Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 8: O Que Thurstan Encontrou?

Dois autômatos alados cortavam o ar baixo sobre o rio. As asas múltiplas batiam em cadência, lembrando libélulas de metal — reflexos vermelhos e pretos em um, laranja e branco no outro. O voo parecia mais corrida do que viagem: veloz, rente à água, até que ambos se ergueram de súbito e pousaram diante de um bar próximo a um cais.

O impacto dos corpos de metal no chão fez vibrar as tábuas da fachada. Um estivador olhou rápido e voltou ao trabalho. O porto já estava cheio de sons — guindastes gemendo, cabos chiando, vozes chamando cargas.

A primeira a desmontar foi a jovem do autômato vermelho. O cabelo escuro preso em trança balançou quando ela ajeitou o casaco justo sobre os ombros. O rapaz do laranja desceu logo depois: loiro, jaqueta clara contrastando com as botas manchadas de viagem.

Empurraram a porta de madeira. O cheiro de peixe e metal veio junto. Atrás do balcão, o bartender só ergueu o queixo.

— Podem deixar aí. Ninguém mexe nessas coisas.

Um aceno bastou. Eles largaram os autômatos diante do bar e seguiram a pé, passando pelo cheiro de óleo e pelas carroças rangendo. O cais se abria em camadas: cargas empilhadas, construtos puxando madeira e sacas, guindastes colossais girando sobre trilhos arcanos.

O rapaz falou primeiro, os olhos na linha do rio:

— Estranho pensar… já se passou mais de um ano.

Ela não respondeu, apenas seguiu, firme.

Ele insistiu, apontando os céus. Dois aeroplanos circulavam lento, velas rígidas brilhando à luz da manhã.

— Vê aquilo?

— Pois é. Nunca entendi por que usam barcos convencionais ao invés de aeroplanos pra transportar essas coisas.

— Aeroplanos são muito mais eficientes, mas ainda escassos. Então, em certos lugares, o navio continua sendo a opção mais barata.

— Faz sentido. — foi tudo o que ela disse, sem desviar os olhos azuis.

O calor batia de frente, o cais fervilhava. Eles cruzaram a área das mercadorias, onde o cheiro de peixe se misturava ao de serragem úmida. Mais adiante, o alambrado separava o porto das casas baixas de madeira, onde se via roupa secando em varais improvisados.

O rapaz ajeitou o casaco, quase num riso curto:

— O almoço já vai soar. Se ele estiver mesmo aqui, vai descer logo.

Seguiram em silêncio, misturados ao vai-e-vem dos estivadores.

O guindaste colosso erguia-se sobre o rio, engrenagens de bronze girando em cadência, cabos rúnicos descendo pesados até o casco de um navio atracado. Dentro da cabine, o homem de cabelos negros e barba rala mantinha as mãos firmes nos controles. O rosto carregava marcas de cansaço, mas o olhar seguia atento. O calor fazia brilhar o suor na testa, enquanto o guindaste gemia ao erguer mais uma carga.

No console de alavancas, um cristal incrustado acendeu em azul. A voz soou clara, abafada pelo ruído das engrenagens.

— Garwin, pode troca o gancho? Próximo navio é arroz, vai precisar da concha.

Ele puxou a alavanca. O gancho desceu devagar até o cais, rangendo.

— Já tô indo. — respondeu.

O cristal tornou a brilhar.

— Desculpa, mas não precisa mais. Deixa que o próximo operador faz. Desce, aproveita o almoço.

— Não, eu troco antes. — disse, sem pressa, movendo os controles. — Fica mais fácil pra ele.

Os cabos tilintaram, o gancho desprendeu-se do encaixe com um estalo metálico. Outro mecanismo emergiu das engrenagens: uma concha de aço escuro, articulada por runas gravadas, que desceu até o ponto de fixação. Engatou com firmeza, os dentes cerrados como uma mandíbula pronta.

O cais seguia em movimento. Estivadores gritavam ordens, construtos puxavam carroças carregadas de madeira e sacas. O ranger das rodas se misturava ao das velas recolhidas dos navios. O calor tornava o ar pesado.

Ele afastou a tranca rúnica e empurrou a portinhola da cabine. Desceu pela escada de corrimão gasto até o chão, onde um velho robusto o esperava, a pele curtida de sol, cabelos já prateados. As mãos tinham calos antigos, mas ainda firmes.

