Volume 1
Capítulo 1: Alghoryn
— Achei.
— Sério? Mostra a clarividência do construto batedor.
— Aqui.
— Sim, é um portal instável. Conseguimos! Vamos atravessar.
A ponte estava mergulhada na penumbra. Somente o reflexo pálido dos cristais de comando iluminava os dois na frente. O homem mantinha as mãos firmes no timão metálico, barba curta e olhar tenso, enquanto a mulher ao lado dele, de cabelos longos e lisos, observava as projeções suspensas como se medisse cada risco.
— Tem certeza, amor? — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Esses portais são perigosos. Se afetarem os instrumentos da Alghoryn, podemos ficar cegos. Ou pior... à deriva.
— Besteira, amor. — retrucou ele, sem desviar os olhos da fenda que se abria. — Justamente por isso é perfeito. Ninguém vai nos achar aqui.
O portal se abriu em silêncio, oval e instável, rasgando o ar como vidro líquido.
O aeroplano avançou. Velas etéreas se expandiram e se ajustaram ao vento novo, e os foles da popa inflaram e exalaram fumaça rosada quase invisível, como pulmões de uma criatura viva. No casco negro, em letras arcanas, brilhava o nome: Alghoryn.
A nave atravessou a fenda. Do outro lado, uma vasta enseada refletia o céu do meio-dia. Ao fundo, erguia-se uma muralha colossal, maciça e impenetrável, lançando sombra sobre a água.
— Garwin! Cailynm! — uma voz gritou antes da porta se abrir.
Um jovem entrou vibrando. Os cristais da ponte projetaram runas suspensas, mapas de luz e fluxos arcanos que corriam como correntes pelo ar — o coração vivo da nave.
— Conseguimos! Entramos e ninguém viu!
O homem se virou de súbito.
— Thurstan! — Garwin rosnou. — Quer matar a gente de susto?
O garoto riu, desarmado, ignorando a bronca.
— Que susto o quê, entramos, cara. Somos fantasmas agora. Isso foi genial.
Cailynm suspirou, sem erguer a voz.
— Só não faça isso de novo. Estamos caminhando no fio de uma espada.
— Muito bem, então. — Garwin empurrou uma alavanca para frente; as velas propulsoras bateram com mais vigor, e o casco da nave respondeu com um leve tranco. — Amor, pode mandar os construtos batedores.
A Alghoryn diminuiu a marcha, velas etéreas recolhendo parte do vento. O casco deslizou mais lento no ar, fazendo a água cintilar abaixo.
Pequenas comportas de ferro se abriram na lateral do casco, disparando seis construtos batedores. Cada um tomou rumo distinto, como balas de canhão, asas metálicas vibrando com clarões azuis que lembravam vaga-lumes deformados.
Thurstan se aproximou dos painéis etéreos onde Cailynm operava os comandos, braços cruzados, acompanhando os pontos de luz que se afastavam.
— Sempre fico impressionado com esses bichos. — Ele inclinou a cabeça, franzindo o cenho. — Será que vão achar alguma coisa aqui?
— Eles sempre acham. — Garwin não tirou os olhos do painel. — O problema é o tempo. Não podemos demorar.
— E o que exatamente estamos caçando dessa vez? — Thurstan arqueou a sobrancelha, como se fosse apenas curiosidade.
Garwin soltou o ar pelo nariz.
— As muralhas milenares de Sam Brehim são muito eficientes. Elas detectam qualquer ser não nativo que adentre o território. O que alimenta esse encantamento são artefatos espalhados pela costa, como se fosse uma linha transmissora mágica.
Ele apontou para uma runa pulsante que cintilava no painel.
— Se acharmos um deles... podemos nos dar muito bem.
O garoto abriu um sorriso fácil, quase como se fosse só uma aventura qualquer.
— O que o nosso capitão tá planejando?
A porta da ponte se abriu com um estalo metálico; uma mulher de cabelos negros em tranças entrou, passos firmes.
— Então? — perguntou sem rodeios. — Conseguimos?
