Volume 1
Capítulo 3: Em linha reta: Desconfiar é suficiente
O casco da Alghoryn gemeu quando as velas etéreas inflaram ao máximo, cuspindo fagulhas rosadas pelo ar. O vento mágico rasgava a madeira e o metal, fazendo cada runa do convés vibrar como se fosse quebrar a qualquer instante.
— Eles vão nos fechar. — disse Cailynm, os dedos correndo pelo cristal do painel. — Escudos plenos.
Thurstan agarrou o leme auxiliar, o rosto tenso.
— Escudos ou não, eles vão engolir a gente!
Atrás, duas Puritânias avançavam cortando o céu como predadores. Eram maiores, velas largas, cascos encantados. A cada segundo a distância se encurtava, o brilho das inscrições bélicas crescendo.
Garwin manteve o olhar fixo.
— Segura curso. Em linha reta.
Thurstan bufou, batendo o pé no assoalho.
— Linha reta? Desde quando você virou suicida? Não vê que eles já estão com os Canhões de energia prontos? Dá pra ver daqui!
— Menos, Thurstan. — respondeu Garwin, com um sorriso de canto que não chegou aos olhos. — Quem manda aqui sou eu.
— Amor… acho que já tá na hora. — disse Cailynm, sem erguer os olhos do painel.
— Então tá. — Garwin assentiu, firme. — Vai, Thurstan. Abre as comportas traseiras.
— Você quem manda. — resmungou ele, puxando a alavanca.
O estalo metálico ecoou quando a popa da Alghoryn abriu suas comportas. Engrenagens giraram, e milhares de esferas metálicas, do tamanho de melancias, foram liberadas, flutuando no ar como se estivessem presas por fios invisíveis.
— Eu não acredito. — Thurstan arregalou os olhos. — As bolas da mercadora Quangra? Aquelas que eu disse que era sucata!
Cailynm ergueu os olhos e deixou escapar um sorriso breve, mas não disse nada.
Thurstan riu nervoso, mexendo no cinto.
— O que vocês fizeram? Encheram de explosivo? Ou meteram uns encantamentos dentro?
Ninguém respondeu.
As Puritânias avançaram e atravessaram o enxame. Explosões rasgaram o ar, ondas de impacto reverberando contra os escudos. O painel da ponte tremeu com as ondas de choque, linhas carmesins piscando, mas os cruzadores seguiram firmes, apenas balançando com o baque.
— Foi só cócega… — murmurou Thurstan, a voz quebrada entre medo e deboche.
Garwin fechou a mão no leme, o maxilar travado.
— É. Não foi o bastante.
Cailynm desviou o olhar, rápida, as inscrições mágicas refletindo na íris clara.
No painel mágico, as Puritânias começaram a se alinhar, os compartimentos laterais se abrindo como bocas cheias de balistas.
O casco da Alghoryn foi apertado quando as Puritânias se abriram em formação. Uma à bombordo, outra à estibordo, deslizando até que o aeroplano menor ficou comprimido no meio, sem saída.
— Cailynm. — chamou Garwin.
— Ainda não.
As comportas dos cruzadores se abriram com estalos de engrenagens, exalando vapores quentes. Fileiras de canhões encantados se projetaram, as runas nos braços acendendo um a um. O brilho carmesim pulsava em ondas, corações prontos para disparar.
— Eles vão abrir fogo… — murmurou Thurstan, tamborilando no leme auxiliar. — Somos mais rápidos, vamos em zigue-zague!
— Não. Linha reta. — ordenou Garwin. — Acelera.
A voz de Arastine surgiu pelo comunicador, nublada pela estática:
— Permissão pra atirar.
— Negada. — respondeu Garwin, firme. — Segure os ânimos. Você vai ter o seu momento.
— Dessa forma, só se for no além-túmulo… — resmungou Thurstan.