— Valeu pela troca, garoto. — disse o velho, ajeitando a alça do macacão gasto. — Martelão não tem mais paciência pra essas manobras.

Garwin esboçou um meio sorriso.

— Sei disso. Melhor deixar pronto.

Martelão riu curto, coçando o queixo.

— Vou falar com a minha velha pra mandar um peixe pra você.

— Não precisa disso não. — respondeu, dando um tapinha leve no ombro do colega. — Bom trabalho.

Entre pilhas de sacas e caixas, seguiu em direção à área onde os trabalhadores se espalhavam para o almoço. Parou no meio da passagem quando viu duas silhuetas despontando contra a claridade do cais.

Garwin parou no meio da passagem. Reconheceu de imediato.

— Thurstan? Arastine? Vocês dois… não acredito que estão aqui.

O loiro abriu um sorriso largo e avançou sem hesitar.

— E nem eu acredito que é você, capitão.

O abraço veio forte, caloroso. Quando se soltaram, Arastine entrou logo em seguida, o gesto firme, mas demorado, como se todo o tempo perdido se comprimisse em um instante só.

Ela respirou fundo, recuando um passo.

— Já faz mais de um ano. Tempo demais.

— É verdade. — Thurstan bateu de leve nas costas dele, rindo sem jeito. — E a Cailynm? Ela tá bem?

Garwin hesitou. Olhou para o chão, depois para o movimento do cais.

— Estou esperando ela chegar. Vai trazer comida.

Ele ergueu o queixo, mudando o tom:

— Mas e vocês? Onde se meteram esse tempo todo?

Arastine ajeitou a trança, trocando um olhar rápido com Thurstan, como se combinassem silenciosamente quem começaria.

— Eu segui por conta própria um tempo. Entrei num grupo de aventureiros. Linha de frente, junto com um guerreiro… — a boca dela curvou num sorriso breve — … estava tudo indo bem, até que ele tomou uma pancada feia e perdeu as pernas. Depois disso, o grupo se desfez.

— Vai dizer que o acidente aconteceu por causa daquilo. — disse Garwin, cruzando os braços.

— Não, Garwin. — o sorriso dela desapareceu. — Nem ao menos tentei voltar lá.

O semblante dele também se fechou.

— Deve ser doloroso. Uma ferida aberta que tá custando a fechar.

Ela deu de ombros, sem negar.

— Foi quando esse aí apareceu. — apontou Thurstan com o queixo.

Garwin arqueou a sobrancelha.

— E você? Não me diga que virou pirata.

— O quê? — Thurstan riu, recuando meio passo como se encenasse ofensa. — Eu? Jamais.

— Ué. Se vocês estão juntos de novo e vieram atrás de mim… — Garwin suspirou. — Só pode ser alguma coisa relacionada com navegar.

— Ah é? — Thurstan abriu um sorriso enviesado.

— Claro que é. — Garwin deu uma risada. — E como não tinham dinheiro pra um aeroplano, você acabou indo pra frota do seu pai. Acertei?

Thurstan ficou calado por um momento.

— Errou feio, capitão.

Arastine cruzou os braços, aproveitando para provocar:

— Conta logo o nosso plano, ou ele vai ficar achando besteira.

— Tá, tá. Mas deixa eu contar antes o que eu fiz. — Thurstan ergueu as mãos. — Eu ingressei na academia militar dos Cassiaurd. Cadetes do ar. Piloto. sabe?

Garwin inclinou o rosto, quase divertido.

— Você?

— Pois é. — o loiro deu uma risada curta. — Não aguentei nem seis meses. Aquilo é só papelada e gente gritando ordem. E pilotar que é bom... nada.

Arastine bufou, como se já tivesse ouvido a história muitas vezes.

— E você não vai contar pra ele o que você fez?

— Como assim? — perguntou Thurstan.

— Da fragata que você roubou. — disse Arastine.

— Ah, aquilo foi só pra mostrar pro instrutor que a interface de segurança era uma porcaria. — disse ele, a voz acima do burburinho dos homens que comiam ali perto.

— Sei. — Garwin riu. — Não nega o sanguezinho do pai.

