Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 1

Capítulo 4: Precisamos de potência

O flanco das Puritânias ardia em vermelho vivo. Runas pulsavam nos braços das balistas, fileiras inteiras prontas para cuspir fogo. O ar na ponte do cruzador vibrava, cheirando a ferro aquecido.

— Ordem recebida! — gritou o oficial de armas, a mão firme sobre o cristal de comando. — Os canhões de energia estão carregados, vão disparar!

Nada aconteceu.

O silêncio caiu pesado, quebrado apenas pelo zumbido dos círculos mágicos. As armas carregaram a energia condensada, mas nenhum feixe saiu.

— O que está esperando? — rugiu o comandante, erguendo-se do trono que servia como comando central da nave. — Execute!

— Eu já executei, senhor! — a voz do oficial vacilou. Ele girou o cristal outra vez, traçando símbolos no ar. Nada. A energia apenas se dispersava como fumaça fria.

Outro oficial empurrou-o de lado, inclinando-se sobre o painel de obsidiana.

— Incrível… não responde. Nem o comando manual.

— Corre! — gritou o comandante a um dos artilheiros. — Vai até as balistas, reacende as runas com carvão, sangue, o que for!

— Senhor… são canhões de energia arcana, não… — começou o oficial.

— O que você disse?

— Última formação, senhor! — tentou corrigir-se, engolindo seco.

— Suma da minha frente, antes que eu mesmo o jogue no mar. — o comandante rosnou.

O artilheiro disparou pelo corredor, mas a tensão já enchia o convés. As inscrições das paredes se apagavam em cascata, como se uma maré azul corroesse cada círculo de poder.

***

— Eu não acredito. — rosnou Garwin, mergulhando o leme. Os cruzadores o acompanhavam, implacáveis.

Cailynm afastou os dedos do cristal, a respiração curta. Fios de luz azulada se espalhavam pelo painel, vibrando em triunfo.

— Consegui. — murmurou. — As armas deles estão mudas.

Garwin soltou o ar pelo nariz, o maxilar travado.

— Bom trabalho. Agora é comigo. Precisamos sair.

A nave sacudiu com violência; as luzes piscaram, quase derrubando todos no convés.

— Não adianta! — gritou Thurstan, segurando-se ao leme auxiliar. — Mesmo sem as balistas, eles ainda podem nos esmagar com o casco. A potência da Alghoryn não chega nem perto da deles!

Garwin virou o rosto, os olhos em brasa.

— É verdade. Você me disse que queria provar o seu valor, certo?

O garoto arregalou os olhos. Um silêncio denso tomou a ponte.

— Thurstan… o leme é seu!

Ele engoliu seco, depois agarrou o comando principal com as duas mãos, os dedos trêmulos.

— Como assim, “o leme é seu”?

— Você não queria provar o seu valor? Que é digno de ser filho de um temido capitão pirata? Então segura firme!

Cailynm se virou para Garwin, a voz quase em desespero:

— Amor! O que você vai fazer?

Garwin já se erguia, o passo decidido.

— Thurstan não disse que falta potência? Então eu vou arranjar potência.

Ele lançou um olhar rápido para cada um deles, firme como aço.

— Agora eu conto com vocês.

E disparou para fora da ponte de comando.

O corredor da Alghoryn pulsava de luz azulada. Golens metálicos seguiam em suas rotinas, uns humanoides de braços desproporcionais empurravam engrenagens, outros em formas grotescas, presos a polias e correntes que faziam as velas etéreas estalar como aço tensionado. Nenhum deles vacilava, mesmo quando a nave inteira sacudia.

— Espero que aguente, Alghoryn. — murmurou Garwin, passando a mão pelo casco metálico. — Senão afundaremos juntos.

O casco tremeu. Uma Puritânia abalroou o flanco de estibordo, e a madeira encantada rangeu como um animal ferido. Garwin segurou-se nas cordas, o corpo arremessado contra a parede.

O comunicador chiou.

— Garwin. Onde atiro? — A voz de Arastine, abafada pelo esforço.

— Não adianta. — respondeu Garwin, seco, ajeitando a postura. — Os escudos deles tão plenos.

— Como assim plenos? — Arastine bufou, a respiração pesada pelo transmissor. — Então vamos ficar passivos até eles nos derrubarem?

— Não seja assim, Arastine. — Garwin segurou firme numa corrente, a voz baixa. — Sua hora vai chegar. Eu sei que vocês vão conseguir.

