Volume 2
Capítulo 8: O Que Thurstan Encontrou?
Dois autômatos alados cortavam o ar baixo sobre o rio. As asas múltiplas batiam em cadência, lembrando libélulas de metal — reflexos vermelhos e pretos em um, laranja e branco no outro. O voo parecia mais corrida do que viagem: veloz, rente à água, até que ambos se ergueram de súbito e pousaram diante de um bar próximo a um cais.
O impacto dos corpos de metal no chão fez vibrar as tábuas da fachada. Um estivador olhou rápido e voltou ao trabalho. O porto já estava cheio de sons — guindastes gemendo, cabos chiando, vozes chamando cargas.
A primeira a desmontar foi a jovem do autômato vermelho. O cabelo escuro preso em trança balançou quando ela ajeitou o casaco justo sobre os ombros. O rapaz do laranja desceu logo depois: loiro, jaqueta clara contrastando com as botas manchadas de viagem.
Empurraram a porta de madeira. O cheiro de peixe e metal veio junto. Atrás do balcão, o bartender só ergueu o queixo.
— Podem deixar aí. Ninguém mexe nessas coisas.
Um aceno bastou. Eles largaram os autômatos diante do bar e seguiram a pé, passando pelo cheiro de óleo e pelas carroças rangendo. O cais se abria em camadas: cargas empilhadas, construtos puxando madeira e sacas, guindastes colossais girando sobre trilhos arcanos.
O rapaz falou primeiro, os olhos na linha do rio:
— Estranho pensar… já se passou mais de um ano.
Ela não respondeu, apenas seguiu, firme.
Ele insistiu, apontando os céus. Dois aeroplanos circulavam lento, velas rígidas brilhando à luz da manhã.
— Vê aquilo?
— Pois é. Nunca entendi por que usam barcos convencionais ao invés de aeroplanos pra transportar essas coisas.
— Aeroplanos são muito mais eficientes, mas ainda escassos. Então, em certos lugares, o navio continua sendo a opção mais barata.
— Faz sentido. — foi tudo o que ela disse, sem desviar os olhos azuis.
O calor batia de frente, o cais fervilhava. Eles cruzaram a área das mercadorias, onde o cheiro de peixe se misturava ao de serragem úmida. Mais adiante, o alambrado separava o porto das casas baixas de madeira, onde se via roupa secando em varais improvisados.
O rapaz ajeitou o casaco, quase num riso curto:
— O almoço já vai soar. Se ele estiver mesmo aqui, vai descer logo.
Seguiram em silêncio, misturados ao vai-e-vem dos estivadores.
O guindaste colosso erguia-se sobre o rio, engrenagens de bronze girando em cadência, cabos rúnicos descendo pesados até o casco de um navio atracado. Dentro da cabine, o homem de cabelos negros e barba rala mantinha as mãos firmes nos controles. O rosto carregava marcas de cansaço, mas o olhar seguia atento. O calor fazia brilhar o suor na testa, enquanto o guindaste gemia ao erguer mais uma carga.
No console de alavancas, um cristal incrustado acendeu em azul. A voz soou clara, abafada pelo ruído das engrenagens.
— Garwin, pode troca o gancho? Próximo navio é arroz, vai precisar da concha.
Ele puxou a alavanca. O gancho desceu devagar até o cais, rangendo.
— Já tô indo. — respondeu.
O cristal tornou a brilhar.
— Desculpa, mas não precisa mais. Deixa que o próximo operador faz. Desce, aproveita o almoço.
— Não, eu troco antes. — disse, sem pressa, movendo os controles. — Fica mais fácil pra ele.
Os cabos tilintaram, o gancho desprendeu-se do encaixe com um estalo metálico. Outro mecanismo emergiu das engrenagens: uma concha de aço escuro, articulada por runas gravadas, que desceu até o ponto de fixação. Engatou com firmeza, os dentes cerrados como uma mandíbula pronta.
O cais seguia em movimento. Estivadores gritavam ordens, construtos puxavam carroças carregadas de madeira e sacas. O ranger das rodas se misturava ao das velas recolhidas dos navios. O calor tornava o ar pesado.
Ele afastou a tranca rúnica e empurrou a portinhola da cabine. Desceu pela escada de corrimão gasto até o chão, onde um velho robusto o esperava, a pele curtida de sol, cabelos já prateados. As mãos tinham calos antigos, mas ainda firmes.