— É. — Thurstan sacudiu a cabeça. — Por falar nisso, depois, fui visitar meu pai. Aí descobri um ramo novo.

— Verdade? Então fala. — Garwin se inclinou, curioso.

— É melhor a gente falar disso num lugar mais secreto.

— Tá, capitão. — Arastine cortou a conversa, pousando a mão no ombro de Garwin. — Todo mundo contou o que fez nesse tempo, só faltou você.

Garwin ficou em silêncio por um instante, o olhar cansado.

— E eu… depois do estaleiro, viajei com Cailynm. A gente tentou… — a voz falhou. — Tentamos começar uma família.

Thurstan ergueu as sobrancelhas.

— E aí?

Garwin respirou fundo.

— Três vezes. Todas meninas. Nenhuma vingou. — As palavras saíram ásperas. Ele ergueu o olhar, sério. — Por favor, não falem disso com ela. Tá muito recente.

O silêncio caiu pesado. Arastine foi quem ousou tocar o braço dele, devagar.

— Sinto muito.

Ele assentiu, desviando o olhar.

— A gente sobrevive. — mudou de assunto com esforço. — Vocês estão juntos há quanto tempo?

— Meses. — disse Thurstan. — Depois de descobrir esse negócio, procurei vocês, encontrei ela. A gente juntou forças.

Arastine completou:

— Tem mais uma coisa: Antes de vir aqui, fomos até o estaleiro de Mihandu. Tentamos renegociar a dívida da Alghoryn.

— Sério? — Garwin se endireitou.

— Sim. — ela confirmou, o tom firme. — Mas ela já não estava lá.

Thurstan franziu o cenho, ainda incomodado.

— Pois é. E o pior é que ninguém quis explicar nada.

Garwin soltou um riso sem humor.

— Então desmontaram. Era o que eu já imaginava.

Garwin ainda respirava pesado, quando uma voz familiar o puxou de volta.

— Garwin, trouxe comida.

Ele se virou. Cailynm vinha com uma marmita de barro nas mãos, equilibrando com cuidado. O cabelo preso balançava a cada passo. A expressão era serena, como sempre, mas os olhos carregavam cansaço e uma suavidade contida.

Ela ergueu o recipiente.

— Antes que esfrie.

Só então percebeu que Garwin não estava sozinho. Os dois ao lado dele a fizeram parar no mesmo instante.

— Vocês…?!

A marmita quase lhe escorregou das mãos, e Garwin se adiantou, segurando-a antes que caísse. Thurstan abriu um sorriso largo e acenou com a cabeça. Arastine ergueu apenas o canto da boca, como se o reencontro falasse por si.

Cailynm respirou fundo. Primeiro, abraçou Thurstan. O gesto foi firme, mas com um quê de ternura que lembrava o afeto por alguém da família. Chegou a passar a mão pelos ombros dele, como se medisse o quanto o garoto havia crescido.

— Thurstan… olha só você. Já não é mais o mesmo menino.

O loiro riu, meio sem jeito.

— Mas ainda apanho se aprontar, né?

Ela não respondeu, apenas sorriu curto. Em seguida, virou-se para Arastine. O abraço foi diferente: igual para igual, quase uma cumplicidade silenciosa.

— Arastine. Você continua firme como sempre.

— E você… não mudou nada. — respondeu a guerreira, com um meio sorriso.

Garwin, ainda segurando a marmita, observava a cena com calma inesperada. Estendeu o recipiente para Cailynm.

— Quase derrubou.

Ela desviou os olhos, disfarçando o constrangimento.

— Culpa de vocês. — disse, sem levantar a voz.

Um grupo de estivadores que almoçava por perto já tinha reparado na cena. Um deles, mais velho, cutucou o colega com o cotovelo.

— Olha só o sortudo. Comida quentinha e até beijo hoje.

As gargalhadas seguiram pelo espaço aberto. Outro completou, batendo na própria coxa:

— Esse Garwin é danado mesmo.

Garwin ergueu a marmita como se brindasse.

— Pena que comeram mais cedo. Se não eu dividia.

A provocação arrancou mais risadas. Cailynm balançou a cabeça, um suspiro quase divertido escapando. Foi então que Garwin se aproximou dela, num gesto discreto. O beijo que trocaram não foi longo, mas suficiente para marcar o reencontro.

