Volume 1
Capítulo 5: Antes que Percamos Mais
Cailynm saiu correndo da ponte, os pés ecoando pelo corredor de madeira e metal. No convés, a brisa salgada a golpeou de frente. Arastine já estava ali, imóvel, o olhar preso à escada que levava ao patamar da casaria do Etherdoorium.
As duas se entreolharam.
— Onde ele está? — Cailynm arfava, o cabelo liso colado ao rosto pela maresia.
Arastine desviou os olhos, apertando os lábios.
— Só consegui chegar até aqui… não tive coragem de ir adiante.
— Então vamos juntas. — Cailynm estendeu a mão.
O casco gemeu sob outro solavanco. Vapores rosados escapavam das juntas da nave. A porta entreaberta da sala rosa reluzia ao fundo, Cailynm se deteve e desvaneceu com a visão. Arastine ajudou a companheira a ficar de pé.
— Se ele entrou lá dentro… — a voz falhou. — O Etherdoorium mata rápido. Só um construto conseguiria trazer o corpo dele de volta.
O silêncio se impôs. Frente a frente, presas entre a porta de bronze e o vazio do convés, as duas se deram as mãos. Um aperto firme, mais que coragem.
Deram alguns passos juntas, até a sombra do painel rúnico. A porta exalava calor, o brilho rosado pulsando além da fresta. Nenhum sinal dele.
O peito de Cailynm desmoronou. Os dedos tremeram.
— Não… — murmurou, os olhos marejados. — Não pode ser.
Arastine a puxou num abraço apertado, a voz rouca junto ao ouvido dela:
— Sinto muito.
O convés parecia ruir sob os pés. O silêncio pesava como chumbo, até ser rasgado por um grito.
— Aqui!
Ambas ergueram o rosto ao mesmo tempo. O som não vinha da sala. Ecoava do lado de fora, além da amurada.
Correram até a borda. O vento chicoteava, sal e fumaça no ar. E lá estava ele: Garwin, suspenso, agarrado a uma corda solta que se balançava contra o casco. Os músculos retesados, o olhar feroz.
Cailynm cobriu a boca, o peito arfando. As lágrimas que antes queimavam de medo agora escorriam em alívio desesperado.
— Garwin… — sussurrou, quase sem voz.
Arastine já se inclinava sobre a amurada, os olhos arregalados, as mãos procurando a corda.
— Ele tá vivo! — rosnou, como se precisasse convencer a si mesma. — Vamos puxar!
O vento batia firme no convés, misturado ao ranger do casco ferido. O silêncio depois da batalha era quase estranho, só quebrado pela corda que se esticava sob o peso de Garwin.
— Ainda bem que chegaram. — a voz dele subiu da amurada, rouca, mas carregada de força. — Eu consigo, só mais um pouco.
Arastine fincou os pés contra a madeira, os músculos tensos, puxando a corda com ambas as mãos. As fibras arranhavam a pele, mas ela não recuava, o olhar fixo na borda.
— Vamos, capitão… só mais um esforço! — rosnou entre dentes, os braços tremendo sob a carga.
Cailynm caiu de joelhos ao lado dela, apoiando as mãos na borda, o coração disparado. O comunicador vibrou no cinto.
— O que aconteceu? — era Thurstan, a voz tensa, seca. — Onde ele está?
Ela levou o cristal à boca, a respiração entrecortada.
— Ele está bem… — disse entre lágrimas e alívio. — Ficou preso numa corda… Arastine está puxando ele.
Do outro lado, silêncio. Depois apenas um sopro curto:
— Então tragam o capitão de volta.
Com um último puxão, corda deslizou, e Garwin surgiu pela borda, o uniforme rasgado, as mãos ainda firmes no cabo. Com um impulso, apoiou as botas no convés e caiu de joelhos, respirando fundo.
Arastine o agarrou num abraço rápido, como se precisasse ter certeza de que era real. Garwin a apertou de volta, firme, antes de se virar para Cailynm. Ela ainda estava de joelhos, os olhos marejados. Ele a puxou contra si e a beijou, breve, intenso, o suficiente para silenciar o tremor da respiração dela.
Só então ergueu o rosto, o olhar duro e seguro:
— Tudo bem, estou de volta. Agora… vamos buscar o Vendeler.
Garwin atravessou a porta da ponte ainda com o peito arfando. Não teve tempo de falar nada — Thurstan se lançou sobre ele, os braços apertando-o num abraço forte, quase desesperado.