Cailynm manteve os olhos no painel, respiração contida. Os dedos corriam pelos símbolos arcanos, círculos secundários se entrelaçando como teias. Reflexos azulados espalharam-se pelo cristal.
— Quase…
— Vai, amor. — disse Garwin, sem desviar o olhar da formação. O aeroplano subia e descia, buscando se desalinhar da linha de tiro. — Só preciso de uma janela.
As luzes dos canhões brilharam mais forte. Energia condensada tensionava os arcos. O ar vibrou, estalos secos ecoando como trovões contidos.
A ponte encolheu no silêncio.
— Acelera…
Garwin empurrou a alavanca. Os foles das velas bateram como asas de pombos levantando voo.
— Acelera…
Os canhões se energizaram.
— Agora!
O casco da Alghoryn vibrou quando Garwin puxou a alavanca.
— Segurem-se!
As velas retraíram com estrondo. A nave freou de forma tão brusca que o convés sacudiu inteiro. Thurstan se agarrou no painel, por um momento seus pés saíram do chão. Cailynm caiu e bateu a cabeça num instrumento; um fio de sangue escorreu da têmpora.
— Tá ficando maluco, é? — disse Thurstan ainda preso ao leme auxiliar.
As Puritânias passaram pelo flanco, enormes, as silhuetas cobrindo toda a janela. No mesmo instante, os canhões laterais cuspiram clarões carmesins.
— Toma! — gritou Garwin.
Feixes cruzaram o espaço que a Alghoryn ocupara um segundo antes. O fogo cerrado se chocou entre as próprias Puritânias, as ondas de impacto fazendo os cruzadores sacudirem ao se cruzarem à frente.
Um disparo raspou a vela de bombordo, arrancando estilhaços e deixando um rastro de chamas azuis. O convés inteiro vibrou com a força dos impactos desperdiçados.
— Eles se atiraram um no outro… — a voz de Arastine arfou pelo comunicador, já com a balista de raio girando. — Se não fosse a freada, a gente virava cinza!
— Você está bem, amor?
— Tô. Só com dor de cabeça.
— Ajuda ela, Thurstan. — disse Garwin enquanto manobrava a nave para seguir na direção oposta aos cruzadores.
Garwin puxou o leme de volta, o rosto molhado de suor.
— E aí, Garwin? — disse Arastine pelo comunicador. — O que aconteceu?
À frente, os cruzadores curvaram de novo, tentando retomar a linha de tiro.
— Eles pegaram uma vela. Estamos mancos. Arastine, abre fogo.
As velas da Alghoryn tremularam de novo quando Garwin tracionou o controle para bombordo. Os panos mágicos se esticaram em curvas rápidas, tentando arrancar distância das Puritânias.
— Eles são maiores! — rosnou Thurstan, agarrado ao leme auxiliar, a voz vibrando com o balanço. — Mas em linha reta vão pegar a gente. Me deixa tentar, Garwin, eu consigo!
— Nem pensar. — retrucou o capitão, os olhos cravados no painel. — Mantém o curso.
— Escuta, tem uma manobra… — insistiu o garoto, gesticulando como se pudesse virar a nave com as mãos. — Eu sei que dá certo!
— Não agora. — cortou Garwin, firme, antes de virar o rosto para Cailynm. — E aí?
Os dedos dela corriam pelo cristal, linhas azuladas se entrelaçando como serpentes de luz. Ela ergueu os olhos por um instante.
— Preciso de mais tempo.
Garwin assentiu com o maxilar duro.
Atrás deles, um dos cruzadores se alinhou, manobrando para a lateral, enquanto o outro apontou a proa para eles. O casco repleto de Canhões. Runas carmesins pulsaram, acendendo em ondas.
— Já é hora, Arastine. — chamou Garwin. — Vê se mira num ponto vital.
— Tô vendo. — respondeu ela, da torre inferior. — Mas onde eu miro?
— Se conseguir, na ponte de comando.
— Engraçadinho.
