Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 1

Capítulo 2: Quietos...

A ponte mergulhou em silêncio, apenas o estalo seco das velas etéreas e o zumbido baixo das runas preenchendo o ar. No painel, o ponto vermelho pulsava — distante, mas em movimento.

A porta se abriu num sopro, e Arastine entrou com passo firme, o cabelo preso em tranças balançando.

— O que é isso? — perguntou, sem rodeios. — Já sabem quem é?

Cailynm não respondeu de imediato. Os dedos corriam pelo painel, a testa franzida.

— Ainda não sabemos — disse, por fim. — Mas está se movendo.

Thurstan se aproximou da mesa, os olhos fixos no brilho carmesim.

— Se está vindo na nossa direção... — murmurou, nervoso. — Então eles já sabem.

— Não necessariamente. — rebateu Cailynm, a voz firme. — Pode ser apenas patrulha.

Arastine cruzou os braços, o olhar duro.

— Patrulha ou não, é estranho demais estarem aqui. Será que ativamos algum alarme mágico da muralha?

Thurstan riu pelo nariz, sem humor.

— E como vamos saber? — Ele riu sem humor. — Eu ouvi falar de um mercador que tentou cruzar escondido. Um tripulante dele era de outro mundo. Puf. Virou pó.

— Também não é assim. — retrucou Arastine. — Eu sempre ouvi que eles só deportam.

— Você diz isso porque ainda é verde. Não entende das coisas por aqui. — disparou Thurstan, com desdém.

— Verde? — debochou Arastine. — Eu nasci em Sam Brehim. Diferente de você, que mal saiu das fraldas.

— Calma, vocês dois. — interveio Cailynm, sem desviar os olhos do painel. — Esses sinos são cristais de alarme, ligados às correntes da muralha. Nem tocamos neles ainda.

— Tanto faz o nome. — rebateu Thurstan, a voz subindo. — O resultado é o mesmo: eles pegam quem não devia estar aqui.

Arastine inclinou-se para frente, cortando-o.

— Pegam estrangeiros. Quem vem de outros mundos. Isso nunca se aplicou a nós.

— E como você sabe? — retrucou ele, tamborilando os dedos na borda metálica. — Você tem certeza absoluta de que a Alghoryn não disparou os malditos sinos?

— E como faria isso, espertalhão?

— Pelo portal! Ele não tinha bordas. O que garante que eles não monitoram?

— Já cruzamos uma vez. — lembrou Arastine, ríspida. — E ninguém veio nos procurar.

— Da última vez passamos pelo flanco sul. — cortou Thurstan, nervoso. — O setor menos vigiado. Não é a mesma coisa.

Cailynm levantou os olhos, finalmente deixando o painel.

— Parem com isso. — pediu, mas havia tensão em sua voz. — Não sabemos se é patrulha, caçada ou só... acaso.

Arastine não cedeu.

— Acaso não existe com Sam Brehim.

O silêncio caiu de novo, pesado. Todos os olhos se voltaram para Garwin, parado diante do leme. Ele não reagiu. O olhar permanecia preso ao ponto vermelho, fixo, como se calculasse mil possibilidades sem ouvir nada ao redor.

— Capitão... — chamou Cailynm, tensa. — O que vamos fazer? Ficamos ou voltamos?

Nada.

— Garwin! — insistiu Arastine.

Ele não se moveu, o maxilar travado.

— Capitão! — a voz de Cailynm quebrou pela primeira vez.

Então o grito dele explodiu:

— Espera!

O silêncio que se seguiu foi ainda mais profundo. Cailynm recuou, os olhos feridos. Thurstan engoliu em seco. Até Arastine se calou.

O zumbido das runas pareceu ensurdecedor.

E então, como se ignorasse toda a indecisão, uma voz grave, calma, soou no comunicador preso ao pulso de Arastine:

— Já cheguei.

Vendeler.