O garoto prendeu a respiração, o rosto enterrado contra o ombro do capitão.
— Bem-vindo de volta. — murmurou, firme, sem humor na voz.
Garwin retribuiu o aperto, o peso do momento entre os dois. Quando se afastaram, os olhos do capitão já estavam voltados para o painel.
— Vendeler, responda. — disse ele através do comunicador.
O comunicador vibrou. A voz de Vendeler ecoou, abafada pelo chiado:
— Ainda estou aqui. Consegui segurar o condutor… mas a armadura cobra seu preço. Pouca energia sobrando.
— Aguente firme. — disse Garwin, o tom baixo e duro. — Vamos pegar você e sair daqui.
O chiado voltou, mais fraco.
— Estarei esperando. Só não demorem.
Garwin assentiu em silêncio e fez sinal para Cailynm.
Ela passou os dedos pelas runas do cristal. Os símbolos acenderam em ondas.
— Dois aeroplanos sambrehianos ainda estão a sudoeste da nossa posição. Atacando aquela nave estrangeira. — a voz dela era objetiva, seca. — Escudos plenos, rota constante.
Garwin se inclinou sobre o mapa. Linhas de luz se moviam devagar na projeção.
— Se eles estão ocupados, podemos passar despercebidos. Norte-noroeste. A Alghoryn ainda aguenta essa curva?
— Aguenta. — disse Cailynm, o olhar firme.
Garwin pousou a mão sobre o leme. Thurstan soltou-o sem resistência, apenas trocando um olhar breve com o capitão. Garwin assumiu a posição, o corpo inteiro se ajustando ao peso da madeira rúnica.
— Thurstan. — disse sem desviar os olhos. — Condições da nave.
— Costado de bombordo rachado, duas velas quase no limite, e um dos dutos de propulsão cuspindo mais fumaça que vento. — respondeu o garoto, respirando fundo. — Mas ela ainda voa.
— Então, depois dessa, vai ganhar um descanso no estaleiro. — completou Garwin puxando o leme, o olhar fixo na rota traçada.
As velas propulsoras bateram mais uma vez, enquanto a proa apontou para o norte em uma subida lenta e estável.
— Norte-noroeste. Vamos buscar nosso amigo.
As velas da Alghoryn deslizaram na rota traçada. O silêncio do convés só era quebrado pelo ranger das juntas fatigadas e pelo bater compassado do casco contra o vento.
Do outro lado do vidro, a escuridão se rasgava em clarões carmesins. Os dois cruzadores Sambrehianos alvejavam sem descanso o objeto negro suspenso no ar. Ele pairava imóvel, luzes metálicas refletindo cada impacto sem devolver nada. Não havia reação. Apenas resistência muda.
Cailynm passou os dedos pelas runas, o rosto iluminado pelo painel.
— Que estranho. Os escudos estão intactos … mas não responde. Estão atirando só porque é estrangeiro.
Garwin apertou o leme com força.
Arastine fechou os punhos. O clarão das explosões tremia em seus olhos.
— Isso não é luta. É covardia. Eu já vi essa cena antes… Garwin, o que vamos fazer? Não podemos ficar parados.
— Não. Vamos seguir o nosso caminho. Vendeler está nos esperando. — disse Garwin.
— Mas Garwin, se a gente não ajudar, podem inocentes morrer. — Cailynm ergueu os olhos do painel.
Thurstan bufou, apoiado no leme auxiliar.
— Gente morre todo dia. A gente quase foi junto agora há pouco. Nosso trabalho é pegar o Vendeler e sair daqui. Não dá pra se meter nisso.
— O que você tá falando, seu idiota? — Arastine agarrou a gola dele.
— Idiota é você! — ele a empurrou de volta. — Quer nos matar à toa? Quer matar o Vendeler?
— Chega dessa bobagem! — Garwin explodiu, a voz cortando os dois. — Vamos seguir com o plano e buscar o Vendeler.
O silêncio caiu como um peso. Só os disparos distantes preenchiam o ar.
Cailynm hesitou, depois falou baixo:
— Eu já conheço a interface das Puritânias. Posso derrubar as armas delas outra vez.
Arastine bateu a mão contra a amurada.
— E eu quebro as velas. Elas ficam imóveis. Não teriam como atirar nem fugir.
Thurstan girou os olhos, quase rindo.
