Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 1

Capítulo 6: O Gambito do pirata

O portal abriu-se em arco metálico, cravejado de runas que respiravam luz num compasso lento. Do outro lado, nuvens cinzentas corriam em direções contrárias, como se o céu fosse dividido em camadas instáveis.

— Finalmente… — murmurou Garwin, os olhos fixos nas runas do painel. — Acabaram os portais selvagens.

— Andar com a nave nessas condições por esses lugares sem segurança me dá até um frio na barriga — disse Cailynm.

Garwin inclinou o queixo para ela e Thurstan.

— Vão ver como está a Arastine. O dia não será fácil pra ela quando ouvir as notícias.

O casco gemeu quando a Alghoryn atravessou. Do outro lado, duas naves enormes guardavam a passagem, negras e maciças, brasões dourados faiscando contra a claridade do portal.

— Supercruzadores de Trinn… — a voz de Garwin saiu baixa, quase para si mesmo.

Uma delas avançou, a estrutura deslizando até a frente. Compartimentos se abriram na proa, como uma boca oferecendo abrigo. O comunicador vibrou.

— Aeroplano Alghoryn. — A voz soava grave, mas não havia dureza, só cautela. — Seu casco parece em colapso. O que aconteceu aí?

Garwin não respondeu de imediato. Os dedos ficaram imóveis sobre as runas, a respiração curta.

— Por acaso há indícios de piratas nos setores adjacentes? — a voz insistiu.

— Não. — Ele inspirou fundo. — Foi uma tempestade de pedras num portal extraplanar. Perdemos a proa, mas seguimos inteiros. Estamos indo ao estaleiro de Mihandu.

A nave de Trinn ajustou a posição, mantendo o compartimento aberto.

— Podem vir conosco. Levaremos vocês até Trinn em segurança.

Garwin empurrou algumas alavancas rúnicas. A estrutura vibrou, mas a Alghoryn desviou do corredor que se abria.

— Agradecemos, mas não precisamos.

Restou apenas o zumbido da estática. O brasão dourado brilhou uma última vez no convés partido antes de a Alghoryn mergulhar rumo ao próximo portal.

— Muito bem. Se precisar, não hesite em chamar.

Garwin apenas assentiu, um movimento contido. O casco sacudiu ao avançar de um portal ao outro, rangidos secos ecoando pelo convés. A luz do portal os engoliu de súbito, e, na ponte, a porta rangeu ao se abrir para o corredor.

A Alghoryn atravessou o portal, rangendo como se cada tábua do casco reclamasse em protesto.

Do outro lado, o céu se abria em tons metálicos: um planalto suspenso sobre um mar em fervura, vapores subindo como colunas quebradas. Correntes de ar batiam contra a estrutura, e o calor do sol despontando alto fazia o horizonte tremer.

— Pronto, Garwin, aqui está. — Thurstan entrou com Arastine desacordada, apoiada ao ombro.

— Demos uma poção de cura. Deve acordar logo — completou Cailynm.

— Então retome o posto. Essa nave não vai aguentar viajar sozinha sem os instrumentos.

Um estalo seco percorreu a ponte. A Alghoryn afundou de repente, jogando todos um passo para frente. Garwin prendeu-se ao leme, e depois puxou as alavancas. As velas rangiam como ossos velhos, mas responderam. O aeroplano subiu de volta, aos trancos.

Arastine gemeu baixo, mexendo o braço como quem buscava apoio. Abriu os olhos devagar, a respiração curta.

— O que… aconteceu?

Cailynm abaixou o olhar.

— Vencemos as puritânias. Mas a nave estrangeira… explodiu. Levou tudo junto.

Outro estrondo. Um pedaço da proa desprendeu-se e rodopiou no ar até sumir. Arastine agarrou-se à cadeira mais próxima, olhos arregalados.

— Por que a nave tá… desse jeito?

Thurstan hesitou.

— Perdemos a proa quando eu investi contra a nave e você desmaiou. Estamos indo para Mihandu.

O silêncio voltou, pesado. Arastine respirou fundo, ainda trêmula.

— Ainda bem que vamos conseguir pagar isso com o condutor… afinal ele é um purgeno ou só um albastrógeno?

Ninguém respondeu. Ela levantou-se devagar e caminhou até o vidro trincado da frente. Ficou ali, olhando o céu em brasa.

— O Vendeler… ele ainda deve estar lá embaixo, extraindo de dentro da caixa preta aquela, não é? — a voz saiu quase infantil.

Garwin apertou os olhos. A nave deu outro solavanco.

— Arastine…

— Não precisa falar. — ela encostou as mãos no vidro.

As lágrimas começaram a cair, deslizando pelo rosto e pelo trincado.

Thurstan deu um passo, a voz baixa.

— Você… tá bem?

Ela não se virou.

— Não é da sua conta.

O painel piscou instável. O calor e o barulho metálico tomaram a ponte, até que só restou o peso do silêncio.

