Volume 1
Capítulo 7: A nave do meu pai
— Ali! — Thurstan apontou o arco metálico à frente, runas pulsando em linhas firmes. — Um portal estabilizado. Tem gente do outro lado.
— Mas não era esse que a gente queria… — murmurou Cailynm, as mãos firmes no painel.
— É o mais perto. — Garwin não tirou os olhos do horizonte. — Vamos por ali.
Um clarão lilás explodiu atrás da Alghoryn. O casco vibrou, velas estalaram. Uma aura pálida se espalhou pela estrutura como rede invisível.
Thurstan se agarrou à cadeira.
— Corrente disruptiva! Ele nos prendeu à nave dele!
A voz de Arastine estourou pelo comunicador:
— Por que estamos desviando o curso?
— Por sobrevivência. — Garwin manteve o tom áspero.
— Essa corrente vai puxar a gente de volta? — Thurstan se levantou, tentando se firmar.
— Não, mas vai nos retardar. Mais rápido do que imagina. — Garwin rosnou. — Segura os estabilizadores, amor!
A Alghoryn rangeu, enquanto o pirata diminuía a distância. A proa inexistente sacudia como se fosse arrancar de vez.
Cailynm pressionava runas, o suor escorrendo pela têmpora.
— Estou tentando cortar a inversão de fluxo, mas ele tá drenando tudo!
— Temos que comprar contramedidas da próxima vez. — Garwin forçou as alavancas.
— Isso se ainda tivermos nave até lá… — Cailynm não tirou os olhos do painel.
Um estalo seco cortou o ar. A balista do pirata disparou. O arpão passou rente, arrancando fagulhas do casco.
— Eu tenho um tiro, capitão! — gritou Arastine, a voz ecoando pelo comunicador. — É só dar a ordem.
— Não dispare! — Garwin desviou com violência. — Ele é como um chacal. Só vai morder quando achar que presa morreu. Vamos fingir e enfiar a faca na hora da mordida.
Thurstan se agarrou ao painel, a voz trêmula:
— Então o que a gente faz?
— A gente voa. — Garwin rangeu os dentes. — Só isso.
O portal crescia à frente, chama azul oscilando. A Alghoryn chacoalhou, diante o repuxo das correntes.
— Amor… não vai dar! — Cailynm arfava, dedos correndo pelas runas. — Ele tá nos travando!
— Então me dá tudo que sobrar! — a voz dele soou como aço.
A nave mergulhou, escapando do segundo disparo. O pirata avançava, mas o arco já tomava todo o campo de visão.
— Se não atravessarmos agora, acabou! — Thurstan gritou.
Garwin puxou as alavancas até o fim. O casco inteiro protestou, madeira e metal num só grito. A âncora ainda os prendia. O portal engoliu primeiro a frente mutilada, depois o convés… até que, no último instante, o pirata soltou a corrente.
A Alghoryn atravessou sozinha, cuspida para o outro lado. O silêncio caiu pesado, quebrado apenas pelo resmungo irregular das velas propulsoras.
Ninguém falou.
O portal cuspiu a nave com violência. As velas se agitaram como se fossem rasgar de vez; a estrutura tremeu inteira, até que restou apenas o balanço irregular no ar.
À frente, um horizonte salpicado de ilhas infinitas se espalhava em diferentes tamanhos — algumas tão pequenas que mal suportariam uma árvore, outras vastas como continentes. O mar azul-esverdeado refletia a luz de várias luas, tingindo o cenário de um brilho quase onírico.
— Mihandu. — murmurou Cailynm, aliviada e exausta.
O silêncio persistiu, pesado, até que duas silhuetas metálicas surgiram ao lado da Alghoryn: grandes aeroplanos com a bandeira de Jillar, velas rígidas e impecáveis, um contraste brutal com os remendos e a proa ausente da nave combalida.
Um estalo quebrou o ar no comunicador.
— Alghoryn, vocês copiam?
Nenhuma resposta. Garwin permanecia sentado na cadeira de comando, o corpo inclinado para trás, olhos fechados, em meio a suspiros longos.
— Alghoryn, aqui é patrulha de Jillar. Leitura irregular do casco e propulsão instável. Identifiquem-se.