As palavras ecoaram na ponte, pesadas como chumbo. O ponto vermelho pulsou outra vez no painel — distante, mas avançando em direção ao sul.

— Estão chegando. — disse Cailynm, os dedos firmes no cristal, sem disfarçar a tensão. — Vindos do nordeste em direção ao sul.

— Abra a captação. — ordenou Garwin, a voz baixa, mas dura como lâmina. — Vamos descobrir se fomos detectados.

— Captação aberta. — murmurou Cailynm, respirando fundo, como quem segura o ar para não tremer.

Por um momento, tudo ficou em silêncio. Então o comunicador chiou. Vozes distorcidas ecoaram pelo espaço, um gutural entrecortado por estática, como rugidos longínquos em um sotaque quase incompreensível:

— … Puritânia Um… varram o setor…

— … Puritânia Dois… anomalia… localizar…

O som era irregular, mas bastava o nome para gelar o ar na ponte.

Garwin permaneceu imóvel, a mão firme no leme.

— Eles estão vindo. — murmurou Thurstan, o rosto pálido sob a luz rúnica, forçando um riso nervoso. — São Puritânias… cruzadores de caça. Se nos viram, a gente vai virar poeira.

— Recuar agora é prudente. — disse Arastine, seca, cruzando os braços com rigidez. — Não temos como encarar cruzadores só com uma balista. Por que ficar e esperar o pior?

— Esperar é melhor. — respondeu Garwin, frio, os olhos cravados no painel. — Sem movimentos bruscos.

Thurstan avançou um passo, tamborilando os dedos na mesa metálica.

— E se ficarmos, capitão? Quer que eu escreva logo o epitáfio?

Os pontos carmesins avançaram lentos pelo arco do nordeste. O zumbido das velas encheu a ponte, abafando até a respiração.

— …varredura em linha alfa-três… — chiou o cristal. — …confirmem ecos…

— Quietos. — cortou Cailynm, com firmeza serena. — Eles podem estar caçando outra coisa. — acrescentou em sussurro, como se a própria voz pudesse denunciá-los. — Olha o curso deles.

No painel, os pontos vermelhos se arrastavam lentamente para o sul, vindos da posição nordeste. Cada ciclo, mais próximos da borda leste, onde a Alghoryn parecia exposta demais.

Thurstan rosnou baixo, incapaz de ficar quieto.

— “Caçando outra coisa”? E quem seria a presa, então?

— Silêncio. — disse Garwin, a voz controlada, mas dura como pedra. — Meio impulso. Sem correções.

Os pontos deslizaram até o leste do círculo. Ficaram próximos o bastante para tingir o painel de vermelho. Ninguém respirou.

As vozes guturais voltaram a ecoar, estalando nas runas como se respirassem no mesmo ar:

— … anomalia detectada…

— … purgar…

Arastine cerrou os punhos, sem disfarçar a raiva.

— Recuar agora, capitão. — disse, sem tirar os olhos do brilho. — Não vale o risco.

— Espera. — retrucou Garwin, gelado. — Só mais um ciclo.

Thurstan engoliu seco, a voz falhando quando tentou brincar.

— Ótimo plano… a gente vira isca, o Vendeler volta com o Purgeno e escreve no nosso túmulo: “valeu a pena”.

— Quieto. — cortou Cailynm, mas o sussurro dela saiu tenso. — Leste… passando o setor 2-B… mantendo varredura…

Os dois brilhos pairaram um segundo no leste. O estalo seco das velas fez a ponte parecer menor, sufocante.

— …Puritânia Um a posto… setor limpo… — ruído — …continuar varredura…

Os pontos se arrastaram até o leste, o instante mais próximo, o frio percorrendo a espinha de todos. Então, lentamente, seguiram rumo ao sudeste, afastando-se em linha reta.

O painel os mostrou desaparecendo na distância.