— Valeu pela troca, garoto. — disse o velho, ajeitando a alça do macacão gasto. — Martelão não tem mais paciência pra essas manobras.
Garwin esboçou um meio sorriso.
— Sei disso. Melhor deixar pronto.
Martelão riu curto, coçando o queixo.
— Vou falar com a minha velha pra mandar um peixe pra você.
— Não precisa disso não. — respondeu, dando um tapinha leve no ombro do colega. — Bom trabalho.
Entre pilhas de sacas e caixas, seguiu em direção à área onde os trabalhadores se espalhavam para o almoço. Parou no meio da passagem quando viu duas silhuetas despontando contra a claridade do cais.
Garwin parou no meio da passagem. Reconheceu de imediato.
— Thurstan? Arastine? Vocês dois… não acredito que estão aqui.
O loiro abriu um sorriso largo e avançou sem hesitar.
— E nem eu acredito que é você, capitão.
O abraço veio forte, caloroso. Quando se soltaram, Arastine entrou logo em seguida, o gesto firme, mas demorado, como se todo o tempo perdido se comprimisse em um instante só.
Ela respirou fundo, recuando um passo.
— Já faz mais de um ano. Tempo demais.
— É verdade. — Thurstan bateu de leve nas costas dele, rindo sem jeito. — E a Cailynm? Ela tá bem?
Garwin hesitou. Olhou para o chão, depois para o movimento do cais.
— Estou esperando ela chegar. Vai trazer comida.
Ele ergueu o queixo, mudando o tom:
— Mas e vocês? Onde se meteram esse tempo todo?
Arastine ajeitou a trança, trocando um olhar rápido com Thurstan, como se combinassem silenciosamente quem começaria.
— Eu segui por conta própria um tempo. Entrei num grupo de aventureiros. Linha de frente, junto com um guerreiro… — a boca dela curvou num sorriso breve — … estava tudo indo bem, até que ele tomou uma pancada feia e perdeu as pernas. Depois disso, o grupo se desfez.
— Vai dizer que o acidente aconteceu por causa daquilo. — disse Garwin, cruzando os braços.
— Não, Garwin. — o sorriso dela desapareceu. — Nem ao menos tentei voltar lá.
O semblante dele também se fechou.
— Deve ser doloroso. Uma ferida aberta que tá custando a fechar.
Ela deu de ombros, sem negar.
— Foi quando esse aí apareceu. — apontou Thurstan com o queixo.
Garwin arqueou a sobrancelha.
— E você? Não me diga que virou pirata.
— O quê? — Thurstan riu, recuando meio passo como se encenasse ofensa. — Eu? Jamais.
— Ué. Se vocês estão juntos de novo e vieram atrás de mim… — Garwin suspirou. — Só pode ser alguma coisa relacionada com navegar.
— Ah é? — Thurstan abriu um sorriso enviesado.
— Claro que é. — Garwin deu uma risada. — E como não tinham dinheiro pra um aeroplano, você acabou indo pra frota do seu pai. Acertei?
Thurstan ficou calado por um momento.
— Errou feio, capitão.
Arastine cruzou os braços, aproveitando para provocar:
— Conta logo o nosso plano, ou ele vai ficar achando besteira.
— Tá, tá. Mas deixa eu contar antes o que eu fiz. — Thurstan ergueu as mãos. — Eu ingressei na academia militar dos Cassiaurd. Cadetes do ar. Piloto. sabe?
Garwin inclinou o rosto, quase divertido.
— Você?
— Pois é. — o loiro deu uma risada curta. — Não aguentei nem seis meses. Aquilo é só papelada e gente gritando ordem. E pilotar que é bom... nada.
Arastine bufou, como se já tivesse ouvido a história muitas vezes.
— E você não vai contar pra ele o que você fez?
— Como assim? — perguntou Thurstan.
— Da fragata que você roubou. — disse Arastine.
— Ah, aquilo foi só pra mostrar pro instrutor que a interface de segurança era uma porcaria. — disse ele, a voz acima do burburinho dos homens que comiam ali perto.
— Sei. — Garwin riu. — Não nega o sanguezinho do pai.