Um silêncio breve pairou entre os amigos. Thurstan pigarreou, tentando segurar o riso.

— É… pelo visto, o capitão não perdeu o jeito.

Arastine cutucou o braço dele.

— Cala a boca.

Garwin riu junto, sacudindo a cabeça.

— Bom… pelo menos hoje eu tô dispensado. — levantou o queixo, olhando para os três. — A tarde é nossa.

Cailynm o encarou, como se ainda não acreditasse.

— Dispensado?

— É. — sorriu de canto. — Valeu a pena trocar o gancho cedo.

Os estivadores voltaram a rir, e um deles gritou:

— Se não fosse isso, ia pro olho da rua!

Garwin devolveu o sorriso, mas foi Cailynm quem cortou a cena, num tom baixo:

— Sorte eles terem te encontrado aqui. Não iam achar a nossa casa.

— Talvez achassem. — encolheu os ombros. — Tem muitas, mas alguma hora batem na certa.

Arastine ergueu uma sobrancelha, Thurstan apenas riu, e juntos os quatro seguiram pelo caminho de tábuas, desviando das carroças e sacas, enquanto o porto continuava no seu ritmo habitual.

O caminho pela vila era estreito, cercado de casebres de madeira tosca. Estivadores descansavam em bancos improvisados, mastigando peixe seco, enquanto crianças corriam entre carroças vazias. O cheiro de serragem úmida e óleo do cais ainda vinha com o vento.

— Pelo menos aqui não tem rato maior que cachorro. — disse Arastine, ajeitando a trança. — Igual naquela vez em Kherat.

Eles passaram pela fileira de casebres. Em um varal improvisado, panos de cor clara balançavam. Em outro quintal, uma mulher remendava roupas.

— Quem disse? — Cailynm deu um sorriso curto.

Thurstan riu alto, quase chamando atenção.

— Imagina só. O Garwin acorda no meio da noite abraçado em algo peludo.

— Se foi, eu nem quero saber. — Garwin balançou a cabeça. — Ia sobrar pra mim de qualquer forma.

Cailynm olhou para o loiro, o tom suave, mas certeiro:

— Continua igual.

Ele abriu os braços num gesto inocente, mas riu junto com os outros.

Chegaram ao casebre deles. Tábua sobre tábua, mal encaixadas, mas limpas. O fogareiro no canto soltava um fio de fumaça.

Garwin se sentou na beira da cama e abriu a marmita. Levou a primeira garfada à boca sem cerimônia.

— Trabalhei a manhã inteira. Então, quem não pegou no guindaste, espera.

Thurstan fingiu indignação, mas riu. Arastine se encostou na parede, braços cruzados. Cailynm tirou mais tigelas do baú e foi servindo. O cheiro de caldo simples de peixe e legumes se espalhou pelo espaço.

— Sorte a de vocês que fiz comida a mais.

Arastine olhou em volta.

— Vocês fizeram daqui um lar.

Cailynm não desviou o olhar do fogareiro.

— Do jeito que deu. — disse ela, antes de sair para rua em direção a panela no fogo.

Sobre uma pequena mesa, tecidos dobrados dividiam espaço com uma bonequinha de pano inacabada, esquecida. Arastine e Thurstan olharam para o brinquedo e, em seguida, se entreolharam, como se tivessem pensado na mesma coisa.

— Nem pensem nisso. — disse Garwin, sem levantar os olhos do prato.

O silêncio se alongou até que Cailynm voltou com o restante da comida.

— Então… vieram só pra visitar, ou aconteceu alguma coisa?

Garwin ergueu o rosto.

— Pois é, amor… Thurstan disse que encontrou um negócio pra nós.

Cailynm fechou a porta de madeira remendada com cuidado. O barulho do porto ficou abafado. Todos olhavam para o garoto.

— Então? — disse Arastine. — Vai falar ou não?

Cailynm ergueu as sobrancelhas, curiosa.

— Agora estou ficando mais curiosa ainda.

Thurstan se inclinou para frente, os olhos acesos.

— Vamos minerar gás de trovão.

A mastigada de Garwin parou no meio.

— Minerar… o quê?

— Gás de trovão.

— E como se faz isso?

O loiro sorriu de canto.

— Não se preocupe. Eu te explico.

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