— E se a Alghoryn não aguentar? Vocês esquecem fácil o que ela sofreu. Um casco desses não sobrevive a outra colisão.
Garwin permaneceu calado. Os olhos fixos além do vidro, assistindo aos clarões vermelhos contra o casco negro do estrangeiro. Nenhuma resposta. Só o mesmo golpe repetido, vez após vez.
— Capitão… — murmurou Cailynm.
Ele ergueu a mão, encerrando a voz dela.
— Continuar. Norte-noroeste. — O tom seco não deixava espaço para réplica.
O convés mergulhou em silêncio. Cada impacto distante parecia ressoar dentro do peito da tripulação.
Garwin ficou imóvel por longos instantes. Depois, puxou o comunicador sem desviar os olhos do massacre.
— Vendeler, ainda tem energia? Cailynm vai mandar a rota. Venha ao nosso encontro.
O cristal chiou em resposta, mas Garwin já se voltava.
— Arastine, balista inferior.
Ela assentiu de imediato.
— Cara, eu não acredito… — murmurou Thurstan em desaprovação.
— Cailynm. Solte os construtos, faça eles formarem um perímetro. Vamos usar como disruptor mágico, confundir as interfaces deles.
— Mas, Garwin… — Thurstan começou.
— Você desce pra ajudar a Arastine. — cortou o capitão.
Garwin empurrou o leme. A Alghoryn rangeu, mas respondeu. A proa se virou, cortando o vento na direção dos clarões.
As velas da Alghoryn estremeceram quando o comunicador vibrou na mesa rúnica.
— Tenho energia, sim… pelo menos o bastante pra voltar. — disse Vendeler, a voz calma, arrastada. — Se me disserem onde, eu alcanço vocês.
Garwin ergueu o queixo, o olhar firme.
— Tudo bem. Pode vir.
Cailynm passou os dedos pelo painel. Runas se acenderam, e o casco da Alghoryn cuspiu seis esferas metálicas, disparadas em sequência. Elas cruzaram o céu como tiros, até abrirem asas rúnicas incandescentes. Giraram e tomaram posição, formando um círculo hexagonal em torno do combate.
— Disrupção iniciada. — disse Cailynm, a voz baixa. O painel refletia em seus olhos enquanto linhas de energia se entrelaçavam no ar.
— Vamos chegar por cima. Assim Arastine tem ângulo total no disparo. — completou Garwin.
— Já estão presos no perímetro. — ela respondeu. — Escudos e armas vão oscilar.
— Oscilar, não. — o tom de Garwin endureceu. — Quero todos os escudos derrubados e as armas mortas.
Cailynm mordeu o lábio, hesitante.
— Não é tão simples. Sem construtos infiltrados, só consigo cortar o fluxo, não apagar de vez.
Garwin virou o rosto para ela, a raiva contida.
— Então você mentiu.
Ela engoliu seco, rindo nervosa.
— Eu… eu só disse o que precisava pra termos esperança.
— Esperança? Diz isso pra eles, que vão morrer sem saber. — a voz dele soou fria. — Agora, faz alguma coisa que presta, e tenta nos manter vivos.
Do outro lugar da nave, o comunicador chiou com a voz de Arastine:
— Capitão, a balista tá pronta. Só diga a hora.
E Thurstan, na sequência, ríspido:
— Isso vai acabar mal. Eu falei.
Cailynm não respondeu. Os dedos voaram pelo painel, runas piscando em cascata. O hexágono de esferas vibrou, e uma onda de distorção varreu o céu.
As torres das Puritânias engasgaram. Selos se acenderam e se apagaram num clarão irregular. Os disparos cessaram.
O objeto negro, até então imóvel, oscilou. Girou sem controle e despencou como pedra. O mar o engoliu, ondas explodindo em volta do casco metálico que agora boiava inerte.
Garwin apertou ainda mais o leme.
— Não tire os olhos deles, Cailynm. Se isso falhar, a gente morre junto.
A Alghoryn avançava rente ao vento. As velas rangiam sob a força da curva, o casco deslizando pelas sombras. Lá embaixo, o navio estrangeiro seguia imóvel.
— Eles não nos percebem. — murmurou Cailynm.
— Melhor assim. — Garwin não desviou o olhar. — Arastine, agora.
Um estalo sacudiu a estrutura. A balista disparou de cima, cuspindo uma lança de raio.
— Isso! — Arastine gritou pelo comunicador.