Mais silêncio. A tripulação trocou olhares tensos. Thurstan mexeu as mãos sem força suficiente pra tocar os painéis.
— Amor… atende. Eles não vão desistir. — sussurrou Cailynm.
O comunicador voltou a chiar:
— Capitão da Alghoryn, sua nave não parece em condições de continuar. Responda.
Garwin ergueu-se devagar, como se reunisse forças. Pegou o comunicador.
— Aqui é Garwin, capitão da Alghoryn. Sofremos ataque pirata nas orlas selvagens. Perdemos parte da proa. Estamos em rota para o estaleiro de Mihandu.
A voz do outro lado assumiu tom menos rígido, quase solidário:
— Recebido, capitão. Lamentamos as perdas. Sorte sua: apesar de não ser o portal do estaleiro, ele fica aqui perto, a oeste-sudoeste. Vamos registrar e averiguar o ocorrido.
Garwin negou com a cabeça.
— Não há como averiguar agora. Uma tempestade imensa está varrendo o Vale da Fonte. Se ficarem, serão engolidos também.
Um silêncio breve no canal. Então a voz tornou a soar:
— Estranho… por acaso não viram nenhum aeroplano do Reino do Dragão naquela região? Costumam patrulhar com frequência.
— Não. Talvez por causa da guerra. — disse Cailynm pelo comunicador.
— É o mais provável. — confirmou Garwin, seco.
Os aeroplanos se aproximaram um pouco mais. A Alghoryn parecia um peixe ferido ao lado de baleias de aço.
— Alghoryn, podemos enviar homens e rebocar vocês. Ajudar no reparo.
Garwin respirou fundo antes de responder:
— Agradeço. Mas não será necessário. Seguiremos viagem por conta própria.
Houve uma pausa, como se a patrulha avaliasse.
— Entendido, capitão. Que os ventos de Jillar estejam com vocês.
O canal silenciou. Restou apenas o ruído irregular das velas mutiladas.
Thurstan quebrou o silêncio, resmungando:
— Podíamos ter aceitado ajuda…
— Mas já estamos em Mihandu. — disse Cailynm.
— Sim, mas Mihandu é enorme. E deserta. Podemos ficar dias procurando.
Garwin não respondeu. Passou os dedos pelo mapa de navegação; runas projetaram linhas tênues de rota. Seus olhos se estreitaram quando reconheceu um ponto brilhando diante deles.
— Estamos perto do estaleiro. — disse, enfim.
A Alghoryn desceu rente às encostas, o casco pesado como se cada manobra fosse a última. Gramados verdes escalonavam-se em terraços de pedra, blocos de granito encaixados surgindo entre o capim como ruínas que o tempo esqueceu. O ar tremeluzia sob o calor do meio-dia.
— Montanhas gramadas… pedras protuberantes e aquela água verde-turquesa. Nem acredito que chegamos. — murmurou Thurstan, o nariz colado ao vidro trincado.
— Nunca me imaginei tão aliviada de conseguir chegar na oficina. — disse Arastine, sem esconder o cansaço. — Parece até piada.
O estaleiro projetava-se na borda de um promontório: taliscas e vigas sobre fundações de pedra, meios-doca encaixados nas ruínas. Madeira remendada, ferro corroído, oficinas improvisadas. Hoje estava quase vazio.
— Mesmo em pleno dia de descanso ainda tem gente. — comentou Cailynm, o olhar fixo na estrutura.
A nave se aproximou de uma doca, e os poucos trabalhadores se juntaram, cochichando.
— Que droga! Em pleno fim de semana esses caras vêm pra cá com essa porcaria. — resmungou um deles.
— E ainda por cima com a proa arrebentada. — acrescentou outro. — Vai ficar só pra semana que vem.
— Espera… — o terceiro estreitou os olhos. — Não é a Alghoryn?
— O formato é igual, mas com a proa desse jeito, como vamos saber?
O primeiro descravou um assobio.
— Não pode ser. O pessoal jamais deixaria isso acontecer.
Quando o aeroplano foi içado pelos guindastes até a plataforma, o impacto seco ecoou pelo pátio.