— Thurstan, desce no porão e confere as provisões. — disse Garwin, ainda fitando Arastine.

— Nem precisava pedir. — respondeu ele, afastando-se pela porta.

O silêncio ficou na ponte. Só o barulho do casco deteriorando e o sopro irregular dos dutos preenchiam o ar, enquanto a Alghoryn atravessava mais um portal.

Do outro lado, abriram-se planícies sobre uma série de fones que exalavam um vapor verde. A claridade tremia sobre o convés como se o ar estivesse em ebulição.

— Já deve ser metade do caminho. — murmurou Cailynm, olhando o horizonte.

Garwin ajustou uma alavanca, o maxilar rígido. Não respondeu.

Outro arco brilhou à frente. As velas em forma de fole bateram com esforço, protestando contra a travessia. A saída os lançou sobre um mar revolto, ondas se quebrando em falésias altas.

— Jurisdição de Sabriz. — disse Garwin. — Vê nos detectores se há insetos.

Cailynm tocou o painel. Uma vela se rasgou com um estalo áspero.

— Não dá. A avaria bagunçou todos os dispositivos.

Arastine ergueu os olhos, saindo do transe.

— Vocês acham que ainda dá pra sair disso?

— Vai ser difícil. — disse Cailynm. — Mas dá.

Thurstan voltou à ponte, suado.

— A vela quatro foi pro espaço. Um dos destroços da proa deve ter acertado nela. Não sei quanto tempo segura.

— Mantém o fluxo no mínimo. — Garwin não desviou o olhar.

Passaram o próximo portal. Do outro lado, nuvens negras corriam em sentidos contrários. Um estalo seco sacudiu o convés; uma ferramenta rolou até bater no pé de Arastine.

— Maldição. — ela se abaixou para pegar. — Voar assim é um convite pra morte. Odeio tempestades.

Garwin puxou as alavancas. A nave subiu devagar, como se escalasse o ar.

O silêncio voltou, só o vento contra a frente mutilada, quebrado pelos estalos da madeira e o sopro irregular dos dutos. A Alghoryn atravessou mais um portal, até emergir sobre um vale de pedra, rios de fogo correndo em fendas largas.

— Capitão… — Thurstan falou baixo, mas a tensão na voz chamou atenção. — E se cortássemos caminho?

Garwin ergueu os olhos do painel.

— Como assim, “cortar caminho”?

O garoto respirou fundo, encarando o construto de navegação.

— Pra chegar em Mihandu, vamos ter que atravessar uns quinze portais. Nesse ritmo, só no fim da tarde. Mas se formos por selvagens… chegamos em dois ciclos.

Outro barulho percorreu o casco, fazendo uma ferramenta cair no convés.

Cailynm se virou de repente.

— Acho que não é boa ideia, Thurstan. Olhe para a nave. Mal aguenta voar, quem dirá encarar instabilidade, piratas ou monstros?

Arastine se apoiou na amurada, os dedos apertando a madeira trincada.

— Já arriscamos demais. Perdemos a proa, perdemos… — a voz falhou, mas ela forçou a continuar — perdemos ele. E por quê? Porque nos metemos em coisa que não era problema nosso. Eu não vou apoiar outra loucura.

As velas gemeram ao rasgar mais um pedaço do tecido.

— Como assim apoiar uma "loucura"? — Thurstan abriu os braços. — Foram vocês que sugeriram ajudar a nave estrangeira! Eu fui contra!

Arastine girou o rosto de repente, lágrimas presas no canto dos olhos.

— Sim, é verdade. Se eu tivesse ficado contra também, talvez agora a gente tivesse a proa, tivesse dinheiro… talvez ele estivesse aqui! — Ela respirou fundo, a voz amarga. — Não vou repetir o erro.

Um jato de fumaça escapou de um duto atrás deles, fazendo Cailynm tossir antes de continuar:

— Tem também o detalhe de que os instrumentos da nave estão todos fora de funcionamento. Se a nave enfrentar qualquer coisa, estaremos vulneráveis.

— E aí? O que me dizem? — perguntou Garwin, sem tirar as mãos das runas de controle.

— Eu sou contra. — disse Arastine, firme.

— Eu por enquanto prefiro ir pelos portais convencionais, pois… — Cailynm começou, mas Thurstan a cortou.

— Eu não acredito.

— O que foi agora? — perguntou Garwin, virando-se.

A nave deu um solavanco, obrigando todos a se segurar antes que o garoto continuasse:

— Você, Arastine, diz que a minha ideia é loucura. Mas me diz uma coisa: quando foi que eu errei? Quando disseram pra atacar as Puritânias e eu não fui contra? Quem tava certo? Eu! Mas ninguém escuta. É porque eu sou só um garoto? Ou porque sou filho de pirata?

Arastine desviou o olhar, mordendo a boca. O silêncio pesou, só quebrado pelo rangido da madeira.

Cailynm apoiou as mãos no painel, a respiração curta.