O clarão atravessou as velas traseiras da Puritânia. O tecido etéreo se rasgou como papel incandescente. O segundo tiro seguiu logo atrás, transpassando o casco de um lado ao outro.
— Outra! — Arastine vibrou. — Agora ela não pode mais se mover!
— Praticamente fora de combate. — disse Garwin.
— Sim! — a voz de Arastine ecoou, carregada de fúria.
— Isso até eles pedirem reforços. — retrucou Thurstan. — Isso se já não fizeram.
— Negativo. — interrompeu Cailynm, seca. — Os disruptores cortam a comunicação. Estão cegos, surdos e mudos.
O cruzador sambrehiano estremeceu. As velas rasgadas soltaram fagulhas antes de se partirem em cascata, fragmentos em brasa caíam como uma chuva sobre o mar. O aeroplano perdia altura.
O comunicador da Alghoryn chiou, estourando em vozes desordenadas:
— Segurem as velas! — alguém berrava.
— Não dá, não dá! — outro respondeu.
— Recuem, recuem!
— O casco está cedendo!
— Pelos deuses!
— Alguém assuma o leme!
As frases se atropelavam, misturadas a gritos e preces, um coro de pânico captado no ar.
— Eu queria ver eles falando agora com aquela vozinha distorcida de antes… — disse Cailynm, os olhos no painel.
Arastine ergueu os punhos.
— Acabou pra eles!
Thurstan soltou um riso curto.
— Um a menos! Um a menos...
— Sim, vamos pegar o outro covarde.
O aeroplano avançou em uma curva aberta contra o vento, a sombra da segunda Puritânia crescendo à frente.
O comunicador vibrou.
— Garwin, vejo fumaça na posição que você me enviou… — a voz de Vendeler soou fraca. — É aí mesmo?
— Nada demais. — respondeu Garwin, sem tirar os olhos do leme. — Só resolvendo um probleminha. Continue na rota.
O casco inimigo surgiu no horizonte. As velas brilhavam intensas, e à frente o canhão de proa tomava forma, anéis de runas acendendo em círculos. O brilho pulsava do centro como um coração prestes a explodir.
— Garwin, olha! — a voz de Thurstan estourou no comunicador. — É o canhão de proa. O mesmo que usaram contra nós.
— Eles vão disparar na nave estrangeira. — murmurou Cailynm.
Garwin permaneceu em silêncio. O clarão do canhão crescia a cada instante.
Cailynm engoliu seco.
— Como um aeroplano tem todo esse poder de fogo?
— Porque eles abrem um duto direto do Etherdoorium. — a voz de Arastine soou firme. — Toda a energia da nave é direcionada para aquele tiro. Não sobra nada pra defesa.
O silêncio pesou na ponte.
— Pois é. Já sabemos o estrago que essa coisa pode fazer… Amor. — disse Garwin, sem tirar os olhos da Puritânia. — Entre na interface mágica. Quero que interrompa esse disparo.
Os dedos de Cailynm correram pelas runas. O painel piscou, linhas instáveis, símbolos se apagando no mesmo instante em que surgiam. Ela balançou a cabeça.
— Não consigo. O campo deles está oscilando demais. Não dá pra infiltrar.
— Alguma outra opção? — perguntou Garwin.
— Se atirarmos, atravessa os escudos. — disse Arastine.
— Não adianta. O disparo vai acontecer. — completou Thurstan.
O canhão pulsava mais forte, iluminando todo o casco inimigo.
Garwin firmou os dedos no leme.
— Então não resta nada.
— Vamos mirar na popa, então.
As velas da Alghoryn se inflaram, cuspindo vento e energia. O casco avançava em aceleração bruta, a proa apontada como uma lança.
— Garwin, não faz isso! — Cailynm gritou, os dedos ainda correndo pelas runas. — Se batermos, a nave não aguenta!
— Capitão, isso é suicídio! — rosnou Thurstan pelo comunicador.
Garwin não respondeu. O olhar permanecia fixo no alvo, as mãos firmes no leme.
— Ele não vai parar… — murmurou Arastine pelo comunicador. — Então segura firme, Thurstan.
O impacto veio num estrondo seco. A traseira da Puritânia se abriu em lascas; metal retorceu, runas morreram em sequência.
A proa da Alghoryn atravessou a popa inimiga e saiu do outro lado. A frente desapareceu sob o choque; juntas rangiam alto; o que restava do casco vibrava como se fosse partir.