— A rampa tá saindo. — avisou um dos homens.
Garwin desceu primeiro. Alguns trabalhadores se aproximaram, espantados.
— É você mesmo? — disse um deles, apertando-lhe a mão.
— Pois é. — respondeu o capitão, fitando o aeroplano de fora. Os outros tripulantes o acompanharam. — Que estrago, hein?
— Cara, como você fez isso? — arriscou outro funcionário.
— Piratas. — respondeu curto. — E então? Como vamos fazer?
— Vou ter que chamar o Orrim. — decidiu o primeiro, saindo apressado.
Orrim não demorou. Era um homem mais velho, mãos calosas, barba salpicada de cinza, o passo firme de quem já viu de tudo.
— Trouxe um probleminha pra você. — disse Garwin, deixando a tripulação para trás enquanto caminhava ao lado do velho em direção ao que restou da Alghoryn.
— Ah é? Então mostre. — Orrim os conduziu até o alpendre de onde se via a proa mutilada. — O que aconteceu aqui?
— Ataque pirata. Perdemos a frente. — disse Garwin, sem rodeios.
Orrim passou a mão pela chapa riscada, examinando cada marca. A testa franziu.
— Mentira.
Garwin ergueu o queixo.
— Como?
— Essa nave era do seu pai. Eu cuidei dela desde o primeiro parafuso. Essa proa é especial: madeira rúnica, liga temperada que não se fabrica mais desde a guerra no reino do dragão. — ergueu os olhos, duro. — Nenhum pirata de portal selvagem faria esse estrago.
— E?
— E você atarefa meus homens, me arranca de um dia de descanso… e ainda tenta me enrolar? Acha que eu não sei reconhecer quando tão mentindo na minha cara?
Garwin respirou fundo.
— Tudo bem. Foi em Sam Brehim. Caçadoras puritânias.
Orrim recuou dois passos, incrédulo.
— Como? Você enfrentou uma caçadora puritânia com essa nave e sobreviveu?
— Na verdade foram quatro. Contra a última, abalroei. Perdi a proa quando arranquei a casaria do Etherdoorium com a porrada.
O velho se apoiou numa viga, estarrecido.
— Quatro? E você saiu vivo?
— Foi o que restou. Eu não tinha opções.
Orrim balançou a cabeça, dividido entre assombro e reprovação.
— É a coisa mais tola que já ouvi… e a mais incrível.
Garwin não sorriu.
— Pois é. Agora me diz: como resolvo isso?
— Só a proa não sai por menos de cinco mil peças de ouro. — a voz saiu seca, mas logo amaciou: — É como reconstruir do zero. Dá pra costurar, mas leva tempo e cuidado. Se quiser remendo… esquece. Vai voar meia-boca.
A tripulação chegou a tempo de ouvir o preço. Cailynm mordeu o lábio. Thurstan abaixou os olhos. Arastine fechou os punhos.
— E o resto? — perguntou Garwin.
— Velas, dutos, painéis, construtos descalibrados. O núcleo preciso abrir pra ver. Se quiser relatório, uma semana de trabalho. — Orrim fez uma pausa. — E pode até mesmo dobrar o custo.
Garwin passou a mão pelo casco, o gesto preso no silêncio.
— E se eu quiser a avaliação agora?
— Cinquenta peças. Mas só posso começar amanhã. A não ser que queria que os rapazes fiquem muito zangados por você os colocar no trabalho hoje.
O capitão olhou a tripulação. Um segundo apenas, mas suficiente. A voz saiu firme, seca, e ainda assim carregada de peso:
— Então não temos opção. Vamos empenhar a Alghoryn.
O pátio ficou suspenso em silêncio. Thurstan engoliu em seco. Cailynm apertou o braço dele, firme. Arastine manteve os olhos na nave.
Orrim quebrou o ar parado.
— Tem certeza? Empenho não é só papel. Eles vão ficar com a nave. Se não pagarem em seis meses, desmontam tudo.
Garwin soltou um som breve, aceitação contida.
— Sim, eu sei. Chamem a casa de penhores. Façam o que for preciso.
O silêncio no estaleiro pesava mais que o calor. O casco mutilado da Alghoryn repousava sobre as vigas, como um corpo suspenso.