— Como assim, vocês?

— Não ligue pra isso. — ele desviou o olhar para o chão, acelerando o passo. — Só pensei numa bobagem.

— Bobagem? — Arastine rosnou. — Bobagem é esse seu leme aleijado. Vai deixar eles baterem em você desse jeito?

Garwin riu curto, o som abafado pelo ranger do casco.

— Dessa vez sou inocente. Thurstan está no leme.

— Thurstan? — a voz dela quase quebrou na estática. — Se ele tá no leme, onde você tá?

— Vendeler está na linha. Depois falo com você. — Garwin puxou uma corda, estabilizando-se enquanto o corredor chacoalhava.

Outro solavanco atravessou o convés. Círculos rúnicos nas paredes piscaram, e dois golens tombaram, só para se erguerem de novo e retomarem o trabalho como se nada tivesse acontecido.

— Consegui o condutor. — Vendeler arfava, embora a calma típica ainda estivesse na voz.

— E aí? É dos bons? — perguntou Garwin, desviando por uma escada curta.

— Ainda não sei. — respondeu Vendeler. — É uma caixa preta.

— Caixa preta? — Garwin estreitou os olhos. — E o que isso significa?

— Segura, mas não incorruptível.

— Tudo bem. — ele apertou o passo. — Vou me livrar dessas naves aqui e o pessoal vai direto para a sua posição.

— Entendido. — Vendeler respirou fundo, o som metálico da armadura chiando no fundo. — Só não demorem muito. Não esqueça que o construto se alimenta da minha energia mágica. Se falharem… eu caio no mar.

Garwin continuou a avançar. Um tranco fez o corredor inteiro estremecer, cordas estalando, o piso ressoando sob seus passos.

— Capitão! — a voz de Thurstan entrou, nervosa e abafada pelo chiado. — Assim que fizer o que tem que fazer, me dá o sinal. Vou mostrar uma manobra que nunca ninguém ousou antes.

— Claro que vai. — Garwin arqueou as sobrancelhas, quase sorrindo. — Faça seu capitão se sentir orgulhoso.

— Eu vou! — respondeu o garoto, o tom mais alto do que pretendia.

Garwin não respondeu. O suor escorria pelo rosto, misturado ao pó que caía das paredes. Seus olhos estavam fixos à frente, o passo firme, pesado, como se cada abalo da nave apenas o empurrasse mais rápido rumo ao destino.

— Eu sei que vai. — sussurrou apenas para si, as palavras sumindo no rugido do casco.

Outro baque sacudiu a estrutura. Garwin cambaleou, segurou-se numa corrente, respirou fundo. A escada para o convés ainda estava alguns passos adiante, atrás da porta de bronze repleta de runas.

E ele seguiu, em silêncio.

O convés retinia sob os passos do capitão. O corredor estreito se abriu diante dele, até o painel de bronze repleto de runas.

Ele parou, ignorando o vislumbre das naves inimigas que apareciam na janela ao lado, os olhos fixos no vidro reforçado.

— Aí está você… o coração da Alghoryn.

Do outro lado, o Etherdoorium pulsava em rosa intenso. Golens metálicos se moviam em silêncio, alimentando cabos, com seus corpos grotescos presos a polias que bombeavam a energia do cristal através de dutos metálicos.

O comunicador chiou.

— Amor. — era Cailynm, voz firme, mas com um fio de ansiedade. — Tenho as armas no meu controle. Posso disparar quando quiser.

Ele manteve os olhos na porta.

— Excelente. Então, você já sabe o que fazer.

Um silêncio breve do outro lado.

— O que está acontecendo?

Garwin apoiou a mão no painel, sentindo o calor das runas sob a pele.

— Eu te amo.

Cailynm prendeu a respiração. O chiado da linha quase engoliu sua resposta, mas nada veio.

Garwin baixou a alavanca principal. Um estrondo percorreu a nave. Do outro lado do vidro, os golens estremeceram, runas apagando e reacendendo, engrenagens etéreas rangendo.

— Aguenta firme, minha velha…

Ele puxou outra. O cristal reagiu, azul se misturando ao rosa, faíscas correndo pelas paredes. O cheiro de ozônio encheu o ar.

— Se eu tiver que entrar lá… e morrer… ainda assim vai valer a pena.

A mão deslizou até a trava da porta. O rosto iluminado pelo brilho pulsante.