— É. — Thurstan sacudiu a cabeça. — Por falar nisso, depois, fui visitar meu pai. Aí descobri um ramo novo.
— Verdade? Então fala. — Garwin se inclinou, curioso.
— É melhor a gente falar disso num lugar mais secreto.
— Tá, capitão. — Arastine cortou a conversa, pousando a mão no ombro de Garwin. — Todo mundo contou o que fez nesse tempo, só faltou você.
Garwin ficou em silêncio por um instante, o olhar cansado.
— E eu… depois do estaleiro, viajei com Cailynm. A gente tentou… — a voz falhou. — Tentamos começar uma família.
Thurstan ergueu as sobrancelhas.
— E aí?
Garwin respirou fundo.
— Três vezes. Todas meninas. Nenhuma vingou. — As palavras saíram ásperas. Ele ergueu o olhar, sério. — Por favor, não falem disso com ela. Tá muito recente.
O silêncio caiu pesado. Arastine foi quem ousou tocar o braço dele, devagar.
— Sinto muito.
Ele assentiu, desviando o olhar.
— A gente sobrevive. — mudou de assunto com esforço. — Vocês estão juntos há quanto tempo?
— Meses. — disse Thurstan. — Depois de descobrir esse negócio, procurei vocês, encontrei ela. A gente juntou forças.
Arastine completou:
— Tem mais uma coisa: Antes de vir aqui, fomos até o estaleiro de Mihandu. Tentamos renegociar a dívida da Alghoryn.
— Sério? — Garwin se endireitou.
— Sim. — ela confirmou, o tom firme. — Mas ela já não estava lá.
Thurstan franziu o cenho, ainda incomodado.
— Pois é. E o pior é que ninguém quis explicar nada.
Garwin soltou um riso sem humor.
— Então desmontaram. Era o que eu já imaginava.
Garwin ainda respirava pesado, quando uma voz familiar o puxou de volta.
— Garwin, trouxe comida.
Ele se virou. Cailynm vinha com uma marmita de barro nas mãos, equilibrando com cuidado. O cabelo preso balançava a cada passo. A expressão era serena, como sempre, mas os olhos carregavam cansaço e uma suavidade contida.
Ela ergueu o recipiente.
— Antes que esfrie.
Só então percebeu que Garwin não estava sozinho. Os dois ao lado dele a fizeram parar no mesmo instante.
— Vocês…?!
A marmita quase lhe escorregou das mãos, e Garwin se adiantou, segurando-a antes que caísse. Thurstan abriu um sorriso largo e acenou com a cabeça. Arastine ergueu apenas o canto da boca, como se o reencontro falasse por si.
Cailynm respirou fundo. Primeiro, abraçou Thurstan. O gesto foi firme, mas com um quê de ternura que lembrava o afeto por alguém da família. Chegou a passar a mão pelos ombros dele, como se medisse o quanto o garoto havia crescido.
— Thurstan… olha só você. Já não é mais o mesmo menino.
O loiro riu, meio sem jeito.
— Mas ainda apanho se aprontar, né?
Ela não respondeu, apenas sorriu curto. Em seguida, virou-se para Arastine. O abraço foi diferente: igual para igual, quase uma cumplicidade silenciosa.
— Arastine. Você continua firme como sempre.
— E você… não mudou nada. — respondeu a guerreira, com um meio sorriso.
Garwin, ainda segurando a marmita, observava a cena com calma inesperada. Estendeu o recipiente para Cailynm.
— Quase derrubou.
Ela desviou os olhos, disfarçando o constrangimento.
— Culpa de vocês. — disse, sem levantar a voz.
Um grupo de estivadores que almoçava por perto já tinha reparado na cena. Um deles, mais velho, cutucou o colega com o cotovelo.
— Olha só o sortudo. Comida quentinha e até beijo hoje.
As gargalhadas seguiram pelo espaço aberto. Outro completou, batendo na própria coxa:
— Esse Garwin é danado mesmo.
Garwin ergueu a marmita como se brindasse.
— Pena que comeram mais cedo. Se não eu dividia.
A provocação arrancou mais risadas. Cailynm balançou a cabeça, um suspiro quase divertido escapando. Foi então que Garwin se aproximou dela, num gesto discreto. O beijo que trocaram não foi longo, mas suficiente para marcar o reencontro.
