na lateral da moto de Arastine.

— Essa daqui... é outra coisa. Melhor que a minha de longe.

Garwin manteve o olhar à frente, conduzindo a branca e laranja.

— Já começou de novo?

— Claro! A dela é mais leve, mais estável. Dá pra sentir até nas curvas.

— É tudo igual, Thurstan. — disse Arastine. — As duas saíram da mesma oficina.

— A mesma oficina não quer dizer a mesma alma. — rebateu o loiro, fingindo seriedade.

Garwin arqueou uma sobrancelha, sem desviar do caminho.

— Então tá dizendo que, se corrermos, eu perco só porque peguei a tua?

— Pior é que perde mesmo. — Thurstan sorriu, debochado.

Garwin bufou, rindo de canto.

— Se tá tão certo, prova.

Thurstan inclinou o corpo pra frente, como se o desafio já estivesse aceito.

— Quer correr?

— Você que falou primeiro.

— Valendo o quê?

— O que quiser.

O sorriso de Thurstan se abriu, malicioso.

— Nessa nova fase, estamos ambos verdes e aprendendo. Nada precisa ser como antes.

— Onde você tá querendo chegar com isso? — perguntou Garwin.

— Então valendo o título de capitão. Quem cruzar dois portais primeiro, manda.

Arastine levantou as sobrancelhas, sem conter a risada curta.

— Vocês dois não cansam.

Cailynm apertou a cintura de Garwin, firme.

— Amor, isso é loucura. Além de ser perigoso, o Thurstan tá muito mais acostumado do que você.

Garwin ajeitou o manto, o olhar fixo à frente.

— Não é não. É só pra provar um ponto.

Thurstan deu uma risada alta, o vento levando parte da voz.

— E lá vamos nós!

As libélulas diminuíram a velocidade até se alinharem, paralelas. O ar entre elas vibrava de calor. Os cristais de Etherdoorium acenderam num tom pulsante, as asas tremendo como se sentissem a disputa.

Por um instante, ninguém falou nada. Só o som dos zumbidos e do vento.

Thurstan inclinou o corpo, o sorriso desafiador.

— Pronto, capitão?

Garwin respondeu sem olhar.

— Ainda pode desistir, se quiser.

Os aceleradores giraram ao mesmo tempo. A areia subiu em nuvens espessas, e as duas dispararam pelas dunas, lado a lado, cortando o deserto em direção ao primeiro portal.

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