— Maldito coração… você ainda vai me matar.

Ele hesitou. Olhou para uma alavanca menor, marcada com runas proibidas. O punho fechou-se em torno dela, e ele a puxou.

As paredes tremeram. A luz do Etherdoorium explodiu em azul-violáceo. Golens caíram, estalando como vidro. As velas etéreas vibraram como se fossem se rasgar do mastro, e o casco inteiro rangeu num lamento profundo, quase humano.

O comunicador voltou a chiar. A voz dele saiu falha, cortada pela interferência:

— Consegui… Agora é com vocês.

A estática mágica devorou o resto.

— Agora! — Thurstan berrou, puxando o leme com força.

As velas de propulsão cuspiram fumaça rosada pelos dutos traseiros, uma névoa densa que manchava o céu como sangue dissolvido em água.

— Thurstan, cuidado! — Cailynm agarrou-se ao painel quando o aeroplano mergulhou.

O casco roçou no mar em um arrasto dramático. Ondas gigantescas se ergueram, espuma voando em jatos. As Puritânias, pegas de surpresa, não tiveram tempo de ajustar a rota. Os dois cruzadores se chocaram de lateral, o estrondo reverberando como trovões gêmeos.

— Ihaaa! — gritou Thurstan, nervoso e eufórico, os olhos acesos. — Era disso que eu tava falando!

— Thurstan, se você continuar nesse ritmo as velas vão acabar queimando! — Cailynm ainda se erguia, ofegante.

— O que você fez, seu imbecil? — a voz de Arastine trovejou pelo comunicador. — Tá querendo nos matar?

— Olha aqui, o mira-torta. — retrucou Thurstan, a voz debochada e trêmula. — A minha parte eu já fiz. Agora vê se faz a sua também e finaliza esses babacas!

***

No porão de um dos cruzadores Sambrehianos, o oficial de inspeção avançava às pressas. O corredor vibrava com a energia instável.

— Maldição… Eu e a minha boca enorme! — resmungou, descendo os degraus. — Por que eu fui inventar de corrigir que era canhão, não balista?

O salão se abriu em sombras vermelhas. O chão inteiro fervilhava com esferas metálicas. As mesmas que foram despejadas pela Alghoryn no início da perseguição. Agora, pernas mecânicas se abriam em padrões radiais, presas às correntes de energia que alimentavam as armas. As linhas azuladas eram sugadas, drenadas até restarem apenas fagulhas.

O oficial estacou, a respiração presa no peito.

— Por todos os planos…

As esferas vibraram. Estalos correram pelo metal. Uma delas se abriu como um olho aceso e saltou contra ele. O clarão branco engoliu o porão inteiro.

***

Na ponte da Alghoryn, Cailynm disparou o comando, o painel cuspindo luz.

— Os escudos deles caíram! Agora, Arastine!

— Mira na vela. Mira na vela! — rugiu Thurstan, suando no leme. — Isso se você ainda quiser ver o seu Vendeler!

A torre inferior girou. A balista de raio cuspiu um feixe azulado que varou o céu e cravou-se nos dutos de propulsão traseiros do cruzador mais próximo. O impacto abriu o casco em estilhaços, a vela incendiou-se num clarão. A nave perdeu equilíbrio, girou em “L” e invadiu a rota do outro cruzador.

— Deu certo! Deu certo! — gritou Arastine pelo comunicador.

— Calma, Arastine. — Cailynm mexia no painel, a voz firme. — Ainda tem mais. Observe.

Um estalo atravessou o ar. Os construtos dentro dos cruzadores explodiram em sequência.

Clarões carmesins abriram as entranhas dos cascos, mastros e velas voaram como ossos arrancados. O mar abaixo refletiu ondas de fogo. Um clarão final engoliu as duas naves quando as esferas restantes detonaram em cadeia. As Puritânias ruíram em pedaços flamejantes, despencando até sumirem no abismo das ondas.

Na ponte da Alghoryn, o silêncio se impôs. As velas como foles batiam. Agora calmas, sem mais fumaça nos dutos.

— Garwin… — chamou Arastine pelo comunicador. — Conseguimos. Vamos buscar o Vendeler.

Nenhuma resposta. Só o chiado.

Cailynm abriu os olhos, marejados, mas permaneceu muda.

Thurstan apertou o leme, a respiração pesada.

— Vocês duas, o que estão esperando? — rosnou. — Subam lá. Vejam se ele ainda está bem.

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