— Capitão, a Arastine! — gritou Thurstan, a voz embargada.
— O que houve com a Arastine? — perguntou Cailynm.
— Ela bateu forte com a cabeça, tá desacordada!
— Não faz mal. — disse Garwin, resfolegando. — A gente já vai embora. Estou vendo o Vendeler daqui.
Do outro lado, os restos do cruzador se despedaçavam. Madeira e ferro choviam em cascata. O bloco do Etherdoorium faiscou no ar, cuspindo arcos rosados antes de despencar em queda torta.
— Vai cair! — gritou alguém pelo comunicador.
O núcleo tombou sobre a nave estrangeira que ainda boiava inerte. O choque abriu uma fenda de luz branca, rasgando o casco como se fosse papel.
— Os escudos sumiram! — Cailynm levou a mão à boca.
— Como?
— Não sei! Deve ter sido por causa da destruição da proa.
— Não podemos ficar sem isso. Dá um jeito.
— Eu vou tentar… mas a Alghoryn pode não aguentar.
— Que seja.
A primeira explosão puxou outras atrás de si. Clarões se multiplicaram em ondas; linhas de magia correram pelo ar, rebentando tudo ao redor. Fragmentos incandescentes jorraram em todas as direções.
— Pelos portais… — murmurou Thurstan, o rosto lavado pelo clarão.
O mar reagiu com violência. Colunas de água se ergueram, depois uma muralha inteira avançou contra a enseada. O impacto atingiu a costa; espuma e sal subiram como neblina densa.
— Segurem-se! — a voz de Garwin ecoou pelo convés.
— Isso vai engolir a gente junto! — gritou Thurstan, agarrado à amurada.
Estilhaços cortaram o ar como lâminas. Brasas grudavam nos destroços, queimando até virarem pó em pleno vento.
O som não era um estrondo só, mas uma sucessão de martelos, vidro quebrado, runas colapsando. A luz branca piscava entre fumaça e vapor, lançando sombras que giravam no céu.
Na superfície, placas gravadas boiavam entre algas soltas e cordas partidas. A enseada inteira vibrava em ecos, como se a própria magia ainda explodisse sob as ondas.
As runas no coração da Alghoryn acenderam. O Etherdoorium pulsou, espalhando círculos de energia pelo casco. Um escudo azul-violáceo ergueu-se ao redor da nave, tremulando como vidro líquido.
— Ativei o campo! — gritou Cailynm, os dedos correndo sobre as runas.
Os primeiros estilhaços bateram contra a barreira e se desintegraram em fagulhas. Outros se incendiaram antes de tocar o casco. A chuva de lâminas virou poeira luminosa no ar.
— Segura, menina… — murmurou Garwin, a mão firme no leme.
O clarão ainda queimava no horizonte quando um ponto se aproximou no céu. Pequeno, oscilando como brasa solta.
— É ele! — Cailynm correu até o vidro da amurada, o rosto colado contra a luz. — Vendeler!
— Eu também vejo. — disse Thurstan, a voz vacilante.
O ponto se aproximava, num voo cambaleante, como se cada metro fosse um esforço.
— Minha energia… tá no limite… — a voz de Vendeler soou pelo comunicador, entrecortada.
— Ele conseguiu… — murmurou Cailynm, os olhos marejados. — Ele vai voltar!
— Ótimo. — disse Garwin, o tom firme. — Amor, habilite a passagem pelo escudo.
— Não precisa, ele já está—
Um clarão explodiu atrás da nuvem de destroços. A onda de magia varreu o céu; fragmentos incandescentes se espalharam em todas as direções.
O ponto desapareceu.
— Vendeler! — o grito de Cailynm rasgou o convés.
— Não!
O comunicador chiou. Um ruído seco. Depois, silêncio.
Garwin manteve os olhos presos no vazio.
— Ele tava tão perto…
Thurstan fechou os punhos, a voz amarga:
— Eu avisei. Eu disse que ia acabar assim.
Cailynm caiu de joelhos, soluços escapando em ondas curtas. O escudo azul ainda brilhava, mas nada podia devolver o que havia sumido.
Garwin permaneceu imóvel. O olhar perdido no horizonte, onde fumaça, ondas e destroços boiavam entre a espuma. A proa inexistente da Alghoryn apontava para o nada.
Ele girou o leme com esforço, o casco respondendo em gemidos.
— Vamos voltar. Antes que a gente perca mais.
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