Garwin desviou os olhos apenas o suficiente para encará-la.
— Entrar em Sam Brehim, sim. Mas detectar os artefatos amplificadores, ainda não.
Thurstan se virou para ela com um sorriso enviesado.
— Viu só, Arastine? — disse, arqueando a sobrancelha. — Duvido que você saiba o que é isso.
Arastine ergueu uma sobrancelha em resposta, o olhar afiado como lâmina.
— Ah, é? Até parece que você sabe.
— Sei sim, quer apostar? — O jovem fez uma reverência exagerada, quase zombeteira.
Ela cruzou os braços, sem desviar os olhos.
— Se sabe, é só porque o Garwin contou.
— Na verdade, ainda não falei nada pra ninguém. — Garwin pigarreou, cortando os dois. — Mas já que estão todos aqui, escutem.
— Amor. — Cailynm ergueu a mão, tocando uma runa no painel. — Detectamos uma coisa.
— Ótimo. — Garwin se inclinou sobre o cristal. — Estreite o raio de busca.
— Eu sabia que você não sabia. — Arastine lançou um sorriso curto para Thurstan.
— Por falar em não saber... — o jovem se voltou para Garwin, teatral. — E o Vendeler? Cadê ele?
— Deve estar se vestindo. — respondeu Garwin.
— Não se preocupe com ele. — Cailynm adiantou-se, a voz calma. — Dentre todos ele é o que mais entende o plano.
— Então é o seguinte. — Garwin pousou as mãos no painel, a voz assumindo peso. — Essa muralha é mágica, e o poder que a alimenta vem dos artefatos que estamos caçando. Certamente são energizados por condutores. Vendeler acredita que eles devem ter no mínimo um albastrógeno.
— Albastógeno? — Arastine arregalou os olhos. — Isso dá umas mil peças de ouro.
— É... em Jillar, talvez. — Thurstan balançou a mão, cético. — Aqui por perto deve valer menos.
Garwin hesitou um instante, a voz mais grave quando falou:
— Pode ser um purgeno.
O silêncio caiu na ponte. Até os painéis pareceram hesitar.
— Caramba! — Thurstan deu um passo atrás, quase tropeçando. — Isso compra um império!
— Pois é. — Arastine recobrou o fôlego, mas manteve o tom sério. — Mas esses condutores não se arrancam assim, não é?
— Aí entra o Vendeler. — Garwin apertou os lábios.
— Como assim? — Thurstan arregalou os olhos.
— Vendeler disse que consegue extrair o condutor. — Arastine falou antes que o capitão completasse.
— Eu não acredito... — Thurstan passou a mão no cabelo, incrédulo.
— Ele é mago. — disse Garwin. — Deve saber essas coisas.
— Olha só. — Cailynm apontou o painel. — Consegui limitar o raio de busca.
— Beleza. — Garwin ergueu o queixo. — Agora é só esperar. Arastine, veja como o Vendeler está.
— E você, Thurstan... — o garoto já ergueu o dedo, imitando o tom sério do capitão. — Pegue o timão, eu vou descansar.
Garwin bufou.
— Vai sonhando.
A ponte ficou em silêncio depois que Thurstan e Arastine saíram, deixando atrás apenas o ranger suave do casco. Garwin manteve as mãos apoiadas sobre o painel etéreo, os olhos fixos nas runas que se expandiam em círculos concêntricos. Cada volta, mais estreita que a anterior.
Fora do aeroplano, os construtos batedores percorriam a enseada em arcos brilhantes, rastros azulados cruzando como vaga-lumes disciplinados. De tempos em tempos, retornavam aos compartimentos, recolhendo fragmentos de energia antes de serem lançados novamente.
— Parece que dançam. — Cailynm falou baixo, sem tirar os dedos das runas de controle. — Sempre me lembra fogo-fátuo.
Garwin soltou um leve riso, sem desviar.
— Você sempre vê beleza em tudo. Até nessas coisas.
Ela ergueu os olhos para ele, um sorriso discreto surgindo.