A comporta da Alghoryn se abriu. A balista girou, o arco estalou e cuspiu um raio azulado. O projétil cortou o ar criando uma explosão sonora. Ele perfurou o casco inimigo. Estilhaços metálicos voaram em clarões.
— Acertei! — vibrou Arastine.
— E daí? — retrucou Thurstan, amargo. — Só arranhou. Agora eles tão mais irritados.
— Garwin… olha! — Cailynm apontou o painel.
Os traçados mágicos apitaram em vermelho. A proa do outro cruzador se abriu, símbolos rosados acendendo até cuspirem um feixe largo de energia.
— Era ali que você tinha que ter mirado, Arastine! — rugiu o capitão, puxando o leme. — Segura!
A Alghoryn arremeteu em diagonal. O feixe passou raspando, atingiu o mar e ergueu um pilar de vapor, mas não sem antes lamber o flanco da nave.
Estalos violentos ecoaram. As marcas luminosas dos escudos estouraram em cascata, fragmentos de luz apagando como vidro quebrado. O convés se encheu do cheiro de ozônio queimado.
— Amor, o escudo caiu! — gritou Cailynm, presa ao cristal.
Thurstan bateu o punho no painel.
— Agora estamos nus!
Garwin cravou as mãos no leme.
— Firmes. Ainda não acabou. Vamos usar essa névoa que eles mesmos fizeram pra escapar.
Garwin virou o comando principal com firmeza, os olhos semicerrados no vapor que cobria o céu como um mar branco.
— Vai se esconder até eles entrarem e nos procurar? — perguntou Cailynm ainda operando o seu painel.
Garwin mal acenou. Seus olhos tensos nem ao menos piscavam.
— A maior vantagem é que os detectores mágicos deles só indicam direção. Não tem como eles saberem se sairemos por cima ou por baixo.
Thurstan passou a língua pelos lábios, as mãos suadas no leme auxiliar.
— É bom que funcione, porque sem escudo…
— Segue. — cortou Garwin.
A Alghoryn mergulhou no nevoeiro ardente, as velas propulsoras batiam com mais dificuldade contra as rajadas quentes e úmidas. O vapor engoliu tudo: horizonte, som, até o brilho dos cristais do painel parecia afogado. A tripulação prendeu a respiração, cada um firme no seu posto, esperando a saída para o céu aberto.
— Quase lá… — murmurou Cailynm, os dedos no cristal.
As velas bateram forte. A nave rompeu a nuvem de vapor.
E então o ar clareou.
À bombordo e estibordo, como feras em emboscada, as Puritânias já estavam alinhadas. Fileiras de Canhões em prontidão, runas pulsando em vermelho, todas voltadas para a Alghoryn.
O silêncio esmagou a ponte.
***
No interior de um dos cruzadores Puritânia, ecos de vozes se misturavam ao zumbido dos canhões de luz carregados. O ar era quente, pesado de energia condensada.
Um oficial inclinou-se sobre o cristal de mira, a luz carmesim riscando o rosto.
— O clandestino está na mira.
Outro, à sua direita, estreitou os olhos para os símbolos que corriam pelo painel.
— Estranho. É arquitetura tradicional. Nenhum traço extraplanar detectado.
— Então por que fugiriam? — rosnou o primeiro. — Quem não deve, não teme.
O comandante, sentado no trono rúnico ao centro da ponte, ouviu em silêncio. O metal do encosto brilhava com inscrições ardentes, refletindo nos olhos dele.
— Fugiram quando nos viram. — disse o oficial da mira, firme. — Isso basta.
— Ordens, senhor. — pressionou um dos soldados.
O comandante ergueu a mão, devagar, o gesto pesado como sentença.
— Suspeita é suficiente?
O oficial repetiu em voz baixa, como se confirmasse para si mesmo:
— Suspeita é suficiente.
As runas ao redor pulsaram mais forte, em uníssono, como se a nave inteira aguardasse junto com eles.
O comandante inclinou a cabeça.
— Fogo.
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