Um suspiro coletivo escapou, pesado, mas breve demais. A estática voltou a chiar, mais forte, rasgando o silêncio. Então uma nova frequência entrou no comunicador — firme, dissonante, impossível de identificar.

A ponte mergulhou em silêncio outra vez, os olhos fixos no painel, quando as vozes guturais cessaram de repente. Ficou apenas aquele ruído áspero, uma língua estranha, arranhando o ar como lâminas sobre pedra.

— O que será isso? — perguntou Arastine, o cenho fechado, inclinando-se para escutar melhor.

— Deve ser um fluxo de magia selvagem. — disse Cailynm, os dedos ainda grudados no cristal.

— Será reforço? — rosnou Thurstan, passando a mão pelos cabelos. — Ah não… só me faltava essa.

— Vocês não sabem o que é isso? — perguntou Garwin, a voz impaciente, sem tirar os olhos do painel.

A voz gutural que antes ecoara voltou à comunicação distorcida:

— …Puritânia Um, setor limpo…

— …Puritânia Dois, nada encontrado… próxima região…

No painel, os pontos vermelhos começaram a se afastar, traçando o rumo para sudeste.

Cailynm soltou o ar, o peito afundando num suspiro longo.

— Estão indo embora.

Thurstan ergueu os braços, batendo a palma na mesa, e deixou escapar uma risada nervosa.

— Sabia! — proclamou. — Nem sentiram a gente aqui. Sobrevivemos, podem me agradecer depois.

Arastine girou os olhos, cruzando os braços, os ombros enfim mais soltos.

— “Sabia” … você quase engoliu a própria língua.

Cailynm exalou forte, a mão ainda presa ao cristal.

— Não comemora cedo demais. Ainda estamos no alcance deles.

Garwin inspirou fundo, o maxilar travado, e falou com frieza:

— Mantemos posição. Nada de manobras bruscas.

Antes que alguém respondesse, o comunicador no pulso de Arastine vibrou. A voz metálica de Vendeler soou, calma e constante, abafada pelo eco da própria armadura:

— Já ultrapassei as defesas mágicas. Vou iniciar a extração.

— Qual o núcleo? Consegue identificar? — perguntou Cailynm, voltando-se para o cristal.

Um ruído metálico percorreu a transmissão, como engrenagens rangendo.

— Ainda não. — disse Vendeler. — Mas a energia é massiva. Há uma grande chance de ser um Purgeno.

O ar na ponte, antes pesado, explodiu em euforia.

De repente, outra voz ecoou no canal — dissonante, áspera, em idioma desconhecido, como lâminas raspando pedra.

Thurstan enrijeceu o corpo, o cenho fechado.

— Que diabos foi isso?

Arastine inclinou-se para frente, a voz mais baixa que o normal.

— Com certeza não é o sotaque dos sambrehianos.

— Vocês não perceberam que isso é um idioma? — cortou Garwin, impaciente.

Cailynm falou baixo, rente ao cristal:

— Talvez… seja isso que eles estavam procurando.

Um segundo depois, o painel piscou. Uma runa acendeu no setor leste, marcando um novo ponto.

— O que é isso? — sussurrou Cailynm, recuando meio passo.

Thurstan correu até o vidro da ponte, apoiando-se com as duas mãos.

— Não é uma nave… é um portal.

As velas da nave rangeram quando todos se voltaram para a janela. No espaço vazio entre o céu e o mar, uma fenda se abriu como um rasgo luminoso. Dela emergiu uma silhueta metálica — um objeto voador de formato estranho, coberto de símbolos incandescentes.

O silêncio pesou, quebrado apenas pelo estalo seco do casco.

Então, no painel, os pontos vermelhos retornaram no sentido norte. 

Arastine fechou os punhos, o ar saindo entre os dentes.

— Não! Eles voltaram.

— E agora, Garwin? — perguntou Thurstan, a voz trêmula. — Estamos perto demais dessa nave. Vai dá pra nos ver com os olhos.