— E você deveria achar também. Ficar mais relaxado.
— Alguém precisa manter todos vivos. — A voz dele soou firme, sem arrogância. — Esse grupo é bom. Mas ainda somos jovens. E jovem só faz—
— Bons jovens. — Ela o corrigiu com doçura. — Somos assim porque sabem que podem contar com você à frente.
Garwin virou o rosto, e por um instante o olhar dele suavizou.
— Você é quem mantém a confiança aqui, amor. Sem você, esse aeroplano já teria virado uma bagunça.
O silêncio voltou, preenchido apenas pelo som etéreo das runas vibrando. Os círculos de varredura estreitavam-se ainda mais, convergindo em espirais que pareciam sugar a própria luz do painel.
— O que é isso?
De repente, uma runa maior se acendeu no centro, pulsando com intensidade. O brilho azulado engoliu as projeções, ofuscando por um segundo toda a mesa de comando.
Cailynm recuou um passo, os olhos arregalados.
— Garwin...
Ele já estava ereto, a mão firme sobre o painel.
— Encontramos um.
Os passos ecoavam no corredor de madeira e metal da Alghoryn, batendo compassados entre as runas azuis que tremeluziam nas paredes. O silêncio só era quebrado pelas botas de Arastine e pelo andar despreocupado de Thurstan logo atrás.
— E aí, Arastine? Já tá palpitando por ver o magricelão? — resmungou o rapaz, ajeitando o cinto. — Deve estar trancado agora. Quem sabe não está trocando de roupa?
Arastine nem olhou para ele, firme na direção da porta adiante.
— O Garwin pediu, seu idiota. Vendeler precisa estar pronto.
Thurstan riu pelo nariz, jogando o cabelo para trás.
— Ah, claro. “Vendeler precisa estar pronto”. Sempre o Vendeler isso, Vendeler aquilo... — abriu os braços em exagero. — E as armas? Você já checou tudo?
A porta se abriu com um sopro mágico.
A sala além era ampla. As paredes lisas estavam cobertas de inscrições pulsantes, e construtos do tamanho de crianças se moviam em volta de uma figura no centro. Peças metálicas flutuavam no ar, girando devagar antes de se prenderem ao corpo com estalos secos.
Vendeler estava sentado em um banco pesado, o tronco nu coberto pelo brilho das runas, enquanto as botas colossais já envolviam suas pernas. Engrenagens se fechavam sobre os pés, presilhas se ajustando sozinhas. Um construto trepou em seu ombro para encaixar um bracelete, enquanto outro segurava um ombro de metal prestes a se acoplar.
Thurstan parou na entrada, boquiaberto.
— Eu sabia... — murmurou, meio rindo, meio nervoso.
Vendeler ergueu os olhos, calmos, a voz grave ecoando pelo espaço.
— Ainda estão procurando?
Arastine cruzou os braços, analisando cada detalhe da armadura incompleta.
Antes que pudesse responder, uma runa no pulso dela brilhou, projetando o rosto de Garwin em linhas etéreas.
— Arastine. — a voz do capitão soou firme, quase preenchendo a sala. — Encontramos o artefato. Diga ao Vendeler que ele pode se aprontar.
O brilho da projeção refletiu nos olhos do rapaz amadurado. Arastine apenas fechou a mão, e as inscrições arcanas dos construtos se intensificaram, preparando a próxima peça da armadura.
— Vou conferir as armas. — disse Arastine, saindo da sala.
— Quer ajuda? — perguntou Thurstan.
— Quero sim. — respondeu Vendeler, sereno. — Muito obrigado.
Thurstan arqueou a sobrancelha.
— Não era bem pra você a oferta... mas tudo bem. O que você precisa?
— Me alcance aquela manopla, por favor.
A Alghoryn acelerava sobre as águas, velas etéreas inflando com estalos de energia. Na ponte, só o ranger do casco quebrava o silêncio, enquanto Garwin mantinha as mãos firmes no leme.