— Garwin… há risco dos dois lados. Se formos pelo caminho longo, a Alghoryn pode se desfazer antes de chegar. Cortando por selvagens… é só o risco, mas talvez cheguemos inteiros.

Outro estalo percorreu o casco, como se confirmasse.

Garwin manteve-se imóvel por um instante. Depois, ergueu o rosto, a voz firme:

— Selvagens, então.

Ninguém respondeu. Só o rangido da nave preenchia o ar, enquanto as velas mutiladas se ajustavam ao novo rumo.

O portal selvagem abriu-se diante deles como uma boca instável, sem moldura metálica que desse ordem à turbulência. A Alghoryn mergulhou, o casco rangendo em protesto.

— Seja o que os deuses quiserem. — disse Garwin.

— Deuses? — Thurstan ergueu a sobrancelha, meio debochado. — Ninguém mais venera esse tipo de coisa. Você anda antiquado, hein.

— Ei, vocês dois. — Cailynm cortou rápido. — Parem com isso. Querem magoar ela?

Thurstan baixou a cabeça.

— Desculpa, Arastine. Não era a intenção.

Ela ajeitou o corpo contra a amurada, a voz seca:

— Não se preocupe. Um dia a gente ainda vai reparar essa chaga.

Do outro lado, o céu se abria sobre planícies rochosas cravejadas de cristais suspensos, que pairavam como lâminas de vidro. Cada um pulsava em luz fraca, refletindo a claridade instável.

— Olha o lado de estibordo. — rosnou Cailynm, sem tirar os dedos das runas.

O aeroplano atravessou rente. Um dos cristais raspou no casco quebrado, arrancando mais fragmentos da proa. As pedras se despedaçaram atrás deles em clarões azulados.

Garwin travou as mãos nas alavancas.

— Segura os fluxos de Etherdoorium, amor. Sem proa ela não vai alinhar sozinha.

— Já tô segurando. — ela respondeu, a voz tensa. — Mas cada ajuste suga o triplo de energia.

— Falta muito pra colapsar?

— Não sei, amor. — moveu outra alavanca. — Estamos em território desconhecido.

Um tranco fez a nave despencar alguns metros. Garwin e Cailynm puxaram juntos, e as velas-foles reagiram, gemendo até retomar altura aos solavancos.

Arastine encostou a testa no vidro trincado à frente.

— Isso não devia estar acontecendo… vocês têm certeza que foi boa ideia?

O silêncio de Garwin pesou. Thurstan pousou a mão no ombro dele.

— A gente tá junto nessa, capitão. Vai dar certo.

O segundo portal selvagem abriu-se logo à frente. A travessia lançou-os num deserto de pedra dourada, fendido por rios secos. O vento soprava em lâminas, levantando muralhas de areia.

— E esse lugar agora? — perguntou Arastine.

Cailynm apertou os olhos.

— Vale da Fonte… berço do Etherdoorium.

— Milagre não ter aeroplanos coletores. — disse Thurstan.

— Justamente por isso é ruim. — respondeu Garwin.

Arastine franziu o cenho.

— Não tô entendendo onde vocês querem chegar.

— Se os aeroplanos não estão aqui colhendo pó de Etherdoorium, deve ser porque aconteceu alguma coisa. — Cailynm apontou pelo vidro trincado. — Como aquilo.

No horizonte, uma parede de poeira avançava, engolindo a luz.

— Tempestade. — disse Thurstan, a voz embargada. — E das grandes.

Um estalo cortou o ar. A vela rasgada abriu um rombo maior. O painel apitou vermelho.

— Propulsão instável. — Cailynm rosnou. — Justo agora.

— Quer que eu vá costurar a vela? — Thurstan arriscou.

— Nem pensar. — ela rebateu. — É suicídio ir lá fora.

— Suicídio é ficar empenhado nessa tempestade. — retrucou, amargo.

Outro alarme soou. Um ponto vermelho piscou no painel.

— Não estamos sozinhos. — murmurou Thurstan.

Garwin fechou o punho sobre a alavanca.

— Droga. Mais essa.

Do turbilhão surgiu um aeroplano menor, veloz. O casco leve avançava como chacal sobre uma presa ferida.

— É pirata. — disse Arastine, a voz baixa. — Ele tá vindo direto.

— Eu sabia que tinha uma região dessas que era abandonada por causa dos ataques. — Garwin firmou a voz. — Todos de prontidão. Arastine, pra balista.

Ela respirou fundo, virou-se e desceu a escada, o passo irregular ecoando no metal.

A tempestade já chicoteava o convés. O pirata mantinha a perseguição.

— Mais rápido, Cailynm! — Garwin rugiu. — Não temos nada pra lançar nele.

— Tô vendo… tô vendo! — ela insistia, dedos correndo pelas runas.

O portal oscilava à frente, chama azul presa no vazio.

Thurstan agarrou o encosto da cadeira.

— Se não atravessarmos agora… acabou!

Garwin puxou as alavancas. O casco gemeu inteiro, enquanto o vento e o pirata se fechavam atrás deles.

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