Arastine foi a primeira a romper.
— Você enlouqueceu, Garwin? — a voz saiu carregada. — É a herança do seu pai. E você entrega assim? Por meia dúzia de moedas?
Garwin não desviou os olhos dela.
— Loucura é insistir no impossível. — disse baixo, firme.
Thurstan se adiantou, hesitante.
— Cara… tem certeza disso? A gente pode dar um jeito. Sempre tem um jeito.
Garwin ergueu a mão, cortando-o antes que fosse adiante.
— Não dessa vez.
Pouco tempo depois o som de passos ecoou no alpendre. O paladino surgiu sem anúncio: armadura simples, marcas de estrada, a presença que bastava por si só.
Ele parou diante do grupo, a voz sóbria:
— Confirmam o empenho da nave Alghoryn?
Garwin foi o primeiro.
— Confirmo.
Thurstan respirou fundo.
— Não faz isso, Garwin.
— Eu já decidi, Thurstan.
Arastine demorou, depois falou:
— Você tá sendo um tremendo de um babaca.
Cailynm não respondeu de imediato. Estendeu a mão, firme no braço de Garwin, antes de soltar as palavras:
— Tem certeza, amor?
Garwin apenas assentiu.
O paladino fez o registro com a mesma neutralidade.
— Está registrado.
A entrega aconteceu em silêncio. Sacos de moedas mudaram de mãos, o peso marcado apenas pelo movimento contido de quem recebia.
Garwin ficou diante dos companheiros. Um por um, encarou-os.
— Aqui está a parte de vocês. — disse, entregando duas das quatro sacolas a Thurstan e Arastine.
Arastine o fitou, incrédula.
— O que você tá fazendo?
Garwin segurou a voz firme.
— Arastine, você sempre foi a pessoa mais corajosa que conheci. Apesar de tudo o que passou, nunca hesitou. Obrigado por defender a Alghoryn na balista todos esses anos.
Arastine levou a mão ao rosto, mas não respondeu.
Garwin passou então a bolsa a Thurstan.
— Cara, me desculpa por não ter te dado um voto de confiança antes. Mas você foi o mais leal de todos. Se um dia tiver a própria nave, vai ser um prazer servir sob o seu comando.
— Cara, não faz isso. — disse Thurstan, mas a sacola já estava em suas mãos.
Garwin respirou fundo, o olhar firme.
— Eu sei que nossa intenção era estar com o Purgeno nas mãos, rindo e contando piadas. Vendeler estaria aqui também.
Ele fez uma pausa, encarando cada um.
— Nenhum de nós, quando saiu essa manhã pra pegar aquele condutor, imaginou terminar assim. Mas é a vida: hoje se ganha, amanhã se perde. E com isso chega ao fim. Tá na hora de cada um seguir o seu caminho.
***
O alto da ilha guardava silêncio. Rochas gastas se erguiam entre tufos de grama curta. Entre elas, flores amarelas se inclinavam no vento quente, o caule úmido brilhando sob o sol.
Cailynm passou os dedos por uma delas, e comentou baixo:
— Sempre parecem que estão chorando mel.
Eles se sentaram sobre a pedra, ombros quase encostados. O suor lhes escorria pela pele, e a respiração vinha lenta, pesada, como se até o ar se recusasse a mover.
Foi Garwin quem quebrou o silêncio, um meio sorriso cansado nos lábios:
— Lembra daquela vez na passagem de Nhorim? Quando perdemos o leme bem no meio da neblina?
Cailynm soltou um sopro de riso.
— E você achou que dava pra remendar com uma pá.
— Dava certo. — retrucou, insistindo na piada.
— Ah, sim. Deu tão certo que você quase caiu. — disse ela, e o riso murchou aos poucos.
O silêncio voltou a pesar, até que Cailynm estendeu a mão. Segurou a dele sem hesitar.
Garwin baixou os olhos para os dedos entrelaçados, depois ergueu-os para o mar parado. Ficou assim por um tempo, até murmurar, a voz rouca de cansaço:
— Vamos encontrar um jeito.
Cailynm não soltou a mão.
— Vamos.
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