Um silêncio breve pairou entre os amigos. Thurstan pigarreou, tentando segurar o riso.
— É… pelo visto, o capitão não perdeu o jeito.
Arastine cutucou o braço dele.
— Cala a boca.
Garwin riu junto, sacudindo a cabeça.
— Bom… pelo menos hoje eu tô dispensado. — levantou o queixo, olhando para os três. — A tarde é nossa.
Cailynm o encarou, como se ainda não acreditasse.
— Dispensado?
— É. — sorriu de canto. — Valeu a pena trocar o gancho cedo.
Os estivadores voltaram a rir, e um deles gritou:
— Se não fosse isso, ia pro olho da rua!
Garwin devolveu o sorriso, mas foi Cailynm quem cortou a cena, num tom baixo:
— Sorte eles terem te encontrado aqui. Não iam achar a nossa casa.
— Talvez achassem. — encolheu os ombros. — Tem muitas, mas alguma hora batem na certa.
Arastine ergueu uma sobrancelha, Thurstan apenas riu, e juntos os quatro seguiram pelo caminho de tábuas, desviando das carroças e sacas, enquanto o porto continuava no seu ritmo habitual.
O caminho pela vila era estreito, cercado de casebres de madeira tosca. Estivadores descansavam em bancos improvisados, mastigando peixe seco, enquanto crianças corriam entre carroças vazias. O cheiro de serragem úmida e óleo do cais ainda vinha com o vento.
— Pelo menos aqui não tem rato maior que cachorro. — disse Arastine, ajeitando a trança. — Igual naquela vez em Kherat.
Eles passaram pela fileira de casebres. Em um varal improvisado, panos de cor clara balançavam. Em outro quintal, uma mulher remendava roupas.
— Quem disse? — Cailynm deu um sorriso curto.
Thurstan riu alto, quase chamando atenção.
— Imagina só. O Garwin acorda no meio da noite abraçado em algo peludo.
— Se foi, eu nem quero saber. — Garwin balançou a cabeça. — Ia sobrar pra mim de qualquer forma.
Cailynm olhou para o loiro, o tom suave, mas certeiro:
— Continua igual.
Ele abriu os braços num gesto inocente, mas riu junto com os outros.
Chegaram ao casebre deles. Tábua sobre tábua, mal encaixadas, mas limpas. O fogareiro no canto soltava um fio de fumaça.
Garwin se sentou na beira da cama e abriu a marmita. Levou a primeira garfada à boca sem cerimônia.
— Trabalhei a manhã inteira. Então, quem não pegou no guindaste, espera.
Thurstan fingiu indignação, mas riu. Arastine se encostou na parede, braços cruzados. Cailynm tirou mais tigelas do baú e foi servindo. O cheiro de caldo simples de peixe e legumes se espalhou pelo espaço.
— Sorte a de vocês que fiz comida a mais.
Arastine olhou em volta.
— Vocês fizeram daqui um lar.
Cailynm não desviou o olhar do fogareiro.
— Do jeito que deu. — disse ela, antes de sair para rua em direção a panela no fogo.
Sobre uma pequena mesa, tecidos dobrados dividiam espaço com uma bonequinha de pano inacabada, esquecida. Arastine e Thurstan olharam para o brinquedo e, em seguida, se entreolharam, como se tivessem pensado na mesma coisa.
— Nem pensem nisso. — disse Garwin, sem levantar os olhos do prato.
O silêncio se alongou até que Cailynm voltou com o restante da comida.
— Então… vieram só pra visitar, ou aconteceu alguma coisa?
Garwin ergueu o rosto.
— Pois é, amor… Thurstan disse que encontrou um negócio pra nós.
Cailynm fechou a porta de madeira remendada com cuidado. O barulho do porto ficou abafado. Todos olhavam para o garoto.
— Então? — disse Arastine. — Vai falar ou não?
Cailynm ergueu as sobrancelhas, curiosa.
— Agora estou ficando mais curiosa ainda.
Thurstan se inclinou para frente, os olhos acesos.
— Vamos minerar gás de trovão.
A mastigada de Garwin parou no meio.
— Minerar… o quê?
— Gás de trovão.
— E como se faz isso?
O loiro sorriu de canto.
— Não se preocupe. Eu te explico.
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