Cailynm operava as runas de controle, círculos concêntricos se contraindo no painel como uma caçada silenciosa.
— Está perto, amor. — ela disse, o olhar preso às projeções. — Acho que essa é a última volta de varredura.
Garwin assentiu, a expressão dura.
A porta rangeu, e Thurstan entrou sem cerimônia, os passos largos ecoando pelo piso de metal e madeira.
— E aí, capitão? — ele se jogou na cadeira ao lado, puxando uma alavanca auxiliar. — Já achamos o pote de purgeno no fim do arco?
— Ainda não. — respondeu Garwin, sem se distrair. — Mas estamos chegando perto.
Thurstan riu pelo nariz, antes de se levantar e ficar ao lado de Garwin.
— Se precisar, eu mesmo vou lá buscar. Só me dá um daqueles brinquedos do linguiça.
Cailynm ergueu os olhos, paciente.
— O construto-armadura só pode ser operado por um conjurador, Thurstan. Os dispositivos mágicos se alimentam do poder do usuário.
Ele piscou para ela, mas Garwin já mudava o foco.
— Afinal, você quer ser piloto ou explorador? Queria ver o que o seu pai ia pensar disso.
— Garwin. — chamou Cailynm. — Arastine está pedindo para abrir o canal.
— Ele não ia pensar nada. — retrucou o garoto, rindo. — É que eu já sei pilotar tão bem, que queria até aprender outra tarefinha fácil.
— Eu ouvi isso, hein. — respondeu Vendeler, em tom humorado.
— Quero ver se, no dia em que eu precisar, você vai responder à altura. — disse Garwin, sério sobre o garoto.
— Isso vai ser moleza.
— Abrindo imagem. — anunciou Cailynm.
O rosto de Arastine surgiu no cristal, o cabelo preso em tranças balançando enquanto ela ajustava o arnês da artilharia.
— E o sistema de armas? Como funciona? — perguntou Vendeler, sem rodeios.
Garwin fez um gesto para ela responder.
— É uma balista montada numa torre. — explicou Arastine, os olhos duros. — Ela é encantada por canais de raio condensados. Cada disparo atravessa casco reforçado como se fosse papel.
A voz grave de Vendeler ecoou ao fundo da transmissão:
— Perfeito.
— Sei que pode parecer pouco. Mas, para uma nave exploradora, é o suficiente para abater um monstro ou dissuadir um pirata. — completou Garwin. — E caso tudo dê errado, ainda temos a Cailynm.
No mesmo instante, os painéis vibraram. Runas maiores se abriram, e diante da nave, a névoa começou a se dispersar. Cristais imensos, suspensos no ar, giravam em torno de uma estrutura antiga.
Uma torre arcana, alta como um farol, mantida em suspensão por correntes de pura magia.
Garwin, Cailynm e Thurstan se levantaram de seus postos até o vidro da ponte, onde se podia contemplar melhor.
— Isso sim é coisa bonita. — murmurou Thurstan.
Garwin não desviou os olhos.
— O condutor deve estar no coração dela.
— Pelo tamanho... um purgeno, talvez. — acrescentou Arastine, agora séria. — Se for, estamos olhando para mais ouro do que qualquer um de nós veria em três vidas.
Na imagem, Vendeler já estava completo. A armadura cerrada encaixava-se em cada junta, as runas internas ardendo em azul e vermelho. Construtos ao redor abriram uma comporta na lateral da nave.
— Estou indo. — disse ele, a voz soando metálica sob o elmo.
Um último passo, e Vendeler desapareceu na claridade, a figura imensa flutuando sobre as águas rumo à torre.
Na ponte, o silêncio voltou. Apenas o zunido ritmado das velas preenchia o ar. Garwin estreitou os olhos no painel.
— Se eles descobrirem que estamos aqui... acabou.
Thurstan virou a cabeça, abrindo um sorriso enviesado.
— Você e sua boca maldita.
O painel etéreo piscou. Um ponto vermelho surgiu na borda da projeção.
Garwin congelou, e por um instante ninguém respirou.
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