— Maldição… — Garwin mexia rápido nos dispositivos de navegação, as runas estalando. — Precisamos sair daqui agora!

— E o Vendeler? — Arastine se pôs diante do capitão, os olhos azuis arregalados. — Se abandonarmos ele, a energia da armadura não vai durar!

— Melhor perder um do que todos! — retrucou Thurstan, destravando o timão auxiliar com mãos nervosas. — Contornamos ao norte, rumo a nordeste...

— Tá ficando louco? — Arastine abriu os braços, a respiração acelerada. — São cruzadores de caça. Se eles quiserem, já estamos mortos.

Garwin ergueu a mão, o tom seco.

— Silêncio na ponte!

Mas as vozes se atropelaram:

— Se ficarmos, eles nos acham! — disparou Thurstan, ajustando alavancas com fúria.

— Amor, pensa bem. Se fugirmos agora, Vendeler não vai ter chance! — rebateu Cailynm, firme no painel.

— Se ficarmos parados, estamos mortos! — gritou Thurstan, batendo a palma na mesa.

— Garwin… — chamou Arastine, a voz presa na garganta.

E então a voz grave soou no comunicador, calma e fria, atravessando o caos como lâmina:

— Saiam daqui.

Vendeler.

A ponte congelou.

— Não adianta eu ter o condutor se não houver aeroplano para voltar. — completou, sem elevar o tom.

Garwin fechou a mão no leme.

— Ele tem razão, amor. Nos afastamos. Assim que engajarem com essa coisa estranha, voltamos pra pegar ele e saímos pelo portal.

— E se ficarem no caminho? — perguntou Arastine, os dedos crispados no arnês.

— Vai pra balista. — disse Garwin, sem hesitar. — Ainda temos uma chance pelo oeste. O portal de Mihandu.

Ele firmou a voz.

— Meio impulso. Tangencial ao norte do objeto. Rumo a nordeste. Agora!

As velas etéreas bateram com força, cuspindo fagulhas de energia. O casco gemeu sob o esforço, e a Alghoryn deslizou em curva, afastando-se do artefato.

Cailynm acompanhava cada runa que tremia no cristal, a respiração curta.

— Eles hesitaram…

No painel, dois pontos vermelhos viraram ao norte, seguindo com precisão rumo à nave estrangeira. As comunicações chiavam com frases dissonantes, fragmentos da língua desconhecida que cortavam o silêncio.

— O que será que estão falando? — murmurou Cailynm, mexendo no painel.

— Parece que tentam estabelecer contato. — disse Thurstan, franzindo o cenho.

— Será que Sam Brehim vai atacar eles? — ela perguntou, sem erguer os olhos.

— Vamos descobrir daqui a pouco. — completou Thurstan, nervoso.

— Vocês dois, prestem atenção. — Garwin não desviava do painel. — Há outro portal por perto, entre nordeste e leste. Se tudo der errado, aceleramos e saímos por ele. Cailynm cega os instrumentos mágicos deles, só por alguns segundos, e passamos.

— Capitão… acho que não vamos precisar disso. — disse Thurstan, esperançoso.

— Só precaução. — respondeu Garwin, a voz baixa. — Acho que engajaram.

Thurstan soltou uma risada nervosa, erguendo os braços.

— Viram só? Morderam a isca! Estamos salvos!

O riso morreu quando o brilho do painel piscou outra vez. Os dois pontos vermelhos se dividiram em quatro.

Cailynm recuou meio passo, os olhos arregalados.

— Não…

Dois seguiram em perseguição à nave desconhecida.

E dois mudaram de rota, direto para a Alghoryn.

O comunicador chiou com clareza cortante, sem ruído algum:

— …Outra nave intrusa detectada… purgar…

O silêncio caiu como uma pedra. Ninguém ousou respirar, todos fixos no painel.

 

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